Entre o Céu e o Mar: Amor, confiança e compreensão
11 Compreensão - parte 1.
Notas iniciais
A vida tem umas coisas estranhas, tipo quando você sabe de uma coisa porém não parece real até ser dito em voz alta. Eu sabia que estava grávida há algumas semanas, mas tinha guardado para mim e não havia compartilhado com ninguém.
Minha noite com Emma estava sendo boa, mas eu não podia enganar ela. Não podia deixar que ela criasse sonhos utópicos em sua cabeça, não enquanto eu estava ali, de frente para ela, carregando em meu ventre o filho de outro.
– Emma, fala alguma coisa, pelo amor de Deus. – Digo, entre lágrimas, enquanto observo ela desferir murros no guarda-roupas. Tudo que ela falava era puta que pariu e eu já estava ficando nervosa com toda aquela situação.
– O que você quer que eu fale, Regina? – Se vira para mim e eu vejo a dor em seus olhos.
– Qualquer coisa, porra! – Respondo, exaltada, e levanto da cama indo em sua direção. Ela está com a testa encostada no guarda-roupas e eu a abraço por trás. – Eu estou com medo. – confesso a ela, traduzindo a mais pura verdade: eu estava aterrorizada.
– Como você pôde fazer isso? – pergunta num sussurro e se desvencilha do meu abraço.
– Fazer isso o quê, ficar grávida? – Arqueio as sobrancelhas e ela faz que sim com a cabeça. – Emma, entenda que não foi minha culpa. Primeiro de tudo que eu nunca tive relacionamentos heterossexuais, então não sei lidar com essa ideia da possibilidade de gravidez, até porque dedo não engravida. – Vejo ela esboçar um sorriso e continuo. – Segundo que eu não queria ficar grávida, mais do que ninguém você sabe que eu ainda não quero ser mãe.
– No que diz respeito a você, eu não sei mais de nada.
– Eu ainda sou a mesma pessoa, pelo amor de Deus! – Sento na cama, me sentindo tonta com toda aquela confusão. – Eu... eu não quero mais discutir, não estou me sentindo bem. Vou ligar para o Robin vir me buscar.
– Regina? – seu tom de voz é alarmado.
– O que é? – pergunto, já com o telefone na mão, e de forma ríspida.
– Você está sangrando. – Olha para o meio das minhas pernas e eu vejo a mancha de sangue que se formava. Aquela é a última visão que eu tenho antes de desmaiar.
– SQ –
Eu abro os olhos com dificuldade e olho à minha volta, não estava mais no meu antigo apartamento. Percebo que Emma está encostada na porta e, conversando com ela, está meu pai. Na beira da minha cama está Robin, que é o primeiro a perceber que eu estou acordada.
– Regina! – Diz, animado, se aproximando de mim. Eu tento forçar um sorriso, mas tudo que me vem à cabeça é querer saber o que havia acontecido comigo e com o meu bebê.
– O que aconteceu? – Pergunto. A esse instante, Emma e meu pai já tinham percebido que eu estava acordada e também prestavam atenção em mim. Emma se adianta e responde.
– Você, devido ao estresse, acabou perdendo um pouco de sangue e desmaiou. – Não entrou nos detalhes da gravidez e eu entendo que ela ainda não tinha contado para meu pai e meu namorado sobre o bebê que eu carregava. – Bem, meu dever aqui já está feito. Vou deixar você com sua família, pois não tenho mais o que fazer.
– Não. – digo rapidamente. – Fica, por favor.
– Regina... – interfere Robin. – não sei se seria bom para Emma ficar aqui, afinal, ela não é da família, não tem necessidade.
– Isso aí. – Ela concorda com Robin e meu pai observa suas reações. – Estou indo, melhoras aí.
Assisto Emma sair pela porta e, não tenho tempo nem de repreender Robin pela falta de educação, logo o médico que me atendeu entra.
– Senhorita Mills? – pergunta.
– Eu mesma, doutor.
– E esses são...
– Meu pai, Henry Mills, e meu namorado, Robin Hudson. – Os homens apertam as mãos e o doutor se vira para mim.
