Notas iniciais
Mais um pra você ♥

Ouvir Serenata Existencial sempre fazia meu coração se acalmar e conseguir forças para encarar meus sentimentos, mas dessa vez estava bastante complicado. Era como se toda a minha capacidade de raciocinar tivesse derretido, pois eu não conseguia pensar em mais nada além do que a Nicole havia me falado: que estava apaixonada pelo Lucca.

Meu pai do céu, por que diabos eu me meti nisso? Agora estou aqui, arrumando minhas coisas para ir à casa do meu melhor amigo, que por sinal é como se fosse um parente, mas que na verdade é a pessoa por quem eu estou completamente apaixonada, fingindo que não há nada acontecendo. É, para piorar, uma amiga nossa, que eu acho muito bonita, surgiu com a ideia torta de que também gosta dele, fato o qual só apareceu para que destruísse ainda mais a coragem de dizer ao Lucca que antes do dia de morrer, quero passar todos os dias ao lado dele.

Okay, isso foi muito forte e exagerado, mas é realmente o que quero. Não quero perder o que criamos e o que sinto, então, por mais arriscado que possa ser bater de frente com a Nicolinha, eu irei. Porém, diferentemente dela, tenho vantagens nessa corrida, embora eu saiba que esse combate só será feito em minha mente.

Depois de arrumar as malas, o restante do dia passou feito uma lesma. Eu pensava tanto nas coisas que poderiam acontecer quando a gente se encontrasse novamente e qual seria o resultado da revelação de Nicole que mal dormi antes da viagem.

Passei o caminho todo de cara emburrada, mas evitando ao máximo tratar meus pais mal, pois além de receber uma bronca, também teria que explicar o motivo, e pra ser sincera eu não estava com nenhum pouco de vontade de fazer isso. Cogitei até em falar que não queria mais ir, pois havia brigado com Lucca, mas isso seria infantil e traria muito bate boca, então só aceitei calada mesmo.

O bom de não ter dormido foi que chegamos logo na casa dele, pois desmaiei no banco de trás do carro durante as três horas de viagem. Por mais que tenha dito que não queria ir mais para mim mesma, foi incrível ter ficado quieta, pois a cidade era completamente diferente do que eu estava acostumada. A casa era bastante grande e estava toda decorada com luzes e enfeites de Natal.

A mãe de Lucca, a Tia Aline, abraçou-me tão forte quando nos vimos que eu senti minhas costas estalarem, porém foi muito bom sentir seu sentimento por mim depois de tanto tempo.

— Como você tá diferente, minha querida! — comentou enquanto acariciava meu rosto após separarmos do abraço. — Você desceu bastante, hein!

— Que nada, Tia! — Abracei-a de volta, suspirando aliviada por ter minha saudade, embora não tenha pensado muito em outra coisa além do filho dela, aliviada.

— O Rodrigo teve que ir ao escritório hoje, mas ele logo mais está em casa — disse antes de meus pais perguntarem algo, cumprimentando-os da mesma forma que fez comigo. — Ah, Beazinha, o Lucca tá lá em cima. Pode ir lá se quiser.

Suspirei. Oh, Deus, eu realmente preciso falar com ele?

Sim, você precisa e você quer.

Sorri de volta para a Tia Aline e segui até o andar de cima, obedecendo ao que foi dito por ela para que eu chegasse até o quarto dele. “É a última porta da direita”, e foi para lá que eu fui.

Como não fazia ideia de onde colocar minhas coisas, carreguei até o quarto dele, deixando-as ao lado da porta que foi indicada como o quarto dele.

Pensei em como eu deveria agir para com ele durante os segundos que esperei antes de bater em sua porta. Poderia agir de um jeito meio tímido, entregando que meus sentimentos já estavam falando bem mais alto do que o bom senso, ou chegar perguntando sobre o que a Nicole havia dito como uma surtada?

Bem, as duas abordagens seriam ridículas, uma vez que eu não tenho motivo algum para agir assim, pois se tem algo que sempre tivemos foi liberdade para sermos nós mesmos quando estamos juntos. Suspirei novamente, balançando a cabeça para afastar todos os pensamentos ruins e inseguros que tive: irei vê-lo na minha melhor versão.

