Entre o Crepúsculo e a Aurora
1 Capítulo 1 - Aqueles que são rejeitados
A bebê se remexeu no colo da mulher, ela estava enrolada em uma manta cor-de-rosa, os cabelos da pequena eram brancos, extremamente brancos, mas as bochechas estavam coradas. Elas estavam em um jardim repleto de flores das mais diversas cores, além de algumas esculturas helênicas.
—Não pode ser — disse o homem encarando a mulher, que tinha cabelos longos e loiros e lindos olhos azuis, além de um corpo escultural.
—Mas é — nesse momento o jardim onde estavam foi tomado por um vento forte, tão forte que derrubou uma das estátuas e arrancou uma pequena árvore do chão. A mulher olhou para o homem alto e magro de cabelos cor de ébano — Ela despertou algo que estava adormecido, precisamos a proteger.
—Para onde? — perguntou enquanto um redemoinho se formava perto deles, arrancando arbustos e flores.
—Não sei! — ela gritou para se fazer entender, o vento estava assobiando. — Leve-a enquanto tentamos parar isso!
—Eu posso ajudar! — ele gritou de volta enquanto ela estendia a menina em direção ao homem.
—Não, apenas a leve — as lágrimas corriam pelo rosto da mulher — As coisas não eram para tomar essa proporção! — o homem agarrou a bebê, que começou a chorar copiosamente.
—Para onde eu vou? — ele perguntou enquanto o vento ficava cada vez mais forte ao redor deles, mais pessoas vinham para se juntar a eles.
—Eles vão encontrar você — um homem alto, forte e de cabelos grisalhos e longos disse ao se aproximar — Vamos dar um jeito aqui, agora vá! — uma porta dourada surgiu no jardim, o homem a abriu e correu para dentro, deixando para trás os trovões e o vento.
Então houve a tempestade, a escuridão e o silêncio.
O homem respirava ofegante observando a bebê, que agora dormia em um berço. Ela ainda choramingava vez ou outra, mas no geral estava bem. O clima na cidade estava ameno, com certeza jamais veria aquele temporal de novo. O apartamento era pequeno, composto de dois quartos, sala, cozinha e banheiro, em um quarto estava a cama de casal e no outro o berço, móvel que ele tinha comprado quando sua “namorada” disse estar grávida, antes de descobrir a verdade sobre ela.
—As coisas ficarão bem, Fred — um homem alto com cabelos negros como uma noite sem estrelas se materializou ao lado dele, o assustando — Ela sabia o perigo que corria quando colocou um humano no Olimpo.
—Ela disse que foi a bebê — Fred respondeu olhando para a pequena, ela tinha uma aura dourada ao redor dela.
—Foi… — o outro disse — Normalmente relações entre humanos e deuses geram semideuses, mas algo deu muito errado…ou muito certo — sorriu ao ver a bebê se mexer — Qual o nome dela?
—Não sei, não escolhemos, aquilo virou um pandemônio — suspirou assustado, lembrando da força do vento.
—Tudo bem — ele olhou mais uma vez — Thanathea, o que acha?
—Horrível — Fred riu.
—Por favor, em minha homenagem — o rosto do pai empalideceu — Não, não é o que está pensando, eu vim a levar para um local seguro — o sorriso no rosto pálido era divertido. — Você pode ir junto — um retângulo dourado surgiu, era como um pintura que mostrava um belo camping com cabanas e uma casa maior no centro, ele conseguia ver cavalos correndo ao longo de um lago.
—O que é isso? — Fred perguntou agarrando a borda do berço.
—É um refúgio — Tânato sorriu — Você viu o que aconteceu com o Olimpo, se aquilo aconteceu com a morada dos deuses, imagina o que acontecerá com Portland sendo só uma cidadezinha do Maine?
—Ela poderá vir para casa? — ele suspirou olhando para a pequena.
—Não… — Fred abaixou a cabeça — Você poderá a visitar sempre que quiser… — Tânato colocou a mão nas costas dele — Precisamos ir, Fred.
Ele pegou a menina no colo e caminhou ao lado da personificação da morte. Um homem alto e moreno o recebeu imediatamente no outro lado, Fred olhou para ele, parando nas pernas, que eram de bode, o sátiro sorriu largamente e olhou para a criança.
—Está tudo bem, ela está segura agora — foi o que ele disse, afinal, era essa a responsabilidade de Panosiro: manter as crias seguras.
Thanathea foi alocada em um das muitas cabanas de Aegisios, o refúgio dos filhos dos deuses, porém nenhum deles chegou tão novo quanto ela, nenhum tinha a aura dourada que Panosiro retirou da bebê com ajuda de Liriane, a ninfa que se ofereceu para amamentá-la. Liriane alimentaria a pequena, que cada dia ficaria mais bela, mais forte e mais solitária.
