Entre o Amor e a Espada

2 Capítulo 2 DESTINOS CRUZADOS ...


Notas iniciais
Aí está o segundo capítulo. Dedicado a Mel Dark e ddkcarolina! Espero que estejam gostando! Bjs

As ruas estreitas estavam forradas de flores, eram as Ambarvais festas em honra de Ceres a deusa da agricultura que protegia as plantações. O perfume das flores mascarava os odores da cidade e o povo transitava em meio aos gritos e cantos.

Milo estava encantado em estar na cidade. Era tanto movimento que ele sentia uma espécie de zumbido nos ouvidos, mas era uma sensação nova e boa.

Marin revivia o passado, quando ainda menina servira na casa de Penélope, a senhora por quem nutrira um forte afeto e por quem guardara um segredo. Olhava em volta ainda tentando reconhecer as ruas, os aromas, a sujeira...

A domus surgiu imponente em meio à vila. Ao entrar na casa de habitação, Milo e Marin foram conduzidos pelo vestibulum, que se abria para o átrio. O teto deste possuía uma abertura central, o complúvio por onde entrava a água da chuva, que era recolhida para ser usada na limpeza, um recurso interessante que chamou a atenção do garoto.

A grandiosidade e as imagens dos antepassados expostos nos afrescos da casa deixou os dois boquiabertos pela beleza e realismo, mostrando que seus domini possuiam um status elevado.

Enquanto os dois olhavam para tudo Saga apareceu, vindo saudar seu irmão.

– Kanon! Pelos deuses, irmão! Pensei que nunca mais o veria. – disse Saga sorrindo e indo ao encontro do irmão.

Milo notou que eles eram idênticos e ficou encarando.

– Não encare os seus senhores, Milo. – sussurrou Marin puxando o braço do filho.

O garoto fez uma careta e continuou olhando em volta.

– Também fico feliz em vê-lo bem, irmão. E June? – falou Kanon.

– Ela foi com as escravas, na feira. Sabe como ela adora impressionar e como sabia que você viria, foi pessoalmente encomendar frutos do mar e carnes nobres.

– Ora, mas que gentileza... – disse Kanon sorrindo, enquanto pensava: A víbora precisa se preparar para me ver...

Alheio aos sentimentos do irmão, Saga abraçou-o e só então percebeu Marin e Milo bem atrás.

– Ah, quero apresentar dois novos servos. Marin, para ajudar na casa e Milo para ingressar na Ludus. Este garoto é uma fera, você precisa ver!

Saga aproximou-se admirando a beleza do garoto e o olhar selvagem com que ele o encarou.

– Então, garoto... O que fez de tão espetacular para causar esta admiração explícita em meu irmão?

– Cortei um filho da puta que tentou estuprar meus amigos. – respondeu Milo com tranquilidade.

Marin empalideceu e ficou sem respirar, segurando no braço do garoto. Saga franziu o cenho com uma expressão severa e, em seguida soltou uma gostosa gargalhada.

– Por Júpiter, Kanon! Este moleque tem colhões!

– Sabia que ia gostar... – disse Kanon.

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Os corpos se amontoavam com os tornozelos e pulsos envoltos em correntes. O cheiro ocre de suor, sangue e sujeira misturavam-se aos aromas da feira. Peixe, incenso, especiarias, flores e... escravos!

Camus era empurrado junto com as mulheres e crianças e olhava em torno, procurando uma oportunidade, uma localização. O barulho, os gritos e o estalar do chicote o deixavam zonzo, mas ele mantinha uma postura ereta e continuava a olhar em volta.

– Anda logo, moleque! – ouviu o homem dizer, enquanto o empurrava, fazendo-o tropeçar.

Um estrado elevado, em meio à praça, recebeu a leva de pessoas acorrentadas e o público se formou com a curiosidade mórbida de quem se compraz em ver os outros em sofrimento.

Um velho gritou uma oferta pela criança magra que chorava junto da mãe.

