Entre o Amor e a Espada
16 Capítulo 16 O BELO E A FERA...
Notas iniciais
“Mesmo sendo fera...
Um pedido eu faço...
Quero a segurança...
De seus braços...”
— Acorde Afrodite! – sussurrou Shina sacudindo- o.
O loiro abriu os olhos e piscou duas vezes ao ver o rosto preocupado da escrava.
— O que foi? – perguntou ele, retirando um fio de cabelo que lhe caía nos olhos.
— Eu vi a domina deixando a casa depois que Nailah entrou em seus aposentos. Eu fiquei escondida e vi quando ela entrou pra conversar. As duas ficaram um tempo e logo domina saiu usando uma roupa estranha, parecendo uma de nós.
— Víbora maldita! Vou ter que dar um jeito nessa egípcia.– grunhiu Afrodite já levantando e articulando, mentalmente, o que deveria fazer. — Obrigado, Shina, você fez muito bem em me avisar.
Shina sorriu e buscou seu lugar no salão, enquanto Afrodite rumava para o destino que sabia ser o mais provável de ser usado por June: os fundos da domus.
Uma bruma elevava-se do chão, como se os suspiros do Mundo Inferior pedissem passagem na terra dos vivos... O ar era frio e úmido em meio ao silêncio das pedras que compunham a parte posterior da domus. Os passos de June eram rápidos e curtos e ela ofegava um pouco...
Quando June entrou sorrateira, pelos fundos, Afrodite a esperava e cumprimentou-a com cortesia.
— Aproveitou bem o passeio, domina?
June deu um pulo e arregalou os olhos, sentindo o coração disparar.
— O-O q-que está fazendo aqui? – perguntou ela, sentindo-se estremecer.
— Aproveitando o ar da madrugada... – respondeu ele encarando-a com intensidade, fazendo-a sentir-se vulnerável.
O escravo parecia ligeiramente orgulhoso de si mesmo e sua voz tinha um tom que rivalizava com o próprio Hades. June pigarreou e tentou pensar rápido, porém Afrodite continuou:
— Veja bem, domina, o que eu procuro não tem nada a ver com lealdade e servidão. Quando me ofereci para ser seu aliado, não foi por solidariedade ou obediência. Dominus Saga colocou-me ao seu lado para servir aos interesses dele e eu fingi aceitar este papel. No entanto, tenho os meus próprios interesses e creio que posso ser-lhe muito útil, assim como pode sê-lo a mim.
— Está me dizendo que está fingindo obedecer a Saga para obter alguma vantagem de mim? E o que eu poderia fazer por você? Dar-lhe a liberdade? Isso, até Saga pode fazer.
Os olhos azuis de Afrodite adquiriram um brilho perverso.
— Liberdade? É muito pouco! De que adianta ser livre sem recursos e sem nome?
— Quer dinheiro, então? Bem sabe que é Saga quem administra os recursos. Sou mulher e, portanto, subjugada ao meu marido.
Uma gostosa risada fluiu dos lábios de Afrodite.
— Não desejo o seu dinheiro, domina e sim a sua capacidade admirável de andar de mãos dadas com a perversão e o embuste. Seus contatos é que me interessam. Quero os meus direitos, a herança que pertence a mim e meu irmão e que não se resume ao patrimônio patético de alguns denários.
— O que quer dizer com isso?
— Quero dizer que há quatro anos atrás, a irmã de minha mãe nos retirou do convívio familiar e nos vendeu, em troca de um posto para o marido no senado e uma vida isenta de dificuldades. Minha mãe morreu louca e solitária, confinada em uma Villa fora de Roma, enquanto eu e meu irmão comíamos o pão que Hefestos deve ter amassado em sua forja! Tudo isso para não macular a honra de um homem que tivera filhos com uma nobre adúltera, um homem que se tornaria a figura máxima de Roma, dois anos depois que eu e Albafica nos tornamos escravos.
— Você... você está dizendo que...