Aegisios cresceu quando um surto mitológico aconteceu no ano de 2005, quando Thanathea tinha quatro anos, foi o ano que o Olimpo foi desperto em sua totalidade, quando todos os deuses foram acordados após o ataque que sucedeu o nascimento da menina, quando os humanos começaram a falar mais das divindades gregas e alguns até voltaram a cultuá-los.
Aegisios era um local amplo, com campinas, montanhas, lagos e um largo rio, além de uma densa floresta mágica que fazia todo o contorno do refúgio, dezenas de ninfas protegiam esses lugares para que nenhum monstro localizasse as crianças escondidas ali, para que o sangue dos deuses ficasse protegido.
Os semideuses cresciam conhecendo o mundo humano até que o poder em suas veias fosse mais forte e começasse a ser detectável para monstros, não eram todos que se tornavam alvos, alguns sequer descobririam que nasceram da união de um deus e uma humana, ou uma deusa e um humano, alguns, por outro lado, acabariam conhecendo o refúgio pouco depois dos doze anos, quando atingissem a puberdade, normalmente eles iriam conviver com humanos a maior parte do ano, indo para o refúgio apenas nas férias de verão a fim de aprender a controlar seus poderes. A chegada deles era o momento mais aguardado por Thanathea.
Aquele dia, dezesseis anos depois da chegada dela, era uma das muitas recepções de semideuses, ela estava se arrumando na cabana que não dividia com mais ninguém, por mais que quisesse. Ela penteou os longos cabelos brancos e sorriu quando o brilho dos olhos cor-de-rosa refletiu no espelho, arrumou sua roupa, que nada mais era que um short e uma camiseta longa, não eram suas vestimentas favoritas, mas era meio que o uniforme dessa época do ano.
Os jovens que chegaram pela primeira variavam entre doze e treze anos, não eram muitos dessa vez, a maior quantidade eram dos veteranos, meninas e meninos de quatorze a dezessete anos, mas eram menos do que no ano anterior, coisa que foi prontamente notado por Thanathea, assim como um novato estranhamente mais velho.
—São menos do que no ano passado — pontuou Likan, um dos sátiros adolescentes que eram treinados para acompanhar os residentes do Aegisios, ele era moreno, tinha as tradicionais pernas de bode e espessos cabelos negros. — Não acha, Thea?
—Acho… — a menina ficou na ponta dos pés e analisou o novato, ele com certeza se despontava dos demais que estavam no grupo dele, era bem alto, com cabelos negros reluzentes, ele parecia forte e tinha olhos cinza como nuvens de chuva, pela primeira vez ela sentiu suas bochechas corarem — Por que aquele garoto está com os novatos quando ele tem idade de ser um veterano? — Virou para Panosiro, que prensou os lábios.
—Um semideus tardio, acontece — o responsável pelo acampamento tomou a frente do palanque enquanto os adolescentes ainda conversavam animados, as crias de Afrodite e de Hermes eram as mais falantes de longe. — Meus jovens, aos veteranos, sejam bem-vindos para mais um verão que eu prometo que será bem divertido — o anúncio arrancou gritos de animação dos mais velhos, que vieram a viagem inteira combinando diversas festas. — Aos novatos, meu nome é Panosiro e, como podem ver, sou sátiro e sou o responsável pelo refúgio. Gostaria de dizer que entendo que seja bem estranho um ônibus surgir no primeiro dia das tão aguardadas férias após uma conversa constrangedora com seus pais, onde foi revelado seu verdadeiro sangue — alguns pré-adolescentes murmuram em acordo, alguns eram filhos de mãe ou pai solteiro, outros descobriram que seu pai ou sua mãe de criação não eram seus genitores, sendo que esses eram estranhas divindades que eles apenas liam em livros. — Quero que saibam que nem todos os semideuses chegam ao Aegisios, alguns sequer descobrem que não totalmente humanos, se estão aqui é porque seus pais divinos tem algo planejado para vocês.
—Como sabemos quem é nosso pai? — Um menino ruivo de sardas e óculos de grau perguntou ao levantar a mão.
—Bom, aqui temos o círculo do sangue — Panosiro apontou para seu lado esquerdo, onde havia um círculo de pedra com runas em cima, havia treze pedras cilíndricas, cada uma tinha cilindros mais finos em volta, representando os deuses menores que faziam parte do mundo do deus principal — Vocês precisam ficar no centro do círculo e o ir até o cilindro que brilhar e descobrir seu pai ou sua mãe.
—Simples assim? — O ruivo perguntou.