– Passando por muitas emoções recentemente, não é? – O médico se debruça sobre mim e escuta meu coração. Eu faço que sim com a cabeça. – Pois bem, você agora tem que se resguardar, mamãe.
– O quê? – meu pai fala e ouço Robin engasgar.
– Oh, a senhora ainda não tinha contado... – O médico estava claramente envergonhado, filho da puta. Robin estava com os olhos arregalados olhando para mim, esperando uma explicação.
– Sim, Robin, pai, eu estou grávida. – Assumo. – Descobri tem pouco tempo, eu iria contar a vocês.
– Isso é maravilhoso, amor! – Diz Robin, me abraçando com força. Eu tento sorrir, mas não consigo. Eu já amava aquela criança, porém estava muito longe de amar o pai dela. – Nós precisamos comemorar
– Filha... – meu pai estava emocionado. – Vai me dar meu primeiro netinho. – Sorri e me abraça com força. Dessa vez eu consigo retribuir o sorriso.
Somos tirados de nossas comemorações por um pigarreio do médico, ainda presente no quarto.
– E a jovenzinha que estava com você? – pergunta. – Ela estava muito preocupada, achei que fosse algo além de sua amiga. – me dá um olhar sugestivo, era a segunda vez naquela noite que eu tinha vontade de dar um murro naquele médico.
– Emma é uma amiga muito próxima, ela já foi para casa. – respondo secamente.
– Ah, sim... Ela não parava de repetir que não era para nada de ruim acontecer com o filho dela, fiquei até assustado, achando que ela era a grávida da história. – Termina e meu rosto é coberto por um rubor. Henry, que já sabia de toda a minha história com Emma, intervém.
– Quando ela poderá ir embora, doutor? – pergunta.
– Ela pode ir logo, apenas me prometa que marcará um médico para acompanhar essa gestação. – O médico responde e assina alguns papeis. – Pronto, a senhora está livre, dona Regina.
– SQ –
Eu estou lendo Meu Pé de Laranja Lima e chorando pela milésima vez. Aquele era um dos meus livros favoritos e, se eu já chorava normalmente, imagina agora grávida. Minha barriga de sete meses de gestação estava linda e meu menino não parava quieto.
Me remexo um pouco na cama e acaricio minha barriga.
– Bebê? – brinco e sinto meu filho chutar. – Assim machuca, filho. – Ele chuta mais uma vez e eu sorrio. Continuo os carinhos ali e vejo meu agora marido, Robin, chegar em casa.
A gravidez apressou o casamento, que já estava para acontecer. Agora nós morávamos juntos em seu apartamento, porém nós malmente nos víamos, pois ele passava maior parte do dia trabalhando.
– E aí? – pergunta, como de costume. Não havia amor em suas palavras e era claro para qualquer um que estávamos junto apenas por causa da minha indesejada gravidez. – Tudo certo com meu garotão? – Desfaz o nó de sua gravata e se abaixa para alisar minha barriga, enquanto sela seus lábios rapidamente nos meus.
– Ele está chutando aqui. – Eu solto uma risada leve. – deve estar feliz que você chegou. – Tento ser amigável, Robin, mesmo ausente, tentava ser um bom pai. Claro que ele nem chegava aos pés de certa loira, mas não tínhamos escolha.
– Poxa, papai. – fala, ainda virado para minha barriga. – Seu paizão aqui vai ter que sair hoje de noite, queria tanto ficar com vocês! – Exclama, e nosso filho chuta mais uma vez. – Quer que eu chame seu irmão Roland para vir brincar com você? – Olha para mim, esperando resposta. Mesmo estando na barriga, o bebê amava quando o irmão aparecia e sempre fazia a maior festa. Faço que sim com a cabeça, indicando que o Robin poderia chamar seu outro filho para dormir ali, afinal, uma companhia seria bom para mim.
– Chama ele que eu peço uma pizza pra nós três comermos. – falo.
– Ah, você é a melhor, Regina. – beija meus lábios mais uma vez e eu fico parada. – Ah, esqueci de te avisar, nós vamos viajar com os Swan, viu?
– O quê? – Me levanto de vez, ficando com a coluna ereta. – Explique isso aí direito, Robin.