Uma mulher pintada de forma exagerada fixava os olhos em Camus. Mesmo sendo de uma cultura diferente, o garoto notou que a mulher só podia pertencer ao que chamava Casa de Prazer. Seu coração disparou quando ela levantou a mão para dar um lance e, num ato desesperado, olhou na direção de um homem idoso, mas que pareceu-lhe diferente dos que gritavam lances pela vida daquelas pessoas.

– Senhor Dohko! Por favor! – gritou Camus.

O Cônsul virou-se, surpreso em ser chamado por um escravo desconhecido. Pousou os olhos no menino que o chamara.

– Que nome disse, menino? – perguntou ele.

– Dohko! É o que está escrito aí, nesse medalhão que carrega. – disse Camus, enquanto o homem que o tinha caçado olhava-o com os olhos arregalados.

– Você sabe ler? – perguntou Dohko.

– Sim, senhor. Compreendo grego e latim. Por favor, eu posso ser-lhe útil. – respondeu Camus.

Dohko levou a mão à cabeça e, em seguida, pegou a bolsa de couro.

– Dou 50 sestércios pelo garoto.

O caçador de escravos sorriu mostrando os dentes amarelados e quebrados. Aquela revelação de última hora pareceu-lhe bem-vinda e muito lucrativa.

– O garoto sabe ler. Vale, no mínimo, uns 5 denários, meu senhor!

– Dou 3 denários e espero que se contente com isso! Ainda chegará o dia em que nenhum homem será vendido como se fosse uma mercadoria. – disse Dohko num tom autoritário, encarando o homem.

– Ah, o senhor sabe fazer negócios. Está bem, vendido para o nobre senhor!

Camus sentiu um alívio ao ver o homem aceitar vendê-lo. Sua intuição funcionara. Aquele homem, dentre todos que ali estavam, parecia ser o único com visão e coração, realmente, humanos.

– Venha, meu rapaz! Vamos para casa. – disse Dohko ordenando que retirassem as correntes e se apoiando no ombro de Camus.

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Manigoldo estava no pátio, esperando seus rapazes e observando o garoto novo que parecia muito empolgado com o lugar. Curioso, Milo olhava para tudo e todos. Havia rapazes da sua idade e outros mais velhos. O pátio amplo continha espaços para lutas e também artefatos para o treino de combate.

– Então, rapaz! Quer ser um gladiador?- perguntou Manigoldo.

– Sim, eu quero! – disse Milo com entusiasmo.

Um estalo forte no chão fez Milo recuar. Manigoldo desenrolou o chicote longo e negro, fazendo-o “cantar”.

– É sim Doctore! – disse Manigoldo.

– Sim Doctore! – falou Milo.

– Muito bem! Vamos ver o que sabe fazer. – disse Manigoldo. – Máscara da Morte, lute com ele!- ordenou, logo em seguida.

Um jovem com olhar cruel e cabelos negros apresentou-se com uma espada de madeira. Sem dar nenhum sinal, ele arremeteu-se contra Milo que permanecia sem nada nas mãos.

– Mas que porra! Eu não vou ganhar uma espada? – gritou Milo saltando para trás e desviando do golpe.

Manigoldo bocejou e fez estalar o chicote.

– Para ganhar uma espada, tem de merecê-la e saber agir sem uma! Lute!

Máscara da Morte atacava com a espada a rodopiar e Milo, que já tinha levado um golpe nas costas e no flanco, resolveu atirar-se sobre o adversário como um louco, mesmo vendo que ele empunhava a espada de um modo que poderia matá-lo, se ela fosse de aço. Com um forte golpe nas costelas, Máscara fez Milo perder o equilíbrio e cair, sonoramente, de costas na areia fina.

A queda deixou Milo sem fôlego, mas mesmo assim, quando Máscara se aproximou para simular o golpe de misericórdia, Milo golpeou-lhe a perna esquerda, fazendo-o cair também.

Um novo estalo do chicote e Manigoldo os separou.

– Você tem coragem, mas é afoito demais! Tome, agora tem uma espada! – disse Manigoldo atirando uma espada de madeira na direção de Milo.

Com o rosto sujo de terra, Milo pegou o gládio no ar e sorriu.

