Entre o Céu e o Inferno
3 Entre o céu e o inferno.
O dia já estava amanhecendo e já não sabia o que fazer, então resolvi ir à praia.
Mesmo correndo, não me cansava o que era o lado bom, o ruim, é que estava perdendo tempo.
Caminhei pela praia fazendo uma vistoria rápida com os olhos, mas como a cidade era pequena, seus moradores dificilmente saíam para a praia, ainda mais para se divertir no dia de finados. Logo, eu era a única alma naquele lugar.
Estava entrando em pânico, não sabia onde ela estaria, então retornei a casa dela, e estava vazia. Fui a um templo onde tive de subir as escadas de pedra, o que não eram curtas, mas ao final dela, foi um pouco complicado distinguir as almas naquele lugar, pois além de transparentes, haviam muitas.
Os monges estavam todos rezando em silencio ao ar livre, e como alguns moradores, se encontravam lá ajoelhados, rezando juntos.
Pensei muito onde ela estaria, então, lembrei um lugar no qual ela poderia ter ido. Desci as escadas à toda e corri entre as ruas pequenas, o que foi divertido de certa forma, pois não precisei olhar se vinha carros ou motos, afinal, eles me atravessavam.
Deparei-me finalmente com o portão de ferro todo trabalhado com um ar meio mórbido. O cemitério. Talvez ela pudesse estar lá, não só pelas nossas cinzas terem sido depositadas lá, mas ela vivia visitando o túmulo de seu falecido avô enquanto estava viva.
Fiquei um pouco assustado com a quantidade de almas que estavam lá. Quer dizer, já tinha visto um tanto considerável até agora, mas ali, a concentração estava maior.
Algumas famílias estavam ali rezando e acendendo incenso, mas não se davam conta que por quem rezavam, estavam ali, em sua frente. A maioria chorava se lamentando, outros estavam muito felizes e ninguém se deu conta de minha entrada.
Percorri as covas lendo os nomes, até achar a da família dela e li a inscrição da lápide. “A nossa filha que sempre nos encantou, Utada Hikaru.”
Não havia ninguém em frente ao túmulo, nem vivos, nem mortos.
Agora sim eu estava desesperado, não tinha ideia de onde ir e percebi que já deveria ser por volta das duas horas da tarde.
Fora do cemitério escutei uma voz familiar atrás de mim:
–Pensei que estaria com o seu amor agora –era o Ryo.
Quando me virei derrotado por não tê-la encontrado ainda, me surpreendi e muito. Ele estava com uma camiseta branca e a calça, desta vez preta, mas o surpreendente é que ele possuía asas agora. Ela deveria dar duas vezes o tamanho de seu corpo abertas.
Nunca pensei nele como um anjo, porque nunca o vi com asas e auréolas.Sempre pensei nele como um mensageiro ou algo assim, mas resolvi não contar isso a ele para não magoá-lo.
–Eu não sei onde ela está. –respondi sem graça.
Ele suspirou e ficou me encarando com seu rosto impassivo.
–Pensei que o amor de vocês fosse mais forte. –senti uma pontada enorme no peito quando ele disse isso, e quando fui responder ele riu e continuou. –Se quiser eu posso te ajudar a achá-la.
–Ah é? –não quis fazer tom de dúvida, mas simplesmente saiu, então tentei me corrigir. –O que você sabe sobre onde ela possa ter ido?
–Na verdade não sei. –apesar da resposta, ele sorriu graciosamente. –Sei das coisas que fez enquanto viva.
Então ele poderia saber o motivo pelo qual ela foi ao inferno.E aquilo esteve me intrigando o ano inteiro.Antes mesmo que eu dissesse algo, ele saiu andando pelas ruas na minha frente.
–Yamap, ela já lhe contou o que fazia antes de vir a essa cidade?
–Algumas coisas. –respondi confuso –Ela estava começando a cantar quando veio para cá e ...
–Ah certo.Isso mesmo. –Ryo levantou vôo com suas asas imensas e brancas e materializou aquela prancheta chata na qual vivia fazendo análises minhas. –Para uma jovem de dezessete anos, ela não fez muita coisa errada.
