Sem perder tempo, Grissom encontrou Jerome e, juntos, eles foram para a mansão de Heather. A porta da frente estava fechada, mas eles entraram por uma lateral. Heather estava lá, sentada em uma poltrona, com a mesma expressão de melancolia.

"Gil, o que você está fazendo aqui?", ela perguntou.

"Eu vim trazer um pouco de esperança, Heather", ele disse.

A porta se abriu novamente e Grissom deu um passo para o lado. Jerome, com a expressão emocionada, trouxe uma menina com ele. "Heather, esta é Alison. A sua neta."

Os olhos de Heather se encheram de lágrimas. Era a primeira vez que ela via a neta, a menina que ela lutava para proteger. As duas se olharam, o vínculo silencioso entre elas era uma nova chance para Heather.

Heather permaneceu imóvel, a respiração presa, enquanto seus olhos não desgrudavam de Alison. A menina, curiosa e um pouco tímida, segurava firme a mão do avô, mas não podia esconder a fascinação pelo rosto familiar que agora tinha diante de si.

— Ela… ela é… — Heather começou, a voz falhando. — Eu… — engoliu em seco, tentando organizar as palavras.

Grissom observava em silêncio, atento a cada reação, ciente de que aquele reencontro carregava mais emoção do que qualquer evidência em laboratório. Jerome, por sua vez, manteve um sorriso discreto, segurando Alison perto de si, mas deixando o espaço suficiente para o contato inicial entre avó e neta.

Finalmente, Heather se abaixou lentamente, estendendo as mãos, e Alison, após um instante de hesitação, aproximou-se e tocou o rosto dela com delicadeza. Um silêncio pesado e suave preencheu a sala, como se o tempo tivesse parado, marcando o início de um novo capítulo na vida de Heather — e, talvez, uma chance de redenção e reconexão que ninguém ali havia previsto.

Heather afastou-se ligeiramente de Alison e, sem deixar de sorrir para a neta, voltou o olhar para Grissom. Um brilho travesso percorreu seus olhos enquanto se aproximava dele e, de forma quase teatral, envolveu-o em um abraço firme, deixando claro que a felicidade de estar ali era total — mas que, no fundo, seu objetivo final ainda não estava completo.

— Ver minha neta… e ter você por perto… isso é quase perfeito, Gil — disse ela, com um leve tom de malícia, deixando implícito que o único detalhe que faltava para sua felicidade plena era que ele assumisse um papel mais pessoal em sua vida.

Grissom, pego de surpresa pelo gesto e pelo peso emocional da cena, manteve o abraço por alguns segundos, tentando equilibrar empatia e profissionalismo, enquanto no fundo sabia que Heather tinha consciência do efeito que exercia sobre ele. O silêncio que se seguiu era carregado de tensão, expectativa e um leve toque de humor involuntário — afinal, nenhum laboratório poderia preparar alguém para lidar com uma dominatrix determinada e uma neta encantadora ao mesmo tempo.

Grissom se afastou ligeiramente do abraço, respirando fundo. O calor do toque de Heather e o brilho nos olhos dela não deixavam dúvidas: não se tratava de amizade, era desejo. A percepção caiu sobre ele com clareza dolorosa.

Ele pensou em Sara, nas lágrimas contidas, na mágoa que ainda pairava no ar entre eles. Tudo que a morena havia dito fazia sentido agora. Heather não via nele apenas um aliado ou amigo — via um homem por quem se interessava profundamente.

O coração de Grissom apertou. Ele sabia que precisava colocar distância, estabelecer limites firmes, se quisesse ter alguma chance de reconquistar Sara. Era hora de agir com clareza, de separar sentimentos e situações, para que o amor que tinha por sua perita morena tivesse espaço para florescer novamente.

Com um último olhar para Alison e um gesto respeitoso para Heather, ele se retirou para os fundos da mansão, decidido: proteger a neta e a amiga era uma coisa; permitir que Heather ocupasse um espaço emocional demais em sua vida era outra. Sara tinha que vir primeiro.

Os dias seguintes se arrastaram com um peso constante. Grissom voltava para casa e encontrava o silêncio, quebrado apenas pelo olhar triste de Hank, que parecia carregar a mesma saudade que ele sentia. O cachorro, normalmente cheio de energia e esperteza, se contentava em deitar ao pé da porta, esperando por Sara, como se soubesse que o vazio da casa refletia algo maior.