Agora sim, poderia mostrar o que era lutar! Pensou Milo apertando a espada no mesmo instante em que Máscara o golpeou com tanta força, que seu braço doeu. Foi então que se lembrou de ter se machucado na luta com o centurião.

– O que foi? O menininho valente já tá pedindo arrego? – gritou Manigoldo.

Milo fez uma careta e aparou um golpe ainda mais duro de Máscara da Morte. Entretanto, a experiência do garoto mais velho foi decisiva para fazê-lo beijar o chão uma porção de vezes, até ele ficar estirado com a ponta da espada voltada para sua garganta.

Faça! – disse Máscara da Morte apontando a espada para o pomo de adão do pescoço de Milo.

Sem saber a quê ele estava se referindo, Milo cuspiu a areia que inundava a sua boca e fez uma cara interrogativa.

– O sinal de rendição! – disse Máscara mostrando os dedos indicador e médio unidos.

– Nem fodendo! – respondeu Milo.

– Então, você tá fodido e morto! – disse o jovem.

Máscara pressionou a ponta da espada de madeira na pele de Milo e mesmo assim, ele nada disse. Manigoldo estalou o seu chicote e sinalizou para Máscara se afastar. Depois, estendeu a mão para Milo, olhando profundamente nos olhos azuis.

– Você me lembra alguém, moleque...O mesmo temperamento, a mesma fibra e até a mesma arrogância. Mas, vai aprender que, para casar com o sucesso, precisa tomar como amantes, a derrota e o fracasso.

Milo aceitou a ajuda de Manigoldo e encarou Máscara da Morte que o olhou sério e depois deixou o pátio, em silêncio.

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O céu estava escuro e dentro da domus também. Camus iluminava o caminho de Dohko com um candelabro, enquanto o cônsul caminhava com certa dificuldade.

– Aqui, rapaz. Deixe o candelabro e sente ao meu lado, temos muitas coisas para conversar.

– Sim, meu senhor. – disse Camus colocando o candelabro sobre a mesa e sentando ao lado de Dohko.

O ambiente daquela sala era tomado por pergaminhos. Uma vasta biblioteca que, por alguns momentos, fez Camus esquecer a adversidade.

– Sei que deve estar sendo muito difícil para você ficar entre estranhos e nesta condição. Quero que leia bastante e se aproprie da nossa cultura. Ainda chegará o dia em que a espada não mais dominará esta sociedade e nem escravizaremos nossos semelhantes. Temos que estar preparados, meu rapaz.

– Sim, dominus Dohko.

O cônsul apontou para um tinteiro e várias penas finas.

– Vejamos como é a sua escrita. – disse o ancião.

Camus quase sorriu ao pegar a pena entre os dedos. Tocou-a com carinho e lembrou-se do pai, ensinando-o as primeiras letras. Mesmo vivendo em uma época obscurecida pela ignorância e valorização da violência, Dégel o instruíra, assim como Dohko fazia agora. Olhou com admiração e respeito para aquele homem estranho e sentiu os olhos se encherem de lágrimas. Então, murmurou baixinho: Frio como o gelo, intocável como a neve...

Dohko admirou-lhe a letra firme e desenhada. Aquele menino possuía uma altivez e força invejáveis. Rezou aos deuses viver o tempo suficiente para que ele crescesse e pudesse ficar protegido. Sabia que já estava velho e logo, os deuses o chamariam para o pós-vida, onde talvez pudesse continuar sua luta pelos direitos do homem.

– Muito bem, meu rapaz! Será meu secretário particular e dormirá em meu quarto. Sua única atividade braçal será servir-me o desjejum e manter a lareira acesa. De resto, quero que priorize sua instrução e organize meus documentos.

– Sim, dominus. – respondeu Camus observando as sombras projetas pela luz bruxuleante do candelabro.

Por um instante, ele se lembrou de seu pai e seus irmãos. Sua vida mudara radicalmente e agora estava ali, junto daquele homem incomum que, apesar de todos os pesares, fora um presente dos deuses...

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Dois anos depois...

Scorpionis! Scorpionis! Scorpionis!

