Entre o Aço e a Sombra
7 Palavras, ofensas e gritos
O sol mal havia começado a baixar no horizonte quando o Rei Dhorwack, com um brilho conspiratório no olhar, anunciou a decisão: ele e a Rainha Elowen retornariam ao palácio, deixando Marcus e Claire sozinhos na mansão "Valle de Prata".
— Claire conhece o palácio e o que é funcional — disse o Rei, já subindo na carruagem. — Ela ajudará você a transformar este mausoléu de mármore em algo... habitável, Marcus. E tente não quebrar nada. Nem a paciência dela.
Assim que a carruagem real desapareceu na curva da estrada, o silêncio da mansão foi preenchido pelo som dos passos determinados de Claire ecoando no salão vazio.
— Muito bem, General — começou ela, batendo as mãos para tirar um pó invisível. — Vamos começar por este salão. É vasto, frio e grita "falta de personalidade". Precisamos de cortinas de veludo, talvez em um tom azul-marinho para combinar com seu humor sombrio, e alguns vasos de porcelana para dar vida aos cantos.
Marcus, que estava parado perto da lareira apagada com os braços cruzados, soltou um bufo de desdém.
— Cortinas de veludo? Eu não moro em um teatro, Mackenzie. Eu quero o mínimo. Uma mesa sólida, uma cadeira que não quebre e mapas nas paredes. Nada de vasos. Vasos são obstáculos para quem precisa se mover rápido.
Claire parou no meio da sala e o encarou, incrédula.
— Mapas nas paredes? Você quer transformar uma mansão de presente real em um posto de comando de fronteira? Por favor, Sinclair, tenha um pingo de decência! Esta casa é um símbolo da sua posição, não um acampamento de guerra onde se cheira a suor de cavalo e ferro velho.
— Minha posição foi conquistada com esse "ferro velho", sua mulher fútil! — Marcus deu um passo à frente, a voz subindo de volume. — Eu não pedi por tapetes persas que custam o preço de dez espadas. Eu pedi paz, e você é o oposto disso!
— Eu sou o oposto da sua ignorância! — Claire gritou de volta, aproximando-se dele até que estivessem a poucos centímetros de distância. — Você é tão bitolado pela guerra que não consegue ver a diferença entre beleza e fraqueza. Você é rústico, grosseiro e tem a profundidade de uma poça de lama!
— E você é uma parasita de palácio! — Marcus rugiu, o rosto ficando vermelho de fúria. — Passa a vida decorando salas e fofocando enquanto homens de verdade sangram para que você possa escolher a cor de uma droga de cortina! Você não passa de uma boneca arrogante com uma língua que deveria ter sido cortada há muito tempo!
Claire recuou como se tivesse levado um tapa, os olhos verdes faiscando com lágrimas de puro ódio e indignação.
— Boneca arrogante? — A voz dela tremeu, mas não de medo. — Pois saiba, General "Herói de Barro", que prefiro ser uma boneca com cérebro do que um animal que só sabe destruir tudo o que toca. Você não merece esta casa. Você merece uma caverna fria e escura, porque é lá que vivem as criaturas sem alma como você!
— SAIA DA MINHA FRENTE! — Marcus berrou, apontando para a porta, o som de sua voz fazendo os cristais do lustre acima deles tilintarem.
— Com todo o prazer! — Claire gritou, pegando sua bolsa com violência. — Fique com suas paredes vazias e sua vida miserável, Sinclair. Espero que os seus mapas lhe façam companhia à noite, porque nenhuma mulher sã suportaria o som da sua voz por mais de uma hora!
Ela saiu batendo os saltos com fúria, deixando Marcus sozinho no salão imenso, onde o eco de seus gritos ainda parecia vibrar nas paredes de mármore, agora mais frias do que nunca.
A porta do quarto no andar superior bateu com tanta força que o som ecoou por toda a estrutura de pedra da mansão. Marcus ficou parado no salão, o peito subindo e descendo com a respiração pesada, os punhos ainda cerrados. O silêncio que se seguiu foi cortante.
As horas passaram. O sol se pôs, dando lugar a uma noite carrancuda. Marcus tentou se ocupar examinando a lareira, mas sua mente voltava para a escadaria. Ele sabia que Claire não havia descido para o jantar improvisado que os criados da mansão haviam deixado. Nem para a água, nem para o vinho. Nada.
O General soltou um suspiro de derrota, passando a mão pelo rosto. Sua consciência, treinada para zelar pela vida de seus subordinados, começou a dar picadas desconfortáveis. Ela é uma lady, Sinclair, não um soldado veterano que aguenta dois dias de jejum por teimosia.
Ele subiu as escadas e parou diante da porta de carvalho. Bateu três vezes, de forma firme, mas sem a agressividade de antes.
— Senhorita Mackenzie? — Nenhuma resposta. — Claire? Trouxeram algo para comer. Não precisa sair, eu deixo na porta.
— Coma você, General! — A voz dela veio abafada, mas carregada de veneno. — Use o prato para treinar sua pontaria ou para alimentar seu ego gigante. Eu não quero nada que venha de você.
Marcus encostou a testa na madeira fria.
— Eu passei dos limites com o que disse. Não sou um homem de palavras delicadas, você sabe disso. Abra a porta. Está esfriando.
— Eu prefiro congelar a ter que olhar para essa sua cara de pedra novamente! — Um objeto, provavelmente um travesseiro ou um sapato, atingiu a porta pelo lado de dentro. — Me deixe em paz!
Marcus rosnou baixo, a paciência se esgotando novamente. Ele deu meia volta, descendo as escadas para pegar uma lanterna, decidido a dar um tempo para ela esfriar a cabeça. Mas, enquanto cruzava o saguão, ouviu um som que gelou seu sangue: o bater de cascos no pátio externo.
Ele correu para a janela. Lá fora, o céu havia desabado em uma chuva torrencial e fria. Sob a luz dos relâmpagos, ele viu a silhueta de Claire, montada em um dos cavalos da estrebaria, sem capa, sem proteção, apenas com seu vestido de seda agora colado ao corpo pela água.
— Mackenzie! Volte aqui! — Marcus gritou, escancarando a porta principal.
Ela nem olhou para trás. Com um comando firme, ela galopou em direção à estrada escura que levava de volta ao palácio, desaparecendo na cortina de chuva e sombras.
— Maldição! — Marcus esbravejou, saindo em disparada para as estrebarias. Aquela estrada era perigosa à noite, cheia de lama e curvas fechadas, e Claire, em sua fúria cega, estava correndo direto para um desastre.
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