Entre o Céu e o Mar: Amor, confiança e compreensão
4 Amor - parte 4.
Notas iniciais
Os pais de Regina eram, simplesmente, maravilhosos! Mesmo depois de toda a situação do beijo, eles foram totalmente gentis e cordiais comigo, inclusive o pai dela, que mal me conheceu e já foi me oferecendo emprego.
Almoçamos um delicioso risoto preparado pela minha sogra e ficamos até o final da tarde conversando amenidades, contando piadas e relembrando momentos vergonhosos de Regina, inclusive tenho certeza que eu pagaria caro por aquilo depois.
Saímos antes do jantar, mesmo ouvindo protestos dos pais dela. Alegamos que a nossa rotina começaria cedo na segunda feira e eles nos deixaram ir, não antes de nos fazer prometer que voltaríamos em breve.
A despedida com abraços afetuosos e sorrisos me fez perceber a falta que eu sentia de ter uma família. Sim, eu sentia falta de algo que eu nunca tive. Meus pais, mesmo estando vivos, malmente me davam atenção, então a minha família era composta pelos empregados da cobertura duplex em que eu cresci. Eu cresci ansiando por aquilo, ansiando para criar a minha própria família.
– SQ –
– Amor, posso dirigir? – Pergunto enquanto andamos em direção à saída.
– Claro que não, Emma. – Diz, indo para o lado do motorista,
– Mas você dirigiu quando a gente estava vindo... – fiz muxoxo.
– Você dirigiria na volta se não tivesse bebido a tal cerveja alemã. – Percebo algo diferente em sua voz. Seria ciúme?
– Uma cerveja não é suficiente para me impedir de dirigir, Regina. – afirmo.
– Emma, não! — Exclama e eu me assusto com a sua reação exagerada. – O carro é meu e eu não quero que você dirija agora.
Ela senta no banco do motorista e liga o carro. Eu continuo parada na calçada, tentando digerir suas palavras. O carro é dela.
– Vamos, Emma. – Me chama agoniada. – Entra logo. – Se estica e abre a porta para mim.
– Não, Regina. Eu não vou no seu carro. – Enfatizo o “seu” e saio andando pelo condomínio. Ela me segue com o veículo numa velocidade baixa e eu acelero o meu passo.
– Você é uma criança, meu Deus. – Diz, ainda me acompanhando de dentro do carro.
– Aha! – Dou uma risada em escárnio. – Agora é que eu não vou mesmo.
– Você está sendo infantil. – Avisa, num tom nervoso.
– Você esqueceu que eu sou uma criança? – Dobro a calçada e me bato com ninguém mais, ninguém menos, que Belle. Ela me segura em seus braços e sorri. Mesmo não vendo, eu consigo sentir o sangue de Regina subindo para a cabeça devido ao ciúme forte que ela possuía.
– Emma! – Fala a mulher na minha frente, claramente animada em me ver.
– Emma! – Grita a minha namorada, num tom de voz que, se fosse uma navalha, com certeza seria capaz de estraçalhar o rosto de Belle.
– Está perdida por aqui, Emma? – Pergunta, cordialmente. A esse instante Regina já estava com o carro parado e observando a nossa interação.
– Não, estou indo para entrada pegar um táxi. – Ouço um “hã?” vindo da minha morena e sorrio por dentro, eu iria estimular o lado ciumento dela.
– Quer uma carona? – Belle pergunta de forma solícita. Respondo com um sorriso e um aceno de cabeça, indicando que eu aceitaria e ignorando, completamente, a presença de Regina ali. – Ótimo, vamos então, meu carro está logo ali. – Coloca sua mão em minha cintura descaradamente e me guia até o seu carro.
– SQ –
– Eu lembro disso! – Belle solta uma gargalhada gostosa quando eu conto do dia em que um colega nosso, Victor, levou um sapo para a aula e todas as meninas ficaram malucas, morrendo de medo do que poderia acontecer. – Você foi uma das únicas que não teve medo.
– Eu sempre fui a mais corajosa daquele colégio, admita. – Ela riu e fez que sim com a cabeça. Eu conhecia Belle desde a terceira série, quando ela entrou no colégio em que eu estudava. Depois de um certo tempo, logo quando ficamos adolescentes, nos descobrimos lésbicas e acabamos ficando, para aplacar a curiosidade. De ficantes passamos a ter uma amizade
colorida e tudo teve seu fim quando minha mãe me tirou do colégio e me mandou para o Sine Timore, onde eu conheci Regina.
