Entre no Ritmo do Amor
13 Capítulo 12
Notas iniciais
— Uma fratura simples, é só engessar e mandar pra casa. — disse Maria Joaquina quando um enfermeiro veio lhe mostrar uma radiografia de uma perna. Ela estava no hospital, às coisas estavam bem corridas. Pegou o celular de um dos bolsos do jaleco. — Sim?
— Maria Joaquina Medsen?
— Eu mesma. — entregando um prontuário para o enfermeiro e fazendo sinal para que o mesmo se retirasse.
— Aqui é do Buffet. — ela parou e encostou-se em uma parede. Havia se esquecido de uma coisa. — A senhorita esqueceu-se de nos dizer como ficará o enfeite das mesas, a floricultura não nos ligou.
— Sim, me desculpe. Eu estou com muito trabalho e realmente esqueci, me desculpe.
— Não tem problema, senhorita.
— Eu vou ligar pra floricultura agora mesmo, eles vão saber explicar como tem que ficar os enfeites.
— Perfeitamente, senhorita. — Maria Joaquina simpatizara com a voz macia da moça do outro lado da linha, então sorriu desencostando-se da parede fria do hospital. — Desculpe o incomodo.
— Desculpe por me esquecer.
E desligou o celular correndo para pegar o elevador. Precisava tomar uma grande xícara de café para se manter acordada para o resto daquele plantão. No elevador ela ouviu o seu nome ser chamado pelos milhares de caixinhas de som espalhadas pelo hospital.
"Doutora Medsen, favor comparecer a cirurgia imediatamente. Doutora Medsen, favor comparecer a cirurgia imediatamente".
— Droga de dia. — resmungou apertando o número 5 do elevador.
Ao sair encontrou Valéria. A moça era instrumentalista no Hospital Geral e estava se lavando para entrar na sala de cirurgia. Maria Joaquina se aproximou e começou a prender os cabelos para depois se lavar.
— O que nós temos?
— Acidente de carro, homem, entre 25 e 30 anos, hemorragia interna na região frontal.
Maria Joaquina terminou os preparativos e entrou na sala. Logo vieram colocar-lhe o avental azul, as luvas plásticas e a máscara cirúrgica descartável. Ela aproximou-se da cama, o eletrocardiograma apitando fracos batimentos, as linhas subindo e descendo no seu zigue-zague verde.
— Pressão arterial caindo. — disse alguém.
— Muito bem, anestesia? — mas antes que alguém pudesse responder, Maria Joaquina paralisou. Ali na sua frente estava Daniel Zapata, um grande amigo de Paulo e seu ex-namorado na época da universidade. Sentiu seu coração ficar incrivelmente pesado até parar. Todos os seus conhecimentos de medicina pareceram evaporar e Maria Joaquina sentiu uma vertigem terrível.
— Dra. Medsen, a senhorita está bem?
— Si-sim, eu... Estou bem. — mas ela não estava assim tão bem. Olhou para a face de Daniel, aquela não era a primeira vez que a via, mas era como se lembrava perfeitamente. Os lábios finos, o queixo másculo com algumas pontinhas de uma barba por fazer. Seu coração voltou aos batimentos normais, tinha que salvar aquela vida.
Aquele era o único homem que não podia se permitir perder.
Sua mão tremia intensamente quando pegou o bisturi, mas lembrou-se das palavras do professor e repetiu-as baixinho para si mesma:
— Quando estiver tremendo em uma cirurgia. — respirou fundo — Procure se acalmar e sempre mire um pouco para a direita do lugar que realmente deseja cortar.
~*O*~*O*~*~*O*~
— Ei, Mário. — chamou Davi ao seu lado no bar. Era uma noite de sexta-feira em que Valéria estava de plantão e o moreno podia ter um tempo para sair com os amigos. No caso, Mário, pois Paulo estava mais uma vez em uma de suas aulas de dança.
— O que foi? — perguntou o rapaz enquanto afrouxava a gravata. Tinham acabado de chegar ao bar de sempre.
— O Paulo. Você não acha que ele está estranho?
— Estranho como?