Durante um plantão, Grissom conseguiu falar rapidamente com Sara. Com um tom contido, comentou sobre a tristeza de Hank. A morena, sempre atenta às sutilezas, sorriu e prometeu que no dia seguinte o passeio não faltaria. E assim foi: na manhã seguinte, Sara apareceu com a coleira em mãos, arrancando um abano de rabo animado de Hank e um pequeno suspiro de alívio do supervisor, que acompanhou a cena de longe, escondendo o alívio misturado com a tensão que ainda sentia.

Mesmo com pequenos momentos de normalidade, o ar entre eles continuava carregado. Heather ainda aparecia de vez em quando, com a elegância calculada que irritava Sara, e a morena se via constantemente dividida entre manter a compostura e ceder à irritação provocada pela dominatrix. Cada visita de Heather parecia um lembrete silencioso do espaço que Grissom ainda permitia que ela ocupasse — um lembrete que Sara tentava ignorar, mas que se infiltrava em cada pensamento.

E Grissom? Ele se mantinha firme, mas a cada encontro, a cada sorriso ou provocação de Heather, sentia o peso de suas escolhas. Ele sabia que precisava agir, mas o coração ainda lutava para equilibrar lealdade, amizade e amor — especialmente com Sara esperando, talvez com paciência, talvez com rancor, no outro lado desse triângulo silencioso.

Mais um plantão chegou e terminou. A tensão em duas pessoas era notada por todos.

Catherine estava debruçada sobre uma mesa de evidências quando Sara entrou para entregar relatórios. A jovem perita mal disse “aqui estão” e saiu apressada, sem encarar ninguém. Catherine a seguiu com o olhar, percebendo a rigidez nos ombros, a forma como ela evitava cruzar com Grissom no corredor.

Poucos minutos depois, Grissom entrou na sala. Tentou fingir normalidade, mas Catherine não era facilmente enganada.

Catherine (arqueando a sobrancelha):

— Vocês dois continuam brigados?

Grissom ajeitou os óculos, desviando o olhar.

— Não é da sua conta, Cath.

Catherine (seca, mas não cruel):

— Quando isso começa a afetar a equipe, passa a ser da minha conta. E eu acabei de ver a Sara sair daqui parecendo que o mundo desabou.

Ele suspirou, passando a mão pela barba.

— Eu… não sei como consertar.

Catherine se apoiou na mesa, cruzando os braços, encarando-o com firmeza.

— Sabe o que eu acho? Que você está prestes a perder a melhor coisa que já te aconteceu.

Grissom ergueu os olhos, surpreso com a franqueza.

Catherine:

— Você é brilhante com insetos, Gil. Mas quando se trata de pessoas… você complica demais. A Sara não precisa de enigmas ou meias palavras. Ela precisa de você inteiro. E, pelo que eu vejo, você ainda está deixando espaço para outra pessoa.

O silêncio caiu pesado. Grissom tentou responder, mas Catherine ergueu a mão.

— Não precisa me contar nada. Só pensa nisso: se fosse comigo, se eu tivesse alguém que me amasse como ela ama você, eu não deixaria escapar.

Ela pegou os relatórios sobre a mesa e saiu, deixando-o sozinho com o peso daquelas palavras.

Grissom permaneceu imóvel por alguns segundos, olhando para os relatórios que Catherine havia deixado sobre a mesa. Cada palavra dela ecoava na sua mente como um lembrete doloroso do que estava em jogo. Ele sabia que tinha dado espaço demais para Heather, permitido que certas linhas fossem cruzadas, e agora se via diante de um enigma muito mais complexo: reconquistar Sara.

Ele pegou suas coisas e partiu para casa. Entrou e encontrou Hank, deitado ao pé da mesa, que olhou para ele com aquela expressão que parecia dizer: você estragou feio dessa vez, não foi? Grissom soltou um suspiro, coçou a nuca e se inclinou contra a mesa, tentando organizar seus pensamentos.

— Certo… — murmurou para si mesmo — pensar, planejar… não estragar mais.

O silêncio da sala era pesado, mas também estranho, quase confortável. Por alguns minutos, ele apenas observou Hank, lembrando-se de como a simples presença de Sara acalmava o cachorro — e de como sua própria presença agora parecia insuficiente.

Ele sabia que precisava agir. E rápido. Mas, acima de tudo, precisava ser inteiro. Não podia mais permitir que mistérios ou pessoas intermediárias interferissem entre ele e Sara. E, no fundo, aquela percepção trouxe um pequeno e tímido alívio: ao menos agora, ele sabia exatamente o que estava em jogo.

