Entre o Céu e o Mar: Amor, confiança e compreensão
6 Confiança parte 1.
Notas iniciais
Minha mente desperta e eu sinto frio, indicando que Regina não estava na cama para me passar seu calor. Coloco um braço para o lado apenas para constatar o que eu já sabia e me levanto, vagarosamente, procurando minha namorada pela casa.
Regina sempre acordava antes de mim e ia preparar nosso café da manhã, já havia virado rotina. Passo pela sala, pelo banheiro, pelo quarto de hóspedes e pela cozinha e percebo que ela não estava em lugar nenhum do apartamento. Acho isso estranho, afinal, ela nunca saía sem me avisar.
Volto para o quarto atrás de meu celular para ligar para ela e vejo uma mensagem sua, enviada às 6:10 da manhã.
“Me perdoe, Emma. Eu tive que fazer isso para o nosso próprio bem, esse relacionamento iria acabar magoando tanto a mim quanto a você, e nós duas bem sabemos disso. Estou na casa dos meus pais, não precisa se preocupar e também não precisa me procurar. Quanto ao apartamento, pode ficar com a minha parte, é meu presente de despedida para você. Passarei aí quando der tempo para pegar o restante das minhas coisas que ficaram. Nunca se esqueça que eu te amo, okay?”
Atiro meu celular na parede, num sinal de raiva, e me jogo na cama, deixando as lágrimas molharem o meu rosto. Como Regina teve a coragem de fazer algo daquele tipo comigo, mesmo depois de nossa noite intensa de amor e de juras eternas?
A vontade que eu tinha, naquele momento, era de ir atrás dela, agarrá-la pelos cabelos e fazê-la ouvir poucas e boas, porém eu sabia que isso apenas iria piorar a minha situação com ela. Eu tinha errado naquele beijo, tinha mesmo, mas não era necessário uma atitude tão drástica da parte dela, pelo menos não ao meu ver.
Eu precisava de amadurecimento, era isso que ela queria. Então eu não iria procurar ela e nem forçaria contato nenhum, pois sabia que ela viria atrás de mim uma hora ou hora.
Não veio.
– SQ –
Uma semana se passou desde que Regina tinha ido embora de casa, era noite e eu estava sentada no sofá da sala assistindo um de nossos filmes favoritos: Moulin Rouge. Aquele filme descrevia a nossa vida claramente, um romance intenso fadado ao fracasso. Sorrio com a ironia do destino e dou mais uma colherada no pote de sorvete que descansava entre as minhas pernas.
Ouço barulho de chaves e olho para a porta, vejo Regina entrando calmamente e meu coração incendeia com a sua presença.
– Amor? – pergunto, olhando para ela.
– Eu vim aqui pegar algumas coisas, Emma. – Me diz calmamente, parando na porta do nosso quarto. – E não me chama de amor, não torne as coisas mais difíceis para nós duas.
Calada, eu observo ela entrar no quarto. Não consigo me aguentar e levanto, indo atrás dela. Vejo que ela segue um ritmo, pegar a roupa, cheirar, dobrar e colocar na mala de rodinhas que ela tinha levado. Ando devagar em sua direção e a abraço pela cintura, suas costas coladas em meu peito. Sinto seu corpo se retesar e mantenho o abraço.
– Emma... – Me diz num fio de voz.
– Fica calada, se é o nosso ultimo abraço ele tem que ser especial. – A mantenho presa contra mim e percebo que ela relaxa. Calmamente a viro de frente para mim, e, com as mãos em seu rosto, beijo seus lábios doce e lentamente.
Era essa a reação que ela queria, a reação de uma mulher madura. Eu não iria brigar, nem chorar, nem fazer dramas ou chiliques, eu deixaria fluir. Eu deixaria ela livre para crescer longe de mim e aprenderia a crescer longe dela, se fossemos destinadas a ficar juntas nós ficaríamos, fosse quando fosse.
Descolo seus lábios dos meus e roço meu nariz pelo seu pescoço, inalando aquele cheiro e guardando-o na mente. Pressiono minha testa contra a sua e sinto seu peito subir e descer de forma pesada, sua respiração quente se misturando com a minha.
– Vai, termina de arrumar. – Me afasto e sorrio. Ela me olha e não consigo decifrar quais são seus sentimentos naquele momento. – Eu estou na sala, qualquer coisa pode chamar.
Volto para meu lugar no sofá e continuo assistindo o filme, como se nada tivesse acontecido. Ela queria assim, o que eu poderia fazer? Eu apenas esperaria por ela, e torceria para que ela esperasse por mim também.
