Entre o Céu e o Mar: Amor, confiança e compreensão
8 Confiança - parte 3.
Notas iniciais
O destino tem uma mania muito doida de pregar peças na gente, de mostrar que o que era para acontecer vai acontecer de um jeito ou de outro. Aprendi que, na maioria das vezes, o que a gente chama de destino é o universo conspirando a nosso favor. É o universo dando uma segunda chance para a gente.
Ali estava eu, parada dentro de uma sala de aula, vendo a mulher que eu amava me deixar. Não era a primeira vez e nem seria a última, aparentemente eu era otária demais para deixar de me importar e deixar de correr atrás dela.
Bem, metade de mim gritava que Regina ainda sentia algo por mim e não queria admitir, e a outra metade afirmava que era hora de eu seguir em frente e aprender a viver sem ela. Adivinha qual parte eu decidi dar ouvidos? Isso mesmo, a parte que iria fazer com que eu fosse otária novamente.
O dia continuou e eu tive mais aulas, porém malmente prestei atenção nelas, minha cabeça vagava por um universo distante chamado Regina Mills. Faltando pouco tempo para a aula acabar, meu celular tocou, era a minha mãe. Peço licença ao professor e saio para atender.
– Emma. – me diz, ríspida como sempre.
– Oi, mãe. – respondo no mesmo tom, já acostumada com sua falta de carinho.
– Nós temos um jantar para ir essa noite, é com o meu novo advogado e a família dele. – Comunica. – Você vai.
– Eu não vou.
– Isso não foi uma pergunta, querida filha. – Fala o “querida filha” num tom irônico. – Foi uma afirmação.
– Mas, mãe...
– Sem mais, nem meio mas. – Rapidamente me interrompe. – A não ser que você queira ficar sem a mesada generosa que eu deposito na sua conta todos os meses.
– Certo. – Solto um suspiro alto. – Me diga o horário e o local.
– Esteja pronta às 18, mando o motorista te buscar. Agora tenho que ir, reunião com alguns investidores.
– Tá bom, beij – fui interrompida pelo final da ligação, ela havia desligado na minha cara.
– SQ –
Eu não tinha a mínima ideia de qual roupa eu poderia usar para ir nesse jantar. Não queria nada muito fofo, para não deixar de lado meu eu rebelde, mas também não queria nada que fosse ser muito gay, não queria causar confusão desnecessária.
Acabo optando por um vestido amarelo com bolinhas pretas, de manga curta, e um cinto fino na cintura para fechar o visual. Calço saltos altos verdes e me sinto vestindo a bandeira do Brasil.
Às 18 em ponto o porteiro interfona, anunciando a chegada do motorista. Ao entrar no carro, cumprimento minha mãe, Mary Margareth, e meu pai, David Nolan, e permaneço em silêncio enquanto rodamos pela cidade.
Começo a reconhecer o trajeto e peço a todos os santos possíveis que nós não estejamos nos dirigindo para onde eu penso que estamos. Obrigada, Santos, por não cumprirem o papel de vocês.
Adentramos o condomínio chique e paramos em frente da maior casa do local. A casa da família Mills.
– SQ –
Meus pais descem do carro carregando consigo uma garrafa de vinho tinto e eu permaneço atrás deles, pedindo para que o chão abrisse e me engolisse para o inferno, que com certeza seria melhor do que estar ali naquele momento.
A mãe de Regina abre a porta com um sorriso no rosto, e em nenhum momento demonstrou se abalar com a minha presença.
– Mary, David. – Sorriu, apertando a mão de meu pai e dando beijinhos na bochecha da minha mãe. – Vejo que essa é a sua filha, Emma. – Me abraça e sussurra em meu ouvido “não se atreva a falar com ela.” – Que linda família você tem, Mary.
Eu estou catatônica. Meus pais não perceberam a fala de Cora e eu não queria explicar o motivo de nos conhecermos. Adentramos a casa seguindo ela e logo encontramos com Henry, meu ex-sogro, sentado em sua poltrona com um copo de Whisky na mão.
– David, Mary! – diz para os meus pais com a mesma animação com a qual sua esposa nos recebeu. – Emma! – Fala, mais animado do que Cora e me abraça, genuinamente feliz em me ver. Se meus pais estranharam a reação dele, em momento algum demonstraram.
A mãe de Regina logo puxou a minha mãe para a cozinha e meu pai e Henry ficaram na sala conversando. Eu estava, claramente, deslocada e morrendo de vergonha. Imagina, depois de um ano e meio você está na casa de seus ex-sogros, sendo que você “traiu” a filha deles logo após conhecê-los.
