Entre goles e balaços
4 Balaço
Sempre Agora
Hermione odiava ficar de repouso. Odiava a cama, os travesseiros, as poções de gosto duvidoso, a expressão preocupada de Harry, as visitas de Gina trazendo biscoitos e ameaças, e principalmente odiava Draco Malfoy sentado em uma poltrona ao lado, lendo um livro sobre estratégias de quadribol como se fosse um acompanhante perfeitamente razoável.
— Você está virando a página muito alto — ela disse, falando sobre o som que ele fazia ao ler.
Draco levantou os olhos.
— Isso é fisicamente impossível.
— E, no entanto, você conseguiu, Draco. — ele fechou o livro e ela bufou — Quer que eu leia algum outro assunto?
— Quero que você pareça menos satisfeito por eu estar presa aqui.
— Granger, você foi atingida por um balaço. Minha satisfação está profundamente limitada.
— Mas existe — a medibruxa constatou.
— Apenas porque você não pode fugir quando conversamos.
Hermione estreitou os olhos.
— Eu não fujo — Hermione afirmou. Draco ficou em silêncio e ela odiou aquele silêncio.— Não tenho fugido — corrigiu.
— Tem me evitado desde ontem.
— Estou me recuperando.
— Você discutiu com três curandeiros, reorganizou sua própria medicação e escreveu um relatório de quatorze páginas sobre protocolos de segurança. Sua recuperação tem mais produtividade do que a semana inteira de Thomas.
— Thomas não é parâmetro.
— Ninguém é, perto de você.
O elogio veio quieto. Hermione olhou para o cobertor.
O problema era que, desde o ferimento, tudo parecia mais sério. Draco ficara. Dormira na poltrona. Ajudara a trocar compressas. Brigara com um funcionário da federação que tentou minimizar o ataque como “desvio acidental de jogo” até o homem sair da sala pedindo desculpas a ancestrais desconhecidos.
E Hermione, que sempre soubera agir em crises, descobriu que não sabia o que fazer com o cuidado depois que a crise passava.
Era mais fácil quando Draco era provocação. Era mais fácil quando ele sorria de lado e dizia coisas absurdas. Mas o Draco que segurava sua mão enquanto ela dormia, o Draco que perguntava se a dor tinha aumentado sem tentar disfarçar preocupação, o Draco que não fugia... esse era perigoso.
Porque ela queria acreditar.
— Você vai perder o treino — disse.
— Já perdi alguns.
— A final é em quatro dias — ela argumentou.
— Angelina me liberou da final — Draco falou, dando de ombros.
— Angelina jamais liberaria você! Vá treinar, Malfoy — Hermione disse, impaciente.
— Potter interveio, se quer saber.
— Harry jamais...
— Gina ameaçou Angelina — ele antecipou a frase que viria. Hermione fechou os olhos.
— Draco, você precisa treinar.
— Eu preciso saber que você está bem — o loiro insistiu mais uma vez.
— Eu estou bem.
— Você está irritada, pálida e tentando organizar minha agenda porque organizar suas emoções não está funcionando.
Hermione abriu os olhos devagar.
— Isso foi ousado, Draco.
— E verdadeiro.
— Tenha cuidado — Hermione pediu.
— Com você? Sempre.
Ela virou o rosto para a janela. A palavra ficou no quarto.
Sempre.
Draco percebeu o erro ou o acerto. Talvez os dois. Levantou-se e se aproximou da cama, mas parou antes de tocá-la.
— Eu não disse isso para assustar você.
— Não estou assustada.
— Hermione.
Ela respirou fundo. As costelas reclamaram.
— Estou. Um pouco.
Ele sentou na beira da cama.
— De mim?
— De nós. Você é imprevisível.
— Tenho tentado ser irritantemente constante, Hermione. Estou aqui, não estou?
— Eu sei. Esse é o problema.
Ele franziu a testa.
— Minha melhora é o problema?
Hermione passou a mão pelo rosto, cansada.
— Eu esperei muito tempo por uma versão sua que ficasse. Agora você está ficando. E eu não sei se consigo confiar nisso sem sentir medo de que, em algum momento, você ache outra razão nobre para ir embora.
Draco ficou muito quieto.
— Eu mereço essa dúvida — havia aceitação, mas também um pouco de decepção no tom dele e Hermione percebeu.
— Eu não disse isso para ferir você, Draco.
— Mas feriu. E tudo bem. Algumas verdades têm péssima educação — ela olhou para ele. O rosto dele estava controlado, mas os olhos não.