No vestiário feminino, Sara estava sentada no banco, tentando respirar fundo enquanto trocava a camisa suada por uma mais confortável. O olhar fixo no chão denunciava a confusão dentro dela.

Catherine entrou em silêncio, abriu seu armário, mas percebeu a expressão da colega. Fechou a porta devagar e se aproximou.

Catherine (calma):

— Você está bem?

Sara levantou os olhos rapidamente, tentando disfarçar.

— Estou cansada, só isso.

Catherine se sentou ao lado dela, cruzando as pernas.

— Não me venha com “só isso”. Eu conheço você, Sara. E sei reconhecer quando alguém está quebrando por dentro.

Sara hesitou, mordendo o lábio. Não queria expor nada. Catherine percebeu o silêncio e decidiu não pressionar, mas deixou a porta aberta.

Catherine:

— Olha, eu não sei o que está acontecendo entre você e o Grissom… e sinceramente, não preciso saber. Mas eu sei o quanto você se dedica a esse time, o quanto você sempre esteve lá por ele — e por nós. Você não merece sentir que está sozinha nessa.

Sara respirou fundo, a voz quase falhando.

— Às vezes eu me pergunto se realmente vale a pena… dar tanto de mim.

Catherine colocou a mão no ombro dela, firme, mas solidária.

— Vale. Você só precisa lembrar que o valor do que você dá não depende de como os outros tratam isso. E se ele não perceber o que tem… é ele quem vai perder, não você.

Por um instante, os olhos de Sara marejaram, mas ela assentiu em silêncio. Catherine se levantou, voltando ao armário.

Catherine (sorriso breve, enquanto pegava o casaco):

— Você é mais forte do que imagina, Sara. Só não deixe ninguém fazer você esquecer disso.

Saiu, deixando Sara sozinha — mas dessa vez, com uma sensação de que alguém realmente a enxergava.

Brass estava lá, com a xícara na mão, tentando desvendar o mistério do café perfeito, quando Sara chegou. "Sabe, já passou da hora de eu arrumar um apart pra mim, né?", a morena soltou, com aquele tom de quem diz algo sério, mas não muito.

Brass deu uma risada. "Que é isso, Cookie! Estou amando ter você por aqui, fazendo companhia a este velho solitário que nem parece um velho, e nem é tão solitário, mas a gente finge que é!".

Sara revirou os olhos, mas com um sorriso, e seguiu para o banho. O capitão, por sua vez, voltou à sua missão na cozinha, até que... TOC, TOC!

Era Grissom, na porta, com aquela cara de quem perdeu a aposta e a carteira ao mesmo tempo. A sobrancelha de Brass subiu automaticamente. "Pela sua cara, bom… parece que você acabou de descobrir que a formiga também morde", ele soltou, sem a menor cerimônia.

Grissom suspirou, o humor claramente de férias. "A Sara falou com você?"

Brass deu um gole no café, como se fosse um uísque caríssimo. "Falou. E, Gil, não é fácil ver a Sara daquele jeito. A garota é dura na queda, mas quando o coração dela abre, é porque já tentou de tudo antes... inclusive te ignorar".

Grissom desviou o olhar, visivelmente constrangido. "Eu nunca quis machucá-la".

Brass ergueu a xícara em um brinde sarcástico. "Claro que não! Você só some do mapa, tira sabático sem avisar, passa a noite com a ex que parece saída de um filme de detetive dos anos 40… Coisas super básicas que qualquer mulher adoraria, né?"

Enquanto Grissom sentia o golpe, e Brass dava uma trégua, Sara saía do banho. O som das vozes na sala chamou a atenção dela. Ela se aproximou, e quando viu de quem se tratava, decidiu ouvir a conversa escondida, sabendo que a comédia estava apenas começando.

Sara se enrolou rapidamente na toalha, com o coração disparado, dividida entre querer se esconder e ouvir cada palavra de Grissom. O tom abatido dele, misturado com o sarcasmo gentil de Brass, fazia suas emoções oscilar entre raiva, tristeza e… uma pontada de nostalgia.

Grissom continuou, a voz baixa e firme:

— Eu não pensei que… que isso fosse machucar tanto.

Brass colocou a xícara de lado, apoiando-se no balcão:

— Gil… você pode ser brilhante com insetos, análises de laboratório e qualquer coisa microscópica, mas quando se trata de sentimentos humanos, você é um desastre ambulante.

