Entre o Amor e a Espada
1 Capítulo 1 O INÍCIO...
Notas iniciais
Embora seja uma fic que se passa na Roma antiga, uso uma mistura da linguagem da época com a linguagem contemporânea.
A frase que abre o capítulo é de um filósofo romano chamado Sêneca.
"A coragem conduz às estrelas, e o medo à morte."
As ruas de Roma estavam apinhadas de mercadores, escravos e magistrados que passeavam em meio à plebe. Ouvia-se gritos dos comerciantes e também o aroma das especiarias misturado aos odores ocres de fumaça e suor. O fervilhar do povo abafava os acontecimentos nas domus e, uma em especial, era o cenário de um nascimento marcado pela tragédia....
O fogo na lareira crepitava. Labaredas subiam entre as toras de madeira e brasas, exalando uma fumaça balsâmica devido às ervas jogadas sobre o fogo para evocar a proteção dos deuses lares. Na cama, a jovem nobre gemia e lágrimas corriam pelo belo rosto.
– Marin! Onde e-ela está?– gritou a jovem, apertando a mão de sua escrava.
– Calma, minha senhora... A parteira já está vindo.
Penélope gemeu em agonia. As dores do parto pareciam dilacerá-la por dentro e haviam começado na noite anterior. Alguma coisa estava errada, ela o sabia! Apesar dos esforços, o bebê não nascia e ela se perguntava se não seria um castigo da deusa Juno por ter traído seu esposo e se deitado com um escravo...
Sim, talvez fosse mesmo um castigo já que, pior que a traição, era ter se apaixonado por ele e permitido que a sua semente lhe desse um filho. Pensou ela em meio à dor excruciante.
– Marin...Oh, Marin... O bebê...não deixe que nada aconteça a ele! Assim que ele nascer, leve-o para bem longe! A-Ali, naquele baú tem 50 denários... Pegue-os e fuja com a criança!
– Domina.... – balbuciou a jovem, assustada com o desespero de Penélope. – Não sou adequada para criar o vosso filho. Não seria melhor entregá-lo a alguém da vossa família?
– Não! Meu pai mandaria matá-lo! Ninguém pode saber...Meu marido está apoiando as tropas de Kanon há mais de um ano. Eu não poderia ter engravidado dele...todos irão saber que me deitei com...outro.
Curiosa, Marin desejava saber sobre qual escravo sua senhora se referia, mas manteve a boca fechada. Sua mão já estava doendo de tanto ser apertada.
– Está bem, domina... agora descanse. Eu prometo cuidar do bebê. – disse Marin.
Penélope fechou os olhos, seu corpo estava encharcado de suor... A parteira chegou e logo foi examiná-la. Marin colocou-se ao lado dela e obedeceu às ordens que ela lhe deu. Embora tivesse apenas doze anos, a escrava estava acostumada à rotina de agir com rapidez e eficiência. Para pessoas como ela, a infância já tinha acabado há muito tempo...
– O bebê está virado ao contrário. – explicou a velha parteira. – Está sentado.
Marin estremeceu. Sabia de muitos casos semelhantes e, todos eles, sempre resultavam na morte de um dos dois: a mãe ou a criança.
– Em que eu posso ajudar? – perguntou Marin.
– Vamos tentar virar a criança. – disse a velha com um suspiro.
Assentindo com a cabeça, a escrava curvou-se sobre sua senhora e, atendendo as ordens da parteira, empurrou o bebê de volta ao útero, forçando-o a fazer a volta.
Penélope gemeu e depois gritou. As brasas da fogueira brilhavam lançando sombras sobre a face contraída, por onde o suor escorria em abundância.
– Empurre, senhora! – ordenou a parteira, pressionando as palmas das mãos sobre o ventre da jovem nobre. – Força! Empurre agora... Isso!
Um grito alto de dor cortou o ar e também o coração de Marin. Penélope era uma domina justa e boa que jamais batia em seus escravos e os tratava como se fossem gente. Vê-la sofrer daquela maneira era doloroso e assustador.
– Não adianta. O bebê é muito grande. Vamos ter que cortar o ventre. – disse a parteira franzindo o cenho.