— Que eu e Albafica somos filhos bastardos do imperador. E, eu jurei pelos deuses que um dia, ainda iria prová-lo.
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A notícia do torneio aberto chegara cedo e Saga verificava o selo do império, destacado em meio ao pergaminho.
— O torneio é daqui a três dias e será na arena de Cápua. – disse Saga.
— Cápua? Não é lá que houve rumores de algumas manifestações de rebeldes, meses atrás? – perguntou Kanon.
— Foi. Dizem que os jogos de lá sempre contam com uma selvageria extra. Feras são colocadas na arena para lutar contra os homens.
Kanon franziu o cenho.
— Acha que farão isso neste torneio aberto?
— Não creio que o Imperador permita que seus gladiadores sejam desperdiçados nas garras de feras selvagens. – disse Saga.
— E se não for os dele e sim os das outras casas? Não estou gostando disso, irei ao senado e verei o que Hades está tramando. – falou Kanon.
Ao sair, Kanon encontrou-se com Camus.
— Dominus, gostaria de falar-lhe, se fosse possível.
— O que seria, Camus?
— Milo está de castigo e nós nos desentendemos. Eu gostaria de vê-lo antes do torneio aberto, por isso peço sua permissão para dar uma breve palavrinha com ele, após os serviços do dia. Por favor, serei rápido e...
— Não posso permitir isso, seria inadequado como senhor e levaria os outros servos a pensar que não possuo autoridade. – disse Kanon, sério. – Mas, nada impede que você transgrida minha ordem sem que eu saiba e encontre-o quando todos estiverem dormindo, tendo o cuidado de não permanecer muito tempo no local. – concluiu o general.
Camus sorriu, sem graça, mas aliviado. Já fazia dois dias que não falava com Milo e a notícia do torneio o deixara apreensivo. Não queria permanecer de “mal” com o gladiador em um momento crucial como esse. Correu para falar com Afrodite, mas não o encontrou.
— Afrodite foi inspecionar a adega do dominus. — disse Shina que limpava as esculturas do atrium.
Camus ia encontrá-lo, quando Saga solicitou seus serviços. O ruivo suspirou e foi ter com seu senhor.
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Na adega escura, Nailah fazia a contagem das ânforas de vinho quando Afrodite apareceu. A escrava sentiu faltar o ar, mas mesmo assim continuou seu trabalho como se nada tivesse acontecido.
— Verificou se ainda tem vinho mediterrâneo o suficiente para as necessidades do dominus?— perguntou Afrodite com uma voz suave e amigável.
Nailah olhou-o, desconfiada, mas continuou o que estava fazendo.
— Verifiquei e está tudo em ordem. Agora, se me dá licença. – disse ela empinando o nariz e fazendo menção de deixar a adega.
O rosto de Afrodite mudou. A expressão serena e bela tornou-se feroz. Ele pegou uma ânfora pequena contendo azeite e, sem que a escrava pudesse desviar, bateu-lhe com o artefato na cabeça, estilhaçando a cerâmica trabalhada com motivos orientais.
Nailah ficou com o grito preso na garganta e pareceu-lhe que o tempo estancou. Ela sentiu o calor e a viscosidade do sangue banhar seu rosto e caiu. Com os olhos abertos e atordoada pelo impacto, ela viu quando Afrodite aproximou o rosto e falou-lhe, próximo ao ouvido:
— Escute bem sua viborazinha de merda! Você não tem amigos aqui e não sabe como as coisas funcionam... Então eu vou ser piedoso, dessa vez, e explicar: nada acontece entre essas paredes que eu não saiba! Experimente rastejar perto dos aposentos da domina, novamente, e eu piso nessa sua cabecinha e depois jogo, o que sobrar de você, aos cães. Mantenha a língua dentro da boca se pretende conservá-la. Não esqueça que, enquanto você engatinha em ardis mal executados, eu já escrevi manuscritos sobre o assunto!