– É uma viagem da empresa, vamos nós, seus pais e os Swan. – Explica e continua falando. – É uma semana no Caribe, para firmar a fusão das duas empresas.
– Eu não estou entendendo o motivo de termos que viajar apenas para assinar alguns papeis. – Na verdade eu entendia, apenas estava assustada com a possibilidade de passar uma semana inteira com Emma depois de tudo.
– Você não precisa entender, só precisa ir. – Diz e se retira do quarto, indo ligar para seu filho e avisar que estava indo busca-lo.
Certo, Regina Mills. Uma semana no Caribe com sua ex-namorada que virou sua atual por cinco minutos até você contar a ela que estava grávida. A verdade era que, desde o incidente do hospital, minha relação com Emma tinha voltado a ser apenas de professora e aluna.
Nós nos víamos na faculdade e apenas trocávamos as palavras necessárias, não por falta de tentativa minha, claro que não. Mas eu sabia e entendia ela. Eu entendia a sua vontade de querer se afastar de mim para não sofrer mais ainda.
Entender não é aceitar.
Eu entendia que não dava para a gente ser amigas, eu entendia que ficar com ela no mesmo lugar era nitroglicerina pura. Eu entendia. Eu entendia mas não aceitava, não aceitava a vontade de agarrar ela pelos corredores da faculdade, não aceitava ter que vê-la nos jantares em prol das duas empresas, a de minha família e da família dela. Eu não aceitava viver sem Emma, não agora que ela havia voltado para a minha vida tão de repente. Eu não aceitava viver sem Emma e ainda assim ali estava eu, vivendo.
Vivendo não, existindo. Eu deixei de viver no dia em que saí pela porta do nosso apartamento com uma mala nas mãos.
– SQ –
Uma semana tinha se passado desde que eu soube que viajaria com Emma e a família. Ali estava eu, meus pais, meu marido e os pais de Emma, apenas esperando a loira aparecer.
– Cadê essa menina? – perguntou Mary Margareth, completamente impaciente.
– Calma, Mary. – diz minha mãe, alisando os ombros da nova amiga. – Ela já já deve estar chegando.
Bastou minha mãe dizer isso e minha ex apareceu, acompanhada de sua cachorrinha de estimação, Belle. Faço cara de nojo e não escondo meu desconforto de ver aquela ridícula ali.
– Mãe, pai. – Diz ela, abraçando os pais. – Henry! – diz mais animada, abraçando fortemente meu pai. – Senhora Mills. – cumprimenta minha mãe, dessa vez mais receosa, afinal minha mãe ainda nutria certo ódio por ela. – Robin, Regina. – cumprimentou-nos, também de forma fria. – Gente, essa é minha namorada, Belle. – Meus pais olharam para mim com os olhos arregalados e eu dei de ombros, mostrando que não me importava, mas na verdade me importava muito.
– Você não disse que ela iria com a gente, Emma. – Mary repreendeu a filha, odiando a surpresa.
– Mas vai. – é fria com a mãe e eu desconheço aquela atitude. A ridícula da Belle apenas dá uma risadinha e segura possessivamente a cintura de Emma, olhando para mim. A vontade que eu tenho é de chegar na cara dela e falar queridinha, eu não preciso disso., mas me controlo.
A culpa é dos hormônios da gravidez, com certeza.
Ignoramos toda a confusão com Emma e a namorada nojenta e nos dirigimos ao jatinho particular que nos esperava.
O jato da empresa era luxo puro. Comportava 12 pessoas em cadeiras dispostas separadas umas das outras, de forma a ser o mais confortável possível. Havia também banheiro e um quarto, do qual logo me apossei, alegando que precisava ir deitada já que meus pés estavam doendo devido à gravidez.
Meus pés não estavam doendo coisa nenhuma, eu apenas não queria ter que passar algumas horas encarando minha ex-namorada e a ridícula da sua atual. Me deito na enorme cama de casal e abro meu livro, permanecendo absorta em minha leitura até chegarmos em nosso destino, parando apenas para descansar e comer algo, afinal, não iria matar o meu filho de fome.
É mais fácil amar do que ser amado. Aceite o amor, ele não vai ficar esperando para sempre.
Fale com o autor