Entre o Céu e o Mar: Amor, confiança e compreensão
15 Compreensão. - Final.
Notas iniciais
Quando eu era pequena, eu tinha um problema muito chato chamado paralisia do sono. Funcionava assim: eu, simplesmente, não conseguia me mover durante certo período do sono. Meus pais me levaram em alguns médicos, pois, depois de todas as crises, eu sempre acordava desesperada.
Num desses médicos que eu fui, acabamos descobrindo que eu sofria de um distúrbio psicologico chamado Ansiedade. Sim, ansiedade é um distúrbio psicológico. Eu não necessitava de remédios, mas precisei fazer terapia por diversos anos.
Como toda ansiosa, eu roía unha, batia a perna no chão em sinal de nerrvoso, ficava agitada quando algo me incomodava e tinha medo de ser abandonada por aqueles que eu gostava.
No período que sucedeu a morte de minha quase noiva, Belle, a ansiedade voltou a me perturbar. Acompanhada dela, veio também a síndrome do pânico, mas eu não fiquei depressiva. Eu tinha medo de ficar sozinha e medo de carros, mesmo que eu não estivesse dentro deles.
Eu agora tinha medo de aviões.
A gasolina de um avião não acaba simplesmente do nada, aquele acidente estqva muito mal explicado. Foi com esse pensamento que eu abri os olhos e me vi numa cama de hospital.
De acordo com os meus conhecimentos, não era muito indicado que eu me movesse naquele momento, então eu apenas gritei. Em poucos instantes, uma enfermeira chega em meu quarto e sorri ao me ver acordada.
– Srta. Mills... – diz com sua voz aveludada. – Eu preciso chamar o médico, espere um pouco. – Ela usa um pager em seu jaleco e não demora muito para que um homem alto, musculoso e ruivo entre no local.
– Olha quem está acordada... – Ele diz com sua voz grossa e começa a me examinar. Eu evito falar e ele continua. – Meu nome é Owen Hunt e eu sou o médico responsável pelo seu tratamento. – Sorri para mim e verifica meus batimentos cardíacos, mandando eu respirar fundo. – A senhorita sabe por quanto tempo está aqui?
Eu sabia?
Faço que não com a cabeça.
– Okay. – Diz. – A senhorita está aqui faz onze meses e alguns dias. — Meus olhos se arregalam.
Eu perdi onze meses da minha vida.
Perdi onze meses da vida de meu filho.
Meu filho.
– Meu filho. – digo, sem muitas forças. – Ele está bem?
– Ele está ótimo. – Me tranquiliza. – É um lindo garotão de cabelos escuros e olhos castanhos como os seus.
Eu respiro aliviada e ele continua.
– A senhorita sabe o motivo de estar aqui?
Eu sabia?
Faço que sim com a cabeça.
– Acidente de avião.
– Isso. – Ele termina de me examinar e para na beira da cama, pega o meu prontuário e continua. – Para alguém que ficou esse tempo todo em coma, a senhorita está ótima.
Eu tento sorrir. Owen se vira para a enfermeira e pede que ela avise aos meus familiares que eu estou acordada.
– Agora eu preciso ir, senhorita Mills.
– Regina, por favor. – peço.
– Certo, Regina, descanse. – O médico ordena. Eu sorrio em escárnio.
– Descansei por onze meses, não acho que eu vá querer descansar tão cedo.
Ele apenas ri, balança a cabeça como se dissesse “Ela não tem jeito” e sai da sala, deixando-me sozinha com os meus pensamentos.
– SQ –
Meu encontro com minha mãe não foi algo que merecesse ser narrado. Eu e ela choramos feito duas crianças, e ela me contou como Henry estava. Chorei mais ainda ao ver as fotos de meu filho, ele era a coisa mais linda do mundo. Chorei, também, ao saber que apenas nós havíamos sobrevivido àquela tragédia
– Tem duas coisas que eu preciso te contar, uma boa e uma ruim. – Diz. – Qual você quer saber primeiro?
Escolho por começar pela ruim e ela explica o motivo do acidente ter acontecido.
– Robin sabotou o avião, aparentemente ele queria que todos morressem para que ele pudesse tomar a empresa para si. – Conta. – O problema é queo impacto foi, em sua maioria, na frente, pois o piloto deu um jeito de cairmos de bico. Eu, você e Emma estávamos no fundo, então nós sobrevivemos.