Marin levou a mão à boca e olhou para a sua senhora. Penélope já estava ficando fraca e logo mais, talvez fosse tarde para salvar a criança.
– D-Deixe...D-Deixe...q-que c-corte! – disse a nobre.
– Sim, minha senhora...
– Vou dar-lhe uma poção para aliviar a dor, mas preciso que fique acordada. – disse a parteira.
Penélope fez que sim com a cabeça e Marin sentiu que ela lhe apertava a mão com uma força surpreendente, vinda de sua agonia.
A parteira esterelizou uma faca nas brasas da fogueira e estendeu um pedaço de couro para que Marin colocasse na boca de sua senhora. Aproximou a bacia com água quente e desdobrou os panos de linho.
– Morda bem forte! – disse a velha. – E você, Marin, segure-a bem firme!
Penélope cerrou os dentes e grunhiu quando a faca abriu seu ventre. Com um olhar de perplexidade, a escrava assistiu à chegada do bebê que foi puxado com precisão e rompeu o silêncio pesado do ambiente com seu choro.
– É um menino! – gritou a parteira tomando-o nas mãos para cortar o cordão umbelical.
– Acabou, domina... Seu filho nasceu! – disse Marin com lágrimas nos olhos.
Penélope olhou para a criança e sorriu. Elevou a mão e tocou a cabecinha suja de sangue.
– M-Meu... filho... será chamado... Milo! Um dia...conte a ele que seu pai foi... o maior de todos os guerreiros... Kardia... o meu único amor! – disse ela.
– S-Senhora? – gritou Marin vendo que Penélope dava um longo suspiro e, em seguida, parava de respirar.
– Ela não pode mais ouvi-la. Está morta. – falou a parteira num tom grave.
– Por Júpiter...não! – disse Marin levando a mão à boca e tocando a mão flácida e imóvel de sua senhora.
– O que vai fazer com a criança? Se quiser, posso levá-la comigo. – disse a parteira.
– Não... ela pediu-me para cuidar do bebê e é isso que eu vou fazer.
A parteira lavou as mãos na bacia com água e cobriu o corpo de Penélope com um lençol. Quando ela deixou a casa, Marin deixou-se cair de joelhos junto ao corpo sem vida, finalmente dando vazão ao medo e dor. Cobrindo o rosto com as mãos, a jovem escrava chorou e apertou o bebê junto ao seu peito.
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Dezesseis anos, depois...
– Milo! Mas onde anda esse menino? – chamou Marin da porta.
Não houve resposta, então ela passou as mãos nas laterais da roupa e entrou para terminar o jantar, antes de sair e procurá-lo.
Perto dali, em meio à folhagem densa, Aída ria, deliciada com as carícias de Milo. Com um tipo de olhar hipnotizante, ele entrelaçou uma das mãos nos cabelos longos da garota e ergueu-lhe a cabeça, de modo que pudesse tomar-lhe a boca num beijo ousado.
– Nós não podemos... – gemeu ela quando ele introduziu a mão por baixo do vestido e tocou-lhe o seio.
– Por que não? Sei que quer isso tanto quanto eu... Olha só como já estou bem duro... – sussurrou ele ao ouvido da jovem, fazendo-a estremecer com o calor de seu hálito e a sensação do membro enrijecido tocando sua coxa.
– Eu quero... mas...
– Milo Krisius! O que pensa estar fazendo? – gritou Marin interrompendo o idílio amoroso e pegando o garoto pela orelha.
– Ai! Mãe!
Marin arrastou Milo sem piedade. Ao entrar na casa simples, porém limpa e arejada, ela colocou as mãos na cintura e falou.
– Não sei mais o que fazer com você! Enquanto não engravidar uma dessas cabeças de vento que caem na sua conversa, você não vai sossegar! Mantenha seu pau longe das donzelas daqui ou logo teremos uma legião de pais querendo arrancá-lo!
Milo franziu o cenho, depois sorriu, sedutoramente, e se aproximou de Marin abraçando-a pela cintura.
– Não precisa ter ciúmes, mãe... Sabe que você é a única mulher da minha vida.
Marin tentou manter-se séria, mas depois sorriu.
– Como pode ter tanto fogo nesse seu corpo? Não sei a quem você puxou!
