Entre nós
1 Capítulo 1
— Hey, quer dar uma volta no skate? —
‘’Esse era o problema de se observar de mais’’
Ele tinha provavelmente a minha idade. Talvez um pouco mais velho.
— Não sei andar de Skate — respondi o obvio. Ele me encarou com seus olhos azuis, incrédulo. Franzi o cenho, me perguntando que tipo de resposta ele esperava.
— Você estava observando então pensei que estivesse afim — sorriu agradável. Sua camisa era branca e sem nenhum detalhe. Pisquei os olhos.
— Estava observando? — indaguei falsamente desentendida. Ele riu de leve, e eu não o entendi. — Sim, estava apenas observando. —
— Sério? — ele me pareceu animado de mais. — Vamos tentar então. Qual o seu nome? — Ele escondeu seus fones de ouvido dentro do bolso de seu calção jeans. Era preto, assim como as listras de suas meias old school.
— Ana. — respondi sem interesse algum. Aliás, por que diabos aquele garoto veio encher o saco.
— Ana, eu posso ajuda-la com o Skate. —
Remexi-me contra o banco. Estava realmente desconfortável a conversa com aquele garoto. Que idade ele tinha. Uns dezoito talvez. Era bem mais alto que eu e possuía um corpo de músculos visíveis. Nada como um troglodita de academia. Suspirei desviando meus olhos para o outro lado da rua, onde tinha um grupo de meninos e seus skates.
— Como se chama? — perguntei, notando seus dedos brincarem com seu cabelo negro.
— Bruno. — Bruno sorriu para mim, seus dentes brancos me ofuscando. Ri da piadinha interna.
— Bruno eu não quero andar de Skate. Ou você quer me ver cair? — cruzei minhas pernas que estavam escondidas por uma calça vermelho escuro.
— Seria engraçado. — ergui uma sobrancelha, achando aquela sinceridade um tanto divertida. Ele mordeu o lábio inferior e bateu o pé contra o Skate, pegando-o quando a ponta se ergueu para cima.
Meu irmão era um viciado em manobras. Ele me obrigava a ir para aquelas competições chatas em que eu tinha que torcer para ele não cair e quebrar o pé. Era divertido naquela época. Ele tinha uma namorada chamada Manoela e eu sempre me via grudada nela. Manoela não era muito agradável, mas não era uma má pessoa. Não sei se meu irmão gostava realmente dela, por que ele sempre levava outras garotas lá pra casa. Meu pai dizia que meu irmão estava nos seus dezesseis anos, e garotos naquela idade não eram nada inteligentes. Ele também me dizia que garotas eram mais espertas, e eu não acreditei naquilo.
— Tudo bem. — respondi após aquele silencio desconfortável. Bruno pareceu sorrir e me entregou o Skate. Suspirei.
A primeira vez que eu havia segurado um Skate, eu estava com meus seis anos de idade. Por que desde que eu me entendia por gente, ou que me lembre, meu irmão sempre estava em cima daquilo. Ele me ensinou o básico, como ficar equilibrada e sair em linha reta. Um saco foi depois, quando eu não queria mais devolver o seu Skate, e ele se obrigou a me comprar um.
— Fala, cara — quando atravessamos a rua,um garoto um pouco maior se aproximou. Era um loiro de olhos negros, que usava uma calça e regata. Desviei meus olhos, implorando para que ele não viesse me encher como o seu amigo Bruno fez. — Quem é a garota? —
— Essa aqui é Ana — Bruno tocou o meu ombro coberto por uma blusa de mangas compridas. — Ela resolveu nos mostrar algo de bom. — Ele riu, deixando claro para o amigo que eu iria sim, pagar o maior mico da minha vida.
— Me chamo Gustavo. — o garoto loiro sorriu para mim e acenou de leve com sua mão.
Eu me senti mal.
— Gustavo também era o nome do meu irmão. — sussurrei sem pensar. Estava lembrando-me de mais do passado. Eles me encararam confusos e eu me afastei sem dizer nada. Apertei o Skate e o coloquei no chão. Eu provavelmente iria cair. Pisquei os olhos.
Empurrei com o pé esquerdo, dando-me conta de que ate ai tudo bem. Peguei impulso e tentei um bigspin logo no início, mas não havia dado certo. Não cai, mas o Skate correu um pouco para longe de mim. Ouvi as risadinhas de longe, e quando os encarei, Gustavo e Bruno não estavam mais sozinhos. Franzi as sobrancelhas, irritada. Eu seria algum tipo de atração?
Peguei o Skate e o coloquei novamente no chão. Havia um corrimão e um lance de seis escadas. Eu poderia tentar um triplo hardflip, mas caso eu perdesse o controle do skate, provavelmente eu me jogaria contra o a rua movimentada.
