Depois de intensos dias de chuva o sol finalmente saiu, tornando a manhã de sexta-feira agradável e iluminada. Naquela manhã Elisabeta acordou bem cedo, sendo a segunda da família a levantar da cama. Ela mantinha o hábito de ir silenciosamente ao escritório levar uma caneca de café para seu pai. Felisberto estaria imerso no trabalho para, mais tarde, poder estar à mesa com toda a família sem muitas preocupações e sem pensar nos negócios e nas dores de cabeça que eles causavam.

Algumas horas depois a mesa do café da manhã na Mansão Benedito estava posta e incrivelmente bonita. Nela, havia muita variedade. Um verdadeiro banquete. Todos os pares de olhos encaravam as deliciosas comidas com uma vontade insaciável de beliscá-las a qualquer momento. Mas Elisabeta pediu um pouco mais de paciência, pois estava esperando por Darcy. Pelas suas contas, se não lhe falhasse a memória, sua chegada aconteceria em menos de trinta minutos. Meia hora se passou, mas Darcy não apareceu. Todos sugeriram ter surgido algum contratempo que facilmente justificaria o atraso. Afinal de contas pneus furam. Combustível acaba... Então, eles esperaram mais meia hora e nada. Esperaram, na realidade, o resto do dia... e nada. Não havia mais apetite entre aqueles que esperavam por Darcy. Havia apenas expectativa e dúvida.

Passava de 20 horas quando Felisberto desligou o telefone, após alguns minutos de conversa. Julieta acabara de lhe confirmar que Darcy havia deixado São Paulo no início da noite anterior. Disse também que ele estava motivado para retornar ao Vale o mais rápido possível. Ele não havia sido claro o bastante, mas informara que estava disposto a tomar uma importante decisão. Todos na sala se entreolharam, confusos. Charlotte tentava disfarçar, mas seu rosto pálido e olhar distante indicavam uma enorme angústia. Elisabeta levantou-se do sofá onde estava e sentou-se perto da garota. Charlotte segurou a mão fria de Elisabeta e disse, com a voz entrecortada:

— Eu estou bem, Elisa! E sinto que Darcy também está! – Os olhos azuis de Charlotte transmitiam confiança. Elisabeta a puxou para mais perto. Ela precisava de um abraço. Ambas precisavam.

— Eu também sinto o mesmo, minha querida! – Ela respondeu, depositando um beijo na cabeça da menina.

Jane, Mariana, Cecília e Lídia se aproximaram das duas, formando um caloroso abraço. Todas estavam bastante apreensivas, mas não mais que dona Ofélia. A senhora estava a ponto de ir até a delegacia, ou, do contrário, ela mesma iria dar início à busca por Darcy.

— Alguém precisa fazer alguma coisa. Alguém precisa se mexer! – A voz alta e imperativa de Ofélia atraiu, imediatamente, a atenção de todos. –, e se aconteceu algo mais sério que um simples contratempo com meu genro? –questionou exasperadamente, pondo as mãos sobre a cabeça.

— Não se desespere Ofélia. Isso não irá resolver a situação. – Felisberto na mais perfeita calma aproximou-se da esposa, tocando-lhe os braços.

— Eu bem que gostaria, mas não tenho essa sua calma, Felisberto. – virou-se para encará-lo. – São Paulo não é tão distante assim. E você ouviu, não ouviu?! Julieta disse que ele veio direto para cá.

Felisberto apenas sacudiu a cabeça. Preferiu não comentar mais nada. Sabia perfeitamente que era inútil contrariar Ofélia.

Alguns momentos depois Camilo Bittencourt adentrou a sala abruptamente, sem bater. Suas expressões e gesticulações demonstravam uma mescla de nervosismo, ansiedade, aflição. Certamente ele não conseguia organizar as palavras. Era uma notícia difícil de dar. Era difícil porque ele próprio não sabia como lidar com ela. Não conseguia digerir o fato de seu melhor amigo ter sofrido um acidente daquela proporção.

Com bastante pesar, Camilo explicou em detalhes o ocorrido. As reações foram diversas: Ofélia sentou-se abruptamente no sofá. As mãos cobriam o rosto e a tristeza invadia seu peito lentamente. Felisberto pela primeira vez em todo o dia mostrou-se verdadeiramente alterado. As quatro irmãs ficaram incrédulas, sentindo o sangue esvair de seus rostos. Elisabeta e Charlotte começaram a fazer perguntas a Camilo, que permanecia de pé no centro da sala, com o rosto completamente pálido.

— Onde ele está Camilo? Me leve até ele, preciso vê-lo! – Elisabeta suplicou. Havia urgência em sua voz.

— Camilo, por favor, nos leve. Como está meu irmão? — Perguntou Charlotte, já em prantos. — Por favor, me diga que ele está bem.