A escrava sentiu uma dor excruciante e lágrimas saltaram dos olhos escuros quando Afrodite, maldosamente, a levantou do chão com força, fazendo com que sua cabeça sacudisse.
— Estamos entendidos, minha querida?— perguntou o escravo.
Apavorada e se engasgando com os soluços que se sobrevieram ao choque, Nailah concordou com um débil sim. Seu corpo estava trêmulo e o sangue vertia, abundante do corte na cabeça. Ela sentiu uma vertigem tomar conta de seu corpo e tudo escureceu.
Afrodite deixou que ela caísse como um saco de batatas e, passados alguns minutos, deixou a adega e foi chamar Albafica.
— Irmão, rápido! Parece que a nova escrava teve um pequeno acidente na adega. – disse ele disfarçando um sorriso cruel.
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Mu gostava de inventar coisas e havia criado um sistema de banhos que consistia em um balde grande e furado que recebia água de uma calha e, através dos furos, vertia pingos d’água sobre o corpo.
Milo usufruía do tal invento, depois de um treino exaustivo e antes de ser trancafiado na cela. Os pingos d’água caiam sobre seus cabelos e escorriam pelo corpo nu, trilhando caminhos sinuosos pelos músculos potentes de seus braços e coxas... Seu rosto exibia uma expressão de prazer ao ter a carícia da água em si e os movimentos que suas mãos executavam faziam qualquer um sentir a boca seca...
Nenhum homem tinha o direito de ser assim tão atraente! Pensou Camus quando se deparou com aquela cena.
Manigoldo e os outros já haviam entrado para as celas, enquanto Milo permanecia naquela área do pátio onde aproveitava a invenção de Mu.
Devagar e preso àquela visão do amado, Camus sentia o desejo inundar-lhe todas as fibras do corpo. Aproximou-se devagar, quase sem respirar. Milo continuava com os olhos fechados, aproveitando o restante da água que molhava o seu rosto.
Então, como se uma mão invisível o alertasse para a presença de Camus, ele abriu os olhos e um furor azul mesclado à surpresa depositou-se neles.
— Camus...?
O ruivo nada disse. Continuou caminhando na direção do gladiador até chegar perto o suficiente para tocar-lhe os lábios entreabertos e encará-lo com uma paixão explícita e silenciosa.
Os lábios se encontraram, implacáveis e saudosos, o beijo profundo levando-os para a ciranda abrasadora que os fez perder o fôlego e afastar as bocas para então retornar e começar tudo de novo... Nada era dito, havia somente a ânsia e reencontro...
Não havia muito tempo, mas Camus sentia um prazer extremo com os beijos de Milo. Os lábios carnudos, a língua exigente... tudo no gladiador o levava a experimentar sensações alucinantes e únicas. A experiência e a sensualidade de Milo sempre o levavam a vivenciar o sexo com prazer e cuidado. No entanto, agora era a vez dele demonstrar com atos o quanto Milo era importante para si.
— Não se mova... – ordenou, roçando o pescoço molhado de Milo com os lábios, saboreando a carne demoradamente.
Milo obedeceu e deixou-se tocar. Camus foi baixando o corpo e sorrindo ao ver Milo fechar os olhos e ofegar. Como um felino, cravou as unhas nas coxas grossas, fazendo o gladiador abrir os olhos, e encará-lo. Com uma expressão maliciosa, ele tomou o falo túrgido inteiro em sua boca. Milo deixou escapar um gemido alto e descontrolado e Camus continuou sugando, lambendo e levando-o até a garganta com uma perícia desconhecida até para si mesmo.
O cheiro viril, o gosto, os sons emitidos pelo gladiador o excitavam e o ruivo desejava receber o falo dele dentro de si com tanta intensidade quanto Milo queria possuí-lo.
Agarrado aos cabelos avermelhados, Milo gemeu e se afundou na boca quente num ritmo cadenciado, sentindo-se tragado pela cavidade úmida, várias e várias vezes... Camus se afastava e tornava a engoli-lo, ouvindo os gemidos abafados e roucos, guiado pelos espasmos prazerosos que o corpo de Milo começava empreender.