Ele voava de costas, encarando-me sem se preocupar com obstáculos, pois ele também estava transparente.
–Mas comparada à você, ela não era tão solidária.
Fiz uma cara pedindo explicação enquanto eu caminhava e ele flutuava.
–Sabe, na vida, as pessoas encontram suas oportunidades de se mostrarem boas, e ela teve muitas.Houve uma vez onde se recusou ajudar uma criança perdida, e esta faleceu em um atropelamento de carro.
Fiquei com uma expressão cética, afinal, ela não sabia que isto poderia vir a acontecer, mas deixei que ele continuasse.
–Aqui diz que ela jogava lixo no chão, deixava o irmão mais novo sozinho quando devia cuidar dele. –ele fez uma pausa e continuou. –ah, ela roubou o papel principal de um garota numa peça de teatro que participou.
Aquilo estava sendo ridículo.Eram apenas banalidades, coisas corriqueiras que as pessoas fazem sem querer.
–E só por isso ela foi para o inferno?Isso é injusto. –protestei.
–A vida não é justa e as vagas para o céu são limitadas. –respondeu-me sério. –Já que é assim, quando foi a ultima vez em vida que jogou um lixo no chão propositalmente?
Já fazia um ano que estava morto, não havia como me lembrar, mesmo porque, sempre jogava no lixo, pois era contra a poluição do meio ambiente.Como resposta, preferi manter meu silêncio.
–Viu Yamap.Você não faz coisas erradas.As pessoas que pensam que você faz.Você merece estar onde está assim como ela.
Resolvi relevar esta conversa e comecei a me preocupar com o tempo, já estava escurecendo e sem me dar conta, havia parado em frente a minha casa.
Fazia muito tempo que não via minha família quando os vi chegando pela rua.Meus pais estavam calmos e deviam estar voltando do templo.Eles entraram em casa e a vontade de entrar com eles iam aumentando a cada momento, então resolvi dar uma espiada.
Ryo não tentou me impedir, só ficou em silêncio e me seguiu.Dentro da casa, nada havia mudado, estava muito silencioso e meus pais estavam conversando sobre mim.Diziam como sentiam a minha falta e que já fazia um ano.
Tentei passar a mão no rosto de minha mãe, mas ela atravessou.Resolvi sair da casa antes que não conseguisse mais sair de lá.
Chegando lá fora, Ryo continuava em silêncio, esperando eu parar de chorar.
Fiquei uns minutos pensando no que devia fazer, se estava certo procurar alguém que nem sabia se havia retornado a terra para me ver.A minha primeira incerteza em nosso relacionamento.
Refiz vários caminhos por qual nós visitamos e já estava muito tarde e já sentia meu corpo fraco e estava começando a me cansar.
–Você morreu de uma forma tão patética. –comentou Ryo do nada.
–Foi sem querer, eu havia levado-a naquele lugar para mostrar como a cidade é linda do penhasco. –me senti culpado por me lembrar disso. –a culpa foi minha.
–Você foi àquele lugar só para ver a cidade? –perguntou Ryo surpreso, mas senti que ele sabia de algo mais, porque ele tinha uma ficha completa sobre mim com coisas que talvez nem eu sabesse– por que você foi logo a um penhasco?Não tinha um prédio ou outro lugar mais seguro para apreciar a vista?
–Claro que tinha, mas a ideia era mostrar a beleza da cidade em um lugar no qual não envolvesse a mão dos humanos, como um prédio construído ou um bonde. –respondi aquilo já de má vontade, pois o tempo estava realmente acabando e Ryo já estava se mostrando incoveniente.
–Se você morresse, para onde gostaria de retornar e por que? – ele estava flutuando na minha frente e caminhando para lugar nenhum entre as ruas já desertas.
Aquela pergunta sim havia me pego de surpresa, porque não me arrependia de nada, e sentia falta de tudo.Nada específico.
–Pense no ponto de vista dela Yamap.Algum lugar que ela gostaria de ter ido ou algo que queria ter feito antes de morrer.
