Entre no Ritmo do Amor
7 Capítulo 6
Notas iniciais
E naquele momento Paulo perdeu totalmente a sua cor. A "família mais importante do país " a qual Maria Joaquina se referia inocentemente eram ninguém menos que a família de Alícia. O moreno reconheceu imediatamente o rosto sério de Jorge e a face de olhar ingênuo de Alícia. Presumiu que o senhor mais velho fosse pai ou alguma coisa assim dela.
Realmente, atrás de sua instrutora de dança se encontrava Mário, mas ele simplesmente encantara-se com Alícia a tal ponto que não conseguia desviar seus olhos dela. Ela não estava nada de mais, com um vestido de um tom azul bem escuro que lhe caia até os joelhos, de alças, mas com um decote reto que deixava levemente visível o início da curva de seus seios. Sem colares, anéis, pulseiras ou qualquer coisa assim, somente um presilha prateada prendendo-lhe parte dos cabelos longos do lado esquerdo.
Com certeza Paulo achava que a própria noiva estava bem mais atraente, sedutora e arrumada que Alícia, com o vestido vinho tomara que caia e com comprimento até o meio de suas coxas. Uma gargantilha de ametistas contrastava com seus cabelos, assim como os brincos de mesma cor e a aliança prateada, com um rubi de tamanho médio incrustado em seu centro.
O moreno não sabia o que fazia: sumia dali imediatamente ou socava Mário até a morte. Os Gusman entraram e estavam sendo guiados por um garçom até uma mesa relativamente afastada da deles. Valéria já tinha feito Mário os avistar, mas parece que o rapaz estava ansioso demais para encontrar com os amigos e acabou esbarrando feio com Alícia no meio do caminho.
Paulo estava concentrado na cena, concentrado até demais. Esquecera-se das pessoas ao seu redor e já não conseguia ouvir o que elas diziam, só conseguia ouvir uma música que tocava nas pequenas caixas de som espalhadas pelo teto. Escutava a música e via a cena como um vídeo musicado.
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— Foi mal, moça, eu passei muito... — ele começou segurando Alícia pela cintura, tinha evitado que ela caísse. — ...Rápido. Alícia?
— Oi, Sr. Ayala. — ela respondeu também o reconhecendo. — O que... Está fazendo aqui?
Mário até pensou em responder o óbvio, que viera jantar com uns amigos, já que aquele era um restaurante, mas achou que seria muito falta de educação para com Alícia. E também se lembrou do fato de Paulo não querer que Maria Joaquina ficasse sabendo das aulas de dança com a morena.
Seu cérebro estava quase fervendo tentando elaborar uma boa desculpa, mas Jorge poupou-lhe o trabalho.
— Você está bem, Alícia?
— Estou, Jorge. — o rapaz colocou a garota de volta na posição vertical e a soltou, evitando arranjar uma briga com Jorge, fato que chamaria muito a atenção dos presentes.
— Sabe que seu pai é impaciente.
— Sim, eu sei. — ela ia se virar para despedir-se de Mário, mas o garoto havia se afastado e Jorge, já reconhecendo a situação, queria evitar ao máximo que Alícia viesse a se aproximar de Paulo sentado a alguma mesas dali.
— Vamos! — ele chamou tocando-lhe as costas levemente e guiando-a até a mesa. Segurou a cadeira para a prima sentar e depois fez o mesmo.
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Paulo respirou aliviado quando Mário esgueirou-se para perto da mesa de seus amigos e sentou-se na outra ponta de frente para Laura enquanto a mesma soltava um de seus comentários:
— Tem que tomar mais cuidado, Mário! Quase derrubou a moça, mas me pareceu daqui que você a conhece.
— É, ela... Fazemos ioga juntos, às vezes.
— Ioga? — Laura, Valéria e Maria Joaquina perguntaram em uníssono para o rapaz, de olhos arregalados.
"Porque estou impressionado? Mário sempre foi péssimo em inventar desculpas" pensou o moreno encarando Davi que até aquele momento se mantinha calado.