– Talvez eu tenha puxado ao meu pai. Mãe, por que nunca me disse quem ele é? – perguntou o garoto.
– Seu pai... foi um homem forte e já deixou esta vida. É só o que precisa saber. – disse ela pegando os pratos e tigelas para por a mesa.
Milo ficou sério. Sabia que Marin não gostava de falar sobre o assunto, mas ele sentia curiosidade de saber mais da sua origem. Imaginava que tinha puxado ao seu pai, pois sua mãe tinha os cabelos da cor do fogo e os seus eram loiros. Sentou-se à mesa e ficou em silêncio.
Por sua vez, Marin servia a janta olhando de canto para Milo. Criara o garoto como seu e o amava tanto que temia contar a verdade. O que mais importava era que tinha conseguido mantê-lo protegido. Até agora. O temperamento de Milo era quente, difícil. Mas, também, era alegre e generoso. Leal com os amigos e dono de uma sedução que a preocupava. Notava os olhares das mulheres e dos homens sobre ele e pensava, aflita, até quando poderia controlá-lo...
– Mãe?
– O que é?
– Posso ir à cidade assistir os jogos?
– Não. Fique longe da arena.
– Por quê? Parecemos escravos fugitivos nos escondendo neste fim de mundo! Nunca saímos daqui. – reclamou Milo.
Marin suspirou e colocou a salada na tigela. Se ele soubesse que ela era uma escrava fugitiva que usara o dinheiro que sua domina lhe dera, mas que continuava escrava! Tinha tido a sorte de encontrar clientes dispostos a aceitar dinheiro e ajuda nas plantações sem fazer muitas perguntas. Porém, mesmo assim sempre sentia um frio no estômago quando estranhos transitavam por ali. Temia que os caçadores de escravos a levassem ou pior, levassem Milo.
Espantou o medo e os pensamentos ruins, pegando a ânfora com água fresca e servindo dois copos.
– Coma e beba. Depois vá dormir que já é tarde. – disse ela, séria.
Milo bufou, mas não disse mais nenhuma palavra. Comeu, emburrado, e foi para o seu quarto. Lá, deitado na cama estreita, ficou olhando para o teto, imaginando outra vida para si. Algo mais excitante que trabalhar nos campos e viver recluso naquele lugar.
Seus olhos se fecharam e ele dormiu um sono sem sonhos, até despertar no dia seguinte para cumprir a rotina enfadonha de sempre...
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Camus viajava ao lado do pai, atento a tudo na estrada silenciosa. Faltavam alguns dias para chegar à cidade de Roma onde Dégel tentaria por em prática os negócios que o levar a deixar a terra natal e tentar a sorte ali.
Dégel olhou para o filho vendo a brisa leve infiltrar-se por entre as mechas de seus cabelos avermelhados. Tinha decidido trazer o filho, naquela viagem, porque via nele uma inteligência especial e muito desenvolvida. Desde cedo ele se interessara em aprender a ler e conhecer outras línguas. Sabia que ele sentia-se mais feliz empunhando uma pena do que uma espada, embora fosse, relativamente, habilidoso no manejo das armas.
Pairava um silêncio sobre tudo, como a calmaria antes da tempestade, embora o céu estivesse limpo e, profundamente, azul. Camus sentiu um desconforto e Dégel também. Era algo intangível, mas que parecia arrepiar todos os pelos do corpo...
– Pai...
– Fique perto de mim. – disse Dégel desembainhando a espada.
De repente, um bando de pássaros irrompeu de uma árvore num voo frenético e, saindo do meio da floresta, homens armados com espadas, arcos e chicotes postaram-se frente aos dois de um jeito ameaçador.
– Alto! – gritou um homem atarracado e com a barba cerrada.
Dégel continuou com a espada em punho.
– Somos estrangeiros, mas viemos em paz. Estamos viajando em direção a Roma. – disse ele.
O homem sorriu, exibindo um dente quebrado junto a outro de ouro. Ignorando a fala de Dégel e olhando para os companheiros ele cochichou:
– Quanto acha que valem esses dois como escravos, Túlio?
– Uns 20 sestércios pelo garoto e uns 10 pelo homem. – respondeu o outro.
– Beleza... – rosnou o homem.
