Entre mundos
1 Doce infância
Notas iniciais
espero que gostem!
Eu cresci em uma floresta bem perto de uma cidade grande, não era como se fosse uma floresta tropical, mas era o meu espaço mágico em que eu conseguia respirar ar puro pela manhã, sentir o orvalho nas pontas das folhas e sair perambulando por entre os arbustos de frutinhas em busca de uma aventura matinal.
Já dá para perceber que eu não tive muitos amigos, não como as outras crianças que moravam nas cidades vizinhas, sinceramente eu não era infeliz por isso, a falta de pessoas da minha idade na fazenda em que eu vivia me fez desenvolver uma grande amizade com as flores, com os brotos de árvores, com alguns esquilos e com os cogumelos que nasciam nos troncos, eu passava horas trocando confidências com as bromélias, tentava animar os girassóis em dias cinzentos e pedia desculpas quando precisava arrancar algum alecrim para a sopa que minha mãe faria mais tarde.
Meus pais trabalhavam muito, o que me permitia passar horas do meu dia vasculhando a floresta e colecionando ervas medicinais, pelo menos aquelas ervas que eu conseguia identificar em um livro antigo que pertenceu a minha bisavó, um livro de poções mágicas das plantas selvagens, um pouco amarelado pelo tempo e cheio de desenhos feitos à mão. Eu gostava de pensar que o livro pertenceu a uma bruxa antiga e sábia com cabelos encaracolados ruivos que caiam até os seus pés, mas sabia que minha bisavó havia comprado de uma amiga que estudava plantas.
Falando em trabalho, minha mãe era uma deusa da agricultura, pelo menos foi o que eu ouvi de um de seus estudantes um dia, ela coordenava toda uma plantação de verduras e frutas em jardins que se expandiam até o horizonte em nosso terreno, alguns eram em forma de espirais e outros em linhas retas. Esse era meu segundo lugar preferido depois da floresta. Cada quadrado da horta tinha um cheiro específico e de acordo com minha mente na época, cada canteiro era um planeta totalmente exótico que ficava a quilômetros luz da terra.
Minha mãe tinha muitos estudantes, em sua maioria, eram jovens que surgiam de todos os cantos do mundo para aprender um pouco com ela sobre como cultivar seus alimentos, ou como fazer um jardim como o nosso, na minha memória era reconfortante poder escutar os risos daquelas pessoas, o cheiro do café coado e do bolo com aroma de erva doce que eles preparavam no final da tarde depois de trabalhar o dia inteiro na terra. Meu amor por viagens começou a surgir com esses momentos, durante as rodas de conversas em volta da fogueira eles me contavam dos seus países, das comidas que comiam por lá, de como passaram 6 meses viajando com apenas uma mochila e quase nenhum tostão no bolso e dentro de mim começava a brotar uma semente, lentamente.
Felizmente naquela época eu não precisava viajar para longe, durante as aulas da minha mãe eu fazia viagens diárias entre o mundo dos morangos onde um simples canteiro de morangos virava um planeta alienígena vermelho com cachoeiras de fogo e pequenas pessoas em forma de pontos pretos navegando em rios de lava. Em um pulo eu estava no mundo subterrâneo onde seres ancestrais haviam cavados túneis e escondido todos os livros sagrados da humanidade. Realmente, para quem olhasse de fora, a imagem era apenas de uma criança brincando nos canteiros das cenouras e dando um pouco de trabalho para sua mãe.
Posso me considerar uma pessoa de sorte já que eu nunca precisei ir para uma escola aborrecida com garotas malvadas que fariam piadas sobre minha franja cortada de maneira torta e minhas meias de margaridas, meu pai era um grande intelectual e foi um dos meus muitos professores e mestres na vida. Ele guardava em uma sala sem fim uma extensa coleção de livros, que eram em sua maioria livros sobre geografia e o ciclo natural das águas, tempestades e correntes de vento.
Quando meu pai tinha 23 anos ele se formou em geografia em uma universidade em outro país, bem longe de onde a gente morava naquela época e depois disso passou 5 anos viajando pelo mundo estudando formações rochosas e os rios até que em um dia no começo do outono, esbarrou em uma mulher deslumbrante e meio estabanada andando por um jardim coletando folhas secas no meio das plantas. Depois daquele dia, os dois decidiram que nunca mais ficariam longe um do outro. Se casaram e mudaram para a nossa floresta casa jardim, que era como eu chamava o lugar que um dia foi minha casa.