– Henry, e a sua filha? – Pergunta meu pai e o sangue parece se esvair de meu corpo. – Ela tem a mesma idade de Emma, certo?
– Não, não. – Henry me dá um sorriso furtivo e eu peço para morrer ali mesmo. – Regina é alguns anos mais velha que Emma, mas creio que elas vão se dar muito bem. – Pisca para mim.
Por esses e outros motivos, Henry Mills era uma das minhas pessoas favoritas no mundo todo. Abaixo a cabeça para evitar uma gargalhada e meu pai e meu antigo sogro voltam a conversar.
Pouco tempo depois, Cora reaparece, nos chamando para a sala de jantar e avisando que a comida estava na mesa.
A mesa continha oito lugares, Cora e Henry assumiram as extremidades, minha mãe sentou à direita de Cora e meu pai à esquerda de Henry, de forma que havia uma cadeira vazia entre eles. Sentei-me exatamente de frente para a cadeira vazia.
Antes que pudéssemos começar a nos servir, ela chegou, porém não estava sozinha, e sim de mãos dadas com um cara. Trazia, ainda, uma criança no colo e parecia se divertir com o que o menor falava.
– Mary, David. – diz Cora, se levantando da cadeira e indo em direção à Regina. – Essa é Regina Mills, minha filha. – Por educação, minha mãe e meu pai rapidamente se levantaram para cumprimenta-la, cumprimentando, também, o cara que a acompanhava. – Esse é Robin Hudson, seu namorado. – Que morte horrível. Regina estava tensa, eu conhecia sua linguagem corporal e conseguia perceber em cada gesto a sua tensão.
– Emma. – Diz minha mãe. – Levante-se para cumprimentar Regina.
Quis mandar minha mãe ir tomar no cu naquele momento. Por sorte, fui interrompida por Regina.
– Não precisa, eu e Emma já nos vimos hoje e já nos conhecemos. – Sorri para mim de forma amável, porém seu sorriso não chega aos olhos e sei que ele expressa pura falsidade. – Dei aula para ela no colégio, e agora estou dando aula na faculdade também.
– Só pode ser destino. – Diz meu pai em tom de brincadeira.
Ah, pai, se o senhor soubesse que ela já me deu outras coisas além de aula... Afasto os pensamentos pecaminosos da minha cabeça e, quando percebo, Regina está sentada entre meus pais, num lugar oposto ao meu. A criança pequena e o namorado dela estão um de cada lado meu.
Meu plano era ficar calada e, quando inserida na conversa, responder monossilábicamente. Infelizmente, como sempre, o meu plano não funcionou.
– Como está a Emma nas aulas, Regina? – pergunta a minha mãe. Eu continuo mastigando o risoto, ironicamente a comida que minha sogra tinha feito na primeira vez que eu fui lá.
– Ela é muito inteligente. – Seu tom de voz é genuíno e eu não consigo deixar de sorrir. – Porém, completamente dispersa e desinteressada na aula.
– O quê? – eu até me engasgo com a comida. – Eu? Dispersa?
– Foi a senhorita que passou a minha aula inteira no celular. – Ela olha nos meus olhos e seu olhar é, claramente, o olhar desafiador.
– E eu fui a única? Creio que não.
– Mas foi você quem eu notei e quem eu resolvi chamar a atenção.
– Talvez se você não me perseguisse, você tivesse notado os outros alunos que estavam usando o celular bem na sua cara.
– Pois eu acho que usar o celular em sala é uma atitude infantil. – Interveio Robin. Quase levantei e disse que ele nem tinha que estar ali, mas continuei na minha.
– Ah, mas de acordo com Regina, eu sou infantil. – Enfatizei a palavra “sou” e notei que meus pais me observavam espantados, enquanto os pais dela tentavam conter o riso.
– Você e seu dom de deturpar as coisas.
– Você e seu dom de abandonar as pessoas.
– Gente, esse risoto está bom, né? – Pergunta Henry, tentando aliviar a tensão presente.
–Ingratidão é algo horrível, não acha, Robin? – Ela fala o nome dele com força, como se quisesse deixar claro que estava se dirigindo a ele e apenas a ele.
– Eu acho que sim, amor...
– Pior do que ingratidão é o ciúme. Você é ciumento, Robin? – pergunto.