— Draco, — os olhos deles se encontraram — Eu não quero punir você pelo passado.
— Talvez um pouco, Hermione. Sinto algumas vibrações sonserinas — ele falou. Apesar do tom leve, havia mágoa. Hermione abriu a boca, indignada. Draco ergueu uma mão. — Não estou reclamando. Eu provavelmente mereço algumas parcelas com juros.
Ela soltou uma risada involuntária, pequena, e isso pareceu aliviar o ar. Draco segurou a mão dela.
— Eu não posso prometer que nunca vou errar. Seria arrogante até para mim.
— Impressionante autoconhecimento — ela passou os dedos sobre a mão dele — Também vou errar nesse processo.
— Hermione Granger admitindo que vai errar — ele olhou para os lados — Cadê os repórteres?
— Muito sutil, Draco — ambos sorriam.
— Posso prometer que não vou decidir sozinho o que é melhor para você. Não de novo.
Hermione olhou para os dedos entrelaçados.
— E se ficar difícil?
— Provavelmente serei irônico.
— Draco.
— E depois vou ficar. Preciso que me dê um voto de confiança. Estou aqui, não estou?
Ela fechou os olhos. Dessa vez, não para fugir. Apenas para sentir o peso da resposta.
— Certo.
Ele levou a mão dela aos lábios.
— Certo?
— Certo.
A paz durou até a manhã seguinte.
A Federação Internacional anunciou que o ataque à enfermaria seria investigado, mas o batedor norueguês não seria suspenso até a conclusão do processo. Hermione leu o comunicado no jornal e quase derrubou a bandeja de chá.
Draco, que chegava com uma sacola de pães na casa dela, encontrou-a de pé, envolta em um robe, tentando pegar a própria varinha.
— Não — ele disse imediatamente.
— Saia da frente.
— Não.
— Draco, eu vou escrever uma carta.
— Você está segurando a varinha como quem pretende escrever a carta na testa de alguém — ele falou depositando os pães sobre a mesa.
— Seria didático.
— Seria ilegal.
— Tecnicamente, depende do país — Draco ergueu uma sobrancelha, como se lembrando com quem conversava. Ele tirou a varinha da mão dela com cuidado. Hermione ficou imóvel — Me devolva.
— Não enquanto você estiver com esse brilho de “vou derrubar uma instituição antes do almoço”.
— Eles tentaram me incapacitar para atingir o time.
— Eu sei.
— E vão deixar aquele homem jogar até decidirem se foi proposital?
— Eu sei que é injusto, Hermione.
— Então por que você está calmo? — ela perguntou, levemente irritada. Draco riu, mas sem alegria.
— Você acha que estou calmo? Acha mesmo?
Hermione olhou para ele de verdade. Só então percebeu a rigidez nos ombros, a palidez ao redor da boca, os olhos frios demais.
— O que você fez? — ela perguntou, de repente.
— Nada.
— Draco.
— Ainda. Ainda não fiz nada. — depois de um tempo, o loiro emendou — Ele pode estar na final se a Noruega vencer a repescagem
— E você pretende fazer o quê? Quebrar a vassoura dele? O braço? A carreira? — Hermione começou a andar de um lado para o outro.
— Estou considerando uma ordem eficiente de como agir.
— Você prometeu.
— Prometi não decidir por você. Usei todo meu autocontrole naquele jogo e segui todas as regras. Foi um jogo justo apesar de milhões de azarações imperdoáveis e desconhecidas pela maioria dos bruxos passar pela minha mente — os dois se encararam em silêncio.
— Estou pedindo que você não transforme medo em violência — Ele se afastou um passo, como se ela tivesse empurrado.
— Você acha que é só medo? — Draco exclamou.
— Você ainda se sente culpado.
— Eu deveria ter alcançado aquela merda de balaço.
— Medo, raiva e culpa não são uma boa combinação, Draco.
— E amor — ele disse simplesmente, a varinha dela ainda entre seus dedos.
A palavra explodiu entre eles. Draco ficou parado. Hermione também.
Nenhum dos dois parecia preparado para a palavra ser dita daquele jeito: no meio de uma discussão e uma varinha confiscada na mão dele. Hermione foi a primeira a falar.
— O que disse?
— Não é o momento, Hermione.
— Draco.