Os gritos ecoavam pela arena. O povo todo em coro, aclamando o gladiador que os conquistara desde que lutara pela primeira vez.

Milo Krisius entrou sorrindo, como se estivesse em casa e muito à vontade. O torso nu exibindo algumas cicatrizes, o rosto bonito e intocado sem o elmo para protegê-lo, os cabelos longos e dourados presos por um rabo de cavalo baixo e frouxo, as duas espadas, uma em cada mão, movendo-se com rapidez e habilidade...

Lindoooooooooooooooo! – gritavam as mulheres mostrando os seios, enquanto ele elevava as duas espadas e fazia uma saudação cavalheiresca.

– A casa de Gemini tem a honra de vos apresentar Scorpionis um guerreiro invicto desde que colocou seus pés na arena. Hoje, ele enfrentará um adversário duro que já esmagou muitos com sua corrente! – falou Saga, arrancando aplausos.

– A casa de Griffon vos brinda com um guerreiro formidável, forjado na batalha e jamais igualado nas arenas por onde passou! Recebam Albion de Cefeu!– falou Minos.

A multidão foi ao delírio. Albion entrou imponente com seu elmo reluzente e segurando a corrente pesada na mão esquerda. Na direita segurava uma espada curta e curva e, entrava na arena, calmo e parecendo inabalável. Visto assim, jamais alguém imaginaria a ferocidade com que lutava. Pertencia à casa de Minos, uma das ludus fortes de Roma e, realmente, capaz de fazer concorrência à casa de Gemini.

Milo continuava sorrindo, enquanto Albion permanecia com sua fleuma característica.

– Que inicie o combate e que não haja piedade! É vida ou... Morte! – gritou Minos.

Milo deixou a guarda baixa, as espadas apontando, displicentes, para o chão. Encarou Albion que apenas apertou mais a corrente na mão esquerda.

Então, num movimento calculado, a corrente de Albion foi lançada na direção da cabeça de Milo, enquanto ele preparava um golpe com a espada, visando calcular o modo de deslocamento de seu adversário.

Rapidamente, Milo elevou as duas espadas e deixou que uma delas fosse pega pela corrente, enquanto com extrema agilidade, atirava-se no chão para levantar como um felino e golpear Albion na altura da coxa, com a outra, abrindo um corte que afundou na carne rija. O sangue vivo jorrou do ferimento e ele torceu o corpo, saltando para longe de Milo.

Sem demonstrar sentir dor, Albion puxou a corrente e desarmou Milo, investindo direto na altura do rosto dele que desviou e pegou-o pelo pulso, encaixando um golpe que e o fez cair na areia.

Impiedosamente, Milo lançou-se na direção de Albion e moveu a espada com uma rapidez tão espantosa que quando Albion levantou a corrente, faíscas surgiram do choque e o cegaram, momentaneamente.

A coxa de Albion sangrava e ele brandiu a espada curva na esperança de cortar Milo na altura do tórax, o que não aconteceu.

A massa gritou quando Milo rolou pelo chão, recuperando sua outra espada e se lançando contra Albion com uma força inacreditável, ao ponto de quebrar o elo da corrente e quase quebrar a lâmina da espada curva.

Albion resistiu, mas Milo continuou a atacar de forma que a ferida aberta na coxa do gladiador parecia um pequeno rio de sangue. Ele ofegou e ainda conseguiu lançar, mais uma vez a corrente na direção de Milo que dobrou o corpo para trás, vendo os elos escuros roçarem em seu corpo.

Em um movimento veloz, a corrente deu a volta e desequilibrou Milo que caiu.

Mais uma vez, o público delirou, enquanto via Albion lançar-se com a espada na direção da garganta de Milo. Os golpes de Albion, apesar do ferimento, agora desciam com um poder de corte que, exigia de Milo uma defesa de igual poder de contenção e um revide ainda mais violento.

Milo deu um salto no ar, elevando a espada acima da cabeça e descendo-a em um movimento espiralado que fez Albion recuar dois passos com a força do choque. Como se estivesse possuído pelo deus Marte, continuou atacando e se aproximando de Albion, obrigando-o a lançar a corrente na direção do seu pescoço.

