Era de se esperar que, naquele instante, Elisabeta se jogasse nos braços de Darcy e o abraçasse com euforia, assim como faziam as “mocinhas dos romances modernos”. Mas havia um porém: Elisabeta não se encaixava no perfil das mocinhas dos romances modernos e, dessa forma, a reação dela foi menos calorosa do que o esperado. A moça simplesmente manteve seu olhar fixo ao dele, literalmente paralisada; incapaz de proferir uma palavra sequer. O silêncio ensurdecedor de Elisabeta fez com que Darcy sentisse um leve aperto no peito. Ao perceber que o ar lhe faltaria a qualquer momento, ele se sentou no chão, encarando a paisagem do lugar que fazia parte do trajeto de volta ao centro do Vale do Café. Estaria ele sendo precipitado? Estaria ela prestes a negar seu pedido? Subitamente inúmeras questões invadiram a mente do rapaz. Darcy não se considerava um homem inseguro, mas desde o dia que conhecera Elisabeta, a insegurança tornou-se presença constante em seus dias. Pela primeira vez uma mulher havia despertado nele o desejo de dividir uma vida; de imaginar um futuro onde ambos estariam ao lado um do outro, numa cumplicidade mútua. Essa mulher era Elisabeta Benedito. Com ela tudo era novo. Tudo era estranhamente confortável, simples e possível. Darcy esteve envolvido em relações amorosas durante o período de estudos na Europa; mas em nenhuma das relações ele sentiu verdadeiramente a possibilidade de manter um relacionamento concreto, duradouro, feliz. E mais, nenhuma das mulheres as quais Darcy havia se relacionado puderam despertar nele as sensações que a presença de Elisabeta despertava. Ele pôde constatar este fato quando sentiu a mão dela tocar suas costas, afagando-a; como se ela quisesse falar algo por meio daquele toque.

— Me desculpe Elisa, eu sei que estou sendo precipitado. Eu só... – Enquanto falava, Darcy mantinha uma das mãos segurando firmemente o rosto de Elisabeta que, por sua vez, continuava sentada ao lado dele, abraçando-o. – Eu preciso entender que você precisa do seu tempo. Que é tudo muito recente e...

— Darcy. – Elisabeta tocou o rosto dele, e os olhares de ambos se encontraram. Através do olhar ela podia perfeitamente ler os sentimentos dele. Os olhos de Darcy demonstravam confusão; Elisabeta queria dissipá-la. – Se você não pedisse, pode ter certeza que eu mesma faria isso. SIM! Eu aceito ser sua namorada. Não entendo como você pôde pensar que eu recusaria...

— Seu silêncio foi torturante Elisabeta. – Ele disse, enquanto ela brincava com os botões da camisa dele.

— Eu fiquei sem palavras. Você hoje me proporcionou uma das tardes mais lindas de toda a minha vida. Fez eu me sentir mais viva do que nunca; me fez dançar e experimentar o melhor de uma cultura que eu não tinha afinidade e agora me pergunta se quero ser sua namorada... Como eu não aceitaria ser namorada do homem mais lindo e encantador desse mundo? Hein? – Elisabeta sorriu e aproximou-se do rosto dele. Institivamente ela já estava com os lábios unidos aos dele. Num beijo doce e provocante. As mãos afundadas nos cabelos dele; ela estava sentindo o calor percorrer toda a extremidade do seu corpo ao sentir as mãos de Darcy invadir sua cintura, descendo em direção à sua coxa, puxando-a para mais perto dele.

— Meu amor. – Elisabeta fez um esforço fora do comum para cessar o beijo que, a cada segundo, se intensificava. – Parece que já vai escurecer, precisamos ir... O tempo está mudando de repente, olha só. – Elisabeta esticou o braço e pôde sentir os fracos raios de sol tocar sua pele. O fim de tarde naquele local era magnífico de tão belo. Darcy abaixou a cabeça, tombando-a no ombro de Elisabeta. Ele precisava retomar o controle e a respiração.

A ideia de partir era sensata, mas a vontade de ambos era dar continuidade ao que haviam começado.

— “Me chama de meu amor de novo?” – Darcy suplicou com a voz rouca, em meio a beijos e sorrisos. – Cada vez que escuto isso eu acho que ganho mais um dia de vida, Elisabeta. – Darcy se aproximou de Elisabeta novamente, depositando um beijo no pescoço dela. O calor dos lábios dele fez o corpo dela estremecer, mais uma vez.

