A única coisa que eu sabia sobre ele é que seu sobrenome era Videla. E só sabia disso por causa do pai, que também só sabia por causa da empresa que eles tinham, de nome Videla, que produzia ou só vendia vinhos, não sei. Eu morava num nesses bairros em que todos se conhecem, mas pouco se falam, e o pouco que falam é sobre a vida dos outros com quem não falam. No momento, não havia vida mais interessante de se falar que a dos novos moradores no que chamávamos de vila. Nobre, diga-se de passagem. Bairro de rico, segundo os mais pobres que eu. Rico na minha opinião é quem pode fazer o que quiser na hora que bem entender, sem precisar de planejamento financeiro algum. Os meus pais planejavam as férias e os finais de ano, então eu não achava que de fato fossemos ricos, apesar da gigantesca casa que tínhamos. Para mim, era uma casa normal igual a todas as outras casas do bairro. O que me faz voltar à ideia anterior: bairro de “rico”.

Videla filho, como apelidei, era um desses poucos caras que encontramos na vida que nos causam desconforto corporal só de falar no nome. Não, mais que isso: só de falar “ele”, ou só de fazer uso de qualquer pronome que se refira a ele, já resfria o pé da barriga. Mas eu falava “ele” exatamente por não saber o nome. Se bem que acho que se soubesse, evitaria ao máximo para não o tornar comum. Para que toda pouca vez que o pronunciasse, quase fosse como a primeira vez que o fazia escorrer da minha boca, suavemente.

Apesar da pouca informação a respeito dos novos vizinhos, algumas deduções foram óbvias das poucas vezes que o vi. Ele com certeza era bem mais velho que eu. Devia ter lá pelos 25, enquanto eu, caso o conhecesse, seria apenas uma patética adolescente do ensino médio, provavelmente amontoando a lista de garotinhas interessadas nele para as quais ele não dá a mínima, ou que ele só dá bola para que elas inflem ainda mais seu ego. Ou não! Ele não era o tipo galã, graças a deus, eu odeio esse tipo. Ele era um cara normal de cabelos pretos, ondulados e curtos, e de pele um tanto bronzeada – o que na minha mente não combina com quem trabalha com vinho – mas sendo quem sou, é esse o tipo que meus olhos caçam. Quem tem sua beleza própria, como se tivesse vencido um concurso de beleza em que ele tenha sido o único candidato, pois era o único apto a concorrer consigo mesmo. Nas poucas vezes que o vi, ele sempre vestira cores claras, talvez para contrastar com a cor da pele, ou era só preferência mesmo. Eu fico nessa de fazer suposições das pessoas.

Videla filho não tinha me olhado com interesse. Quando passou por mim na rua, dentro do carro e eu andando na calçada com a farda ridícula da escola, olhou para mim como quem olha um cachorro de rua na rua. Normal. Era quase meio dia, e a escola era perto o suficiente para eu ir e voltar a pé. Era uma sexta, e eles tinham se mudado no início da semana. Eu já tinha olhado ele da porta da minha casa – eles moravam no fim da rua. Mas essa fora a primeira vez que ele tinha notado a minha pobre existência. Foi um tanto decepcionante porque: não que eu me achasse a garota mais linda do mundo, mas eu sabia que em geral eu chamava atenção – não muita, mas razoavelmente. Ser mulher e chamar atenção é muito fácil, não precisa ser nenhuma maravilha. Mas como havia dito, talvez ele só estivesse olhando a calçada atrás de mim, e não propriamente para mim. Cheguei em casa nesse dia e fiquei me olhando no espelho durante alguns minutos, antes de me trocar para o banho. Será que se meu cabelo médio e castanho não estivesse em um coque, teria ajudado? Ou se a maquiagem não estivesse desmoronando, ele teria prolongado o olhar? Ou se eu fosse uma mulher de trinta anos, não uma adolescente de 17?

No final de semana, uma amiga da escola ia para minha casa com a desculpa de estudarmos para a prova. Não que não fossemos estudar de verdade, mas é que provavelmente passaríamos a maior parte do tempo vendo filmes e conversando besteira do que de fato estudando. Foi a primeira vez que fiquei desconfortável com a ideia de ela vir aqui em casa. Ela era do tipo de garota que não se dá 17 anos. Ela era uma dessas filha da mãe que tem um corpo igual ao que gente de academia se mata para ter – e ela tinha sem fazer esforço algum. Eu tinha medo de que Videla filho a olhasse e a quisesse – e pior: que talvez falasse comigo para poder chegar nela. Mas já tínhamos combinado, então a ideia era manter ela dentro de casa todo o tempo: nada de sair para comprar sorvete como gostávamos de fazer.

Notas finais
Como essa foi a ideia inicial, pro começo só quero apresentar os dois personagens por quem Fernanda vai ficar em dúvida.
Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.