E, quando ele o fez, Milo pegou-a com a mão e aproveitou o impulso, saltando com uma precisão inacreditável e cortando seu adversário na garganta. Um espirro de sangue rubro brotou da ferida aberta de Albion...

Saga exultou no palanque e Minos franziu o cenho. A massa gritou e as arquibancadas de madeira estremeceram, fazendo um som de trovão.

Finalizando, Milo caiu sobre um joelho e moveu a espada para um segundo corte que abriu o ventre de seu adversário expondo as vísceras e retalhos da carne dilacerada.

EEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEE!!!!!! O grito excitado e ensurdecedor do público cobriu a arena.

Com os olhos vítreos, Albion elevou as mãos, tentando conter o sangue e caiu, em seguida, sob os estertores finais do seu corpo diante da morte.

Milo encarou o corpo que se depositou em uma poça de sangue e, em seguida, voltou-se para o público elevando a espada e sorrindo. Bateu no peito e gritou:

Scorpionis!

A massa gritou histérica, as arquibancadas de madeira estremeceram, os nobres deixaram seu ar civilizado por alguns instantes e se deleitaram com o derrame de sangue.

Scorpionis! Scorpionis! Scorpionis!

Saga sentiu um alívio e June exultou, sentindo uma umidade entre as coxas. Assim como ela, a grande maioria quase chegava ao orgasmo com aquele espetáculo de violência. Kanon observava a tudo, sério, porém orgulhoso. Milo era formidável, levantava os ânimos e era adorado pelo público. E, melhor que tudo, tinha sido ele, Kanon, quem trouxera o jovem para a casa de Gemini.

– O vencedor e ainda invicto! Scorpionis! – gritou Saga e todos ovacionaram gritando e batendo com os pés.

Sujo de sangue, Milo elevou os braços, novamente, e sorriu exibindo os dentes brancos e raros em homens como ele, recebendo a admiração do povo e a certeza de mais regalias de seus senhores. Bateu no peito e mostrou a marca da casa de Gemini que se fundia a um pequeno escorpião tatuado em seu braço direito.

Há um ano, atrás, uma febre levara sua mãe e, antes de morrer ela lhe contara toda a verdade sobre a sua origem. Era filho de Kardia, o Tenebris Scorpio, uma revelação que ele guardou para si, pois para ele, sua mãe fora e sempre seria Marin de Águia, a escrava que o amara como seu e lhe dera a chance de ser quem era.

Olhe para mim do pós-vida, minha mãe e veja aonde eu já cheguei. Serei o melhor e quando nos reencontrarmos, eu a abraçarei e lhe darei a rudis! Pensou Milo enquanto ouvia seu nome ser gritado por um coro de vozes masculinas e femininas.

Scorpionis! Scorpionis! Scorpionis!

Os gritos o trouxeram de volta ao presente e ele deixou a arena para beber, foder e viver o hoje como se não houvesse amanhã.

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O som da arena invadiu o atrium da domus. Parecia um eco distante, mas tanto Dohko quanto Camus sabia que as lutas haviam sido encerradas. Logo em seguida, o povo desceria às ruas bebendo e comemorando o resultado das lutas, mesmo que a sua realidade pessoal fosse dura e miserável.

Panis et circenses! – disse Dohko balançando a cabeça. – Oferecem espetáculos de selvageria para manter o povo sob controle e eles adoram. Não tem o que comer ou vestir, mas mesmo assim, pagam para ver irmão matando irmão.

Camus sorriu servindo a sopa suave feita com batatas e ervas. Cada vez que era anunciado um espetáculo, Dohko falava sempre a mesma frase, mesmo tendo se passado dois anos.

– Quer que eu leia algo para o senhor, enquanto come? — perguntou o jovem.

– Não, Camus. Enquanto eu faço minha última refeição, quero que arrume as suas coisas e deixe tudo preparado. Amanhã vá até a domus de Saga. Escrevi uma carta e quero que a entregue, somente a ele. E, quando o fizer, fique esperando a resposta e não saia até ele chama-lo.

Franzindo o cenho, Camus aproximou-se com uma expressão confusa.