A insistência dele já estava me irritando.Já disse que não sabia de nada.
–Faltam 20 minutos para a meia noite. –avisou-me. –você só viveu por dezessete anos e não consegue se lembrar de coisas importantes? –zombava.
Aquilo já havia chegado ao limite, então resolvi contra-atacar.
–Eu a levei àquele penhasco para mostrar como esta cidade podia ser tão bela quanto aquela cidade que mais parece formigueiro de pessoas chamada Tokyo. –senti um aperto no peito, mas tinha de continuar. –E sei que foi minha culpa.Não era para nós termos esse fim. –enquanto falava, estava extravasando toda a minha frustração, entao comecei a me recordar do dia em que caímos–Talvez se eu não tivesse enrolado tanto, estaríamos vivos agora. –Foi então que me toquei.Ela estava lá.
Aquele foi o único lugar no qual não verifiquei, pois estava crente que ela não retornaria ao lugar no qual morrera.Coloquei a mão no bolso e peguei um objeto pequeno e levantei para o alto e a luz da lua cintilava na aliança de prata.Ela sabia que eu iria entregar a ela naquele dia.
Ryo estava um pouco feliz, apesar de não demonstrar e ficou esperando.
–Já é tarde, não vou conseguir chegar lá ainda hoje. –respondi abaixando o braço enquanto o vento sobrava chacoalhando as folhas das árvores.
–Você tem treze minutos para começar a subir.
Antes que eu protestasse, vi que ele havia me guiado até o começo do penhasco.Antes que começasse a questionar o porquê dele não ter me dito logo onde ela estava, apenas sorri de tanta felicidade e comecei a subir.
A subida era íngreme, apesar de haver uma escada feita na terra para subir.Tentei ir o mais rápido que pude, mas o cansaço estava aumentando e minhas mão estavam cada vez mais transparentes.
O céu estava com poucas nuvens quando finalmente a que tampava a lua saiu da frente, então cheguei ao topo e vi a garota banhada pela luz de costas que tanto procurei.
Hikaru estava olhando a vista tranquila que dava para a praia, onde nós escorregamos e morremos.
–Hikaru –sussurrei baixo e quando ela se virou, estava radiante como sempre no seu uniforme escolar que nós estávamos usando quando viemos àquele lugar após a escola.
–Finalmente você veio. –disse ela com o seu tom gracioso. –Pensei que não viria mais para dar o anel.
Sorri com o punho fechado segurando o anel e me aproximei dela quando toda a magia do dia 2 de novembro estava acabando.Estendemos nossas mãos numa atitude desesperada de nos tocar pelo menos mais uma vez, mas já era tarde, tudo estava sumindo, tanto ela, quanto eu.
Mas não estávamos tristes, agora sabíamos o lugar no qual retornar.
Quando me dei conta, estava no vazio mais uma vez, parecia que tudo aquilo fora um sonho.Ryo apareceu com sua aparência habitual sem as asas e sentou-se ao meu lado.
–Eu não posso lhe falar o que deve fazer, apenas te orientar.
Aquilo justificava todo o porquê me provocara tanto.Desde o início ele sabia o porquê ela estaria lá, mas eu não estava bravo ou frustrado por ter passado tão pouco tempo com ela.Só de vê-la a saudade havia aumentado, mas todas as incertezas estavam sumindo.
Olhei o anel em minha mão e guardei mais uma vez no bolso direito da calça social da escola e continuei naquele lugar calmo com Ryo ao meu lado.
No próximo ano, não iria me permitir esquecer de nenhum detalhe dos meus dezessete anos de vida.
Entre o céu e o inferno, tudo o que nos separa é a terra, e este será sempre o nosso ponto de encontro, todos os dias dois de novembro até que nos reencarnemos de novo.
Notas finais
foi um final ... alternativo ! XD
nao me batam por eu ter mandado a Hikaru para o inferno por ter jogado papel no chao mimimi. Sou mto fã dela também ok?! <3 Deixem reviews com opiniões, plx T____T E muitiissimo obrigado por terem lido *___* Titia Akemi agradece e fica muito feliz por isso \o
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