—Simples assim — Likan respondeu tomando a frente até o corredor que levava para o círculo — Quer ir primeiro? — ele assentiu nervosamente, depois de treze anos acreditando que seu pai de criação era seu pai biológico, foi um baque para Stuart MacAddam descobrir que não era foi como tirar o chão de seus pés.
Stuart adentrou no círculo, parando no redemoinho marcado na terra, Likan furou a ponta do indicador do menino e deixou uma gota de sangue pingar na terra, foi quando o sátiro se afastou, o sangue brilhou quando tocou na terra e então fez uma volta em torno do menino, que acompanhava a linha dourada atentamente, ela seguiu em linha reta até um cilindro que estava a esquerda dele, escalando como uma videira, o que arrancou gritos dos filhos de Dionísio quando foi constatada a paternidade.
Um a um os sete novatos adentraram o círculo, depois de Stuart, mais cinco foram reivindicados por seus pais e suas mães, um filho de Poseidon, uma filha de Hermes, uma filha de Hefesto, um filho de Morfeu e um filho de Apolo, o último a ir até o círculo foi o garoto mais velho, que olhava com desdém para tudo aquilo. Likan furou o dedo dele sentindo um pequeno temor, tinha certeza que era filho de um dos deuses do submundo ou talvez do próprio Zeus, ele emanava poder e a gota de sangue pingou espessa e com fios dourados, o que significava que o pai dele com certeza era um deus forte. O sangue formou a linha dourada, que girou, girou e girou, orbitando pelo menino várias e várias vezes, indo até os deuses do submundo e voltando, indo até Zeus e voltando, foi até a pedra cilíndrica que representava Ares, de onde também voltou e então a linha evaporou.
—Ótimo, agora temos dois rejeitados! — Chloe de Lioncourt, uma das filhas de Afrodite, riu ruidosamente.
—Isso é estranho… — Likan murmurou enquanto o punho do garoto de cabelos negros cerrou — Tudo bem… Desculpe, qual seu nome? — arqueou a sobrancelha.
—Dante — ele saiu do círculo um tanto irritado, depois do baque que foi descobrir que o homem que chamou de pai a vida toda não passava de um homem que assumiu sua mãe após ela descobrir que estava grávida, agora precisava lidar com a ideia que seu “pai”, fosse lá quem fosse, não o queria — Foda-se isso! Isso é apenas um teatro muito bem feito! — praguejou e então seus olhos pararam em Likan.
—Acha mesmo que se isso fosse um teatro eu escolheria ser meio bode? — Likan estava com uma cara incrédula.
—Tudo bem, garoto, essas coisas acontecessem — Panosiro respondeu — Vamos, temos lugar para você também. — Dante saiu do meio das pedras, deveria ter ficado em casa e dito para sua mãe que não se importava em conhecer seu pai de verdade e nem acreditava em histórinhas para dormir.
Por toda sua vida Dante Carter foi filho de Samara e Davis Carter, porém, na manhã dos seus dezessete anos, sua mãe disse que precisava conversar e que seria uma conversa difícil, imediatamente o garoto pensou que talvez fosse alguma situação financeira que sua família iria passar, alguma que diminuísse o padrão da família, um padrão bem elevado por sinal, até cogitou que talvez sua mãe estivesse grávida de novo, mas isso não parecia um assunto difícil. Foi no sofá da sala de estar que Samara contou a verdade, contou que Davis não era pai biológico de Dante, que eles tinham se conhecido na faculdade e se casaram porque Davis não queria que o filho de sua paixão sofresse com miséria, Samara aprendeu a amar o marido, que deu todo o luxo e conforto para ela e para o filho. A mãe disse que precisava contar a verdade, contar que o pai dele não era deste mundo, contar que era um ser mágico, um Deus e que agora ele precisava ir para onde os filhos dos deuses iam.
No primeiro momento ele achou que era loucura da mãe, pensou que era efeito de algum remédio ou algo assim, porém, naquela manhã, com a imediata raiva que ele sentiu ao descobrir a verdade, todas as lâmpadas da casa acenderam e estouraram. Dante procurou por uma explicação racional, algo que falasse sobre explosão de lâmpadas por fiação velha, mas a fiação da casa não era velha, Davis havia mandado trocar quando trocou a central de climatização. O garoto aceitou embarcar no ônibus que parou na sua porta nas últimas férias que teria do ensino médio, pois o próximo ano seria o último e ele iria para a faculdade; ele escolheu deixar a curtição das férias com os amigos para descobrir qual fosse a verdade que sua mãe acreditava, apenas torcia para que não fosse tráfico de órgãos ou coisa assim.