Papai me ensinava matemática, filosofia, artes e todas outras ciências e seu olho brilhava toda vez em que ele falava sobre mente humana e sobre a natureza, ás vezes eu não entendia quase nada daquelas aulas, mas algo me dizia que eu deveria prestar muita atenção porque um dia tudo faria sentido na minha cabeça.
E fez, não consigo me esquecer do dia em que ele me contou uma história sobre labirintos e mitologia grega e eu fazia uma grande esforço para me manter acordada, lá fora o dia estava nublado e eu não queria fazer nada além de dormir embaixo de uma pilha de cobertas , meu pai, percebendo minha indisposição, resolveu criar uma aula lúdica em que eu era o personagem aprisionado, rapidamente ele buscou na biblioteca um grande jogo de labirinto que era uma caixa enorme com bloquinhos que fingiam ser as paredes do labirinto e uma pedrinha roxa que precisava ser movida. Naquele momento nada mais existia eu me transformara em uma pedrinha, eu era a pedrinha e o labirinto era todo o meu mundo por alguns minutos.
– Cory, eu preciso que você escape desse labirinto o mais rápido possível, se você conseguir encerraremos as lições de hoje e você pode voltar a dormir e tomar um chocolate quente, o que você acha?
Fiquei irradiante e comecei a deslizar a pedrinha por entre os caminhos, quinze minutos se passaram e meu humor oscilava entre o desespero, a preguiça e uma frustração crescente. Quanto mais eu me movia mais aprisionada eu ficava entre blocos e paredes, em alguns momentos eu precisava voltar um caminho inteiro ou me deparava com becos sem saída. Era realmente frustrante e eu não entendia o ponto de vista daquela brincadeira, era para ser divertido?
O labirinto era gigante e ocupava quase toda a mesa, por cima eu conseguia enxergar a tão sonhada liberdade, a saída que ficava bem do lado esquerdo na parte norte do labirinto, mas mesmo assim, apesar de ter o conhecimento eu não conseguia percorrer os caminhos para se chegar ali. Naquele dia eu percebi que mesmo que eu decorasse todos os livros daquela estante e soubesse todas fórmulas do universo, ainda sim eu não estaria a salvo dos perigos e dos labirintos da vida. Depois de mais 10 minutos eu finalmente desisti daquela tarefa e um pouco emburrada perguntei:
– Como o homem da história que você me contava conseguiu sair pai, ou ele também desistiu?
E ele me contou que o homem havia observado o ambiente em que estava, então em vez de lutar contra o caminho, ele construiu asas de cera de abelha e saiu voando em direção ao céu, rumo a liberdade. Mais tarde meu pai pretendia falar sobre as formas hexagonais das colmeias e dar aulas sobre cálculos e se eu ainda estivesse atenta até tentaria falar sobre a biologia das abelhas.
– Isso me parece um pouco impossível, asas de cera podem quebrar, ou podem derreter se fizer sol naquele dia.
Meu pai deu aquele sorriso largo e sincero que ele sempre esboçava quando concordava com a minha resposta nas aulas mas tinha algo a acrescentar.
– Sim Cory, mas essa parte da história fica para depois.
Ele olhou pela janela e percebeu que o tempo estava ficando cada vez mais escuro.
– Olha, vai começar a chover e eu preciso ajudar sua mãe a recolher as ferramentas lá fora, a gente termina as lições mais tarde quando eu voltar, tudo bem?
Papai me deu um abraço e saiu correndo pela porta como um furacão e enquanto eu passava pelo corredor em direção ao meu quarto uma ideia se acendeu na minha cabeça, precisava urgentemente achar algumas velas e fazer asas de cera. Por sorte minha mãe guardava em seu depósito várias velas coloridas de todos os tamanhos e eu passei a tarde toda fazendo asas para caso eu precisasse um dia.
Lágrimas escorriam dos meus olhos quando eu lembrava desse dia, porque agora eu estava realmente enclausurada, aprisionada em um labirinto que era mil vezes pior que aquele labirinto da biblioteca, eu já havia realizado jornadas sem fim e todo beco parecia ser sem saída, marcava passos no chão para ter certeza que não estava andando em círculos, procurava sinais e pistas de outros caminhantes, mas tudo era seco, tudo era sem esperança. Queria desesperadamente, como na história da minha infância, construir asas e sair voando, porém, naquele lugar que eu estava não existia um céu.
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