Porém, sentindo o gozo de Milo se aproximar, Camus abandonou o falo que pulsava, arrancando um gemido queixoso do gladiador. Olhando bem dentro dos olhos de Milo, ele afastou-se um pouco e se despiu, revelando seu corpo alvo e também excitado...
Sem desviar os olhos de Milo, ele se aproximou, novamente, devagar e tocou no falo ereto que estivera em sua boca, encostando-se no corpo molhado, fazendo o gladiador sentir o calor de seu corpo e sua ereção tão desperta quanto a que mantinha em sua mão...
Extasiado, Milo o puxou para si, sentindo a pele quente do ruivo na sua, esfregando-se nele, enquanto lambia os lábios, o pescoço, os ombros, os mamilos, fazendo Camus morder os lábios ao sentir aquela língua sôfrega, em seu corpo.
Ainda de pé e encostado ao batente de madeira, Camus foi virado de costas, suas mãos se apoiando ao lado da sua cabeça e Milo continuando sua exploração, lambendo as costas, descendo até a bunda redonda que se empinou, ainda mais, ao sentir os seus dentes mordiscando-a, com volúpia.
Para lubrificar a entrada do amante, Milo enfiou a língua quente e molhada dentro dele, arrancando um gemido abafado e longo, deliciando-se com o corpo de Camus, sua pele, seu gosto, seu suor...
Camus tentou falar, mas apenas conseguiu gemer enquanto Milo o percorria com as mãos e boca, não diminuindo aquele ritmo impiedoso, nem mesmo quando voltou a colar o corpo no de Camus e segurar-lhe os pulsos para tomar posse do seu corpo.
Milo sentia um tesão, quase insuportável, e foi com esta emoção desenfreada que ele penetrou Camus, de uma vez, mergulhando dentro dele com fúria, para depois mover-se mais devagar, estocando-o lenta e profundamente, sentindo a resistência da cavidade apertada e junto com ela, um prazer torturante e indescritível.
A surpresa foi tanta que Camus gritou e depois gemeu, entregue e lânguido, enquanto forçava o corpo para trás, tentando sentir Milo mais fundo, mais seu...
Os cabelos ruivos grudavam-se às costas alvas devido ao suor e, ambos, ofegavam enlouquecidos, quase chegando ao clímax que ameaçava irromper como ondas violentas e desatinadas.
Completamente febril, Milo acelerou o ritmo dos movimentos, agarrando os quadris de Camus, arremetendo e cravando os dedos na carne macia e quente, enquanto levava uma das mãos ao falo pulsante dele e sentia-o vibrar e gotejar, antevendo o que viria...
O orgasmo veio rascante e arrebatador. Um tremor intenso sacudiu os corpos, quase ao mesmo tempo e os movimentos se tornaram erráticos, sem ritmo e sem controle...
Para Milo, foi como se algo tivesse explodido dentro dele com tanta violência que sua visão ficou turva, como se estivesse bêbado. Ele gemeu alto, liberando toda a tensão que ficara presa na garganta, e apertou mais o corpo do ruivo, sentindo seu falo ser sugado pelas contrações do outro.
Para Camus, uma sensação fervilhante como se Júpiter enviasse seus raios e estes riscassem seu corpo, ao mesmo tempo em que aquele falo túrgido o rasgava causando um prazer excruciante, intenso, ardente...
O ruivo gemeu e sentiu seu sêmen molhar a mão de Milo, no mesmo instante em que ele estocava mais fundo e deixava-se gozar com fúria, estremecendo e o apertando, ainda mais...
Ficaram abraçados, arfando, sentindo os espasmos do gozo, arrefecendo...
— Você me deixa morto, ruivo... — disse Milo, ainda abraçado à Camus.