— Podemos pedir agora? — perguntou o rapaz, mas já levantava a mão chamando o garçom sem esperar as respostas.
Paulo voltou a escutar a música, bem em uma parte que falava sobre um velho que ganhou na loteria e morreu no dia seguinte e como isso era irônico. Paulo imaginou sobre sua vida e como, entre todos os restaurantes existentes em São Paulo, Maria Joaquina e a família Gusman tinham escolhido o mesmo coincidentemente.
"Como é irônico!" pensou com um sorriso de canto.
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Lima Gusman terminou seu prato principal e pousou o garfo e a faca do mesmo lado do prato, fechando os olhos e tomando alguns goles seguidos de champanhe. Pousou a taça, os outros presentes na mesa ainda não tinham terminado seus pratos, mas mesmo assim ele começou a falar.
— Como anda sua saúde, Alícia?
A garota estava sentada a sua frente, se assustou com a pergunta direta do pai. Pegou o guardanapo depositado no colo e limpou a boca antes de falar.
— Eu estou bem, pai. — sua voz tinha um timbre triste. — Mas não poderei dançar... Por muito mais tempo.
O senhor suspirou e naquele meio-tempo Jorge terminou de comer e fez o mesmo procedimento que o patriarca Gusman. Este, por sua vez, somente apoiou os cotovelos paralelos ao prato e cruzou as mãos.
— É a mesma doença que a sua mãe tinha! — começou. — Hereditária e sem cura, ela começa a atrofiar os ossos depois de muito esforço físico. Você tem que se cuidar, Alícia, e coisas como exercícios pesados e danças não vão ajudar muito.
— Sim, papai. — abaixando os olhos.
— E você, Letícia? Já recebeu as respostas das faculdades? — Lima desviou a atenção e começou uma longa conversa sobre esse assunto com a filha mais nova, enquanto Alícia terminava de comer.
Num canto do restaurante uma mulher e um homem com um violão subiram ao palco do local, ela se aproximou do microfone e começou a anunciar que o show iria começar e que os parceiros de dança deveriam se juntar na pista no meio do salão.
Alícia ouvia as palavras da mulher atentamente, até a música que saia das caixinhas de som estancou e a mulher começou a cantar, ela virou-se para encarar o palco e avistou os vários casais que se juntavam no centro do salão para dançar. Era uma música lenta, mais lenta que uma valsa, essencial para as pessoas apenas se mexerem de um lado para o outro.
— Quer dançar, Alícia? — perguntou Jorge já deduzindo o que a prima tanto olhava. Ela sorriu-lhe em resposta e como agradecimento, aceitando a mão que o loiro lhe estendia.
Foram para a pista, somente mais meia dúzia de casais os acompanhava.
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— Ah, Paulo, vamos dançar? — chamou Maria Joaquina observando as pessoas se juntando no meio do salão. — Vamos ver se essas aulas de valsa estão servindo para alguma coisa.
— Agora não.
— Por favor. — ela fez manha colocando a mão por baixo da mesa, encoberta pela toalha, e passando as unhas levemente pela coxa do moreno, chegando até sua virilha e retornando rapidamente.
Ele fechou os olhos e disse, derrotado:
— Tá, vamos dançar! — antes que algo pior acontecesse.
A doutora sorriu largamente esperando o seu noivo se levantar e estender sua mão. Valéria e Davi já tinham ido até a pista há alguns minutos por insistência da garota.
— Ahn, você quer dançar, Laura? — perguntou Mário envergonhado e receoso.
— Eu não sei dançar.
"Ainda bem!" agradeceu mentalmente com um suspiro de alivio tomando seu peito.
Quando os noivos chegaram à pista, Maria Joaquina enlaçou seu pescoço enquanto ele colocava suas mãos em volta da cintura dela e começaram a dar pequenos passos para os lados, mexendo-se levemente.