O veterano de cada cabana guiou seu novo meio-irmão, sobrando apenas Dante, que não tinha meios-irmãos porque nenhum deus disse ser seu pai. Likan se aproximou, assim como Panosiro, que sorriu.
—Temos cabanas separadas para pessoas como você — Panosiro falou — Algumas vezes os deuses demoram para reivindicar seus filhos, ao longo das férias pode tentar de novo — o sátiro sorriu — Likan irá te levar até a cabana, terá roupas para o primeiro dia de treinamento. Likan fez um sinal para que Dante o seguisse, Thea observou a dupla atentamente e então olhou para o sátiro mais velho— Não quer tentar de novo, criança?
—Não, Panosiro, já tentei quinze vezes, seja lá quem for minha mãe, ela com certeza não se importa comigo — sorriu fraco dando de ombros — Com licença, nos vemos mais tarde. — eles acenaram um para o outro e então ela começou o caminho de volta para sua cabana, cruzando pela cabana dos filhos de Afrodite e dos filhos de Hermes, que conversavam animados sobre uma festa, Thea olhou para eles, Chloe a encarou de cara fechada.
—Nem tente se aproximar, é uma festa reservada, um dos critérios é convite, o segundo é ter sido reivindicado — a garota de cabelos curtos e negros riu, uma loira se aproximou.
—Deixa ela, Chloe, já deve ser bem ruim ser rejeitada — Chanel Evary, uma das mais belas filhas da deusa do amor, falou.
—Tem razão, Chanel, deve ser bem ruim mesmo — Chloe riu.
—Vocês são desagradáveis — Thea disse suspirando antes de seguir seu caminho.
A cabana onde Dante ficaria era ao lado de onde morava Thanathea, era pequena, bem menores das cabanas onde moravam os semideuses reivindicados, já que as cabanas deles tinham no mínimo cinco quartos, enquanto as cabanas de espera, como eram chamadas, tinha apenas um dormitório. Thea parou no alpendre da cabana de Dante, o garoto de cabelos negros e o sátiro estavam parados no meio da cabana, Likan apontava para os comodos, ela sorriu com a visão, era fofo ter esse cuidado, ela mais que ninguém sabia como era se sentir rejeitada.
—Seja bem-vindo, Dante — a voz de Thea chegou melodiosa nos ouvidos do garoto, que virou surpreso.
—Ah, essa é a garota que você deve procurar! — Likan apontou para ela sorrindo — É a semideusa que está há mais tempo aqui.
—E assim como você, não fui reivindicada por nenhum deus — sorriu sem graça encolhendo os ombros — Eu moro naquela ali — apontou para a cabana do lado.
—Há quanto tempo? — Dante observou a beleza da menina, tinha os traços delicados, lindos olhos e longos cabelos da cor de leite.
—Desde que nasci — ela analisou a cabana, era simples, tinha uma cozinha com armários de madeira e uma pia embaixo de uma janela que dava para a floresta, havia uma península dividindo a cozinha da sala de jantar, que tinha uma mesa redonda com quatro cadeiras centralizada na janela que dava para a cabana vizinha, no lado direito estava a sala de estar e o corredor que dava para a lavanderia, além da escada que dava para o segundo andar, onde ficava o quarto e o banheiro, ela sabia a distribuição dos cômodos porque a sua era igualzinha. — Bom, qualquer coisa só chamar.
—Obrigado… — ele franziu o cenho. — Qual seu nome?
—Thanathea, mas pode me chamar de Thea — respondeu já na porta, dando um sorriso que paralisou o novato, havia algo naquela garota, algo bem especial e mágico, ele não conteve o sorriso.
—Ela é uma gata — Likan disse assim que a garota sumiu.
—Sua namorada? — o sátiro riu da pergunta do novato.
—Não, quem me dera! — gargalhou — Quando estou muito esperançoso, rezo para Afrodite me conceder o coração de Thea, mas aceito que somos bons amigos. — Dante deu uma risada atravessada.
—Tem Wifi aqui? — Likan assentiu.
—Tem sim, mas não tente mandar a localização para ninguém, não vai dar certo — avisou — Nem tente mostrar as criaturas mágicas, não aparecem nas câmeras — sorriu.
—Claro — sacou seu celular do bolso e viu que estava devidamente conectado em alguma rede mágica.
—Não demore, antes do almoço tem algumas atividades em grupo — Likan anunciou apontando para o relógio — Tem roupas no armário.
—Como sabem o tamanho das minhas roupas? — Dante arqueou a sobrancelha.
—Sabemos — deu de ombros sem querer falar que a roupa se ajustaria magicamente no corpo dele. — Não se atrase — os cascos soaram para fora da cabana, Dante ficou parado no meio da casa pensando que ou estava muito chapado ou as histórias de sua mãe eram verdade.
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