Olhei em direção a o grupo de garotos. Bruno me encarava curioso, provavelmente pensando que eu iria desistir. Desviei o olhar e encarei o corrimão. Não iria escorregar sobre ele, iria apenas pular sobre ele. Dei impulso mais algumas vezes e peguei velocidade. Era tenso. Eu iria, com toda certeza quebrar um braço. E pensar que antes daquele acidente, eu me sairia tão bem.
Bruno havia notado o que eu pretendia, por que eu o ouvi xingar e logo em seguida gritar meu nome. Ri sentindo minhas costas doerem de leve. Havia esquecido aquela sensação. Prendi o ar. Queria fazer aquilo. Mostrar aquele corrimão quem é que mandava aqui. Estreitei-os olhos, a luz solar batendo contra eles. Calor. Minhas mãos tremiam. Estava próximo de mais para desistir.
Equilibrei-me no skate e agachei o bastante para que pudesse dar um pulo. Percebi que precisava respirar e quando o fiz, notei meu nervosismo. O skate deu um giro no ar. Lentamente eu pude ver tudo ali de cima. Meus cabelos se espalharam e eu senti minhas pernas se separarem. Meus braços se afastaram das laterais do meu corpo enquanto tentei, inutilmente, pegar o Skate com os meus pés. Ele deu um segundo giro e foi em uma direção oposta.
‘’Fodeu’’
Caí com um dos joelhos se chocando contra o chão. E ele provavelmente ficaria feio com aquilo. Meus quadris foram os próximos a baterem contra a calçada. Sai girando umas duas vezes ate finalmente ficar estirada sem conseguir mover um dedo. Gemi. Meu nariz estava doendo, como toda a parte abaixo dos meus olhos, e eu não me lembrava se havia batido ele em algum lugar.
Gustavo e Bruno vieram correndo em minha direção. Apertei os olhos.
— Droga! — Bruno foi o primeiro a dizer alguma coisa. Ele se aproximou de mim, agachando logo ao meu lado. — Seu nariz está sangrando. —
Levei meu braço em direção ao sangue que escorria para os meus lábios, e senti meu ombro doer como o inferno. Com certeza foi o ombro que bateu logo depois dos quadris. Grunhi.
— Ela precisa ir a um hospital — Gustavo falou, formando uma careta de dor.
Eu realmente não desejava ir a um hospital, mas por deus, meu corpo doía o bastante para que eu concordasse sem discutir um ‘’a’’. A questão ali era que eu não poderia ir me consultar com um. Ele iria tocar o meu corpo, ver as marcas e isso seria um problema.
— Não. — sussurrei sem vontade alguma. — Vou te comprar outro Skate — avisei após ver o mesmo aos bagaços quando fora esmagado por um carro.
— Foda-se o Skate. — disse visivelmente irritado. Franzi as sobrancelhas, tentando inutilmente ficar em pé. — Mas que droga. Fica ai. — Gustavo riu com o cuidado demasiado que ele tinha sobre mim.
— Não posso ficar. — avisei sem animo algum. Não estava acostumada aquela superproteção. De certo modo me deixava tanto irritada como encabulada.
Com dificuldade eu fiquei finalmente, sobre os pés. Afastei os dedos de Bruno e suspirei, encarando a rua para ver a aproximação de algum taxi.
— Ana, é sério. Você pode ter quebrado alguma coisa. —
Gustavo concordou, aproximando-se. Caminhei lentamente ate o fim da calçada, os ignorando.
— Mas que droga Gustavo, faça alguma coisa. — Gustavo deu de ombros, sem saber o que poderia ser feito. Suspirei. Não era como se eu fosse vê-los novamente. Não havia números, emails, e eu só iria devolver o seu Skate daqui a uma semana e então bye bye. Gustavo e Bruno seriam apenas passado.
— Eu sofro de violência domestica. — disse a verdade. Revirei os olhos ao ver suas faces incrédulas.
— Tá de brincadeira — Gustavo mais afirmou do que perguntou.
— Se eu for a um medico, ele com toda a certeza vai notar algo de errado —
— Cara, para com essas piadinhas sem graça. — Gustavo riu sem vontade e Bruno o acompanhou. Franzi as sobrancelhas, notando que meu nariz ainda sangrava. Passei o dedo de leve. Encarei os dois rapazes a minha frente e ergui a mão para chamar um taxi.
— Eu to rindo? — eles ficaram sem graça, confusos e curiosos. Bruno iria falar alguma coisa quando eu abri a porta do carro, mas o interrompi. — Daqui a uma semana eu vou te esperar aqui para te dar o Skate. Essa mesma hora talvez. — pedi para o motorista seguir caminho.
Tive vontade de rir da careta que eles fizeram, mas não ri. Rir me doía.
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