Entre nós
4 04 - (Re) encontros
Notas iniciais
Quando abriu a porta, Maggie esperava qualquer pessoa, mas era Daniel quem estava ali, parado esperando ser atendido, ele foi educado, falou pouco e estava sério, mas foi sucinto e o pouco que disse fez com que ela o convidasse a entrar, e assim ele fez.
Ela o observava atentamente e não podia deixar de admirar sua beleza, certamente quando atingisse a idade adulta as pessoas brigariam por sua atenção e com a sua aparência conquistaria facilmente os outros. Do mesmo jeito que conquistou Steve, ela pensou mordendo o canto da boca. Enquanto ele falava, Maggie não pode deixar de analisar atentamente o rapaz, ele se sentia desconfortável sendo observado tão atentamente e ela sabia disso, mas não deixaria de fazê-lo.
Durante quase duas horas ele falou de si, de quando fugiu de casa, falou de como foi parar na casa de Steve e de ter conhecido Erick, disse que havia gostado do rapaz e que eles haviam se encontrado algumas vezes e eram bons amigos; contou como sobreviveu nas ruas e como Steve o aceitara em sua casa.
Maggie ouviu atentamente e quando o rapaz se calou ela permaneceu em silêncio por um longo tempo, seus olhos estavam marejados e o choro estava preso na garganta, ela não iria chorar diante do rapaz, sabia que ele estava sendo honesto, mas seu orgulho feminino nunca permitiria que ela chorasse diante dele, em vez disso, munida de coragem ela escondeu a fraqueza na voz e falou com um sorriso nos lábios:
— Já tomou café? – Daniel sacudiu a cabeça. – Venha comigo, estou faminta, sempre acordo assim pela manhã... Por causa disso Steve me chamava de leoa...
Durante toda a refeição o rapaz observou atentamente a mulher, que falava sem parar, mas agora seu tom de voz era mais leve, menos carregado e havia uma certa aceitação por trás de cada palavra que dizia e isso fez com que ele se sentisse mais aliviado. Quando terminaram, ela apoiou os cotovelos sobre a mesa e descansou o queixo sobre os dedos cruzados e então falou:
— Passei muitos anos ao lado dele, Steve sempre conseguiu fazer com que eu me sentisse uma rainha, comparada a outras mulheres, ele é um homem bom, gentil, poderia dizer que é perfeito se não fossem os defeitos, mas talvez seja isso mesmo que o torna tão perfeito... – ela fungou, mas não se deixou interromper. – Ver você ali, na casa dele me fez sentir ciúmes, é algo tolo, afinal estou conhecendo alguém, mas sou mulher... E me senti traída, ver um rapaz que provavelmente tem a idade do meu filho caçula, vestindo poucas roupas na casa do meu ex-marido gay... Não sabe como foi duro para mim Daniel... Ter você aqui na minha casa não é muito mais fácil, mas ao menos podemos conversar...
— Beijei ele...
— E ele, como reagiu?
— Me rejeitou...
Ela assentiu silenciosamente.
— Como acha que ele te vê, Daniel?
O rapaz sacudiu a cabeça, então Maggie falou abertamente e disse tudo o que ela via daquela situação, falou sobre como sentia o peso das palavras de Steve enquanto tentava explicar a ela quem era Daniel, e falou de muitas outras coisas, e quando terminou, ele não sabia o que dizer, por isso apenas chorou.
Daquele dia em diante, Maggie e Daniel se tornaram amigos.
****
Janeiro passara depressa, Erick visitara o pai algumas vezes, April e Harry nunca foram vê-lo, nem mesmo telefonavam, mais tarde, no mesmo dia em que visitara Maggie e os dois conversaram. Daniel soube que havia sido April quem telefonara para Steve pouco tempo antes dele beijar o homem, segundo Steve ela havia sido muito sucinta como na noite de Ação de Graças, apesar de não virar as costas para ele, iria ficar distante por não saber lidar com um pai homossexual, Steve disse que ela havia terminado a ligação dizendo “Até qualquer dia!”, isso foi o pior golpe para ele, pois ao menos contava que a filha tivesse um pouco mais de bom senso do que o filho do meio, porém suas esperanças eram vãs.
Maggie finalmente apresentou o namorado, seu nome era Jasper, um homem bonito de meia idade, muito educado e divertido. E ele ficou surpreso ao descobrir que a mulher estava feliz por saber que o namorado havia agradado aos três. Havia algo de infantil nela, como se estivesse namorando pela primeira vez, e até corou quando chamou Daniel a um canto e confidenciou que se sentia nervosa por estar com outro homem depois de tantos anos ao lado de Steve.
Perto do fim do mês, Steve chamou Daniel para conversar e disse que era hora dele voltar a pensar em estudar, e para a sua surpresa maior, viu-se concordando com Steve e antes de ir se deitar, naquela noite, separou as roupas que usaria no dia seguinte.