— E aí, seu trouxa! — Bati na porta, dizendo na mesma entonação que passamos a usar durante as ligações.

Pensei em soltar uma das piadinhas sujas que fazíamos quando estávamos sozinhos no Discord, mas evitei para que nossos pais não ouvissem as porcarias que falávamos. Sim, eu estou apaixonada por ele, mas isso nunca significou que eu o colocava num pedestal de perfeição por mais que pudesse.

— Ah, sua idiota! — Ouvi os passos apressados batendo no assoalho e sua voz cada vez mais perto da porta enquanto me xingava de vários nomes que prefiro não dizer quais.

Quando vi a porta sendo aberta, agradeci por não ter adotado outra postura para falar com ele. Vê-lo completamente à vontade em minha frente, de pijama, cabelo bagunçado e língua solta para deixar sua boca suja trabalhar nas falas, era a melhor coisa do mundo. Como senti falta desse menino!

Abraçamo-nos num abraço tão apertado que me faltou ar, mas não liguei, uma vez que se eu desmaiasse, em seus braços eu estaria segura. Seu cheiro suave de sabonete ainda estava presente embora eu soubesse que o banho havia sido tomado na noite passada, e eu não podia negar que o sentir havia aguçado alguns de meus sentidos.

Com o coração batucando dentro de meu peito, cheguei à conclusão de que iria, de uma vez por todas, falar o que estava dentro de mim, pois já não aguentava mais guardar tanto por conta de meus medos.

— Eu preciso de falar uma coisa — falamos juntos, exatamente a mesma sentença.

— Fala primeiro! — ordenei, entrando em seu quarto após ele fechar a porta e apontar sua cadeira do computador para que eu pudesse sentar.

— Certo, mas fica esperta que é algo bastante importante para a atual situação.

Não entendi muito bem o uso de suas palavras, mas esperei que falasse.

— Você acredita que a Nicole veio dizendo que estava apaixonada por mim? Parece que o fato de morarmos na mesma cidade deixou os sentimentos dela à flor da pele, Bea!

Todo o discurso que fiz em minha mente e os pontos que juntei para justificar o fato de eu ter vantagem nessa situação caíram numa pancada extremamente forte no chão do meu subconsciente. Nicole havia sido mais rápida que eu… ou talvez nunca tenha sido uma corrida, mas sim a realidade gritando para mim que eu era uma fracassada.

Suspirei. Não iria me deixar abalar, pois não se tratava apenas da declaração, mas sim de nosso reencontro e nossa amizade.

— Acredita que eu ia falar exatamente disso? — menti. Não iria fazer uma declaração em meio a isso tudo de jeito nenhum. Se já era difícil antes, imagina agora que a vantagem passou toda para ela? — Antes de eu vir para cá, ela me mandou mensagem dizendo… — suspirei novamente, esperando que ele não tenha percebido meu desconforto ao dizer o que ficou preso em minha garganta. — que estava apaixonada por você.

Vai para o inferno, Nicole! Sua maldita, eu tenho certeza que você sabia sobre os meus sentimentos! Eu estava tão fora de mim internamente que seria difícil manter uma postura serena, mas eu não iria me rebaixar ao desgosto que sentia.

— Pelo jeito não era brincadeira, então… — Olhou-me de soslaio enquanto ligava o computador, sorrindo alegremente.

Ah, que engraçado ter alguém gostando de você, né, imbecil!

— Bom… já sabe a resposta para dar a ela? — perguntei curiosa, embora meu desejo fosse xingar os dois como uma criança mimada.

Acredita que ele só deu uma gargalhada e não me respondeu? Então aparentemente eu não era o suficiente para ouvir o que ele pretendia dizer a Nicole, afinal, caso fosse o contrário, estaríamos agora mesmo discutindo o que seria dito a ela.

Quer saber? Dane-se. Por mais triste que pudesse ser, ele teria outra reação se quisesse algo comigo, então foi até bom presenciar que ele estava feliz com os sentimentos dela, pois isso evitou minha fadiga.

***

Depois de sair do quarto de Lucca, após ficar dolorosos e exatos vinte e cinco minutos ouvindo sobre as novas peças que ele havia comprado para seu computador, segui até a cozinha para ajudar o pessoal nos preparativos para o Natal.

