Entre o Dever e o Desejo
14 O Despertar dos Corações
O equilíbrio de Astúria havia chegado ao ponto de ruptura. As confissões no jardim de inverno haviam liberado um peso das costas de Claire e Katrina, mas a verdadeira prova de coragem estava apenas começando.
A manhã nasceu sob um céu azul pálido, o tipo de dia em que o frio de Astúria parece menos cortante. Richard, agindo com uma determinação que não sentia há anos, não esperou por protocolos. Ele foi pessoalmente até a ala de cura, encontrando Katrina enquanto ela preparava bolsas de água quente para os enfermos.
— Katrina — ele chamou, e o som do nome dela em seus lábios tinha uma doçura que fez os servos próximos trocarem olhares curiosos.
— Majestade? — ela respondeu, levantando-se.
— O dia está claro e o ar está fresco. Quero que me acompanhe em uma cavalgada pelas propriedades do leste. Quero lhe mostrar a terra que juramos proteger, mas desta vez, não como um rei inspecionando súditos. Apenas como... Richard.
Katrina hesitou por um segundo, olhando para as próprias mãos, mas a sinceridade nos olhos verdes dele foi irresistível.
— Seria uma honra, Richard.
Eles partiram pouco depois. Longe das muralhas opressoras do castelo, o galope dos cavalos parecia libertar Richard de suas amarras. Ele mostrava a ela os campos de trigo que resistiam à geada e as pequenas vilas de pastores. Pela primeira vez, o Rei de Astúria ria abertamente, ouvindo as observações perspicazes de Katrina sobre a vida simples. Ali, no horizonte aberto, o título de "plebeia" dela e o de "soberano" dele pareciam desaparecer sob a vastidão do céu.
Enquanto Richard buscava a liberdade nos campos, Claire buscava a sua própria verdade nas sombras do castelo. Ela sabia onde encontrá-lo. Gaspar estava nas cavalariças, terminando de selar seu garanhão negro, provavelmente planejando mais uma de suas fugas solitárias.
Claire parou na entrada, observando a força contida nos movimentos dele. Gaspar sentiu a presença dela antes mesmo de se virar.
— Veio me dar ordens reais, Claire? Ou veio verificar se eu já parti para o norte novamente? — ele perguntou sem olhar para trás, a voz carregada daquela ironia defensiva.
— Eu vim falar a verdade — Claire respondeu, a voz soando clara no silêncio da estrebaria.
Gaspar parou de ajustar as rédeas e virou-se lentamente. Seus olhos azuis encontraram os dela, desafiadores.
— A verdade é um artigo raro neste castelo. Qual delas você escolheu hoje?
Claire deu um passo à frente, ignorando o cheiro de feno e o calor dos animais. Ela não desviou o olhar.
— A verdade de que eu passei quatro anos tentando odiar você porque era mais fácil do que admitir que eu estava morrendo por dentro. A verdade de que Richard está lá fora agora, entregando o coração dele para outra mulher... e que eu não sinto raiva dele por isso.
Gaspar soltou uma risada amarga.
— Então você veio me contar que o seu casamento é um fracasso? Eu já sabia disso desde o dia da valsa.
— Não — Claire deu mais um passo, parando a centímetros dele. O coração dela batia tão forte que parecia ecoar nas paredes. — Eu vim dizer que você tinha razão, Gaspar. Eu estou queimando. E eu não quero mais fugir.
Gaspar travou a mandíbula, a surpresa lampejando em seu olhar por um milésimo de segundo.
— O que você está dizendo, Claire?
— Eu estou dizendo que eu amo você — ela sussurrou, as lágrimas finalmente transbordando. — Eu te amo desde o momento em que você desceu daquela carruagem em Valerion. Eu te amo apesar da sua arrogância, apesar do seu deboche e apesar de você ser o irmão do meu marido. Eu cansei de ser a rainha de gelo, Gaspar. Eu só quero ser sua.
O silêncio que se seguiu foi torturante. Gaspar largou as rédeas, e o garanhão negro relinchou suavemente. Ele segurou o rosto de Claire com as duas mãos, a respiração pesada.
— Você tem noção do que está dizendo? Se fizermos isso, não haverá volta. Nós destruiremos tudo — ele sibilou, mas seus polegares acariciavam a pele dela com uma ternura desesperada.
— Tudo já está destruído, Gaspar — Claire respondeu, fechando os olhos. — Só resta o que sentimos.
Gaspar não respondeu com palavras. Ele a puxou para um beijo que não era mais um desafio ou uma provocação, mas uma entrega total. Ali, entre as sombras das cavalariças, a Rainha de Astúria finalmente deixou a coroa cair, enquanto Richard, a quilômetros dali, descobria que a verdadeira riqueza de seu reino estava no sorriso de uma serva que o amava por quem ele era por baixo do manto real.
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