– Que homem doente! – exclamo. – Eu não acredito que essa criatura é o pai do meu filho.
– Regina, e o pior de tudo é que nós não temos como saber se ele morreu. – Seu semblante passa a mostrar preocupação. – Ele simplesmente desapareceu, provavelmente tinha um plano já de como escaparia.
– A senhora só pode estar brincando... – As lágrimas ameaçam cair e ela aperta a minha mão.
– Ele não tentou nada até agora, então fique tranquila que nada vai acontecer a você, ao seu filho e à mãe dele. – Me tranquiliza.
– Que mãe do meu filho?
– Ah, agora vamos à boa notícia. – Sorri de forma maliciosa. – A Emma.
– O que tem ela? – Meu coração se aquece com a possibilidade de nó reatarmos.
– Nesse tempo em que você ficou aqui, Emma foi lá ver o Henry praticamente todos os dias. Ela está indo para a faculdade pela manhã, cuidando da empresa pela tarde e quase todas as noites vai lá brincar com o garoto.
– Mentira...
– Sério. – responde. – quem você acha que está com ele agora?
– Isso é maravilhoso. – novamente sinto vontade de chorar. – Eu queria tanto ver ela.
– Ela veio te ver quase todos os dias também. Creio que amanhã ela esteja aqui para comprovar com os próprios olhos que a amada dela está acordada.
– Ah, mamãe... eu quero tanto me acertar com ela. – Suspiro apaixonada. – Será que ela ainda gosta de mim?
– Porra, Regina, às vezes parece que você é burra. – Cora finge estar revoltada. – Você não ouviu o que eu acabei de te falar não? Se antes eu duvidava do amor que ela sentia por você, agora eu não duvido mais.
– Eu preciso ver ela, eu preciso ver meu filho, eu preciso ver a minha família. – digo.
– Em breve você sairá daqui, os médicos já se desfizeram das sondas. – Explica ela. – Acho qur posso ter uma conversinha com Owen para que ele te libere pela noite, ok?
Sorrio largamente. Abro os braços para minha mãe e ela me abraça com força.
– Eu senti tanto a sua falta, pensei que nunca mais fosse poder te abraçar desse jeito. – sua voz está embargada e eu sei que ela se controla para não chorar.
– Eu estou bem. – Afago a cabeça dela numa vã tentativa de consolo. – Nada mais vai acontecer.
– SQ –
Minha mãe realmente conseguiu que me liberassem com antecedência. Claro, ela teve que fazer mil promessas aos médicos e eu deveria fazer fisioterapia, pois tinha passado muito tempo com os músculos parados.
Antes de irmos para casa, implorei para passar em um salão de beleza, tinha que me cuidar e ficar bonita para que Emma pudesse me ver. Ainda estava muito insegura com meu corpo depois da gravidez, mas, por alguma obra do destino, eu não tinha ficado com as tão características estrias, além do ótimo trabalho dos cirurgiões que deixaram a cicatriz da cesariana praticamente invisível.
No salão eu cortei novamente os cabelos, deixando pouco abaixo dos ombros, fiz as unhas e me depilei por completo, tudo isso na ansiedade pelo encontro com a loira. Cora ligou para ela pedindo para que ela ficasse com Henry durante o dia, e, mesmo de longe, pude ouvir sua voz curiosa perguntando por mim. Como iríamos fazer uma surpresa, minha mãe apenas disse que eu estava bem e que não podia falar com ela pois estava descansando.
O combinado era que, se tudo desse certo, Cora ficaria com Henry na mansão e Emma me levaria para o nosso antigo apartamento.
Chegamos na mansão em silêncio, meu coração quase saindo pela boca. Eu iria finalmente conhecer o meu filho. Eu iria ver a mulher que eu tanto amava. Entramos na casa silenciosa. Era, mais ou menos, oito da noite, então a probabilidade de Henry estar dormindo era grande
– Emma? – pergunta Cora com um tom de voz alto. – Cheguei.
– Shiu... – Aparece, vestindo uma blusa velha que eu roubei dela e um short folgadinho. – Henry dor... Regina? – Arregala os olhos e eu sorrio, as lágrimas já ameaçando de cair.