Ele olhou para uma e para a outra, completamente atordoado.

Todos na sala permaneceram dolorosamente ansiosos pela resposta de Camilo. Mas ele não conseguiu proferir uma palavra sequer. Subitamente, um choro descontrolado o atingiu e o peso do corpo caiu violentamente sobre o sofá. Seu rosto estava escondido entre os joelhos, como um menino em plena agonia. Jane aproximou-se dele, segurando firmemente sua mão.

— No local do acidente... – Camilo começou a falar, lentamente, voltando-se para Elisabeta e Charlotte. Sua voz estava embargada e as palavras saiam quase inaudíveis –, só foi encontrado o carro de Darcy e alguns pertences dele. Mas ele não estava lá, Elisa. A polícia de São Paulo até agora não o encontrou.

— Como isso é possível, Camilo? — Elisabeta perguntou, diretamente. As mãos dela começavam a suar frio. Embora ela fizesse o possível para manter o autocontrole.

Camilo manteve-se cabisbaixo. Não imaginava o quão difícil seria levar aquela notícia às pessoas que ele já considerava tanto.

— Felizmente não houve explosão. – ele continuou, com um pouco mais de calma. – O automóvel, segundo a polícia, está totalmente danificado, mas não pegou fogo. Isso nos dá esperança.

Camilo, por fim, levantou a cabeça e sentiu uma forte dor. Seus olhos estavam vermelhos.

Embora estivesse visivelmente abalada, Elisabeta não conseguia em hipótese alguma pensar no pior. Preferiria acreditar em tudo, menos no pior. O destino não seria tão covarde. Darcy e ela tinham uma vida inteira para desfrutar juntos. Tinham um mundo inteiro para percorrer. E todos esses sonhos não podiam escapar de suas mãos assim, do nada. Era doloroso sequer pensar nisso. Diferente da mãe, ela não era muito religiosa. Mas de alguma forma, nutria fé em seu interior. Naquela ocasião, essa fé quase desconhecida converteu-se em sua maior fortaleza.

— Eu não consigo entender o que aconteceu. O carro de Darcy estava em perfeitas condições. Ele é um excelente motorista, é responsável... – Camilo fez uma breve pausa, em seguida continuou. –Aquele grandalhão não pode sumir das nossas vidas desse jeito. – Naquele instante ele sentiu vontade de pegar seu carro e sair sem rumo à procura do amigo. Ele tinha absoluta certeza que em uma situação oposta, Darcy faria o mesmo por ele sem pensar duas vezes.

•••

Durante dois dias seguidos as buscas por Darcy permaneceram contínuas. O acidente do rapaz gerou comoção em todo o Vale do Café. As pessoas largaram seus afazeres e se dispuseram a ajudar com a melhor das intenções. A causa era dolorosa, mas a ação era de uma generosidade ímpar. O inglês, apesar do jeito muitas vezes introvertido, era bastante querido por todos. Foram publicadas notícias nos jornais do Vale e de São Paulo. A mobilização em torno do caso era enorme. Em menos de dois dias eles já haviam procurado em quase toda a região próximo ao local onde ocorreu o acidente. Mas infelizmente ninguém havia encontrado pista alguma sobre o que tinha acontecido com Darcy. A cada hora que passava, Elisabeta sentia o coração apertar cada vez mais. Sentia uma dor profunda. Algo que ela nunca tinha sentido antes. Era como se uma parte dela tivesse se perdido também.

— Por favor, não fique assim. – Jane levou uma bandeja com café da manhã para Elisabeta. A moça teve que empurrar à força o suco na boca da irmã mais velha como se ela fosse uma criança. Elisabeta se negava terminantemente a ingerir qualquer alimento. Dizia não sentir fome alguma. Dizia que só em olhar para a comida, sentia seu estômago revirar. Ela havia passado a última noite em claro, ajudando nas buscas até alta madrugada. Não parou para descansar um minuto sequer. Seu corpo estava bastante fraco. E sua mente um turbilhão.

— Jane – Elisabeta sentou-se na cama, olhando atentamente para a irmã. – Eu queria que você me acompanhasse à igreja.

— À igreja? Claro! Claro que sim. – Ela segurou a mão de Elisabeta, depositando um beijo. – Mas você precisa me prometer que vai se alimentar. Você é uma das pessoas mais fortes que conheço Elisa. Mas ainda é humana. Apesar de eu achar, às vezes, que você não é deste planeta. – ainda que bastante triste, havia um pouco de ânimo em sua voz.

Elisabeta forçou um sorriso. E se esforçou também para experimentar um pedaço de bolo sob o olhar atento de Jane. Pouco a pouco ela sentiu seu apetite voltar. O que o carinho e o amor fraterno não eram capazes de fazer?