– SQ –
A música invadia os meus ouvidos e eu me deixava levar por aquele ritmo insano que era a música eletrônica. Eu estava cercada pelos meus amigos da faculdade e minha atual ficante, Belle. Regina? Depois do dia em que ela foi pegar suas coisas em minha casa, há um ano e meio, eu nunca mais a vi.
Se eu sentia a sua falta? Todos os dias. Todos os dias da minha vida sem sentido. Todos os dias que eu acordava e procurava seus cabelos curtos espalhados pelo meu peito desnudo. Todos os dias que eu gozava nos dedos de Belle e a imaginava ali, me penetrando, ora brusca, ora carinhosa.
Naquele momento eu já nem lembrava o meu nome. Tinha bebido todos os tipos de bebidas alcoolicas possíveis e imagináveis, além de ter consumido a famosa “balinha”.
– Belle! – Grito no ouvido da morena. – Quero ir para casa!
– Mas já? – Grita de volta, juntando nossos corpos e dançando conforme a musica. – Tá cedo ainda.
– Quero ir para casa, vou para casa. – Digo e saio andando. Eu não ligava para Belle, ficava com ela por puro conforto, e todas as vezes que estávamos juntas, era na Regina que eu pensava.
Saio da casa de shows em que estávamos e sento nas escadas, colocando minha cabeça entre as mãos. Sinto a famosa vontade de vomitar e, antes que eu abrisse a boca, percebo uma jovem, provavelmente da mesma idade que eu, sentada ao meu lado segurando meus cabelos.
Depois de colocar tudo que eu podia para fora, olho para a jovem, que sorri para mim e eu logo a reconheço.
– Ruby! – sorrio e deito minha cabeça em seu ombro.
– Achei que não fosse me reconhecer. – Ela sorri de volta. – Quanto tempo que a gente não se bate por aí.
– Verdade... – Abaixo a cabeça, tentando lembrar a ultima vez que nos vimos. – Foi no shopping com a... – Minha voz morre antes que eu falasse o nome dela.
– Regina. – Ela completa a frase. – Como está ela? Se eu bem conheço, deve estar irritadíssima porque você está nessa festa.
– Nós terminamos há mais ou menos um ano e meio.
– Ops... – Ruby faz uma careta do tipo “falei demais.” – Quer conversar sobre isso? Parece que você ainda não superou toda essa história.
Não me seguro e conto tudo o que aconteceu, desde nós duas indo morar juntas ao caso da traição. Minha amiga ouvia tudo em silêncio e contorcia seu rosto em caras e bocas difíceis de decifrar. Quanto termino tudo, ela dá o seu veredito.
– Quem mandou beijar a boca de certas pessoas? – Me diz, jogando na minha cara que eu tinha feito merda. – Perdeu, gata. – Me dá uma piscadinha sensual e perigosa.
– Eu sei que eu fiz merda, mas porra! – Bato as mãos em minhas coxas, num sinal de exasperação. – Eu sinto tanto a falta dela. – Sinto as lágrimas queimarem meus olhos e não as contenho.
Ruby puxa a minha cabeça para seu colo e eu me permito chorar, sabendo que eu seria confortada por ela.
– Você está aqui com quem? – Me pergunta enquanto alisa meus cabelos.
– Eu tô com a Belle.
– O quê? – dá um grito. – Com a piriguete que você beijou lá?
– Ela gosta de mim... – tento justificar.
– Emma! – Me repreende. – Você fica querendo suprir a falta que a Regina faz em sua vida, e aí fica indo atrás dessas mulheres que não te acrescentam em nada.
– Verdade... – murmuro.
– Foi assim com a Lily, e está sendo assim com a Belle. – Conclui.
– E o que você acha que eu tenho que fazer para melhorar isso? – Pergunto, morta de dúvidas. Ruby tinha razão, eu procurava Regina em outros braços, mas eu nunca seria capaz de achar alguém para amar tão intensamente quanto eu amava a minha morena.
– Aí eu já não sei. – Ela ri. – A Regina é uma incógnita, um X, e eu nunca fui boa em matemática.
Eu dou risada também e permaneço ali, deitada no colo de minha amiga, conversando besteiras e comparando as nossas vidas. Depois de algum tempo vamos embora com a promessa de não perdermos contato. Eu não sabia naquele momento, mas a retomada de nossa amizade seria essencial para mim.
– SQ –
Abro os olhos preguiçosamente e sinto minha cabeça girar, efeitos da bebida da noite anterior. Procuro pelo meu celular embaixo do travesseiro e me espanto ao ver que já são quase uma da tarde. Eu precisava estar na faculdade às duas, teria aula com professor novo e não queria dar motivo para ele me odiar.