— Não quero matá-lo... quero que fique bem vivo, gladiador. – respondeu Camus, sentindo-se estremecer, enquanto se virava de frente para Milo e tinha sua boca tomada, mais uma vez, com a impetuosidade apaixonada que trazia felicidade ao seu coração.
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Albafica raspava a cabeça de Nailah para poder aplicar o unguento na ferida e depois cobri-la com uma atadura. A escrava permanecia calada e, de vez em quando, seu corpo estremecia ao lembrar-se da cena na adega. Atento, Albafica percebeu que aquele corte tinha uma angulação estranha, mas guardou suas indagações para si.
— Pronto. Sugiro que descanse um pouco. Feridas na cabeça pedem cuidado. – disse ele tocando o ombro da escrava.
Nailah olhou-o, analisando o rosto calmo e bondoso de Albafica. Ele parecia tão diferente de Afrodite... nem pareciam irmãos. Os dois eram belos, mas Afrodite tinha uma fera dentro de si.
— E então? Cuidou bem da nossa pequena Ísis?– perguntou uma voz melodiosa e conhecida.
A escrava estremeceu e Albafica percebeu.
— Ela está bem, mas precisa de descanso. – disse Albafica olhando bem dentro dos olhos do irmão.
— E ela terá! Eu mesmo vou me incumbir disso. Venha Nailah, hoje você será dispensada de seus afazeres. Até já falei com o dominus.— disse Afrodite sorrindo.
Albafica se aproximou de Afrodite e sussurrou:
— O que está tramando desta vez?
— Nada, meu querido irmão... Apenas cuidando da nossa segurança.
Nailah baixou os olhos quando Afrodite se aproximou e abraçou-a, levando-a para o local de descanso dos escravos. No caminho, ele contemplou o rosto inchado e levantou-lhe o queixo, olhando-a bem dentro dos olhos escuros.
— Descanse e pense no que eu lhe disse. – falou Afrodite com aquele tom perverso que Nailah vivenciara na adega...
— S-Sim, eu o farei. – respondeu ela sentindo as lágrimas lhe inundarem os olhos.
— Ótimo! Creio que, apesar das tensões que ocorreram entre nós, vamos nos dar muito bem se você souber o seu lugar! Agora vá e descanse.
Quando Afrodite retornou, Albafica o interpelou.
— Nailah não sofreu nenhum acidente! Aquilo foi fruto de uma agressão!
— Foi acidente. Uma pequena ânfora escapou das minhas mãos e acabou na cabeça de uma pequena víbora! Sorte que era um objeto pequeno, suficiente apenas, para deixar claro com quem a vadia está lidando.
— O que ela fez?
— Estragou o meu disfarce contando para a domina que eu seria um olheiro de Saga.
Albafica arregalou os olhos.
— Mas então...
— Então nada! Eu já consertei a merda. Mas tive que ser um pouco mais enfático na correção de atitudes da nossa companheira de infortúnio.
— Você fez, não é?
— Fiz o quê?
— Revelou nosso segredo.
Afrodite suspirou.
— Júpiter é testemunha que fiz de tudo para não fazê-lo. Mas, depois que Nailah aprontou, era a única arma que eu tinha para retomar a relação com “você sabe quem”.
— Você ainda brinca com isso!
— Não estou brincando. Apenas faço o que é necessário e não tenho pudores, como certo alguém!
— Não quero me tornar um homem sem escrúpulos, Afrodite.
— E eu não quero ser escravo pra sempre! E se, pra isso eu tiver que engolir uns sapos... Menos o Zelos, que Júpiter me proteja! Eu o farei.
— Às vezes, você me assusta. – disse Albafica com uma voz triste.
— Que bom! Isso significa que eu não sou apenas um rostinho bonito.
Albafica franziu o cenho, suspirou e no final, sorriu.
— Você não tem jeito mesmo...
Afrodite abraçou-o e beijou-o, encostando a testa na do irmão.
— Passamos por muita coisa, Albafica. Não sou homem de recuar e nem você. Saga e Kanon são senhores atípicos e nossa oportunidade de retomar a nossa condição.