Elisabeta sorriu, sentindo o rosto enrubescer. Como ele conseguia deixá-la sem jeito com tanta facilidade?

— Minha mãe vai me matar, meu amor. Você ainda não conhece dona Ofélia Benedito.

Os dois se levantaram. Darcy estava com a camisa abotoada, mas totalmente amassada e suja de terra. O cabelo estava bagunçado e ele tentava arrumá-los com as mãos. Elisabeta também estava com o vestido amassado; mas seu cabelo estava impecável e cada mecha estava em seu devido lugar. Ela não deu oportunidade para que Darcy invadisse aquelas madeixas como ele havia feito na ocasião anterior. Ela o tinha dominado durante todo o beijo.

— Eu confesso que estou morrendo de vontade de conhecer minha sogrinha. É impossível que a mãe de um anjo não seja um anjo também. – Disse ele, dando uma piscadela.

— Eu tenho certeza que ela vai adorá-lo. Principalmente se você lançar a ela esse monte de elogios que você conhece tão bem. Mas, Darcy, eu acho que devemos contar sobre nosso namoro em outra ocasião.

— Por quê? – Perguntou ele, num sobressalto.

— Eu acho que preciso prepará-la para receber a notícia ou, caso contrário, tendo em vista a situação de intimidade na qual nos encontramos ela irá nos casar ainda essa semana. – Brincou ela, fazendo uma careta. – E eu não estou preparada para subir ao altar tão cedo.

Darcy riu imaginando a situação. Para ele, não seria uma má ideia se casar com Elisabeta. Ele estava tão certo de seu amor por ela que aquela “loucura” seria, na verdade, um objetivo que ele buscaria alcançar num futuro próximo. Mas ele sabia que até lá ainda havia muito chão a percorrer.

— Então Dona Ofélia é casamenteira? – Perguntou ele com curiosidade, enquanto segurava Elisabeta pela cintura, cavalgando de volta para casa.

— Não, este é o papel de Ema, uma amiga minha. Digamos que casar especificamente as cinco filhas é o sonho de vida da minha mãe. Mas antes que isso aconteça, o pretendente precisa passar por uma inspeção bastante criteriosa. É por isso que não quero que você se assuste. Minha mãe há seis anos, antes que eu viajasse para a Europa tentou me empurrar três pretendentes, mas eu sempre dei um jeito de escapar de todos a todo custo. Fiz com que mamãe desaprovasse cada um deles por alguma razão. Com você é diferente, Darcy. Farei o possível para que ela também caia de amor por você. Se bem que isso é tão, mas tão fácil... – Disse ela, derretendo-se. Darcy lhe deu um beijo caloroso. Era a forma que ele encontrava para agradecer tamanho elogio.

— Elisabeta Benedito, então a senhorita é dada a travessuras assim como minha irmã, Charlotte? – Os dois riram. – Bem, eu confesso que fiquei assustado com essa história da senhorita espantar os pretendentes. Mas ao mesmo tempo fiquei muito agradecido. Pois, espero que eu seja o seu pretendente para a vida toda.

— Acho que fomos destinados um ao outro. – Disse ela, com um sorriso aberto.

— Eu tenho certeza absoluta disso. – Darcy completou, beijando-a novamente.

•••

Todas as luzes da Mansão Benedito, sem exceção, estavam acesas. Ofélia volta e meia colocava o rosto na janela principal, localizada no lado esquerdo da sala de visitas. Sua preocupação era visível, pois a senhora carregava um grande terço perolado nas mãos. E dos lábios saiam repetidamente muitas orações. Felisberto encontrava-se sentado no sofá, com a mão sobre a testa, também preocupado. A forte chuva que caía no tardar da noite sobre a cidade fez com que Ofélia impedisse o esposo de sair por si só em busca da filha mais velha. Jane, Mariana, Cecília e Lídia, apesar de conhecerem o perfil aventureiro e destemido de Elisabeta, também demonstravam preocupação. Elisabeta sempre fora bastante livre. Saía e voltava para casa quando bem entendia, dentro dos horários permitidos pelos pais. Mas sempre fora bastante responsável também. Fazia muito tempo da última vez que ela havia dado um susto na família. Ela ainda era criança no último ocorrido.