Antes de sair Elisabeta fora até o quarto onde Charlotte dormia. O sono da menina era instável. Ela virava de um lado para o outro da cama, desconfortavelmente inquieta. Elisabeta depositou um beijo em sua bochecha e depois cobriu seu braço com o lençol. As duas irmãs deixaram a mansão em surdina, sem que ninguém percebesse. Todos da família estavam extremamente cansados. Passaram 48h despertos, atentos. Até o mais alto barulho não os acordaria naquele momento.

A igreja estava vazia. Parecia que a cidade de modo geral havia amanhecido triste. Elisabeta aproximou-se do altar e se ajoelhou. Ela rezava baixinho. De olhos fechados. Jane permanecia a seu lado, tocando levemente seus cabelos. Enquanto proferia uma oração aprendida ainda na infância, Elisabeta pôde sentir o calor das lágrimas que escorriam lentamente por sua face. Havia força em cada palavra que saía de sua boca. Ela manteve-se confiante e sentiu a esperança aquecer seu coração novamente.

Eram dias difíceis.

Elisabeta permaneceu tão absorta naquele singelo momento íntimo entre ela e sua fé que sequer sentiu-se incomodada. Havia um barulho estridente oriundo do solo antigo e amadeirado da igreja. Parecia que algo pesado passava por ali e que a qualquer momento poderia afundar o chão. O barulho ficava cada vez mais intenso à medida que os passos se aproximavam cada vez mais do altar, onde as irmãs seguiam ajoelhadas. Jane retirou seu véu azul-celeste da cabeça e olhou para trás, timidamente. No mesmo instante, ela virou-se novamente para Elisabeta, tateando o braço da irmã com fervorosa insistência. A moça estava perplexa. Sentia o coração acelerar abruptamente. Elisabeta fitou o rosto pálido de Jane e, em seguida, olhou para trás despretensiosamente.

Se uma imagem pudesse resumir o significado da palavra felicidade, essa imagem era, para Elisabeta, o largo sorriso que Darcy apresentava naquele momento.

Para a total surpresa de Elisabeta e Jane; Darcy não estava sozinho. Do seu lado direito e esquerdo havia um homem e uma mulher. E ele estava apoiado nessas duas pessoas de meia-idade. Darcy sentia dificuldade para caminhar e, por essa razão, movia-se lentamente. Seu rosto estava machucado e havia alguns hematomas em sua testa franzida. Um braço estava imobilizado de forma improvisada e o outro parecia bastante ferido também. Elisabeta sentiu dó em vê-lo daquele jeito, tão debilitado. Mas ele continuava esforçando-se para sorrir e manter-se de pé. Ela rapidamente se levantou, correu até ele e o abraçou com cuidado. Jane observava tudo com os olhos marejados. Aquilo era um verdadeiro milagre.

— Esses dois, Elisabeta! Esses dois me salvaram. – Darcy deu um beijo na mão da mulher e um aperto firme no ombro do homem. – Eles me encontraram na noite do acidente e me ajudaram desde então. Prestaram os primeiros socorros; levaram-me até sua casa, cuidaram dos ferimentos... Se não fosse pelo seu Floriano e pela Dona Joana, eu nem sei o que seria de mim. – Darcy estava bastante emocionado, com a voz embargada. Elisabeta, talvez, estivesse ainda mais emocionada que ele.

— Meu Deus! Eu... Eu nem sei como agradecê-los. – Com as mãos trêmulas, Elisabeta tocou as mãos do casal de senhores. Os dois camponeses retribuíram o gesto através de um largo sorriso.

— Mas, meu amor. – Ela pôs novamente o braço em volta da cintura de Darcy, enquanto ele mantinha-se apoiado em um dos bancos de madeira – Você precisa ir para um hospital. Precisa fazer exames. Saber se está tudo bem. Se quebrou algo...

Ela estava em pânico. As mãos de Elisabeta passearam desesperadamente pelo rosto de Darcy. Em seguida pelos braços, verificando-os atentamente.

— Sim, meu amor. Você está certa! Mas primeiramente eu tinha que vir aqui, Elisa. Quando estava descendo da charrete dos meus amigos, assim que chegamos ao centro da cidade com destino à sua casa, vi você e Jane passando, de longe. Imediatamente suspeitei que vocês viessem para cá. E esse lugar, ah Elisabeta, esse lugar é tão significativo... – Darcy olhou para cima, contemplando as imagens dos anjos no teto. Olhou para as paredes de tom amarelado e, em seguida, direcionou seu olhar para a pequena porta que dava acesso à sala do padre Carlos. – Foi neste lugar que eu te vi pela primeira vez. Foi neste lugar onde eu me apaixonei instantaneamente pela garota mais linda e incrível desse planeta. Você saiu daquela sala como um furacão, sabe? Parecia feliz, parecia nervosa, parecia alguém... completamente apaixonante.