Paulo pode ver, atrás de Maria Joaquina, quando Jorge chamou Alícia para dançar e ela aceitou sorrindo, viu quando eles vieram para a pista e Jorge apoiou suas mãos na cintura de Alícia e ela as suas no peito do primo juntamente com a cabeça na curva de seu pescoço. Sem conseguir se conter, o moreno apertou um pouco mais forte a cintura de Maria Joaquina fazendo-a soltar uma exclamação inaudível, mas aborrecida.
"E ainda se dizem primos?" pensou ele ainda observando o loiro e morena dançando "Incesto!".
Os pensamentos maldosos e contrários à relação aos dois vinham como uma enchente para sua mente, mas mal sabia ele que estava completamente errado.
Seus olhos negros cruzaram-se com os azuis de Jorge durante uma volta, Alícia continuava apoiada em seu peito, mas o rosto angelical estava sério, quase triste e ela parecia querer suprimir uma dor repentina. Era o que Alícia estava sentindo, mas Paulo ainda não a conhecia tão bem para reconhecer todos esses sentimentos.
— Troca de casais — anunciou a mulher no microfone enquanto a música mudava e o moreno deixou que Maria Joaquina fosse retirada de seus braços por Davi enquanto ele começava a dançar com uma senhora de idade avançada cheirando hortelã.
Paulo não sorriu para a idosa o que pareceu assustá-la. Era uma senhora baixinha e conseguia ver facilmente os outros casais, inclusive que Jorge agora dançava com Valéria e Alícia com um rapaz de cabelos castanhos, ela lhe sorriu gentilmente e ele puxou-a para mais perto de si.
A mulher no palco anunciou mais um troca de casais enquanto a música mudava e a mão de Paulo encontrou a que ele conhecia e com a qual queria dançar. Macias e pálidas, as mãos pequenas de Alícia pousaram em seus ombros enquanto ele trazia o corpo dela mais perto do que aquelas danças consideravam apropriadas.
— S-sr. Guerra? — ela assustou-se ao ter seus olhos encontrando os negros de Paulo.
— Oi.
— Des-desculpe, eu não vi você... — continuou Alícia já mais acostumada com o silêncio dele durante as danças. — Teria ido te cumprimentar.
— Não precisa. — respondeu secamente vendo Maria Joaquina passar dançando com o rapaz de cabelos castanhos que anteriormente dançava com Alícia. Sentiu um embrulho no estômago de desagrado por aquele rapaz. — Vi que Mário esbarrou em você.
— Sim. — ela sorriu para Paulo e suas bochechas tomaram o leve tom rosado enquanto ela virava a cabeça para encontrar o olhar do rapaz que lhe mandou um sorriso discreto. — A moça de vestido vinho é sua noiva, Paulo?
Sacudiu a cabeça afirmativamente enquanto fechava os olhos e lembrava-se que, para Alícia, havia dito que Maria Joaquina era uma neurótica. Na realidade, aquilo não era mentira e daria qualquer coisa para saber o que Alícia pensava a respeito da médica naquele momento.
Pensou no cheiro exalado por Alícia e lembrou-se de uma tarde ensolarada sob as árvores da Academia de Dança. Pensou, então, no cheiro de Maria Joaquina e a única coisa que lhe veio à mente foi um poste de strip-tease e luzes vermelhas misturado a remédios.
— Desculpe pela aula de hoje. — disse Alícia abaixando a cabeça para que Paulo não visse seu semblante triste ao lembrar porque havia faltado à aula. — Não vai mais se repetir.
— Certo.
Mal ele acabara de falar deram uma volta em que o moreno pôde ver a mulher no palco finalizando a música, logo eles teriam que trocar de pares. A testa de Alícia encostou-se em seu ombro e Paulo se assustou ao sentir Alícia desfalecer em seus braços.
As suas pernas começaram a amolecer, assim como o resto do seu corpo e a sua visão ficou embaçada enquanto sua mente entrava em uma espécie de vórtice característico de uma de suas crises. Assim como aconteceu depois de dançar muito tempo com Paulo noite passada, agora estava acontecendo de novo e no lugar menos apropriado do mundo.
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