— Estou irritado e você precisa descansar. Estou mudando, mas ainda sou da Sonserina. Ainda tenho meu orgulho, Hermione. Eu estava em campo depois do seu ferimento. Eu vi a expressão daquele bosta. Usei todo meu autocontrole e o que sinto por você para manter minha promessa naquela partida.
— Então o discurso que deu ao entrar aqui serve apenas para mim?
Hermione tentou pegar a varinha de volta. Ele ergueu a mão. Ela esqueceu por um segundo as costelas e fez um movimento brusco demais. Gemeu de dor.
O rosto de Draco mudou imediatamente.
— Está vendo? É por isso que...
— Não termine essa frase — Hermione pediu, soltando o ar com força e sentando-se.
— Você precisa descansar — a voz dele voltou a ficar suave. Preocupada.
— E você precisa parar de tentar me embrulhar em proteção até eu não conseguir respirar!
Ele recuou. O silêncio veio pesado.
Hermione respirava com dificuldade, mais pela emoção do que pela dor. Draco olhava para ela como se tivesse acabado de se ver em um espelho pouco generoso.
— Eu vou caminhar — ele disse.
— Draco...
— Não vou fazer nada idiota.
— Você acabou de prometer isso com cara de quem fará algo idiota.
— Vou caminhar exatamente para evitar fazer algo desse tipo. Sua varinha — deixou a varinha ao lado dela e saiu.
Hermione ficou olhando para a porta fechada, odiando o alívio e a tristeza que vieram juntos.
Gina chegou meia hora depois, viu o pão, a expressão de Hermione e a ausência de Draco.
— Brigaram?
— Acredito que foi mais uma discussão estratégica.
— Entendi… Briga com vocabulário pretensioso.
Hermione ajeitou-se na cama com cuidado.
— Ele disse que me ama
Gina piscou algumas vezes, incrédula.
— Durante a briga?
— Sim.
— Bem o jeito de vocês mesmo. Não existe calmaria, não? — Hermione cobriu o rosto e depois voltou a olhar a amiga.
— Pedi que ele repetisse, pois fiquei a segundos de dizer o mesmo, mas a briga tomou outro caminho. E ele saiu para caminhar.
Gina sentou-se ao lado dela.
— Hermione, ele voltou para você de todas as formas que conseguiu nos últimos dias.
— Eu sei — ela contou rapidamente o motivo da briga
— Então, talvez, seja sua vez de não se esconder atrás de insegurança. Malfoy mudou, mas assim como você, ele tem direito de ser quem é.
Hermione olhou para a amiga.
— Desde quando você dá conselhos tão bons?
— Desde sempre. Vocês é que se distraem com meu talento para ameaças — as duas riram. Hermione ainda recebeu a visita de Harry e Ron. Depois, ficou um pouco sozinho e apreciou aquele momento.
Draco voltou ao entardecer. Tinha o cabelo úmido da chuva e parecia cansado. Ela estava sentada perto da janela, uma manta sobre os ombros.
— Fez algo idiota? — perguntou.
— Comprei flores.
Ela olhou para as mãos dele. Havia um buquê ligeiramente amassado de flores amarelas.
— Isso não é idiota.
— Pedi conselho ao Potter.
— Retiro o que disse.
Ele sorriu fraco e colocou as flores em um vaso torto sobre a mesa.
— Potter disse que flores eram uma boa ideia. A ruiva disse que eu deveria pedir desculpas antes que você percebesse que há opções melhores, como o Krum — Hermione girou os olhos e percebeu a frieza dele ao falar o sobrenome do seu ex-namorado.
— Krum não é melhor que você, Draco. — ele aproximou-se, mas parou a uma distância respeitosa.
— Desculpe — Hermione assentiu.
— Eu também devo desculpas — ele a olhou, sem entender — Não posso mudar inteiramente quem você é.
— Mas não precisa se desculpar por me dizer a verdade — ele respirou fundo — Eu não quero prender você no meu medo.
— E eu não quero punir seu cuidado só porque tenho medo de precisar dele.
Draco a olhou com tanta ternura que Hermione sentiu vontade de desviar sua atenção. Não desviou.
— Draco, sobre o que você disse...
— Eu amo você — Hermione fechou os olhos.
A frase veio sem espetáculo. Sem pose. Sem a frieza elegante que ele usava para se proteger. Era apenas Draco, molhado de chuva, com flores tortas e coragem atrasada.
— Eu amo você — ele repetiu. — Há anos. De um jeito covarde antes. De um jeito melhor agora, espero.
Hermione levantou-se devagar. Ele fez menção de ajudá-la, mas ela ergueu a mão. Foi até ele por conta própria.