— Eu não aguento mais esperar, Felisberto. Cadê a minha menina? – Após passar horas de pé, a matriarca da família sentou-se ao lado do marido, apoiando a cabeça no ombro dele. Felisberto a acalentava. Pouco a pouco as filhas aproximaram-se do casal, passando e recebendo conforto uma das outras.

— Daqui a pouco a nossa pimentinha aparece, mamãe. A senhora bem conhece Elisabeta. E essa chuva toda deve ter impedindo que ela voltasse para casa. – Jane, com sua voz doce tentou tranquilizar a mãe. Ofélia segurava firmemente as mãos da moça de cabelos dourados.

— Sim, mamãe. Elisa é muito esperta. Provavelmente preferiu esperar a chuva passar a pegar um resfriado. – Disse Lídia, tentando manter um sorriso.

— O que me preocupa é que as aulas na escola terminam ao meio-dia. Teoricamente Elisa deveria ter regressado há muito tempo. – Ponderou Cecília, recebendo de Mariana um olhar fuzilador.

— Ela pode ter se comprometido com outros afazeres, Cecília. Não vê que com esses comentários a mamãe fica mais nervosa? – Mariana a repreendeu, em um cochicho próximo à irmã.

— Ela ficou de resolver algum problema seu, Felisberto? – Ofélia voltou-se para o marido. – Sempre que Elisabeta se mete com algum assunto de negócios da família ela se esquece do mundo ao redor dela.

— Não, Ofélia. Tínhamos uma reunião hoje à tarde, mas foi cancelada com antecedência.

— Minha nossa senhora, proteja a minha Elisabeta. Faz com que ela volte logo sã e salva minha santa Mônica. Acalma o coração dessa mãe desesperada.

Quando Ofélia finalizou suas preces, a porta se abriu e Elisabeta entrou completamente encharcada, protegendo-se com o paletó de Darcy. O rapaz estava logo atrás dela, segurando-lhe uma das mãos. Todos na sala encaravam os dois com curiosidade, espanto, alívio...

— Elisabeta, minha filha... – Ofélia foi a primeira a se aproximar. Apesar de ser uma mulher fina e elegante, ela não se importou com o fato das roupas de Elisabeta estarem completamente molhadas e abraçou a garota franzina durante alguns segundos. Beijou as bochechas, a testa, e apertou firme os braços da filha. Precisava ter certeza de que ela estava bem. Felisberto sentiu-se emocionado com a cena. Apesar de saber que a esposa amava imensamente as filhas, era nas ocasiões mais adversas que Ofélia demonstrava o grande carinho que sentia por suas meninas. Felisberto e as irmãs Benedito aproximaram-se também e formaram parte do abraço. Darcy afastou-se, soltou a mão de Elisabeta e ficou observando a cena atenciosamente. Ele podia sentir seus olhos marejarem. Há quanto tempo ele não presenciava um momento em família como aquele. Por um segundo ele pôde relembrar das vezes em que ele fez parte de abraços como aquele. Quando sua mãe, Francisca e seu pai Lorde Williamson ainda eram um casal apaixonado e que transbordava amor. Essas lembranças faziam parte de um passado feliz que ele havia desfrutado há muito tempo na Inglaterra. Lembranças que ele jurava ter perdido de sua memória.

— Eu estou bem, mamãe. – Elisabeta riu nervosa, retirando de si o paletó encharcado de Darcy. – Não precisava se preocupar tanto.

— Não? É mesmo? Quando a senhorita for mãe o que espero que não demore muito, podemos reavaliar esse seu pedido! – Disse ela, puxando levemente a orelha da filha.

— Era impossível não nos preocuparmos, Elisabeta. Já está tarde minha filha. Não tínhamos nenhuma notícia sua – Disse Felisberto, segurando a mão da filha.

Enquanto Elisabeta e Felisberto conversavam, Ofélia voltou sua atenção para o homem que estava próximo a sua filha. Ela permaneceu observando-o dos pés a cabeça, em silêncio. Darcy podia facilmente começar a se sentir constrangido com os olhares incisivos de sua sogra. Mas estava decido a conquistar a confiança dela e precisava reagir de alguma maneira.