Entrar em sua antiga escola era mais difícil do que ele havia imaginado, talvez pelo fato de que estivera realmente disposto a abandonar aquela vida, ou então porque mais cedo ou mais tarde acabaria encontrando seu irmão e seria ainda mais difícil de lidar do que tudo o que havia acontecido no último mês.
Todos o observavam de soslaio e quando passava por pessoas que o conheciam ele os via cochichando e discretamente indicando-o com um aceno em sua direção.
E foi durante a primeira aula após o almoço que o receio de Daniel se tornou real. Tommy abriu a porta da sala num rompante e entrou sem pedir licença, segurou o braço do irmão mais novo e saiu da sala arrastando-o até o banheiro, onde após entrar trancou a porta e guardou a chave. Seu rosto estava vermelho de raiva, mas os olhos exibiam o alívio em finalmente poder encontrar Daniel.
— De todas as pessoas do mundo, você... — Tommy se calou, sacudiu a cabeça, secou os olhos com as costas da mão, e então tentou recomeçar a falar, mas seus sentimentos não permitiram, então ele avançou sobre o irmão mais novo e o envolveu num abraço apertado.
— Tudo bem... Tudo bem... — Daniel murmurou, retribuindo o abraço de Tommy.
— Tudo bem o cacete! — Tommy gritou soltando Daniel e encarando o rosto surpreso do irmão. — Eu saí correndo atrás de você naquela noite. Estava frio pra burro, mas corri atrás de você por uns seis quarteirões, e nada de te encontrar. Fiquei rouco de tanto chamar seu nome, tive que voltar pra casa e lidar com nossos pais... — ele falava rápido demais e quase sem pausas, o que tornava um pouco difícil de entender o que estava dizendo, mas Daniel conseguia compreender a raiva do irmão.
— Tommy, eu...
— Não acabei, Daniel! — disse o mais velho, que foi até uma das pias e começou a lavar o rosto. — Passamos semanas preocupados, eu queria procurar a polícia, você poderia estar morto, mas...
— Papai não queria explicar pra ninguém que fugi porque resolvi dar o rabo, não é? — o tom de voz de Daniel soava de modo tão frio que mesmo sentindo muita dor ao dizer aquilo em voz alta, suas palavras não expressavam tristeza, mas sim indiferença.
— Pois é, irmão... — Tommy rebateu. — Papai não quis dizer pra ninguém que você resolveu dar o rabo, mas eu não me importo em dizer que você é gay, porque não muda o fato de você continuar sendo o meu irmão, apesar de idiota, e imbecil, você ainda é o meu irmão... Meu único irmão. A única pessoa com quem eu deveria poder contar, e que me largou naquela casa de doidos...
— Não podia ficar num lugar em que me abandonaram!
— EU NÃO TE ABANDONEI DANIEL!
Por um instante o brado de Tommy pareceu silenciar o burburinho que havia fora do banheiro, era como se os dois irmãos estivessem sozinhos no mundo.
— Nunca abandonei você... Eu não virei as costas para você quando me contou, eu te defendi contra os nossos pais, eu não te abandonei... Mas você fugiu, quando poderíamos ter enfrentado o mundo, juntos, como sempre fizemos, sempre formamos uma equipe, você e eu nunca fomos separados, éramos sempre um... Até que você nos dividiu e nos tornamos dois novamente.
Cada palavra de Tommy era tão afiada quanto uma navalha, e cortava Daniel profundamente, de modo lento, preciso, mas ainda assim, profundo. Sem poder se conter, suas lágrimas transbordaram pelo seu rosto, palavras morriam na garganta e ele não conseguia expressar o quanto estava feliz e ao mesmo tempo arrependido, mas ainda que conseguisse dizer, Tommy já sabia, eles eram irmãos, se conheciam desde sempre. Estavam ligados de tal maneira que nem eles mesmos conseguiam explicar, e depois de um tempo passaram a não tentar.
Daniel caminhou até Tommy e o abraçou forte.
Não precisou dizer mais nada, afinal não havia nada mais a ser dito, ele não precisava explicar, embora soubesse que teria de contar onde esteve o tempo todo, mas naquele momento isso não importava, pois Tommy estava ali, perto dele, e pela primeira vez em meses, Daniel se sentiu completo novamente.
O resto do dia passou rápido, no fim Tommy queria que o irmão voltasse para casa,mas ele recusou, disse que precisava estar em outro lugar, e então se despediram. O caminho para casa foi rápido e silencioso, e isso era exatamente o que Daniel precisava, pois havia muito o que pensar e ele queria contar para Steve sobre seu reencontro com o irmão, mas foi Erick quem Daniel encontrou em casa, ambos encararam um ao outro e começaram a falar ao mesmo tempo, um sem conseguir entender o que o outro estava dizendo.