As mãos de Elisabeta estavam trêmulas, sua boca estava aberta, seus olhos marejados. O coração? Ah, este estava a ponto de sair pela boca. Darcy nunca havia lhe contado sobre aquilo. Para Elisa, a primeira vez que eles se viram havia sido na ocasião da festa. Talvez não existisse lugar melhor para aquele reencontro.

— E, Senhorita Elisabeta Benedito. – continuou ele, enquanto esforçava- se para colocar uma das mãos dentro do bolso da calça quase esfarrapada. – eu suspeito profundamente que isso seja um sinal divino.

Elisabeta respirou fundo. Ela presumia já ter visto o desenrolar daquele ato em algum lugar. No cinema, na literatura, talvez. Mas nunca assim, presencialmente e sendo ela a protagonista. Os olhos verdes de Darcy encaravam os olhos dela com um brilho especial. Ela passou a mão pela saia do vestido, apertando o tecido de seda. Jamais se sentiu tão nervosa em toda sua vida.

— Para perguntar... – Ele finalmente conseguiu tirar algo do bolso que parecia ser uma caixinha coberta de veludo. – se a senhorita aceita se casar comigo. Prometo não voltar a dar sustos como esse. — Darcy mantinha um sorriso torto. E o olhar cheio de expectativa.

Ele quis se ajoelhar, mas Elisabeta o impediu prontamente. Seria loucura.

Ele retirou da caixinha um anel singelo, porém muito bonito. Esse objeto esteve com ele durante toda a viagem de volta ao Vale. E, apesar do acidente, a peça permaneceu milagrosamente intacta em seu bolso. Até parece que ela sabia que seu destino estava logo ali, à sua frente.

Seria uma loucura pedi-la em casamento naquelas circunstâncias? Darcy julgara que sim e não. Não porque a amava mais que tudo; Sim porque era Elisabeta Benedito e a resposta seria algo imprevisível. E isso era bom demais e arriscado demais, ao mesmo tempo.

Darcy manteve-se com o coração na mão esperando o sim ou o não de Elisabeta. O silêncio torturante dela parecia durar uma eternidade.

Elisabeta em um impulso só puxou o pescoço dele em sua direção, esquecendo-se completamente do estado em que seu namorado estava.

— Sim! Sim! Infinitos SIM! – Ela então afundou as mãos nos fartos cabelos de Darcy. Seus lábios buscaram com urgência os dele em um beijo apaixonado. – Poderíamos nos casar hoje mesmo se isso fosse possível.

Darcy riu e, por causa desse riso, sentiu seu abdômen reclamar que não estava muito legal. Na verdade, ele não estava em condições de se casar. Mal conseguia ficar de pé sozinho. Mas ele poderia facilmente arriscar uma loucura do tipo por Elisabeta. De certa forma, passar a lua de mel sob seus cuidados não seria uma má ideia. Passar a vida inteira, na verdade. – Ele ponderou mentalmente.

Todos que ali estavam os observavam com muita emoção. Jane transbordava felicidade por vê-los juntos novamente.

— Eu te amo tanto Elisabeta Benedito. – O sorriso de Darcy fez o coração de Elisabeta errar as batidas. Era absurdamente lindo.

Por força do hábito e da euforia, Darcy quis levantar a noiva ali mesmo e sair rodopiando e gritando para quem quisesse ouvir o quanto ele a amava. Mas ao tentar fazer isso sentiu que o braço não suportaria, logo, ele desistiu da ideia. Momentos depois, todos voltaram para a mansão Benedito para comemorar. Charlotte esfregou os olhos inchados compulsivamente para ter certeza que não estava sonhando. Ela correu até o irmão e o abraçou por, pelo menos, cinco minutos. A garota soluçava, mas o choro era de felicidade. A família inteira estava imensamente feliz.

— Não disse que você seria a primeira a subir ao altar?! – Jane empurrou de leve a irmã com o ombro. – eu faço questão de ser a madrinha também, somos quatro, mas eu sou prioridade e testemunha desse amor lindo!

Elisabeta revirou os olhos e riu, divertida.

— Sinta-se honrosamente convidada, minha irmã. – as duas trocaram um sorriso cúmplice e um abraço reconfortante.

De repente, todos foram pegos de surpresa por uma voz alta e eminente vinda da cozinha:

“O casamento de Darcy e Elisabeta está designado a ser o mais lindo e comentado de todo o Vale do Café.” Ofélia disse, euforicamente.

E, se Ofélia disse, então estava decidido!