Entre no Ritmo do Amor
4 Capítulo 3
Notas iniciais
— Na boa, cara. Eu não acreditei que você fosse aguentar mais que duas aulas. — disse Mário sentado no banco do carona do carro de Paulo. O moreno fez a curva virando a esquina e parando o carro perto do prédio da Academia de Dança Bio Ritmo. — Essa é a quarta ou quinta aula?
— Porque diabos você quis vir junto? — perguntou o moreno desafivelando o cinto de segurança e saindo do carro.
— Pra ver você passar vergonha por não saber dançar. — sorriu marotamente o rapaz imitando o amigo e saindo do carro.
O moreno bufou. Mário era seu amigo, quase como um irmão. Mas eles não deixavam de se provocarem e se irritar mutuamente.
O rapaz andava sorridente ao seu lado por todo o caminho que levava as grandes portas duplas da entrada. Abriu a porta e imediatamente ouviu o "Bem vindo, Sr. Guerra" seguido por um suspiro de Bibi que deixara de olhar e rabiscar o caderno momentaneamente.
Paulo só a ignorou como sempre fazia e segurou a porta aberta para Mário passar.
— Trouxe companhia, Sr. Guerra?
— Tem algum problema, Bibi? — ele perguntou seriamente. Não acreditava que existisse algum contratempo para a presença de Mário ali.
— Problema algum. — ela analisava Mário dos pés ao último fio de cabelo rapaz. — Precisa que eu o acompanhe a sala?
— Não, eu já sei o caminho.
— Que lugar grande! — o rapaz olhava para todos os cantos com seus olhos não deixando passar nenhum detalhe. Fitou Bibi por alguns segundos lhe dirigindo um de seus sorrisos simpáticos a qual a garota retribuiu com um olhar penetrante. Virou-se para Paulo a fim de comentar alguma coisa, mas o moreno já estava mais a frente no corredor. Mário precisou correr um pouco para alcançá-lo.
Eles seguiram até o fim do corredor, então começaram a virar à esquerda, mas a voz divertida de Bibi os fez parar no meio da curva:
— É para a direita, Sr. Guerra.
O sangue de Paulo ferveu. Podia sentir os olhos debochados de Mário queimando-lhe a nuca, pronto para soltar uma piada se graça quanto ao erro bobo do moreno. Fechou os olhos e virou-se para o lado oposto com Mário, estranhamente quieto, em seus calcanhares.
— Faz cinco dias que você vem aqui e ainda não decorou o lugar? — soltou o amigo.
— Cale a boca! — respondeu o moreno. — Eu, pelo menos, não me perco do cachorro.
— Isso só aconteceu uma vez!
Paulo parou ouvindo os diferentes sons de músicas que sempre predominava no local. Chegara à hora de dizer uma coisa muito importante para Mário, que também parou e ficou encarando o outro, confuso. Paulo fechou os olhos por um momento e então encarou fixamente o amigo.
— Mário, para entrar comigo nessa sala você terá que me prometer uma coisa.
Mário ficou meio assustado. O que será que teria que prometer? Paulo parecia estar falando sério demais.
— Tudo bem, cara. — o rapaz também ficou sério, franzindo as sobrancelhas claras. Paulo se aproximou o suficiente ficando ao lado de Mário, próximo ao seu ouvido.
— Maria Joaquina pensa que estou aprendendo a dançar com um professor. — começou. — Mas você verá que a situação não é bem essa.
— O que... O que é que você quer dizer? — Mário pareceu levemente assustado. Sempre fora um cara tradicional e não tinha vergonha nenhuma de mostrar isso e o pensamento de que Paulo pudesse estar traindo a noiva não pôde deixar de passar por sua cabeça.
— Não conte a Maria Joaquina sobre Alícia.
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O moreno disse por fim e voltou a andar em direção à porta, Mário o acompanhou sem dizer uma palavra, somente concordando silenciosamente com a cabeça mesmo sem saber quem seria Alícia. Chegaram à porta grande que Paulo já conhecia bem.
Levantou o punho para bater quando uma voz exaltada e desconhecida saiu de dentro da sala seguida pela voz suplicante de sua professora de dança:
— Isso é inaceitável, Alícia.
— Jorge, não insista.
— Você não pode continuar com isso, tem que se tratar adequadamente.
Silêncio de ambos os lados da porta.
— Jorge, eu já te prometi que o Sr. Guerra será meu último aluno. — a garota, dentro da sala, que estava banhada com o sol que entrava pelas grandes janelas, levara as duas mãos à frente do peito. — Por favor, me deixa terminar de ensiná-lo e depois... — não podia continuar, era sufocante demais pronunciar aquelas palavras. – Além do mais, ambos sabemos que fazer ou não o tratamento é perda de tempo.