Sara escondeu um sorriso, embora a ponta da frustração ainda a queimasse por dentro. Ele parecia genuinamente perdido, e isso era… quase fofo, se não fosse doloroso.

Grissom desviou o olhar, um pouco envergonhado:

— Eu só queria protegê-la, de qualquer forma…

— Proteger, Grissom? — Brass arqueou uma sobrancelha. — Você chama de proteger passar a noite com uma ex ficante e esconder isso da pessoa que você diz amar? Você virou assunto do laboratório após essa noite agitada e Sara teve que ouvir várias piadas em silêncio.

O silêncio que se seguiu foi preenchido apenas pelo café sendo mexido na xícara de Brass e pelo bater ocasional do coração de Sara, que não sabia se ria ou chorava por dentro. Ela deu um passo para trás, tentando não ser vista, mas curiosa demais para não ouvir o desabafo de Grissom.

— Gil… — continuou Brass, em tom quase paternal — você precisa escolher: ou aprende a lidar com a Sara inteira, ou vai passar a vida inteira sendo assombrado pelo que você não consegue consertar.

Sara respirou fundo, sabendo que cada palavra era a mais pura verdade, e que Grissom estava finalmente percebendo o que havia colocado em risco. E, secretamente, um pequeno sorriso escapou enquanto ela se afastava, imaginando a cara dele se soubesse que ela estava bem ali, ouvindo tudo.

Brass:

— Olha, Gil… eu não sou terapeuta, nem especialista em insetos. Mas sei reconhecer quando alguém está cansado de não ser prioridade. A Sara disse, com todas as letras, que prefere ficar sem você a continuar sendo tratada como figurante na sua vida.

Grissom ficou em silêncio, a dor estampada no rosto.

Brass (mais baixo, quase paternal):

— Eu sei que você gosta dela. Todo mundo sabe. Mas gostar não é suficiente se você não mostra, se não a coloca do seu lado nas decisões, nas coisas que importam. Ela está cansada de ser… excluída.

Brass completou:

— Então é isso, amigo. Ou você decide que a Sara faz parte da sua vida de verdade, com tudo que isso significa, ou vai acabar sozinho com seus besouros. E, acredite, inseto nenhum vai te dar segunda chance.

Grissom permaneceu em silêncio, os dedos entrelaçados à frente do corpo, olhando para o chão como se estivesse tentando organizar pensamentos que se recusavam a se alinhar. O peso das palavras de Brass era quase físico.

Sara, do outro lado da porta, escutava cada frase, cada pausa, e não pôde evitar um meio sorriso triste. Ele finalmente estava ouvindo — ou pelo menos alguém estava dizendo a ele o que precisava ouvir.

Brass deu um último gole no café, batendo a xícara levemente contra o balcão:

— Pense bem, Gil. As escolhas que você faz hoje vão ecoar amanhã. E não adianta chorar depois ou pedir desculpa se não agir agora.

O silêncio voltou, apenas com o zumbido da cafeteira ao fundo. Grissom levantou os olhos lentamente, como se estivesse se dando conta do abismo que havia se formado entre ele e Sara.

Enquanto isso, Sara, escondida e curiosa, recuou um passo, rindo baixinho de leve, misturando frustração e satisfação. Ela sabia que ele finalmente estava ouvindo — e talvez, só talvez, começando a entender.

"Amigo obrigado por me ouvir e por me dar conselhos. Saiba que vou fazer tudo que estiver ao meu alcance para ter Sara de volta em minha vida. Ela é o ar que eu respiro, a bateria que abastece o meu corpo e sem ela minha vida não tem sentido. Eu a amo muito. " desabafou Grissom para surpresa e animação de uma certa morena que escondida ouvia tudo.

Brass sorriu de leve, batendo no ombro do amigo:

— É isso, Gil. Agora é só colocar em prática. Menos besouros, mais atitudes.

Grissom respirou fundo, o peso do remorso ainda presente, mas com uma determinação renovada.

— Eu não vou deixar escapar. Dessa vez, nada de segredos. Nada de Heather atrapalhando. Ela vai saber que é prioridade.

Do outro lado da porta, Sara mal conteve um riso abafado, o coração batendo mais rápido. O alívio misturado à diversão era evidente — finalmente ele parecia perceber, de verdade, o quanto ela importava. Talvez houvesse esperança ainda.

Ela se afastou silenciosamente, pensando consigo mesma: Ok, Grissom… agora me prova que consegue fazer diferente.