Sentindo a energia cruel daqueles homens, Dégel avançou e gritou:
– Fuja, Camus!
O garoto sacou do punhal que carregava consigo e desobedeceu o pai, postando-se ao lado dele. Dégel olhou-o com angústia, pois eram muitos homens e, pelo visto, aplicados na arte de caçar escravos, principalmente estrangeiros que não andavam em caravanas.
– Obedeça, Camus! Vou tentar ganhar tempo!
– Não! Não vou abandoná-lo, pai. – gritou o garoto.
Foi o tempo de ambos serem cercados pelos dez homens, fortemente armados. Havia também, três cães negros que eram mantidos na coleira e ladravam furiosamente.
– Acho bom não resistir, homem... Renda-se e seremos bonzinhos com você e o garoto. – disse o homem passando a língua nos lábios.
O tom da fala e o olhar lascivo do homem enfureceu Dégel que se lançou sobre ele, brandindo a espada com uma rapidez que surpreendeu o grupo. Enterrou a espada no coração do homem e cortou o braço do outro. Camus juntou-se ao pai, mas sua habilidade com um punhal curto não foi o suficiente para desarmar o gordo que avançou em sua direção. Um dos cães foi solto e avançou na perna de Dégel, fazendo-o cair.
– Pai! – gritou Camus quando viu a cena e, em seguida, sentiu uma tira de couro enlaçar-se em seu pescoço e caiu sob a força do chicote que o puxou, brutalmente, para trás.
A situação transformou-se em uma ciranda violenta onde o humano cedeu lugar ao barbarismo. Vozes... Latidos... Sangue... Dor...!
De repente, uma manta escura desceu sobre os dois estrangeiros e a consciência se foi, espiralando em um vórtex de sofrimento.
Quando Camus abriu os olhos, novamente, sua cabeça latejava e a garganta doía. Aos poucos se lembrou de ter gritado até ficar sem voz quando viu seu pai ser morto por homens e dilacerado pelos cães...
Deixem o garoto vivo e sem marcas! Ele dará um ótimo preço no mercado de escravos! As vozes duras dos homens gritavam, enquanto ele tentava, em vão, ajudar seu pai.
Tinha sido chutado, surrado e um dos homens sugerira que o violentassem e depois o vendessem a um prostíbulo qualquer, mas outro passara a mão áspera e asquerosa em seu rosto e pescoço e dissera que ele daria um bom escravo doméstico e os patrícios pagariam bem por um garoto bonito como ele.
Se tiver que ser puto, que seja o vadio de um nobre! Terá a bunda invadida por um pau de ouro! Gritou um dos homens rindo e fazendo um gesto obsceno.
Ouvir todos aqueles insultos em meio àquele horror fizera o seu sangue ferver, mas a cruel verdade era que estava sozinho em uma terra estranha. Perdera o pai e agora seria vendido como um animal. Não havia lugar para o desespero, nem para as lágrimas que queimavam seus olhos azuis. Respirou fundo, obrigando os olhos a ficarem secos e o coração a endurecer. Podia estar em desvantagem, mas não permitiria que aqueles animais soubessem a dor que estava sentindo. Ergueu a cabeça e pensou na neve que caía em sua terra natal.
Frio como o gelo, intocável como a neve... Repetia para si mesmo como se fosse uma prece. Viveria para honrar o sacrifício que seu pai fizera e também para, um dia, vingar-se e retornar ao seu lar!
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O dia tinha começado como todos os outros. O sol estava demasiado brilhante e muito quente. Milo estava com o rosto afogueado, quando Aída aproximou-se com mais dois garotos trazendo água e uma cesta com pães.
– Prá você. – disse ela sorrindo.
– Obrigado. – respondeu Milo, disfarçando, já que a garota estava acompanhada dos irmãos mais velhos e ciumentos que eram seus amigos, mas ele não podia facilitar.
Um dos garotos se aproximou e disse:
– Está quente e nós vamos até o lago. Se quiser pescar com a gente, após terminar o seu trabalho, nos encontre lá.
– Está bem! – disse Milo sorrindo, enquanto Aída fingia um recato que não era característico seu e, quando seus irmãos não estavam olhando, ela atirou um beijo na sua direção.