Dominus, está... me mandando embora?

– Escute aqui, meu rapaz. Estou morrendo, é só uma questão de tempo até que eu caia duro e meus parentes tomem conta disso tudo. Não casei, nem tive filhos. Você é o filho que eu gostaria de ter tido. Eu poderia libertá-lo, mas sabe que a liberdade em Roma tem o seu preço e você é estrangeiro aqui. Vou deixá-lo aos cuidados de Saga que, diante dos outros cônsules, ainda é um homem justo e civilizado. Seus escravos são bem tratados e ele possui dois sobrinhos em idade de serem alfabetizados. Você pode ensiná-los, ser o professor deles.

Camus olhou em volta e seu coração ficou pesado. Olhou para o ancião com tristeza, mas sabia que ele desejava o seu bem. Dohko, embora fosse o seu senhor, tornara-se alguém que amava como se fosse um parente. Tocou a mão trêmula que depositava a colher sobre a mesa.

– Ficarei até que alguém venha me substituir. Não vou deixá-lo sozinho. – disse Camus.

– Ninguém o substituirá, meu jovem. Nunca! – falou Dohko agarrando a mão de Camus.

Quando a manhã chegou luminosa e quente, Camus levantou-se para despedir-se de seu senhor. Encontrou-o, ainda dormindo e, ao tentar acordá-lo, viu que estava morto. Ao contrário das ordens que tinha recebido, encaminhou as providências para que Dohko tivesse seus rituais fúnebres e fosse enterrado no local de seu nascimento. Só então partiu para a domus de Saga, onde o seu futuro estava esperando...

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Cuidado! – alguém gritou, trazendo Camus de volta ao momento presente.

O jovem piscou os olhos, como se acordasse de um sono profundo. Quase tinha sido atropelado por um dos corcéis que trotavam pelas ruas em um cortejo ao Imperador.

Titus Flavius Vespasianus Augustus andava pelas ruas e a multidão curiosa acotovelava-se para vê-lo. O ruído era intenso, as pessoas formavam uma espécie de enxame gigantesco e aparentemente sem fim. Debruçavam-se nas janelas, empoleiravam-se nos telhados...

A guarda pessoal do Imperador trajava uniformes de tom escarlate, que reluziam sob o sol forte e chamava a atenção de mulheres e crianças.

Camus percebia a avidez do povo e a forma com que absorvia com respeito e temor a figura do homem que se intitulava Imperador. O homem era considerado um deus e ele lembrou-se das palavras de Dohko: Dê-lhes pão e circo e todas as outras coisas, mesmo as mais importantes, serão secundárias!

De súbito, uma movimentação paralela somou-se ao cortejo. Parecia uma discussão entre dois homens que mantinham um linguajar próprio dos nobres, porém podia-se sentir a animosidade no ar.

– Vejo que está adquirindo outro campeão para a sua Ludus, Minos. Faz muito bem, perder Albion deve ter sido mesmo uma perda lastimável! – disse Saga com um visível prazer no tom de voz.

Minos que voltava com um homem musculoso, voltou-se para Saga com um sorriso cruel nos lábios.

– Realmente, Albion fará falta, porém Flégias de Lycaon tomará o seu lugar.

Saga fez uma expressão de escárnio ao olhar o gladiador.

– Espero que tenha sorte. – disse o cônsul e retornou ao seu caminho.

– Espere! – disse Minos vendo que Milo juntara-se à Saga e ria com um odre de vinho nas mãos. – Vejo que está levando seu campeão para um passeio. Que tal uma pequena demonstração? Seu campeão contra o meu.

– Seu campeão? Esse aí? – perguntou Saga rindo. – Milo provou seu valor na arena, enquanto o seu ainda nem chegou ao pátio da Ludus!

– Por isso mesmo! Vamos ver se ele tem talento para ser um campeão. Ou será que o seu não se garante?

Milo que já tinha bebido meio odre de vinho e agora tinha uma mulher pendurada em seu pescoço, beijando-o e acariciando seus cabelos, soltou uma gargalhada vendo tudo meio desfocado. Estavam falando dele e daquele cara esquisito com cara animalesca? Pensou, entornando mais um longo gole de vinho.

