Entre mundos.
1 Vai ficar tudo bem, querida.
“Apenas respire, vamos cuidar de você.” Dizia um homem com roupa de socorrista enquanto eu tentava entender o que estava acontecendo. Sentia minha cabeça girar, estava confusa, não conseguia entender tudo aquilo. “Consegue falar? Qual é o seu nome?” Ele voltou a dizer enquanto eu tentava achar algum sentido naquilo. Olhei para o seu rosto e fui cegada momentaneamente por uma luz vinda do objeto que ele segurava. “Sinais vitais estáveis”. “Sinais vitais estáveis?” pensei. Senti uma ardência vinda do meu abdômen, lentamente toquei o local com o meu dedo “Ai!”, reclamei ao sentir dor vinda do local, com dificuldade ergui a mão e vi que estava ensangüentada. “O corte na cabeça parece superficial, sem sinais de traumatismo, apenas escoriações leves”. Olhei a minha volta e pude observar a estrutura de ferro onde eu estava, parecia o interior de uma ambulância. “Ah, meu Deus. Lucy.” Um dos socorristas olhou para mim. “Estamos cuidando dela” não pude evitar o desespero, algumas imagens vieram a minha cabeça como flashes.
Havia uma pessoa na estrada, apesar da forte chuva e neblina eu pude ver uma silhueta na estrada. Desviei. Em seguida, meu carro bateu contra a proteção de ferro da estrada, deslizamos pela pista, mas deste lado não havia proteção. Depois disso só pude ouvir o grito abafado dela. “Onde ela está? O que aconteceu?”, “Se acalme, estamos cuidando de tudo, a senhora tem um ferimento no abdômen, preciso que coopere. Está doendo?”, “Sim” minha resposta soou como um gemido, lentamente minha visão escureceu, antes de desmaiar pude vê-la. Estava assustada, havia cortes e sangue em seu rosto. “Mamãe. Estou com medo” meu coração parou naquele momento. “Calma, vai ficar tudo bem, querida” ela fechou os olhos e então desapareceu.
***
Sexta-feira, 13 de Novembro, 2015.
2:03 da manhã.
Havia um tunel, desses de minas abandonadas. A iluminação era precária, apenas algumas lampadas fracas estavam acesas, presas ao teto. Olhei em volta e vi apenas dois caminhos, ir para a direita ou para a esquerda. Eu sabia exatamente o que aquilo significava, já havia lido sobre isso antes e até vivenciado. Você está bem, então sofre um acidente ou seu corpo resolve parar de funcionar, você vai parar em algum hospital próximo, os médicos fazem o possível para te estabilizar, os medicamentos começam a funcionar como anestésicos que te prendem em um sono profundo e aí, você tem uma EQM, uma merda de “Experiência de quase morte” como dizem os espiritas dessa dimensão.
—Que maravilha. – Soltei o ar pesadamente inflando as bochechas. Olhei para os dois lados.–Como eu saí daqui da ultima vez, mesmo? –A iluminação não era forte o suficiente para que eu pudesse ver o final de cada caminho. Sentei no chão e fechei os olhos, respirando fundo, me concentrando. Com as palmas das mãos abertas, puxei a energia vinda daquele lugar tomando cuidado para absorver somente energia pura. Concentrei essa energia em meus braços, ombros, pescoço e em seguida por todo o corpo expelindo-a para fora para criar uma camada protetora a minha volta. Senti meu corpo aquecer e então vizualizei Lucy. As formas a minha volta foram distorcidas, ao abrir meus olhos a vi deitada em uma cama de hospital. Sua pele pálida apresentava pequenos cortes avermelhados causados pelo acidente. Me aproximei de minha filha sentindo meu coração partir. Tão jovem e tão frágil. O cateter preso em seu nariz me fez querer chorar.
—Me perdoe, filha. Você vai ficar melhor, eu prometo. –Disse baixinho contendo minha vontade inútil de chorar. Acariciei seu rosto com delicadeza para não acordá-la.
—Deixe-a descansar, Denali. Estou cuidando dela.
Olho assustada na direção de onde a voz vinha e me deparei com Luísa. Ela estava diferente, com o cabelo curto e raspado na lateral direita, vestia seu traje feito de algum material de tecnologia ainda não conhecida por nós. Me senti aliviada ao vê-la.
—Essa dimensão a torna fraca, você não consegue manipular energia o suficiente para curá-la, além do mais, precisa voltar para Se curar.
—Eu sei... –Respondi e então voltei a observar Lucy. -Saber que não posso fazer muito para ajudá-la me deixa chateada e impotente. Então, eu sou apenas mais uma mãe como todas as outras dessa dimensão. Não quero perdê-la, Luisa. Dói só pensar nisso.
Luísa soltou o ar desdenhando da situação. Pude imaginar a cara que ela fez ao me ouvir.
—Olhe, a menina vai ficar bem. Não foi nada demais, só está dormindo. –Luísa dá a volta na cama. –Você tem que ser forte, Denali. Esse mundo a deixou molenga. Onde foi parar o seu treinamento?
—Eu sei, Luisa. Não estou agindo assim porque quero, é só que... ela é minha filha. Você... não entenderia esse laço. –Respondi sentindo meu coração acelerar.
Sentando em uma cadeira próxima, ela afunda com sua postura relaxada. Observando ela de perto parece cansada, seu rosto carregado e amargo.
—Eu jamais vou entender isso. –Ela diz por fim.
—Eu não a culpo. O mundo de onde você veio é livre de sentimentos e afeição por outros. O que torna a sua sociedade tolerável são as leis impostas em prol do bom convívio.
—Pois é. –Ela concordou arqueando uma das sobrancelhas. Ela parecia perdida em seu mundo particular enquanto encarava a janela atras de mim. Ficamos em silêncio por um longo tempo até que sua feição deixou de parecer cansada para dar lugar a cara de preocupação.
—Sabe o que acontece se você morrer aqui, Dena. Não estou afim de acabar agora. Tenho muito o que fazer.
Eu a encarei incrédula arregalando os olhos.
—Não acredito que está pensando nisso nesse momento.
Ela revirou os olhos e voltou a me encarar.
—Esse é o momento perfeito para te lembrar disso, querida. Se não voltar agora para seu lindo corpinho terrestre ele vai morrer por não conseguir se curar sozinho e então a sua pequena Lucy vai ter que aprender a se virar sem mãe. Além do mais, eu preciso de você. Não é apenas a sua vidinha aqui que está virada do avesso.
Fico furiosa com aquelas palavras e a forma sínica com que foram ditas, mas logo recuo reconhecendo que ela está certa.
—Tem razão.
—Eu sempre tenho.
Ela se levantou e aproximou-se de mim enquanto eu permanecia parada ao lado de Lucy. Abriu os braços e me apertou em seu abraço forte, porém reconfortante. Virei para ela retribuindo o abraço e afundei o rosto em seu peito deixando algumas lágrimas rolarem. Luísa beijou de leve minha bochecha e eu corei.
—Fique tranquila, vou cuidar de sua pequena Lucy.
—Obrigada.
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