Milo continuou com suas tarefas. Tinha de arar a terra, junto com mais alguns escravos e clientes, preparando-a para o plantio antes das chuvas. Enxugou a testa com as costas da mão, enquanto via seus amigos se afastarem rindo e brincando entre si.
Aída e seus irmãos eram filhos bastardos de um patrício que vivia em Roma. Diziam as velhas fofoqueiras que a mãe daqueles jovens tinha sido uma cortesã muito bonita e que se tornara a paixão de um nobre importante cuja mulher era estéril. Ele a tinha tirado de uma das Casas de Prazer e a instalado ali, com seus filhos, munindo-a de escravos e clientes para que tivesse todo o conforto.
A propriedade rural era grande, permeada por uma zona de prados verdejantes, riachos fluindo e fazendo girar as rodas dos moinhos de água e pomares luxuriantes. Raramente, alguém passava por ali e isso deixava Milo entediado. Todo aquele silêncio, às vezes, parecia-lhe ensurdecedor. Entretanto, nem bem ele reclamava em pensamento e o inesperado, aconteceu...
– N-Não! Socorro!
O grito feminino rompeu o ar, fazendo Milo voltar-se na direção onde, minutos atrás, seus amigos tinham ido. Viu alguns vultos a cavalo e Aída corria nua, enquanto um homem à pé vinha atrás dela. Logo atrás, seus irmãos, também nus, eram contidos por homens que estavam montados em corcéis negros. Os garotos, sempre dispostos a uma boa briga, agora tremiam e pareciam estar com muito medo.
Milo não pensou duas vezes, correu na direção da garota e lançou-se contra o homem que a agarrava com brutalidade.
– Tire as mãos dela, cão! – gritou o garoto.
– Mas que merda é essa! – gritou o homem que, por suas vestes, parecia um legionário. Olhando duro, ele desvencilhou-se da jovem e voltou-se quem o havia empurrado.
– Você, moleque?! Como ousa atacar um oficial romano?...- gritou o homem.
– Ninguém fere os meus amigos comigo por perto! – gritou Milo.
Os outros legionários riram ao ver a coragem do garoto mesmo em desvantagem. Com fúria no olhar, Milo continuou encarando-o.
– Pois você vai ser a minha diversão, moleque! – gritou o homem chamado Caronte.
Aída e os irmãos ficaram juntos, nus e tremendo. Milo não demonstrou medo e postou-se à frente dos amigos.
– O que está acontecendo aqui? – perguntou uma voz grave que, junto com outros três, chegou depois e se juntou ao grupo com um olhar severo.
– Esse garoto... teve a ousadia de me atacar, general. Eu e esses jovens estávamos brincando um pouco e ele se intrometeu! Ainda teve a petulância de querer me enfrentar.
– Seu legionário, além de covarde é mentiroso! – disse Milo olhando o general dentro dos olhos.
Kanon suspirou. Haviam chegado de uma campanha militar que havia durado 16 anos longos anos e os homens da sua legião estavam há muito tempo longe da civilização. Dos homens de sua confiança, podia contar com Aiolia, Shura e Shiryu, mas o restante, apesar de excelentes no combate, às vezes cometiam deslizes desnecessários e possuíam uma moral, um tanto duvidosa.
– Olha como fala com um legionário, garoto. Esses homens protegem a vida de homens e mulheres, ou seja, a vida de vocês. E Caronte é um centurião que já fez muitopor Roma. – disse Kanon tentando encerrar o assunto para depois, advertir seu subordinado.
– Pois, me dê uma espada e eu mesmo defendo a minha vida. Não preciso de um porco covarde, como esse seu legionário, para me defender! – disse Milo cuspindo no chão.
Os olhos verdes e profundos de Kanon se estreitaram, encontrando a ferocidade azul dos olhos de Milo. Os outros garotos se encolheram, ainda mais. Porém, nenhum deles falou nada por medo de uma retaliação.
O general pensou que poderia dar uma lição naquele garoto e terminar com o conflito, mas, de certa forma, admirou-lhe a fibra.
– Então, você é corajoso e acusa um legionário de covarde... Vamos ver se tem colhões ou apenas arrogância. Tome e lute! – disse Kanon atirando uma espada na direção de Milo.
