Entre o Amanhecer e a Eternidade
2 Capitulo 1
A noite estava pesada.
Não apenas pela chuva incessante que tamborilava no telhado, mas por um peso que parecia envolver o ar dentro da casa, como se cada parede estivesse absorvendo o medo silencioso que se espalhava por nós.
O relógio na parede marcava cada segundo com um som seco e irritante, que se misturava ao ritmo irregular da minha respiração. Eu estava sentada no sofá da sala, os pés sobre uma almofada improvisada, e Edward, como sempre, ao meu lado — imóvel, mas com os músculos tensos, como se a qualquer momento fosse ser forçado a se mover.
Rosalie estava no canto, os olhos fixos em mim e as mãos cruzadas no colo. Desde que assumira o papel de guardiã dessa vida dentro de mim, ela se tornara quase uma barreira viva. E eu sabia que Edward não confiava na devoção dela a mim — apenas à criança.
Meu corpo estava exausto. Eu já não conseguia lembrar como era me sentir leve. Cada respiração parecia exigir esforço demais. Cada movimento, por menor que fosse, trazia uma pontada de dor. Ainda assim, a sensação mais forte não era medo por mim, mas pela vida que crescia dentro de mim.
— Bella — Edward quebrou o silêncio, a voz baixa e cautelosa. — Você está sentindo alguma mudança?
Pensei por um momento. Havia uma diferença sutil na dor — mais aguda, mais cortante, como se algo tivesse finalmente decidido acontecer.
— Acho que sim… — murmurei. — Está perto.
Rosalie se levantou antes mesmo que Edward reagisse. Ela já havia preparado tudo — toalhas, água, e a frieza precisa de quem espera esse momento há dias.
Foi então que aconteceu.
Um estalo surdo soou dentro de mim, como se algo tivesse se partido. A dor explodiu com uma força que arrancou o ar dos meus pulmões. Arqueei o corpo, um grito rasgando minha garganta antes que eu pudesse tentar contê-lo.
A partir daí, tudo se tornou fragmentos.
As vozes se misturaram ao som do meu coração acelerado. O frio das mãos de Edward em minha pele era um contraste brutal com o calor que parecia consumir o resto de mim.
Passos apressados ecoaram pelo corredor.
E então, Jacob entrou.
O cheiro quente e familiar dele me atingiu antes mesmo que eu visse seu rosto. Por um instante, meu coração reagiu com um lampejo de alívio. Ele estava aqui.
Mas quando seus olhos encontraram os meus, vi algo neles que não era apenas preocupação. Era medo. Medo e raiva. Ele parou perto da cama, o corpo tenso, como se estivesse pronto para lutar contra algo — ou alguém.
Edward, curvado sobre mim, não disse nada. Ele apenas segurava o pequeno corpo envolto em um pano, ainda coberto de um verniz delicado de vida recém-chegada.
Jacob deu um passo, mas não chegou perto. Seus olhos fixaram no bebê por um instante, e então ele se afastou. Nenhuma palavra. Nenhuma despedida. Apenas se virou e saiu, o som das botas ecoando pelo chão de madeira.
Eu quis chamá-lo.
Mas não havia ar.
E, de algum modo, percebi que ele já havia decidido: para ele, eu não sobreviveria.
Edward voltou para mim, os olhos ardendo com um desespero que não tentava esconder.
— Bella, preciso fazer isso agora — sua voz estava quebrada.
Eu sabia o que “isso” significava. Já tínhamos conversado sobre a transformação, sobre o que seria necessário se eu chegasse a esse ponto. Eu apenas assenti.
A picada dos dentes na minha pele foi imediata e brutal. O veneno queimou como fogo líquido correndo pelas minhas veias, devorando tudo no caminho. Eu queria gritar, mas o ar não vinha.
As vozes ficaram distantes.
O mundo encolheu até caber no espaço entre uma batida de coração e outra.
Quando percebi, estava sendo erguida — braços fortes, o cheiro característico de Emmett. Eu mal via, mas sentia o movimento rápido, a urgência. Rosalie passou ao meu lado, a bebê firmemente presa nos braços, como se fosse feita de vidro.
O ar frio da noite me atingiu quando atravessamos a porta. O carro já estava ligado, o motor vibrando baixo.
Carlisle estava no banco do motorista, Edward ao meu lado. Rosalie sentou-se na frente, com a bebê no colo, protegida por uma manta clara.
— Para onde? — perguntei, mas minha voz era tão baixa que mal me ouvi.
— Alasca — Carlisle respondeu, firme.
A estrada escura se abriu diante de nós. As luzes da cidade ficaram para trás. Eu sabia que Jacob não estava ali, não nos seguia, não tentaria nos alcançar.
E, no fundo, entendi: ele acreditava que essa era a última vez que me veria.
O motor rugiu mais alto.
A dor tomou conta de tudo.
E eu deixei que a Bella humana se dissolvesse na escuridão.
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