– Mas o que é que ingratidão tem a ver com ciúme? – Minha mãe interrompe e é ignorada. Eu não desviava meu olhar do de Regina e aquela guerra silenciosa estava quase causando curto-circuito em nós duas.
– Eu sou, quer dizer, mais ou menos...
– Pior ainda do que ciúme, é infidelidade. – diz ela. – Eu espero que você não seja infiel comigo, diferente de certas pessoas.
Ouço Robin engasgar do meu lado e Cora quase cospe a comida fora, enquanto Henry mantinha a cabeça baixa para não rir.
– Eu espero, Robin, que não te prendam, sabe? – Pela primeira vez, desvio meu olhar do dela e olho para ele. – Nada pior do que uma mulher que te coloca numa redoma, não é?
– Verdade...
– Verdade? – Pergunta Regina. – As vezes a mulher é obrigada a colocar numa redoma, se não já viu né... Essa galera que não se segura dentro das calças...
– Robin, você já fez algo bêbado e que se arrependeu no instante seguinte?
– Eu já...
– Aparentemente, algumas pessoas nunca fizeram nada e se arrependeram depois. – Meu olhar estava, mais uma vez, conectado ao dela.
– Ah, eu tenho uma história muito boa de quando eu fiquei bêbado pela primeira vez. – Diz meu pai, que também estava percebendo que havia mais do que uma disputa entre aluna e professora ali. Continuamos nosso jogo, como se ele nem houvesse aberto a boca para falar.
– Pois eu li numa revista, viu Mary, que a bebida nos dá a liberdade para fazer o que o nosso subconsciente já queria fazer. – Regina diz, se virando para a minha mãe e esperando uma resposta dela.
– E é, é? – minha mãe estava sem reação pela primeira vez da vida dela.
– Aham, Mary. – Regina estava sendo cínica, e eu odiava aquilo.
– Cínica. – sussurro, mas ela ouve.
– Criança. – Ela sussurra de volta.
– Idiota. – Falo, entre uma tosse.
– Imbecil. – responde, entre tosse também.
– Ciumenta. – Replico, e dessa vez falo olhando em seus olhos.
– Infiel.
Um silêncio se instaurou na mesa e ficamos nos encarando, enquanto os outros se olhavam entre si, tentando entender o que havia sido aquilo.
– Gente, vocês já foram na Bahia? – pergunta o pequeno, que até então permanecia calado. A vontade que eu tenho é de rir, crianças serão crianças sempre.
– Já. – Respondemos eu e ela, em uníssono, no mesmo tom de voz ríspido.
– Pois eu li numa revista que... – Não terminei de ouvir o que o garoto estava falando, me perdi no movimento de mastigar a minha comida e ignorar a presença de Regina ali.
O que foi aquilo? Perguntava em minha mente. Aquilo tinha sido a prova de que nem eu nem ela havíamos amadurecido. A prova de que erámos duas crianças quando se tratava do nosso amor.
Eu precisava sair dali. Eu precisava sair e tomar um ar. Peço licença ao pessoal presente na mesa e vou para o quintal, logo chegando no beco em que quase nos engolimos. Dou risada com a lembrança e permaneço ali, escorada na parede e de olhos fechados.
Sinto a presença de alguém e, antes que pudesse abrir os olhos, lábios se colam aos meus. Era ela. Aquele beijo eu reconheceria em qualquer lugar do mundo. Ela pede passagem com a sua língua e eu abro mais a boca, permitindo que ela me beijasse de forma mais intima.
Me situo de onde estamos e quem está dentro da casa e, por mais que me doa, a afasto.
– Regina, não.
– Eu... – Ela dá um passo para trás. – Eu não sei o que me deu. – Dá outro passo. – Me desculpa, Emma. Isso não irá acontecer novamente. Então se vira e sai correndo para a casa, me deixando ali sozinha novamente.
Me arrasto para o chão e abraço minhas pernas, permitindo que algumas lágrimas escorressem pelo meu rosto, sem me preocupar se o vestido ficaria sujo ou não. Eu só queria ir embora dali, ficar longe daquela mulher.
O problema era que ela era inevitável para mim. Ela era inevitável, eu não conseguia ficar longe dela. Sinceramente, eu não sei como eu tinha conseguido por um ano e meio. Éramos dois imãs de polaridades opostas, nos atraindo cada vez mais e mais. Eu só esperava virar um corpo neutro, afinal, eu havia amadurecido por Regina, mas ela não havia amadurecido por mim.
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