Nem bem Kanon dera a espada a Milo, Caronte veio em sua direção com um sorriso torto e um brilho assassino nos olhos estreitos.
– Vamos lá, moleque!
A espada do centurião desceu impiedosa, e Milo defendeu, na base do instinto.
Faíscas saíram do aço frio e Milo, desajeitado, movia a espada com a destreza de quem manejava um ancinho ou uma foice, nos campos. Várias vezes, a espada do centurião esfolou sua pele, como se fossem carícias de um amante sádico.
Cheio de si, Caronte agia como um gato experiente, brincando com o jovem rato... Cortar uma carne tenra era tão bom quanto foder um rabo bem apertado... Pensava ele com aquele sorriso maligno nos lábios.
Kanon apenas observava e, de vez em quando, bebia o vinho do odre que carregava junto à sela de seu cavalo.
– O que pretende fazer com ele? – perguntou Aiolia, para Kanon.
– O garoto tem fibra... creio que daria um bom aprendiz de gladiador na casa de meu irmão... Isto é, se Caronte não acabar com ele! – respondeu Kanon.
– Ele é só um garoto, nem sabe manejar uma espada! Olha como ele a segura! Caronte vai cortá-lo ao meio. – falou o legionário.
– Pois, eu aposto que não! – disse Kanon, agora prestando a atenção em Milo.
– Aposta quanto? – falou Aiolia já se entusiasmando.
– Aposto 10 sestércios como o garoto vai se manter vivo...
– Feito!
A força e o tamanho de Caronte eram o dobro dos seus e, mesmo assim, Milo defendia os golpes, suportando o peso do gládio que descia com violência. Como estava com raiva, respirava rápido e, também rápido, o seu fôlego se extinguiu.
Ofegante, Milo pegou a espada com as duas mãos e preparou-se para o golpe final, tentando manter-se vivo. Porém, parecia que seus pulmões estavam pegando fogo e ele vacilou, sentindo a saliva se tornando grossa e escassa.
Caronte fez um movimento ágil, levando a lâmina para o lado, para na verdade, interromper a trajetória na metade e elevá-la, novamente, atingindo o ombro direito de Milo. O garoto sentiu a lâmina cortar a sua carne, mas suprimiu o gemido de dor que ficou entalado na garganta. Se esse filho da puta pensa que eu vou gritar, está enganado! Sentiu sua mão tremer, mas uma cortina de sangue pareceu descer frente aos seus olhos azuis.
Kanon estreitou os olhos. Caronte se preparava para matar e somente ele, com sua autoridade superior, poderia impedi-lo. Mas, ao mesmo tempo queria saber até onde ia o instinto de guerreiro daquele garoto. Tocou, levemente, na bainha da sua espada e esperou.
Certo da vitória, Caronte riu, antecipando o prazer de dilacerar o moleque que ousara confrontá-lo e Milo, arquejante, sentiu o suor escorrer dos cabelos longos e soltos. Seus olhos desviaram, por uma fração de segundos, na direção do olhar do general. Viu que ele o olhava fixamente e, então... sorriu com escárnio para o oficial.
Sorriu para mascarar a dor e com a arrogância típica dos jovens. Se fosse morto ali, não demonstraria medo, nem se acovardaria. Apertou com força o cabo da espada e olhou nos olhos de Caronte, tentando não tremer, já que sentia uma espécie de dormência no braço que tinha sido ferido.
O legionário riu e desceu a espada para finalizar o golpe. Milo, ao invés de recuar, projetou o corpo para frente e sentiu a lâmina descer, rente ao seu corpo, levando parte de alguns fios de cabelo com ela, porém permitindo que ele fizesse um movimento para frente e também cortasse a pele do outro.
Caronte surpreendeu-se e usou o peso do corpo para desequilibrar Milo. Porém, acostumado a executar serviços braçais, o garoto não se desequilibrou e ainda absorveu seu golpe.
Os outros soldados da tropa começaram a murmurar e Caronte sentiu o sangue ferver. Kanon sabia que o centurião chegara ao seu limite e o garoto, também.
Bem, veremos o que as Parcas decidem, afinal... Pensou o general desistindo de interferir.