— Eu sei. – respondeu Albafica.
— Então, vamos lá, façamos o que é preciso. – disse Afrodite e ambos retornaram aos seus afazeres.
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Filhos bastardos do Imperador!
A frase se repetia na mente de June que andava de um lado a outro de seus aposentos. De repente, essa revelação se tornava mais uma arma a ser usada, se bem que ela ainda não conseguira encaixá-la em seus planos...
Vestiu-se como antigamente e penteou os longos fios loiros. Pensaria com calma, mais tarde. Pandora ficara de voltar e certamente o faria. Tinha de estar preparada para receber a vaca com a melhor aparência possível.
Afrodite surgiu, sorridente, e ela verificou que ele trazia uma roupa nas mãos.
— Pedi ao dominus que permitisse um pequeno presente, já que domina Pandora costuma reparar nas coisas. Essa túnica faz mais juz a sua beleza e posição. – disse ele estendendo a roupa sobre a cama.
June admirou-se do tecido fino e do corte bem feito. Olhou para Afrodite, pela primeira vez, percebendo a postura do jovem e a forma segura com que se portava em sua presença.
— É maravilhoso... – disse ela verificando a maciez do tecido.
— Como eu disse antes, domina... não se arrependerá por ter-me como aliado.
Um sorriso formou-se nos lábios de June. — Realmente, tenho que concordar com isso.
Afrodite organizou os pentes e as essências perfumadas. Cuidou de June com esmero e quando terminou, ela parecia uma deusa. Uma exclamação de surpresa escapou dos lábios dela ao ver-se na superfície polida.
— Por Marte! Você é... incrível!— disse ela.
O belo escravo fitou-a e lembrou-se de outra mulher a quem encantara com suas habilidades desde que fora vendido ao prostíbulo, por sua tia.
Graças ao seu talento em transformar, deixara a feia e desengonçada dona do bordel em uma mulher apresentável e até feminina. Com isso, conquistara o direito de escolher os clientes e o homem que seria o seu primeiro, na cama.
Não deixava de ser irônico que aquele que o desvirginara e lhe ensinara os segredos de foder com maestria fosse seu atual senhor, Saga, o belo cônsul que um dia viera à casa de prazeres, bêbado e angustiado.
Lembrava-se bem das feições perfeitas e do corpo esguio. Colocara os olhos nele desde que entrara. Como era um cônsul, teria toda a sorte de regalias e privacidade, assim como a atenção de todas as putas e putos que queriam um cliente bonito, poderoso e limpo pra variar....
Tratou de recebê-lo com toda pompa e encaminhá-lo a um dos quartos, antes que uma das mulheres ou rapazes o fizesse. Agiu como se fosse experiente, outro de seus dons especiais: transformar a si próprio no que se esperava de si...
Pietra, a dona da casa, era uma mulher rude, mas em suas mãos se tornara atraente e conquistara o objeto de seu desejo, um centurião que costumava frequentar a casa. Encantada, como June estava agora, Pietra deixara que ele se insinuasse ao belo cônsul e fosse possuído por ele, um trunfo que o livrara de sofrer violência e maus tratos nas mãos de um animal qualquer.
O sexo tinha sido dolorido, mas no final sentira um pouco de prazer. Saga o beijara e tocara concedendo-lhe carícias que, geralmente, nenhum homem oferecia a um puto. E quando gozara, o cônsul fechara os olhos e dissera um nome, com tanta ânsia que ele jamais esquecera... “Kanon...”
Antes que a noite cedesse ao dia, Saga bebeu mais vinho e sorrindo disse em seu ouvido:
— Você é bonito demais para ser um puto dessa espelunca... E era virgem, quando o tomei. Quem é você, Afrodite?
A pergunta o pegara desprevenido, mas logo sua sagacidade fez brotar as palavras certas...
— Sei ler e sei guardar segredo. Poderia me ter sempre e jamais alguém iria saber, dominus. E quanto a minha identidade, posso ser quem o senhor quiser...