Por fim Daniel pediu que Erickj calasse a boca e então ficaram um tempo se encarando.
— Tracy Sheppard disse que quer sair comigo... — Erick murmurou entredentes.
— Então diga a Tracy Sheppard que você aceita e que ficaria feliz em sair com ela...
— E-eu não posso! — Erick parecia horrorizado.
O rapaz se sentou no sofá e afundou o rosto nas mãos. Pela primeira vez em muito tempo, Daniel não viu o rapaz decidido que Erick sempre parecia ser, naquele momento o rapaz parecia mais um adolescente.
— E qual seria a razão de não sair com Tracy Sheppard? — Daniel perguntou sentando no sofá ao lado de Erick.
— Ela quer sair pra dançar, mas eu... Eu...
— Você não sabe dançar e não quer acabar se expondo ao ridículo.
— Exatamente...
Os dois ficaram em silêncio por um tempo.
— E o que vai dizer a ela?
— Não sei...
— Não pode deixar assim, seja honesto, diga que não sabe dançar!
— Eu disse que sabia...
— Ai meu Deus! — Daniel gritou jogando as mãos pra cima. — Porque fez isso? Por isso ela te chamou para sair pra dançar... Como pode ser tão bobo?
— Não sei, fiquei nervoso, foi tão de repente, não achei que ela viria falar comigo, ainda mais ela, Tracy Shepperd, a garota mais linda que eu já vi...
— Tudo bem garanhão, ligue pra ela e diga que aceita!
— O que? Mas eu acabei de diz...
— Liga agora e diz que aceita, caramba!
Erick encarou Daniel sem entender onde o rapaz queria chegar, mas assentiu, pegou o celular e foi pra fora, enquanto isso, Daniel afastou o sofá e a mesinha de centro criando um espaço onde poderiam se mover livremente, tirou os sapatos ficando só de meia e esperou.
— Ela disse que podemos sair amanh... — Erick se calou quando viu Daniel em pé no meio da sala e os móveis arrastados para o canto. — O que pretende fazer?
Daniel apenas sorriu.
****
Steve sempre pensou em si mesmo como uma pessoa liberal, afinal há pouco tempo havia assumido para a família que era homossexual e estava morando com um rapaz que havia fugido de casa por não ter a aceitação dos familiares. Ele mantinha a amizade com a ex mulher e o atual namorado dela, o filho mais novo o aceitava muito bem e sua vida seguia como se nada pudesse atrapalhá-la.
Mas ele nunca imaginou que chegaria em casa e encontraria Erick e Daniel dançando bem agarrados uma música lenta, isso estava além de sua compreensão paterna, algum instinto de proteção falou mais alto, uma força maior o compeliu a ficar chocado com a cena, e tudo o que conseguiu dizer foi...
— Mas que merda vocês pensam que estão fazendo?
Erick e Daniel se afastaram imediatamente e então tentaram explicar mas gaguejaram, e quando Steve se preparou para dar um sermão, algo em sua mente soou como um trovão e ele parou. “Erick foi o único dos meus filhos que sempre me tratou bem, como se nada tivesse acontecido...”, ele pensou, e então abriu a bocas para falar, mas não conseguiu dizer nada.
— Pai... — disse o rapaz timidamente. — Daniel e eu... N-nós...
— Há quanto tempo estão... Juntos? — a palavra soou ácida em sua voz.
— Perdão? — disse Erick.
— Como? — disse Daniel.
— Vocês dois... — Steve apontou para os meninos. — Estão se relacionando há quanto tempo? — A ideia de que isso poderia ser verdade era horrenda para Steve, ele poderia aceitar a si mesmo, e até o filho de outra pessoa, mas Erick, seu filho, era algo diferente... Era... Ele não sabia explicar, mas as palavras que procuravanão eram repugnante e nem horrendo, parecia bizarro, até mesmo errado.
Eles encararam um ao outro, e então Erick tomou a frente.
— Daniel estava me ensinando a dançar porque vou ter um encontro amanhã com uma garota e eu fui idiota o bastante para dizer a ela que sabia dançar, mas na verdade eu não sei, então estou encrencado, porque se não aprender até amanhã vou passar vergonha na frente dela...
Steve ficou em silêncio por um tempo e então respirou fundo.
— Por favor... Eu... Minha nossa... Me desculpem, eu sinceramente..
— Não pensei que você iria reagir assim... Logo você, pai... — disse o rapaz calçando o tênis.
— Erick, por favor, tenta entendeu o meu lado...
Mas antes que Steve pudesse dizer outra coisa Erick se virou para Daniel.
— Vou para a casa da minha mãe, ainda não acabamos a minha aula, e eu quero aprender aquele passo que você me mostrou, pode vir comigo?
— Claro...
Daniel passou por Steve que tentava de qualquer maneira convencer o filho e Daniel a ficarem, mas assim que fecharam a porta atrás de si ele se calou.
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