– Meu gladiador não precisa provar nada. Scorpionis é adorado por toda a Roma. – disse Saga.

Vendo que a comitiva do Imperador estava próxima, Minos falou bem alto.

– Então a casa de Gemini se recusa a dar um pequeno espetáculo gratuito ao nosso Imperador? Teme não repetir o desempenho?

Titus que até então apenas passeava para dar o ar de sua graça e verificar sua popularidade, aprimou-se de ambos e olhou-os com curiosidade.

– Imperador! – saudou Saga baixando a cabeça.

Minos fez o mesmo e Titus olhou para os gladiadores, avaliando-os.

– São homens fortes. Gostaria de vê-los lutar. Podem usar duas espadas retiradas de meus soldados – disse o Imperador sinalizando para que dois soldados cedessem seus gládios.

Minos sorriu, satisfeito. Notara que Milo tinha bebido e isso lhe diminuiria os reflexos. Se Flégias o ferisse, acabaria com a hegemonia da casa de Saga.

– Eu estou disposto a colocar meu homem na luta, mas parece que a casa de Gemini reluta em colocar o seu... – falou Minos.

Saga percebeu a manobra, porém, diante do Imperador, não podia recuar.

Scorpionis é um campeão, capaz até de lutar com os olhos vendados! – disse Saga.

– Ora, ora! Mas que proposta incomum! – disse Titus batendo palmas e Saga arrependeu-se das palavras ditas num impulso.

Minos exultou. Seu plano saíra melhor do que esperava e melhor, Saga, em sua arrogância, lhe dera a chance de acabar com seu adversário.

Saga aproximou-se de Milo e cochichou baixo:

– Estamos encrencados, vai ter que lutar com o homem de Minos e com os olhos vendados. Pare de beber e tente não morrer, por favor!

Milo ficou sério, depois riu. Estou vendo dois homens, mas se fechar os olhos não vejo nenhum...Beleza! Pensou o gladiador tirando uma das ataduras de algodão do pulso e atando-a nos olhos.

Camus, que até então observava a tudo e via, à sua frente o homem que Dohko o mandara procurar, estava curioso com o desfecho daquela desafio. Estava claro que o homem de Saga estava ébrio, enquanto o outro estava sóbrio e permanecia silencioso. Seria uma luta desigual e, certamente, o desfecho acabaria em mais morte e selvageria.

– Comecem! – disse Minos empurrando seu homem em direção à Milo.

Flégias atacou e Milo cambaleou ao defender, sendo cortado de raspão no ombro e trombando numa pilha de gaiolas com aves aprisionadas. Galos e galinhas voaram cacarejando e soltando penas no ar.

Aproveitando o vacilo do adversário, Flégias chutou Milo na altura do peito, fazendo-o saltar longe sobre outras gaiolas, agora vazias e deixar cair a espada.

Merda! Rosnou Milo para si mesmo, a cabeça girando pelo vinho e pelo golpe. Vendado, não sabia dizer onde caíra sua espada. Estava desarmado!

Um sorriso largo surgiu no rosto de Flégias e ele se preparou para mais um golpe, quando Milo se levantou e permaneceu imóvel, os sentidos todos aguçados...

Flégias se aproximou devagar, apertando de leve a espada na mão esquerda e arrastando o pé devagar.

Milo ladeou a cabeça e esperou, deixando a guarda baixa como sempre fazia. De repente, era como se todo o seu corpo experimentasse uma espécie de calor e tudo ficasse à flor da pele. Podia ouvir as respirações, os cochichos, o som dos pés de Flégias arrastando no chão...

Flégias cerrou os dentes e foi para cima dele e, ao invés de desviar, Milo deixou que ele se aproximasse e se atirou no chão, escorregando por entre as pernas dele e cravando as mãos nos genitais do gladiador.

Flégias urrou ao ter os testículos apertados e se descontrolou. Milo aproveitou e levantou-se com rapidez pelas costas dele e encaixou um golpe com seu braço no pescoço, estrangulando-o.

