Notas iniciais
Olá Darlisas. Há algum tempo venho com a ideia dessa fanfic na cabeça. Comecei a escrevê-la e resolvi postá-la aqui. Espero que vocês gostem. ♥

PRÓLOGO

No início do século XX, período em que o cultivo do café era a principal fonte econômica do país, a família Benedito era considerada uma das mais tradicionais e rentáveis de todo o Vale do Café e suas redondezas. Dispondo de boa parte das terras e fazendas daquela região, Felisberto Benedito dedicou-se, durante toda a vida, a estender seus negócios proporcionando, assim, uma vida confortável para sua esposa Ofélia e suas cinco filhas.

Ofélia e Felisberto casaram-se bastante jovens. Um matrimônio sem objeções, aclamado por ambas as famílias dos noivos. Ela, filha de um conhecido fazendeiro do Vale, era uma mulher de posses e fibra; altamente vaidosa e exigente em tudo relacionado à sua vida. Adorava dar festas em sua casa e estar em contato com as mais nobres famílias da cidade. A Sra. Benedito não costumava demonstrar lamentações, pelo contrário; seu humor era sempre excêntrico e contagiante.

Entretanto, a única coisa que deixava a matriarca dos Benedito melancólica era o fato de não ter tido nenhum filho homem. Sua preocupação limitava-se a questionar consigo mesma se suas filhas seriam capazes de manter sólida a fortuna da família. Lídia, a caçula, era uma garota espevitada e de humor exagerado. Demonstrava ingenuidade e malícia ao mesmo tempo; Cecília era sonhadora, doce e sensível. Vivia pelos cantos da vasta propriedade com um livro em mãos e a cabeça nas nuvens; Jane era a mais gentil e educada, considerada por muitos a mais bela em aparência e atitudes; Mariana não parava quieta um só segundo, vivia desbravando o Vale com Luccino, um amigo de infância; já Elisabeta, a primogênita, era considerada pela mãe a menina dos olhos de Felisberto. E, de fato, ela tinha razões para sê-lo. Elisabeta estava há seis anos morando na Europa.

A Benedito esteve, durante esse tempo, estudando Ciências Econômicas, inglês e literatura em Cambridge. Felisberto depositava total confiança em sua primogênita. Desde criança, Elisabeta sempre se mostrou uma menina preocupada com os negócios da família. Enquanto suas irmãs ficavam em casa brincando de bonecas ou correndo pelos jardins, ela costumava acompanhar Felisberto nas vistorias às fazendas, fazendo-lhe inúmeras perguntas. – característica de toda criança, ressalvando o nível das perguntas que Elisabeta fazia. A garota questionava sobre o solo, sobre o processo produtivo do café, a probabilidade de safra de determinado hectare, entre outras infinitas questões.

Além de português, inglês, história e literatura, Elisabeta era fascinada por números. Muitas vezes, quando não tinha nada importante para fazer, metia-se no escritório do pai e, naquela vasta sala cheia de livros e pilhas de papéis, a menina costumava passar horas resolvendo cálculos matemáticos dificílimos que encontrava sobre a mesa do pai. Gertrudes, a governanta da família só faltava arrancar os próprios fios de cabelo, procurando-a pela enorme casa. As qualidades de Elisabeta alimentavam de forma gradativa em seu pai a ideia de reportar a ela, em um futuro próximo, a direção total dos negócios da família. A princípio Elisabeta se sentiu amedrontada, cogitando recusar a proposta. Mas, conforme foi crescendo, a missão foi naturalizando-se em sua cabeça. Afinal de contas, as outras irmãs haviam deixado claro que não tinham o menor interesse em fazê-lo.

Após graduar-se, Elisabeta estava pronta para voltar ao Brasil. Além das bagagens culturais e físicas, a moça levava consigo o namorado – quase noivo, segundo ele – o inglês Jonh Morland, que pretendia passar uma quinzena naquele país. Antes de viajar à Europa, Elisabeta não tinha a intenção de se envolver amorosamente com ninguém. Seu objetivo era estudar muito. Se profissionalizar na área que havia escolhido e se tornar uma mulher bem-sucedida e independente. Mas o destino resolveu colocar aquele rapaz em seu caminho. Elisabeta e Morland se conheceram em uma das aulas de inglês do primeiro ano de faculdade. O rapaz sempre a observava de longe, timidamente, mas nunca tinha coragem de se aproximar dela e tentar desenvolver uma conversa. A personalidade crítica de Elisabeta despertava, em Morland, uma imensa vontade de conhecê-la; principalmente quando a ouvia falar sobre a cultura e as peculiaridades brasileiras tão distintas das de seu País. Entretanto, o rapaz nunca tinha coragem o suficiente para fazê-lo.

O atraso era uma das coisas que o sisudo Mr. Thompson jamais tolerara em sua classe e, no dia de uma importante prova aplicada por ele, Elisabeta resolveu passar a noite anterior em claro, estudando e tentando absorver ao máximo os conteúdos. No dia seguinte, mal conseguia abrir os olhos, menos ainda acordar no horário certo e chegar a tempo à Universidade. John, num ato de cavalheirismo, fez questão de inventar uma mentira fabulosa e, assim, livrar a pele de Elisabeta de reprovar o período. Desde então ambos se tornaram grandes amigos, confidentes e, posteriormente, namorados. Elisabeta ensinou Morland a falar algumas palavras em Português. Num ritmo de aulas frequentes e agradáveis, em pouco tempo o rapaz já conseguia manter uma conversa de até uma hora no idioma.

Quando pisou em solo brasileiro, Elisabeta não imaginava as desventuras que iria enfrentar. A população carente do Vale estava em pé-de-guerra com as famílias de posse. Pois, segundo os protestantes, os arrendatários do Vale estavam se negando a continuar contribuindo com as obras da igreja, obras cuja responsabilidade incluía apoio à educação pública e à saúde da população. Na tentativa de selar a paz entre eles, Elisabeta decidiu ouvi-los e, mais do que isso, decidiu também dar aulas de forma voluntária na escola secundária do Vale.

Nessa escola Elisabeta conheceu de perto Charlotte Williamson; uma menina educada e com sede de conhecimento, uma das jovens voluntárias daquela instituição. Elisabeta instantaneamente afeiçoou-se pela garota, levando livros e enciclopédias, trocando experiências sobre autores e sobre as mais diversas histórias. Entretanto, mal sabia ela que, mesmo contra sua vontade, iria afeiçoar-se mais ainda por seu irmão, Darcy Williamson. Um rapaz que de nobre só lhe restavam o sobrenome e os sentimentos.