Os três segundo seguintes, o tempo que levou para unirmos nossos corpos em um abraço, foram os três segundos mais longos da minha vida toda. Ela abriu os braços e meu corpo se chocou ao dela com uma força, eu me sentia em casa com aquele abraço.
Palavras não eram necessárias, tudo o que precisava ser dito seria dito depois, naquele momento tudo que importava era que eu estava ali, ela estava ali, nós estávamos ali uma com a outra.
Depois que nós nos esmagamos, ela se afastou, segurando-me pelos ombros. Emma olhou fundo em meus olhos, analisou meu corpo e então suas mãos começaram a me apertar, tentando garantir que eu era real.
– Você está aqui ou isso é coisa da minha cabeça?
– Eu estou aqui, Emma. – Sorrio. – Estou aqui e não vou a lugar nenhum.
Novamente ela me abraça, apertando-me contra seu corpo e murmurando em meu ouvido o quanto ela sentiu minha falta. Percebo que ela também chorava, então estico minhas mãos e limpo seu rosto.
Minha mãe observa tudo encostada na porta de entrada, mas logo interrompe.
– A cena está linda, mas... Temos uma surpresa para você, Emma.
– Além de Regina aqui, o que mais eu poderia querer? – Ela me abraça de lado, passando um braço pela minha cintura possessivamente e eu faço o mesmo.
– Vocês vão passar a noite no apartamento, só vocês duas. – Cora nos lança um olhar malicioso, o rosto da loira fica vermelho subitamente.
– É sério isso? – pergunta, olhando para mim. Sorrio e faço que sim com a cabeça. – Mas, e o Henry?
– Eu fico com ele. – Minha mãe responde com prontidão. – Amanhã vocês voltam, decidem se vão morar aqui, se vão morar lá, se vão casar...
– Mãe! – Interrompo, completamente envergonhada. Ela apenas ri e balança a cabeça. – Eu vou lá em cima pegar alguma roupa para passar a noite.
– Não... – Emma olha para mim. – Eu pego, você não pode subir escadas. – Puas.por um tempo, como se estivesse pensando. – Quer que eu traga Henry para você ver como ele é?
Eu queria?
Penso um pouco e decido que não. Queria vê-lo acordado, queria comprovar que seus olhos eram castanhos que nem o meu.
– Eu quero ter a surpresa de vê-lo acordado. – Ela sorri em resposta para mim, aperta minha mão levemente.
– Fica aqui, eu volto já.
– Eu não vou a lugar nenhum sem você, nunca mais. – Respondo, quase como uma ppromessa.
Seus olhos brilham com minha afirmação. Emma sobe as escadas correndo enquanto eu a espero.
– Hoje tem... – provoca Cora. Minha boca se abre, mas eu não sei o que responder.
– Nós vamos apenas conversar, acerrtar tudo que temos para acertar... sexo nesse momento é o de menos.
– Se você que diz... – Dá de ombros. – Usem proteção. – Diz, num tom de voz divertido, tudo para depois cair na gargalhada vendo minha expressão de indignada.
Não demorando muito, Emma desce com uma mochila nas costas.
– Vamos? – Pergunta ela, estendendo a mão para mim. Aceito de bom grado e, com um abraço forte, me despeço de minha mãe.
Me surpreendo ao ver que Emma tinha trocado seu fusca amarelo por uma CRV preta. Pergunto, em minha cabeça, o que mais ela tinha mudado. Ela abre a porta do carona para que eu entre, logo depois dá uma volta e senta no banco do motorista. Se inclina por sobre mim e eu acho que ela vai me beijar, mas, tudo que ela faz é sorrir provocativamente e puxar o cinto para me prender em segurança.
– Bonito o carro... – Completamente tímida, tento começar uma conversa. Emma dá a partida e dirige pelo condomínio.
– Eu sinto falta do fusca. Mas, como agora sou uma quase advogada, tive que trocar para algo mais... – para por um tempo, procurando as palavra certas. – Para algo mais maduro.
– E o apartamento?
– Continuo lá. Fiz algumas mudanças necessárias, creio que você vai gostar.