— Boa noite Dona Ofélia, Seu Felisberto; meninas. – Darcy acenou timidamente para as irmãs de Elisabeta, que se encontravam juntas no canto da sala, observando tudo com muita atenção. – Eu gostaria de pedir a permissão dos senhores para explicar o que aconteceu. – Darcy pigarreou antes de proferir tais palavras. Ofélia e Felisberto prestavam atenção nele, queriam definitivamente se inteirar daquilo tudo. – Eu tomei a liberdade de convidar a senhorita Elisabeta para ir comigo...

— Para acompanhá-lo até uma recepção.

— Recepção? – Darcy parecia completamente desorientado. Primeiro pela interrupção de Elisabeta; segundo pela história de recepção.

— Recepção? E eu não fiquei sabendo? – Questionou Dona Ofélia. Qual seria a festa no Vale do Café que ela estaria por fora?

— Sim, mamãe. Mas foi algo familiar. O fato é que este senhor aqui presente, Darcy Williamson, é irmão mais velho de Charlotte Williamson, minha colega de trabalho na escola. Hoje foi oferecida uma recepção em homenagem aos dezoito anos de Charlotte. E o Sr. Darcy, educadamente me convidou para participar também. – Darcy encarou Elisabeta com um espanto brutal. Como ela adquiriu a capacidade de inventar uma mentira fabulosa em tão pouco tempo? Ela era péssima nisso. E por qual razão ela tinha que mentir daquela forma? O combinado seria de que eles não falariam sobre o namoro, e não de uma ida ao restaurante italiano como bons amigos que eram, até então.

— Hum. – Resmungou Ofélia, atenta. – E por que vocês demoraram tanto para voltar?

— O Sr. Darcy mora um pouco longe daqui. E a chuva também foi um inconveniente.

— Claro! – Disse Ofélia, balançando a cabeça em afirmação.

— Mas felizmente sua filha está aqui sã e salva Dona Ofélia. Eu peço desculpas por ter causado tamanho desconforto em todos vocês. Prometo que na próxima recepção irei escolher um local mais apropriado para todos. – Darcy encarou Elisabeta, com os olhos semicerrados.

— Eu acho que esta é uma boa ideia, meu jovem. – Disse ela, segurando a mão de Darcy. – Lídia, corra, vá buscar algumas toalhas para Elisabeta e o Sr. Dar.. Dir...

— Darcy, dona Ofélia. – Ele a corrigiu, sorrindo. – Darcy Williamson.

— Que nome diferente. É estrangeiro? Ultimamente Elisabeta só tem trazido rapazes estrangeiros aqui.

— Mamãe! – Elisabeta a repreendeu, sentindo-se constrangida.

— Ofélia! – Felisberto também fez coro ao comentário da filha.

— Mas é verdade, uai. Da última vez foi o John. Mas o senhor é muito mais agradável que ele. Tem traços de estrangeiro, mas tem todo um jeitão brasileiro. É uma mistura interessante. E como é alto hein Sr. Darrrcy?!

— Mamãe, por favor! – Elisabeta tentou frear os comentários de Ofélia mais uma vez. – Que tal servirmos um chá? Seria ótimo para espantar esse frio, não é mesmo?

— Mas é claro, vou agora mesmo pedir para nossa ajudante prepará-lo. Volto em um instante.

Elisabeta e Felisberto estavam visivelmente envergonhados. Mariana, Jane e Cecilia cochichavam e cobriam os rostos para esconder as risadas. Darcy parecia se divertir com a situação completamente inusitada. Ofélia era uma senhora completamente extrovertida.

— Olá, senhor Darcy. – Enquanto Elisabeta e Felisberto mantinham Ofélia entretida com chás na cozinha, Jane se dispersou das irmãs e se aproximou de Darcy. – Percebi que o senhor ficou um tanto perdido quando minha irmã Elisabeta explicou o que havia acontecido hoje com vocês.

— Olá, senhorita Jane. – Darcy estendeu a mão, para cumprimentá-la.

— Jane. – Disse ela, em reverência. – Pode me chamar assim.

— Pode me chamar de Darcy, então. –Ele sorriu, porém ela manteve-se séria. – Confesso que em determinadas situações o embaraço me consome completamente.

— Bom, eu não o conheço direito, mas nunca ouvi comentários ruins a seu respeito. Acredito que o senhor é um homem bom. Mas eu queria lhe fazer um pedido.

— Claro Jane. Sou todo ouvidos.