– Quer esticar um pouco a noite e ir comer uma pizza? – Me pergunta, enquanto estamos paradas no sinal.
– Nem sei... – Respondo e encosto minha cabeça no vidro do passageiro, observando a paisagem composta, basicamente, por prédios. – Regina vai ficar muito puta comigo.
– A sua amiga? – Seu tom é inocente, eu havia escondido o fato de Regina ser minha namorada, quase esposa. Eu ainda me perguntava o motivo de eu ter mentido para Belle, acho que eu ainda não estava pronta para ser vista como uma pessoa praticamente casada.
– Na verdade, ela é minha namorada. – Digo, completamente envergonhada. – Nós moramos juntas. – completo.
– Mas ela não é velha demais para você? – Pergunta e, por incrível que pareça, eu não consigo detectar nenhuma chateação em sua voz. Limpa a garganta e continua, percebo que ela mudou o trajeto e está se encaminhando para a nossa antiga pizzaria favorita. – Quer dizer, sem querer ofender, mas ela parece ter uns 25 anos...
– Ela tem 23. – Corrijo. – Nem é tão mais velha assim, cinco anos de diferença apenas.
– Vocês estão, claramente, em estágios diferentes da vida... – deixa a frase no ar e eu me calo, sabendo que ela tinha razão.
Sem conversarmos mais nada, Belle dirigiu e nos levou para a nossa pizzaria favorita. Entre risadas e uma conversa maravilhosa, comemos e bebemos vinho. Ela bebeu menos, mas eu bebi bastante, e já estava meio zonza quando ela me chamou para irmos embora e fomos.
Mesmo insistindo para que eu fosse para a sua casa, eu bati o pé e disse que queria ir para meu apartamento, então nos dirigimos até lá, que não ficava muito longe da pizzaria.
Ela parou na entrada do meu prédio e destravou o carro.
– Muito obrigada pela noite, Bells. – A chamei pelo apelido antigo, enquanto destravava o cinto de segurança e abria a porta.
– Você sabe que é sempre um prazer. – Disse e saiu comigo, me acompanhando até a porta. – Emma?
Me virei para atende-la, fui surpreendida por ela depositando um beijo em meus lábios. A principio eu fiquei um pouco atordoada, mas foi só ela colocar sua mão em minha nuca que eu, prontamente, abri a boca e dei passagem para a sua língua.
Sim, foi o efeito do álcool.
Só o efeito do álcool me faria fazer algo daquele tipo com Regina.
Assim que dei por mim, tratei por afastar Belle, que tinha um sorriso nos lábios.
– Eu... – Digo, gaguejando. – Eu tenho que ir, até a próxima, Bells. – Me afasto, entrando rapidamente no meu prédio.
Corro para o elevador e aperto o numero do nosso andar. Paro em frente a porta me perguntando da merda que eu tinha feito. Eu tinha acabado de deixar uma outra mulher me beijar, pior de tudo que foi logo após eu brigar com Regina.
Fiquei parada, ponderando se deveria contar a verdade ou não e decido que esconder seria o melhor a fazer, o que os olhos não veem, o coração não sente.
Mas quem disse que os olhos não viram?
– SQ –
Entro em casa fazendo o maior silêncio possível. Pé ante pé caminho e encontro a mesa completamente arrumada, pratos postos e velas acesas, já no final. Ela tinha feito tudo aquilo para mim.
Ando mais um pouco e vou para o nosso quarto, encontrando ela deitada de costas para a porta. Corro até ela e ouço seus soluços.
– Amor? – Chamo, calmamente?
– Sai daqui, Emma. – Seu tom de voz é hostil.
– Me perdoa, amor. – Digo, me sentando na cama e buscando seu corpo com minha mão. Rapidamente ela se esquiva do meu toque.
– Não ouse tocar em mim com as mãos que estavam em sua puta de luxo. – Se levanta e vai para o parapeito da janela.
Merda! Ela tinha visto tudo.
– Não é o que você está pensando, amor... – Ok, essa frase é a frase mais clichê do mundo quando se diz respeito a esse tipo de situação, mas não havia outra coisa a ser dita.
– Não é o que eu estou pensando, é o que eu estou constatando. – Diz, pela primeira vez olhando nos meus olhos. – Eu vi você beijando a tal Belle, Emma! Não se faça de desentendida.
– Ela me beijou primeiro! – respondo, em minha defesa.