O cônsul franziu o cenho e, inesperadamente, sentiu-se tocado pelas palavras que ele dissera. Foderam, mais uma vez e quando acabou, ele estava exausto, doído, mas feliz...
Naquela mesma noite, uma boa quantia foi oferecida a Pietra e ele deixou o prostíbulo para tornar-se um servo doméstico que ensinaria os sobrinhos do dominus e também, amante eventual e secreto do senhor da Casa de Gemini.
— Pronto! Pandora parecerá uma mendiga na sua presença. – disse Afrodite interrompendo suas lembranças e terminando de arrumar os cabelos e os detalhes da túnica de June.
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— Preciso ir. Você está de castigo e eu transgredi ordens para estar aqui. – disse Camus apartando o beijo e ainda preso aos braços fortes de Milo.
— Confesso que isso me surpreende. – falou Milo fitando Camus com atenção.
— Não queria que fosse ao torneio pensando que o considero um estúpido. Teimoso e impulsivo sim, mas tolo, jamais. – disse Camus sorrindo e tornando a beijar a boca do gladiador.
Quando ele recuou, as faces ostentavam um rubor sensual, os lábios estavam úmidos e os olhos cheios de... sentimento. Milo sentiu que Camus queria dizer algo, então o apertou forte de encontro ao corpo e ouviu-o sussurrar rente à sua boca:
— Não vou desejar boa sorte, porque sorte é para aqueles que não estão preparados. Vou desejar uma boa luta, porque o homem que possui meu corpo e meu coração é o maior gladiador que Roma já viu.
Ditas as palavras, Camus aprofundou o beijo de forma intensa, como se fosse devorar a boca que o recebia. Depois se afastou e deixou o pátio, adentrando a domus com o coração aos pulos e sob o olhar apaixonado de Milo.
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Pandora adentrou a domus e surpreendeu-se com a aparência de June.
— Minha querida, você está... fantástica!— disse ela.
— Gentileza sua. Apenas estou mais composta que da outra vez que a recebi. Mas diga-me, tem novidades? – perguntou June com um tom casual.
— Além do tal torneio, em honra a Minos, ser em Cápua? Nenhuma! Não sei o que deu em meu primo para fazê-lo lá. Ah, vá se entender os homens! Por falar em homens... posso assistir a um treino dos seus?
June sorriu.
— Claro! Vou ordenar a Afrodite que nos acompanhe, caso deseje algo.
— Perfeito! – disse Pandora batendo palmas.
Acomodando-se na sacada, Pandora correu os olhos pelos homens que treinavam no pátio. Aldebaran e Máscara da Morte estavam lutando, enquanto os outros estavam descansando ou gritando palavras de incentivo.
O torso musculoso de Máscara da Morte estava banhado em suor e cada fibra muscular parecia vibrar quando ele manuseava a espada atacando Aldebaran com fúria. O choque dos gládios soltava faíscas e a expressão de ambos estava contraída em um máximo de concentração.
Pandora notou o rosto duro, porém belo e viril do gladiador moreno, em contraste com o rosto anguloso daquele a quem chamavam de Taurus. De imediato, sentiu-se excitada e abanou-se, antes de comentar:
— Esses dois me fazem sentir um calor! Mas aquele ali... o que tem os olhos azuis é de tirar o fôlego. Gostaria de ter uma conversinha particular com ele.
— Infelizmente, até o torneio em Cápua, eles estarão concentrados em lutar. – disse June.
— Bem, se ele sobreviver, poderei realizar o meu desejo. Isto é, se você não e importar... – falou Pandora.
June sorriu, falsamente, enquanto Afrodite analisava Pandora da cabeça aos pés.
Outra, que vai ter de aprender o seu lugar... Vai exigir mais de mim, mas como eu sempre digo, adoro um desafio! Pensou Afrodite, também sorrindo, enquanto imaginava o que fazer com a prima vadia de Hades.
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