Jorge pareceu derrotado, pois fechou os olhos e inspirou e expirou profundamente antes de dar as costas a Alícia e se dirigir à porta. Ao abrir a porta Jorge se deparou com os olhos negros de Paulo e de Mário. Demorou mais nos olhos do moreno, pois o encaravam com superioridade a qual seus olhos azuis devolveram no mesmo tom. O homem que viu abrir a porta tinha olhos azuis e cabelos loiros arrumados com gel, vestia-se com uma calça social negra e camisa branca.
As suas costas Alícia encarava o chão, até que seus olhos voltaram-se para os presentes parados na porta.
— Sr. Guerra. — ela pronunciou libertando-se dos seus devaneios ao cruzar seus olhos com os de Paulo. Correu até eles parando ao lado de Jorge que tirou a mão da maçaneta vagarosamente. A tensão ali no meio era palpável. — Jorge, esse é Paulo Guerra. Esse é o meu primo, Jorge Cavalieri.
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Os dois apresentados nada disseram e Paulo também não fizera nenhuma menção de que iria apresentar Mário, então ele tratou de fazer por si mesmo:
— Olá, você deve ser a Alícia, estou certo? — disse abrindo um pequeno sorriso. — Eu sou Mário Ayala.
— Ah, sim, muito prazer. — ela cumprimentou com um pequeno sorriso e corou um pouco ao estender sua mão para tocar a de Mário no cumprimento. — Veio aprender a dançar também, Sr. Ayala?
Somente com aquelas palavras é que Jorge desviou os olhos de Paulo para Alícia e então para Mário. O moreno não deixou isso passar despercebido.
— Eu? É ruim hem! Eu só vim acompanhar o Paulo. Não acreditei que ele realmente estivesse fazendo aulas de dança.
Alícia lhe sorriu e os olhos de Jorge pousaram nela novamente, um pouco mais amenos.
— Alícia... — ele começou a falar, mas ela o interrompeu.
— Não se preocupe, Jorge. — não o encarou. Olhando direto para Paulo. — Vamos começar, Sr.Guerra?
— Hm. — ele deu um passo à frente, mas Jorge continuava bloqueando seu caminho. — Com licença?
O loiro deu um passo para o lado dando passagem para o moreno. Alícia e Mário pareciam não ver o clima de hostilidade e tensão que pairava entre os dois homens. Jorge deu uma última olhada para Alícia e então deu as costas aos três e sumiu pelo corredor virando a esquina para sair do prédio.
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Paulo entrou na sala de aula e ficou observando as pessoas praticando ioga no jardim. Gostava de admirá-los se contorcendo e pensar se conseguiria fazer aquilo. Mas Mário ainda estava na porta e Alícia ainda não colocara a música para tocar, esses fatores combinados o fizeram virar para encará-la sorrindo para alguma piada idiota contada pelo amigo.
Sentiu uma pontada estranha e teve vontade de colocar o amigo porta a fora a pontapés.
Limpou a garganta tentando chamar a atenção de Alícia e ela o ouviu. Virou-se preocupada e soube o que tinha que fazer ao cruzar com os olhos autoritários de Paulo.
— Sr. Ayala. — ela disse — Temos que começar. Vai ficar para assistir?
— Não, ele não vai. — a voz de Paulo saiu mais seca do que ele normalmente usaria com Mário.
— Paulo tem razão, Alícia. Eu vou pra casa, pego um táxi.
— Certo. Foi um prazer.
Mário sorriu mais uma vez e se afastou. Enquanto Alícia entrava na sala, fechando a porta e se dirigindo até o rádio, o moreno voltou sua atenção para as janelas. O sol logo terminaria de se pôr e as luzes do teto alto se acenderiam. As pessoas praticando ioga enrolariam os seus colchonetes e cumprimentar-se para ir embora. Viu o amigo passando o caminho de pedra e sumindo atrás dos muros da Academia em direção ao ponto de táxi situada a duas ou três quadras dali.
Virou-se para Alícia pronto para perguntar-lhe quem era aquele tal Jorge Cavalieri na verdade, mas sua visão foi obstruída, a morena acabara de vendá-lo.
— O que significa isso? — perguntou ele levando as mãos até a venda pronto para arrancá-la, mas a instrutora segurou suas mãos delicadamente.
— Isso é um exercício de coordenação, Sr.Guerra. — a voz melódica dela o tranquilizou, mas não tirou o pensamento cético de sua mente. O som de uma música desconhecida, parecendo ser latina, mais rápida que uma valsa, inundou seus ouvidos acostumados a uma música mais lenta — Tire os sapatos. Por favor.
— Não vai adiantar nada. — ele disse estendendo as mãos tentando alcançar qualquer coisa para se segurar depois de tirar os tênis e as meias.
— Você tem que confiar em mim, Paulo. — ela aproximou-se dele colocando-os em posição de valsa, com ambos descalços ele não podia ouvir os passos leves de Alícia, apenas os seus desajeitados. — Relaxe... Ouça só a música e... Minha voz.