— Eu também amo você.
Draco soltou o ar como se estivesse segurando desde a guerra e a beijou.
Foi um beijo de reconciliação, mas também de reconhecimento. Não havia pressa. Hermione apoiou a mão no peito dele, sentindo o coração bater rápido. Draco a envolveu com cuidado, lembrando das costelas, e isso a emocionou mais do que deveria.
— Não vou quebrar ninguém na final — ele murmurou contra a testa dela.
— Agradeço.
— Dentro das regras, porém, serei desagradável.
— Eu jamais esperaria menos.
A final foi contra a Bulgária.
Krum cumprimentou Hermione antes do jogo. Dessa vez, Draco estava ao lado dela. O técnico búlgaro olhou de um para o outro, compreendeu o que havia mudado e sorriu com uma melancolia tranquila.
— Finalmente — disse.
Hermione corou.
Draco ergueu uma sobrancelha.
— Comentário técnico?
— Comentário de quem notou antes de vocês.
Krum estendeu a mão para Draco.
— Cuide dela.
Hermione abriu a boca para protestar, mas Draco respondeu antes:
— Ela cuida de si. Eu apenas tento acompanhar.
Krum avaliou a resposta. Então assentiu.
— Melhor.
O jogo foi o mais difícil da campanha.
A Bulgária conhecia a Inglaterra. Krum conhecia Gina, conhecia Draco, conhecia a tendência inglesa de transformar desespero em ataque. Por duas horas, o placar alternou. Hermione tratou o punho de Gina, estancou o sangramento de Roger, estabilizou Thomas depois de uma queda, e, em determinado momento, gritou com Draco quando ele tentou continuar jogando com a mão aberta em sangue.
— Três minutos! — ela ordenou.
— Um!
— Cinco!
— Isso piorou!
— Continue discutindo e vira dez!
Ele sentou.
A torcida inglesa inteira pareceu prender a respiração ao ver Draco Malfoy obedecer Hermione Granger no meio de uma final mundial.
Gina passou voando e gritou:
— O casamento vai ser divertido!
Hermione quase derrubou o frasco de cicatrização. Draco sorriu, apesar da dor. Ela terminou o curativo e apertou a mão dele.
— Volte inteiro.
Ele levou os dedos dela aos lábios, rápido o bastante para parecer promessa e provocação.
— Sempre volto para você.
No fim, a Inglaterra venceu.
O pomo foi capturado pela apanhadora inglesa em um mergulho absurdo. Gina marcou o gol final quase ao mesmo tempo. O estádio explodiu. Jogadores choraram. Harry abraçou Gina depois que ela desceu, ambos rindo como adolescentes. Angelina Johnson, que raramente perdia a compostura, chorou sem disfarçar.
Draco pousou perto da enfermaria.
Não ergueu o troféu primeiro. Não procurou jornalistas. Não fez pose para fotógrafos.
Procurou Hermione.
Ela estava parada na entrada, exausta, com o uniforme médico manchado de poção, cabelo completamente solto e olhos brilhando.
— Campeão mundial — ela disse.
— Medibruxa responsável — ele respondeu.
— Tecnicamente, eu não ganhei o jogo.
— Tecnicamente, sem você estaríamos todos no hospital, mortos ou reclamando com menos elegância.
— Menos elegância seria trágico.
Ele se aproximou.
— Hermione.
Ela sorriu.
— Draco.
— Aceita meu convite para jantar? — ela fingiu pensar e retornou a pergunta:
— Médico e paciente?
— Não.
— Batedor e medibruxa?
— Absolutamente não.
— Amigos? — ela tentou mais uma vez, sorrindo. Draco fez uma careta.
— Essa palavra nos causou problemas suficientes — Hermione riu e tocou o rosto dele.
— Então o quê?
Ele a olhou com uma calma que anos antes não teria conseguido sustentar.
— O que deveríamos ter sido quando tudo ainda estava quebrado.
Ela o beijou no meio do campo, sob fogos dourados, gritos de torcida e assobios nada discretos de Gina Weasley.
Blaise Zabini, de algum lugar próximo à área reservada, ergueu uma taça de champanhe.
— Finalmente! — gritou.
Harry riu.
E Draco Malfoy, que por covardia decidira chamar amor de amizade, segurou Hermione Granger como quem finalmente entendia que coragem não era não ter medo.
Era ficar.
Mesmo quando tudo ainda não estava em ordem.
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