Eu curto cozinhar, inclusive aprendi várias receitas durante o período que fiquei trancada dentro de casa junto de meus pais, uma vez que por serem ambos professores, a rotina estava virada de cabeça para baixo e precisavam transformar cada aula numa coisa diferente para entreter e ensinar os alunos da melhor forma, mas fazer uma ceia era completamente diferente do que eu estava acostumada.

Tive sorte da Tia Aline ainda me ver como uma criança, pois pediu poucas coisas para eu fazer. Quem mais estava trabalhando era meu pai, o aspirante a cozinheiro de casa, mas minhas mãos faziam questão de dar um pouco mais de trabalho aos legumes que estavam sendo cortados furiosamente por elas.

A cada corte na cenoura, eu fazia questão de bater forte na tábua de madeira para descontar meu desconforto. Fiz o mesmo com diversos outros, até mesmo os que não precisavam de tanta força assim, pois nada seria o bastante para me deixar em paz depois de tanta tristeza dentro do meu coração.

Ah, cara, sinceramente, como é possível ele gostar dela sendo que nunca a viu pessoalmente? Simplesmente não faz sentido! Como ela teve coragem de se declarar? Eu deveria ter dito que estava apaixonada para todo mundo, inclusive para ele, não guardado tanto assim meus sentimentos a ponto de perdê-lo para alguém que nem ao menos o conhece como eu.

Quando me dei conta, meus olhos começaram a arder a ponto de eu chorar. Estava perto de todos os adultos da casa, então não poderia permitir que as lágrimas descessem de meus olhos tão facilmente. De primeira, imaginei que era meu corpo reagindo às sensações que sentia, mas depois fui notar que não se tratava apenas disso, como também ao fato de eu ter cortado profundamente meu dedo.

Num movimento rápido, soltei o objeto cortante e o alimento que sofria inúmeros cortes e corri para o banheiro do andar de cima, avisando que se tratava de uma emergência. Durante o caminho, apertei meu dedo para tentar estancar o sangue e focar a atenção das lágrimas no ferimento, mas era inevitável. Eu estava despedaçada!

Talvez pelo destino adorar fazer os outros de besta, encontrei Lucca saindo de seu quarto para também ajudar com as comidas. Tentei esconder meus olhos e a hemorragia em minha mão, mas fora impossível.

— O que aconteceu? — perguntou desesperado, tomando minhas mãos nas suas. Separou-as, procurando a fonte do vazamento de sangue. — O que aconteceu que você está assim? — questionou novamente, olhando no fundo dos meus olhos como se a resposta estivesse lá.

E, bem, ela estava, lá dentro de meu âmago. Tão profunda que nem mesmo Lucca seria capaz de saber se eu não falasse que um dos motivos para que eu estivesse num estado tão deplorável era ele.

— Eu cortei o dedo, idiota — respondi com a voz embargada, engolindo os soluços que insistiam em sair por vê-lo em minha frente e saber que não era eu quem ele queria.

— E tá chorando assim por causa de um corte?

— Sim, Lucca, estou chorando por causa de um corte.

Respondi seca e soltei nossas mãos, seguindo até o banheiro para que pudesse permitir meus olhos a soltar todas as lágrimas que ainda faltavam sair. Quando entrei, fui até a pia e comecei a lavar o sangue que já havia sujado até minha roupa.

Ao me olhar no espelho, pude ver o desgosto estampado em minha cara, mas não havia muita coisa que eu pudesse fazer. Chorar poderia aliviar momentaneamente, mas não faria tudo sumir. Nicole continuaria sendo cara de pau por ter se declarado, e Lucca acharia graça do fato dela gostar dele.

Calma, na hora que ele riu era para mim ou para a situação? E se for para a situação, por que ele riria daquela forma tão despretensiosa? Talvez ele tinha algo a mais para falar e eu simplesmente não permiti que ele o fizesse... Ou será que ele não gosta da Nicole, e eu estou nutrindo paranoias por bobagem?

Suspirei pela enésima vez no dia enquanto fechava a torneira. Irei descobrir o que está acontecendo antes da noite de Natal.

Notas finais
Eu jurava que terminaria nesse, mas para que apenas dois se posso escrever mais? HIHIHI
Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.