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Ela começou a movimentá-lo, Paulo só obedecia meio travado por não poder usar o que considerava ser o mais importante de seus cinco sentidos. Podia sentir o cheiro de Alícia entrando por suas narinas mais aguçadas que o normal e podia sentir quão delicada e fina era sua pele tocando suas costas nuas. Naquele dia ela vestia o collant sem a blusa de lã por cima, mas suas pernas estavam cobertas por uma calça colada preta. Suas sapatilhas eram as mesmas.
E, o mais importante, a música. Era um ritmo envolvente, rápido demais para passos de valsa. Uma onda elétrica estranha percorria o seu corpo e o avisava que para aquela dança ele e Alícia deveriam ficar mais próximos e deveriam mexer mais os quadris e não os pés, também sua mão deveria ficar mais em baixo e não sobre sua escápula.
Alícia sentiu a mão de Paulo se mexer inquieta sobre suas costas para descer e pousar sobre sua cintura. Corou furiosamente. Sua timidez era mais um motivo para vendar os alunos durante aquele exercício. Ela anulou um pouco mais da distância entre eles, mas Paulo continuava se mexendo rígido e desengonçado. Ela se soltou e Paulo parou imediatamente crente que fizera algo que não devia.
— Paulo, espero que não se incomode, mas antes de lhe ensinar a valsa, que é uma dança de confiança mútua, pois isso é dançada em casamentos. — ela seguiu até ele ficando muito mais próxima do que a valsa exigia — Vou ter que lhe ensinar a se mexer.
Se o moreno pudesse vê-la ficaria encantado em como as cores do fim do pôr do sol se mesclavam incrivelmente bem com a face corada da morena. Se alguém de fora os visse, iria pensar que eles estavam fazendo algo mais que dançar.
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A música acabou e outra começou em seguida, tinha o mesmo ritmo latino. A morena seria ousada, mas Paulo era rígido demais, tinha que ensiná-lo a usar os quadris para dançar. O rapaz sentiu as mãos pequenas deslizarem pelo cós de sua calça e, com brusquidão, sentiu seu quadril se juntar ao de Alícia, uma das pernas dela entre as suas. Ficou assustado no começou, mas esse sentimento foi substituído pela surpresa de senti-la pegando suas mãos e colocando-as por cima de seus próprios quadris. Ela o soltou e voltou com suas mãos para os quadris de Paulo.
— Siga o movimento. — aquela proximidade e a situação em que se encontravam a deixava ainda mais nervosa ao pronunciar qualquer coisa. — Dos meus quadris! — e começou a se movimentar. Ela segurava-o e o fazia se movimentar em círculos junto consigo, primeiro devagar, fora do ritmo, depois um pouco mais depressa se alinhando a agitação da música.
Nenhum dos dois tinha capacidade de pronunciar qualquer coisa.
Ela anunciou para Paulo, assim que percebeu que ele sabia executar perfeitamente o movimento circular, que iriam mudar. Ela começou a flexionar as pernas levando o seu corpo para trás enquanto o de Paulo ia para frente e depois o inverso, o corpo do moreno ia para trás e o dela para frente. Complementando esses movimentos eles também desciam um pouco entre uma estocada e outra.
Mais uma música terminou e eles continuaram os movimentos, aumentando um pouco o ritmo.
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Definitivamente Paulo não estava se importando nem um pouco de Alícia lhe ensinar primeiro a se mexer, depois a valsa. Colocou sua mão esquerda sobre a cintura dela para prende o seu corpo esguio ao seu e ela o deixou fazer sem resistência. Sentiu os seios dela comprimidos contra seu tórax. Continuaram aquele movimento por mais uns minutos, a virilha do rapaz já começara a formigar incomodamente, mas a instrutora ainda não o mandara parar, só não sabia por quanto mais tempo iria se segurar. Pensou sobre o que sabia sobre Alícia: Absolutamente nada além do fato dela ser instrutora de dança e ter um primo chamado Jorge, mas pelo seu lado ela não conhecia nada dele. Isso os impediria de transar ali? Provavelmente sim. Alícia não parecia ser do tipo de garota que ia para a cama — ou para o assoalho do salão de instrução de dança — com qualquer um.
Alícia estava elétrica. As mãos de Paulo passeando por suas costas lhe davam arrepios que nunca sentira ao passar aquele exercício para outros poucos alunos muito necessitados. Ela era muito tímida para aquela técnica, mas o moreno era um caso completamente diferente e precisava dar o melhor de si. Só não imaginava que o seu melhor resultaria em trazer a tona seus mais devassos pensamentos quanto a Paulo estar demorando demais para atirá-la ao chão para começarem a rasgar aquelas roupas incrivelmente incomodas e sufocantes. Não era uma coisa que vinha habitualmente a sua mente. Então o que diabos Paulo Guerra podia ter de mais que a fazia pensar aquilo? Com certeza já conhecera homens mais bonitos e simpáticos, mas... Não sabia definir aquele moreno de olhos ônix.
Então se lembrou da única coisa que a faria parar os movimentos assim que a música acabasse: Ele estava noivo e estava ali somente para aprender a valsa.
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