Caronte virou-se para Milo e o encarou com desdém. Seus olhos cinzentos fitaram um lugar além, dentro dos olhos azuis que flamejavam como se ele fosse um adulto... Um flamejar de quem tinha um pacto com a morte.
– Vai lá Caronte e acaba logo com isso! – gritaram seus companheiros.
Milo apertou a espada com as duas mãos e gritou, sentindo uma energia formar-se no diafragma e expandir-se, levando um calor crescente a todas as fibras do seu corpo. Ignorando a dor, o cansaço e o sangue que vertia do ferimento, ele ergueu a espada, no mesmo momento que Caronte.
As duas se chocaram e, com um movimento que Milo sentiu fluir sem que tivesse qualquer controle sobre ele, girou sobre o próprio corpo e brandiu a espada na altura da cintura do centurião. Com uma expressão de surpresa e, também de pavor, Caronte arregalou os olhos e, em seguida, estremeceu:
– Puta que pariu... não é que o moleque... ele...ele... me cortou! – disse ele, caindo gravemente ferido, logo em seguida.
Trêmulo, Milo deixou cair a espada e sua respiração acelerou tanto que ele sentiu o coração bater por todo o corpo. Seus olhos desfocaram, de repente, e a última coisa que ele ouviu foi alguém chamar o seu nome, enquanto Kanon se aproximava, olhando-o bem dentro dos olhos.
– Milo! – gritou Marin vindo correndo na direção da tropa.
Kanon olhou-a e elevou a mão, ordenando que todos ficassem onde estavam. Gritou uma ordem para que cuidassem de Caronte e novamente reportou-se à Marin.
– Este garoto é seu filho? – perguntou o general.
– Sim, meu senhor! E eu peço desculpas pelo que ele tenha feito de errado! Por favor, se vão puni-lo, punam a mim! Eu imploro! – disse Marin se ajoelhando à frente de Kanon.
– Seu filho lutou contra um centurião e venceu. Será levado à casa de meu irmão, Saga. Ele organiza os jogos e sua casa possui uma Ludus para gladiadores. Você é uma escrava, não é mesmo? Pois creia que estou oferecendo uma oportunidade única ao seu filho. Saga não é como os outros cônsules que trata seus lutadores como se eles fossem gado de corte. Na casa de Gemini, florescem os mais espetaculares campeões e Milo tem plena condição de ser o maior deles.
Marin engoliu em seco. A forma como se prostrara diante do general a tinha denunciado. Milo foi até ela, meio cambaleante e levantando-a, fitando os olhos lacrimosos que permaneciam baixos.
– Mãe... – disse ele tomando a mão dela entre as suas que estavam sujas e machucadas. – Perdoe-me... Eu... tive que lutar e eu...confesso que prefiro a espada do que trabalhar nos campos.
– Não é culpa sua, meu amor. – disse ela tocando o rosto do garoto. – Seu temperamento sempre foi o de um guerreiro. Mais cedo ou mais tarde, eu sabia que algo assim iria acontecer.
– Pernoitaremos aqui. Amanhã cedo partiremos para a cidade. Pode acompanhar seu filho, se assim o desejar e tornar-se serva da minha casa. – disse Kanon avaliando Marin e o filho.
Marin assentiu com a cabeça e abraçou o filho.
Olhando, cuidadosamente para o garoto, Kanon via nele algumas semelhanças com um dos maiores campeões da casa de seu irmão: Kardia, conhecido pela massa como Tenebris Scorpio um gladiador que, segundo as más línguas havia seduzido a filha de um nobre romano e morrido em combate, logo após saber que a amante morrera ao dar a luz...
Antes de, finalmente, descansar, Kanon gritou para o seu oficial sorrindo:
– Aiolia, me deve 10 sestércios!
Notas finais
Pequeno glossário de termos usados na fic:
Ludus = escolas de gladiadores
Júpiter=Zeus
sestércios= O sestércio (sestertius, em latim) era uma antiga moeda romana cunhada em bronze.
denários = moeda romana cunhada em prata que vale mais que o sestércio.
rudis= espada de madeira que um gladiador recebia quando ganhava a liberdade.
Panis et circenses= Pão e circo.
domus= casa
domina= senhora
dominus= senhor
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