— Não permita que situações como essa voltem a acontecer. Meus pais, minhas irmãs e eu ficamos muito preocupados hoje. Eu sei o quanto o senhor é especial para a minha irmã. Na verdade eu sou a única pessoa nessa casa que sabe disso. Por isso eu lhe peço veemente que cuide dela. E que não coloque a vida dela em risco. Elisabeta é uma das pessoas mais importantes para mim no mundo todo.

— Eu entendo e respeito profundamente seu pedido. Elisabeta é para mim também uma das pessoas mais especiais e importantes que já apareceu em minha vida. No que depender de mim ela nunca irá correr perigo algum, não enquanto eu estiver ao lado dela para intervir.

— Eu acredito no senhor. – Jane sorriu e voltou ao local onde suas outras irmãs estavam.

— Aqui está sua toalhinha Sr. Darcy, se seque bem para evitar um resfriado. Ninguém gosta de resfriados, não é mesmo? – Disse Lídia, entregando as toalhas a Darcy. – Se o senhor quiser eu posso ajudá-lo a secar seu cabelo, olha só, está encharcado. – Lídia então subiu no sofá para tentar ficar da mesma altura de Darcy.

— Não precisa se preocupar Lidiazinha, Sr. Darcy já é bem grandinho e pode fazer isso sozinho. – Disse Elisabeta, aproximando-se deles e afastando a caçula do namorado.

— Bem grandalhão você quis dizer, não é Elisabeta? – Retrucou Lídia, em meio a gargalhadas. – Aqui está sua toalha também irmãzinha que adora dar uma dor de cabecinha.

De repente Ofélia e Felisberto surgiram com bandejas. Havia chá e biscoitos para todos os gostos. Darcy foi convidado por Ofélia a sentar-se para conversar. Embora os dois possuíssem personalidades completamente distintas, estavam se dando muito bem. Ofélia falava de tudo um pouco, mas nunca deixava de citar os predicados de suas filhas. Elisabeta sentia vergonha quando a mãe falava dela. Porque em todas as vezes Darcy lhe lançava um olhar diferente. Ora de surpresa, ora de orgulho por seus feitos, ora de paixão. Estava cada vez mais difícil fingir que eles eram apenas bons amigos. Darcy falou pouco de si mesmo. Era sempre difícil para ele falar sobre seu passado e todos da família entenderam perfeitamente suas razões. Desta forma, Felisberto puxou um assunto sobre negócios e as mulheres logo se sentiram entediadas. Exceto Elisabeta, que parecia mais interessada naquela conversa do que nas anteriores. As horas passaram-se depressa e Darcy teve de se despedir. Já estava tarde e ele precisava voltar para casa. Elisabeta estava extremamente preocupada. Não queria que ele enfrentasse novamente a estrada naquelas circunstâncias. Embora a chuva tivesse passado ainda corria perigo de novas tempestades. Ela perguntou se ele não gostaria de passar a noite na mansão. Ele agradeceu imensamente, mas recusou a oferta. Charlotte estava sozinha em casa e ele temia pela irmã. Por falar em Charlotte, Darcy recordou que o aniversário de 18 anos dela seria dentro de dois meses. Ele estava bastante interessado em saber como Elisabeta reverteria aquela mentira inventada por ela. Elisabeta sorriu e respondeu que até lá os dois já seriam descobertos, não tinha mais jeito. Numa última tentativa, Elisabeta sugeriu que a Darcy que ele voltasse para casa de carro. Podia deixar o cavalo que ela cuidaria muito bem dele. Entretanto, Darcy voltou a recusar. “Seria demais dar tanto trabalho”, pensava ele.

— Por favor, meu amor, vá com cuidado! – Os dois estavam próximos à porta.

— Irei sim. – Ele respondeu, tocando delicadamente o rosto dela. – É uma pena eu não poder te tirar do chão agora e te dar um beijo.

Elisabeta riu.

— É. Mas não nos faltará oportunidade afinal de contas somos na-mo-ra-dos. – Ela pronunciou a última palavra com a voz num tom baixo. Apenas ele poderia ouvir.

— Eu te amo! – Disse ele, baixinho, antes de sair.

— Eu também, muito! – Ela respondeu, antes de fechar a porta e encarar as irmãs, que lhe direcionavam olhares desconfiados. Elisabeta se deu conta que a noite seria longa e que novas mentiras precisariam ser inventadas. Mas a verdade é que Elisabeta queria poder gritar aos quatro cantos o quão feliz ela estava naquele momento.