– E daí que ela te beijou primeiro. — Me grita e sai andando pela casa. Vou em seu encalço e ela continua gritando. – Ela pode até ter te beijado primeiro, mas você correspondeu. – Se aproximou de mim, puxou a minha blusa e cheirou minha boca. Droga, ela tinha detectado o cheiro de álcool. – E ainda beberam vinho!
– Deixa eu te explicar, amor, — sou interrompida.
– Não me chama de amor!
– Tá, Regina, deixa eu te explicar. – Eu iria explicar o quê mesmo? O que ela tinha visto não tinha explicação, eu estava na merda. Fodidamente na merda.
– Você não tem o que explicar. – Seu choro havia cessado e ela andava de um lado para o outro, num sinal claro de nervoso. – Você podia pelo menos ter a decência de não me trair na frente do meu prédio.
– Seu não, nosso! – É a minha vez de me exaltar.
– Meu, seu, nosso... Não importa. – Minha namorada agora falava baixo e as lágrimas tinham voltado a rolar pela sua face. – Só me diz, quando foi que eu deixei de ser suficiente para você?
Puta que pariu, que pergunta era aquela. Regina era mais do que suficiente para mim, ela tinha entendido tudo errado.
– Você nunca deixou de ser suficiente para mim, e você sabe disso. – Respondo no mesmo tom de voz que ela e me aproximo, percebendo que ela baixou a guarda. – Você nunca vai deixar de ser suficiente para mim.
– Não foi o que pareceu quando você estava lá embaixo, beijando aquela mulher. – O rosto de Regina estava tomado pelas lágrimas e me matava saber que eu era a causadora delas. – Você foi procurar nela o que você não acha em mim, tempo, disponibilidade, jovialidade.
– Quem encheu sua cabeça com essas coisas? – Eu estava a centímetros dela, e levei meus braços até os seus, envolvendo-a num abraço desajeitado. A principio ela se debateu, tentou me dar tapas, me morder e me xingou de todos os nomes ruins possíveis, mas logo caiu no choro e eu não consegui evitar de deixar algumas lágrimas rolarem pelo meu rosto também.
– Quando foi que nós chegamos a esse ponto, Emma? – Me perguntou, com o nariz em meu pescoço.
– Eu não sei, não sei mesmo. – Eu afagava as suas costas, sabendo que o inevitável estava por vir. – Digo, contra seu ouvido. Sinto seu corpo se arrepiar dentro do meu abraço.
Ela se afasta, procura minhas mãos, as segura e olha profundamente nos meus olhos. Percebo, naquele momento, as gigantes diferenças entre nós, diferenças que só faziam nos afastar mais e mais. Suas íris castanhas contrastavam com minhas íris verdes e ficamos por um bom tempo naquela posição, ouvindo a respiração uma da outra e trocando olhares intensos.
Sua mão afaga carinhosamente a minha, seus olhos ternos analisam o meu rosto. Ela larga a minha mão esquerda e, com a sua direita, corre pela minha face. Eu fecho os olhos, me entregando ao seu toque, que faz todos os pelos de meu corpo se arrepiarem. Ela emaranha sua mão nos meus cabelos e me puxa, calmamente, para si.
Tento beijá-la, mas ela me repele, seus olhos também estão fechados e sinto seu peito subir e descer vagarosamente. Calmamente se inclina e procura a minha boca, beijando- a rapidamente. Interrompe o beijo e cola nossas testas.
– Não consigo te beijar. – Me diz, sinto seu hálito quente contra a minha pele. – Você ainda está com o gosto dela na sua boca.
– Me perdoa, Regina. – Digo, num sussurro.
– Eu vou te perdoar. – Ela responde e descola sua testa da minha, se afastando e me observando mais uma vez. Meu coração se aquece com a notícia e ela continua. – Eu vou te perdoar, só não sei quando.
Minha namorada inclina a cabeça para o lado, me olhando uma ultima vez antes de ir para o quarto e trancar a porta atrás de si.
Eu estava perdida.
De tudo ao meu amor serei atento
Antes, e com tal zelo, e sempre, e tanto
Que mesmo em face do maior encanto
Dele se encante mais meu pensamento.
Quero vivê-lo em cada vão momento
E em seu louvor hei de espalhar meu canto
E rir meu riso e derramar meu pranto
Ao seu pesar ou seu contentamento
E assim, quando mais tarde me procure
Quem sabe a morte, angústia de quem vive
Quem sabe a solidão, fim de quem ama
Eu possa me dizer do amor (que tive):
Que não seja imortal, posto que é chama
Mas que seja infinito enquanto dure.
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