Corro para o banheiro e tomo um banho rápido, porém bem tomado, afinal eu tinha que tirar o cheiro de álcool do meu corpo. Escovo os dentes com força e procuro, na geladeira, um suco de caixinha para tomar. Me visto enquanto tomo meu suco, queria vestir minha blusa do Homem de Ferro que tinha sumido misteriosamente há algum tempo.
Acabo colocando uma calça jeans de lavagem escura, uma regata branca e minha jaqueta vermelha inseparável. Por algum motivo, sinto vontade de usar o anel que Regina havia me dado quando completamos nosso primeiro mês de namoro. Mesmo depois de tanto tempo, eu ainda guardava todos os presentes que ela havia me dado com todo o carinho do mundo, talvez como uma forma de tê-la ainda comigo.
Acho a caixinha em que o anel estava guardado e passo o dedo sobre o nome dela, gravado delicadamente no anel de ouro branco. Coloco no meu anelar direito e as lembranças daquele dia distante me invadem, assim como a saudade da minha ex-namorada. Balanço a cabeça para afastar as memórias e termino de me aprontar para ir para a faculdade.
Olho no relógio e vejo que ele marca uma e meia da tarde. Merda! Pego minha mochila, previamente arrumada, coloco nas costas e espero, impacientemente, o elevador. Chego na garagem e logo destravo meu fusca amarelo. Sim, eu tinha comprado um fusca amarelo logo depois que eu e Regina nos separamos, eu o chamava de rocinante, que nem o cavalo de Dom Quixote, não me perguntem o motivo desse apelido.
Saio em disparada, tudo para encontrar um engarrafamento quilométrico.
– Merda! – dou um soco no volante. – Que merda, que merda, que merda! – ligo o rádio na tentativa de ter notícias sobre o motivo do engarrafamento e a estação toca uma música, que eu não sabia qual era.
Minha atenção se volta para a letra da música, e reconheço o meu relacionamento com Regina ao ouvir a frase “Rezando pra um dia você se encontrar, e perceber, que o que falta em você sou eu.” A verdade era essa, depois de um ano e meio, o que faltava em mim era ela. E, sem querer sem presunçosa, o que faltava nela era eu.
Continuo perdida em meus pensamentos, indagando o motivo de eu estar tão conectada a Regina justamente naquele dia. Não era aniversário dela, nem de nosso namoro ou término. Parecia que o destino gritava o nome dela e que eu estava fadada a encontrar com ela parada ao meu lado no sinal.
O sinal fecha e eu olho para o lado, respiro aliviada ao ver que não era a minha ex namorada ali dentro. Sigo o meu caminho em direção à faculdade, já livre de engarrafamentos.
Estaciono o carro na garagem da faculdade exatamente às 14:05. Desço do veículo já correndo e atravesso os corredores numa velocidade fora do comum, odiava chegar atrasada, fosse qual fosse o compromisso.
Subo o único lance de escadas que era necessário e paro na porta da sala em que seria ministrada a aula. Entro esbaforida na sala e todos olham em minha direção. A professora ainda estava de costas, escrevendo algo no quadro, mas eu reconheceria aquele corpo em qualquer lugar do mundo. Seus cabelos continuavam curtos, porém não tanto quanto eram antes. Ela usava uma calça social de cintura alta e trajava, também, um blazer, sem contar nos seus inseparáveis saltos altos.
– Bem, turma. – Diz, olhando em meus olhos. – Meu nome é Regina Mills e eu irei ser a professora substituta de vocês por algum tempo, até Leopold, meu tio, poder voltar. – Sorri, e eu me arrepio, pois sabia o poderia estar escondido por trás daquele sorriso. – Ah, não tenho muitas regras, mas não esqueçam a principal de todas: — Fala e, mais uma vez olha em minha direção, parecia que ela já tinha me visto nua. E já tinha mesmo. – Eu não suporto atrasos. – Pisca para mim. – Estamos entendidas, senhorita Swan?
Sem responder, abaixo a cabeça e me direciono a minha cadeira. Aquela era a minha esquina, aquele era o meu sinal, e Regina Mills estava bem ali, parada, pronta para se bater comigo mais uma vez.
Deixa pra lá
Que de nada adianta esse papo de agora não dá
Que eu te quero é agora
E não posso e nem vou te esperar
Que esse lance de um tempo nunca funcionou pra nós dois
Sempre que der
Mande um sinal de vida de onde estiver dessa vez
Qualquer coisa que faça eu pensar que você está bem
Ou deitada nos braços de um outro qualquer
Que é melhor
Do que sofrer
De saudade de mim como eu tô de você, pode crer
Que essa dor eu não quero pra ninguém no mundo
Imagina só pra você
Quero é te ver
Dando volta no mundo indo atrás de você, sabe o quê
E rezando pra um dia você se encontrar e perceber
Que o que falta em você sou eu
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