Ainda sob o efeito do golpe nos genitais, Flégias agarrou os cabelos de Milo e abaixou o corpo tentando fazê-lo voar por cima de si. Porém, quando Scorpionis encaixava um golpe, era difícil sair dele e, o ato de Flégias só fez Milo cair agarrado a ele e conseguir encaixar outro golpe, agora na altura do ombro que deslocou com um sonoro clac!

AArrgh! – gritou Flégias, enquanto Milo continuava a puxar o braço do homem até o músculo distender e o braço pender sem mais nenhum movimento.

Milo levantou e o Imperador aplaudiu, rindo e sendo acompanhado pelos demais. Flégias foi obrigado a fazer o sinal de rendição e Saga, orgulhoso, foi até seu homem e retirou-lhe a venda.

Scorpionis vence a sua casa, mais uma vez, Minos! E de olhos fechados! – disse o cônsul.

Minos ficou sério e, irritado, pegou a espada que Flégias usara, preparando-a para matar o gladiador. Saga encarou-o, ainda sorrindo e o Imperador fez um sinal de misericórdia para Flégias.

– Poupe o seu homem, ele ainda pode render um bom espetáculo na arena. – disse Titus.

Contrariado, Minos sorriu fingido e fez uma saudação ao Imperador. Devolveu o gládio ao soldado de Titus e empurrou Flégias por entre o povo, não sem antes encarar Saga e jurar para si mesmo que ainda apagaria aquele sorriso dos lábios dele.

Milo cambaleou, um pouco, e sorriu, vendo o público saudá-lo e tentar tocá-lo. Seus olhos encontraram um jovem ruivo em meio à multidão e ele notou-lhe a seriedade, estranhando o fato do rapaz olhá-lo como se estivesse vendo algo muito errado. Quando ia perguntar o porquê daquele olhar, duas mulheres e um rapaz afeminado se atiraram em seus braços e desviaram sua atenção.

Saga estava exultante, jamais pensara que um simples passeio para a exibição do campeão de sua casa acabasse encontrando o Imperador em pessoa. Os deuses estavam sendo generosos para com ele! Pensava o cônsul quando Camus se aproximou:

– Perdoe-me interpelá-lo assim, dominus, mas venho da parte do falecido dominus Dohko e tenho esta carta para entregar-vos.

Franzindo o cenho, Saga reparou na beleza do jovem ruivo e na forma polida com que ele falava. Pelas vestes era um escravo, mas não se portava como tal.

– Falecido?

– Sim, infelizmente ele faleceu e ao encaminhar os rituais fúnebres, alguns parentes resolveram levá-lo de volta à Cápua, sua cidade natal. – disse Camus.

– Não fui informado da sua morte. Pobre Dohko, era um homem de muita honra e visão. Diz aqui que você foi um excelente servo e que possui uma cultura que supera até a de alguns magistrados. Ele pede que eu o aceite em minha casa como preceptor de meus sobrinhos.

– Eu ficaria muito honrado em servi-lo, dominus.

– Bem, eu já possuo dois preceptores para meus sobrinhos. Mas, como foi um pedido de meu falecido amigo, o contratarei como meu servo particular. Venha, Fortuna sorri para mim e meu campeão traz bem-aventuranças a minha casa. Irei às termas espairecer e comemorar.

– Sim, dominus.

Camus seguiu Saga, vendo que Milo continuava cercado de admiradores e desfrutava de tudo com a mesma paixão com que lutara, instantes atrás. Era difícil compreender esse tipo de temperamento, porém Camus tinha que dar a mão à palmatória: jamais vira um homem com tanto vigor e prontidão quanto aquele gladiador...

Notas finais
Obrigada as minhas lindinhas e madrugadoras: MEL DARK e DDKCAROLINA! Meninas, eu postei às 3:00 e vocês leram a fic entre 3:30 e 4:00 da manhã!!! Puxa, isso me envaidece um monte!!!! Bjs!!! Meu afeto também pelos leitores silenciosos!!! Pequeno glossário: Doctore=instrutor Fortuna= deusa termas= banhos públicos com água quente