— Não sei. — o homem pegou o copo e ficou observando um de seus olhos refletindo. — Ele nunca foi muito de falar, mas agora parece mais fechado que nunca, especialmente quando Maria Joaquina está junto.
Mário nada respondeu, apenas esperou o barman vir até ele e pediu qualquer coisa e uma porção de amendoins. Os amendoins chegaram e enfiou uma porção na boca. Davi deixara de olhar o seu reflexo no copo e olhou Mário.
— Desde o dia do Fasano. — assim que ele falou isso Mário cuspiu os últimos amendoins que tinha na boca. Deu alguns socos no próprio peito para desafogar.
— Co-como assim?
— Aquela garota que desmaiou quando estava dançando com ele. — o empresário estava surpreso com a reação de Mário, agora sim sabia que alguma coisa estava errada definitivamente. — Parecia que eles já se conheciam.
— Bo-bom, eu...
— Você não esperava que eu fosse cair naquela que vocês faziam ioga juntos, não é? — o rapaz riscou um sorriso debochado. Era o que Mário temia, sabia que Davi deveria ter percebido alguma coisa. — Vamos, fala logo!
Mário baixou os olhos para o copo com o líquido dourado sem saber o que fazer. Davi era amigo dele e de Paulo e talvez pudesse ajudar, mas será que seria certo? E se ele dissesse alguma coisa a Valéria que depois diria a Maria Joaquina e esta ficaria com raiva de Paulo? Não queria arrumar encrenca para o amigo.
Fitou os olhos do amigo ao seu lado ainda ponderando a questão.
— É a instrutora de dança dele.
— Das aulas de valsa? Mas não era um tal de Giovani?
— Era, mas ele fez uma cirurgia e ficou sendo a Alícia.
Davi Rabinovich não falou mais nada, o mesmo se deve a Mário Ayala. Os dois pegaram os seus copos com a mesma substância dourada e viraram ao mesmo tempo soltando um suspiro logo depois.
— Vai contar a Valéria?
— Para quê? Pra ela ir deixar escapar e fazer o coração de Maria Joaquina em pedaços?
— Desde quando você ficou tão sentimental, Davi?
— São aqueles malditos filmes.
Ficaram falando uns minutos sobre os filmes melosos de romance que ele era obrigado a assistir com Valéria e de como Mário era sortudo por ter Carmen como namorada, sendo que a garota nunca pega no pé do rapaz. Somente naquela noite já haviam recebido dois guardanapos de papel com uma marca de batom vermelho e algum número de telefone, mas ambos deram risadas e jogaram os guardanapos fora.
— Será que Paulo... — ele começou incerto. Falar sobre aquilo com Davi era um pouco incômodo, ele era tão sério e muito na dele. — ...Será que ele está gostando da Alícia?
— Ele não falta a nenhuma aula. — as imagens da noite no restaurante grego voltaram à mente de Davi e podia rever a face preocupada de Paulo através dos espelhos atrás do balcão. — Algo especial deve ser.
Mário começou a gargalhar, não conseguiu se conter depois de ouvir Davi falando sobre sentimentos tão seriamente.
~*O*~*O*~*~*O*~
Duas semanas se passaram...
Mário estava sentado no mesmo bar daquela noite, na mesma banqueta em frente ao balcão com os espelhos ao fundo. Também pedira a porção de amendoins e a mesma bebida dourada. Sorriu ao lembrar-se da cena, mas depois ficou pensativo. No dia seguinte seria o casamento de Paulo e Maria Joaquina. O amigo não desmanchara com a médica para ficar com a dançarina, mas Mário concordava com Davi quando ele dizia que Paulo estava estranho.
Quando Maria Joaquina estava por perto ele ficava mais sério e frio que de costume, mas quando estavam somente os três falando sobre coisas que homens adultos normalmente falam ele era mais aberto, falando, deixando de ter as sobrancelhas franzidas e até sorrindo mais. Alguma coisa estava diferente e o rapaz podia ver claramente que não era por influência da médica.
"Só espero que você não se ferre pelos dois lados, Paulo" ele virou o líquido e assim que olhou pra frente viu Davi vindo até ele e sentando-se ao seu lado.
— Valéria está de plantão?
— Vamos beber.
— É, Valéria está de plantão.
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