Depois disso, um silêncio se instaurou no carro. Não era um silêncio desconfortável, era um silêncio gostoso, de duas pessoas que estavam reaprendendo a viver uma com a outra.
– De antemão, quero dizer para você não reparar na bagunça. – Emma interrompe meus pensamentos quando vamos entrando na garagem do prédio. – Essa semana eu tive que ir para a empresa, para a faculdade e fiquei com o Henry umas noites, aí não tive tempo de arrumar as coisas.
– Eu só quero saber uma coisa.
– Não, eu não joguei fora aquele jogo de lençol horroroso que você pediu para comprar. – Ela diz e eu sorrio com a lembrança de nossa briga besta por lençóis.
– Eu não quero saber disso, idiota. – Dou um tapa em seu ombro e ela me abraça de lado pela cintura. Com jeito, saio do seu abraço. – Quantas mulheres você trouxe para cá desde que eu fui embora?
– Nenhuma. – Percebo a sinceridade em sua voz. O elevador se abre e nós entramos de mãos dadas no apartamento.- A não ser a mulher que faz a faxina.
Curiosa, eu solto sua mão e vou desvendar as mudanças feitas. Tudo parecia o mesmo, o nosso quarto, o banheiro, a cozinha, a sala... A porta do escritório estava fechada e é a última que eu paro para olhar. Meus olhos se enchem de lágrimas quando eu vejo no que tinha se transformado.
Emma fez um quarto para o bebê.
– Emma... – Sussurro e sinto seus braços me abraçarem por trás. – Isso é...
– Eu queria preparar o apartamento para quando vocês voltassem.
– E como você sabia que eu voltaria? – Me desfaço de seu abraço e ando pelo quarto.
Ele era todo azul e branco, tinha um berço, uma cômoda e dois pufs gigantes espalhados pelo chão. As prateleiras tinham os mais diversos artigos para bebês.
– Você sempre volta. – Ela sorri de lado, ficando de frente para mim. Suas mãos correm para a minha cintura e puxam meu corpo para si. – Eu vou te beijar agora. – Ela avisa e eu continuo parada, ansiando por seus lábios nos meus. Nossos rostos se aproximam e ela paira sua boca a centímetros da minha, seus olhos não quebram o contato com os meus e, depois de alguns segundos, ela junta nossas bocas lentamente.
Eu não sei descrever a sensação de sentir o beijo de Emma tantos meses depois. Poderia, claro, afirmar que era mágico, que dava a sensação de estar em casa, que acendia os meus mais profundos desejos... Só que era mais. Era mais do que apenas isso. Era mais do que apenas magia, desejo.
Era amor.
Sua língua quente invade a minha boca e eu levo minha mão até seu pescoço, perdendo-me entre seus cabelos. Ela solta um gemido alto, forte, quando eu mordo seu lábio inferior com força.
Sinto que ela se controla para não ir além dos beijos e me afasto, colando nossas testas. Emma suspira alto.
– Sem pressa. – Sussurra. Eu sorrio e a abraço forte. – Temos todo o tempo do mundo.
– Sem pressa? – Corro as mãos até a barra de seu short de elástico e tento fazer com que ele desça. Ela retira minhas mãos calmamente, eu faço um muxoxo de desaprovação.
– Eu quero conquistar você novamente, então sem pressa, professorinha. – Dou risada com o antigo apelido. – Vem, você precisa dormir, vamos deitar.
– Se fosse para dormir eu tinha ficado no hospital.
– Quer voltar? – Provoca, me abraçando por trás e andando comigo até o quarto. – Se eu ligar para o médico e dizer a ele que a paciente quer sexo louco e selvagem, com certeza ele vai internar de novo.
– Não precisa ser louco e selvagem. – Argumento. A esse instante, nós já estávamos deitadas na cama, ela me segurava por trás numa conchinha bem gostosa. – Pode ser casual e calmo.
– Comigo e com você nunca é casual e calmo. – Seu tom de voz é provocativo. Ela morde minha orelha de leve, deixando meu corpo arrepiado. – Temos todo o tempo do mundo, Regina. Eu sou sua.
– Para sempre? – pergunto.
– Para sempre.
“Se lembra quando a gente chegou um dia a acreditar que tudo era para sempre,
sem saber que o pra sempre, sempre acaba...”
FIM (?)
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