Entre feitiços, muito cocô, e um Borela.
6 Suspeitas
Demorou cerca de quarenta minutos para limparem o Grande Salão. A sujeira de Borela mostrou-se muito resistente às artes mágicas, e pelo menos quinze alunos desmaiaram no processo de limpeza. Gabriel, Lucas, Pedro e Ysadora saíram apressadamente do local assim que a professora Minerva fora contatada sobre o ocorrido, no intuito de evitar questionamentos e ficarem o mais longe possível da cena de crime.
Chris Teardrop, um aluno da Sonserina que encontraram cruzando hall, informou-lhes de que a próxima aula seria cancelada por causa do incidente. Aquilo encheu de alívio o peito de Gabriel, pois não teriam de ficar sob o olhar vigilante de McGonagall. Os garotos rumaram à parte norte do castelo, ignorando todas as perguntas que arremessavam contra eles.
—Mas aqueles Grifinórios viram você colocar algo no suco do Borela! — Exclamou Pedro, vermelho, enquanto seguiam a passos apressados, para fora da escola.
—Não há bem como provarem que aquilo causou a diarreia... — Lucas se defendeu.
— DIARREIA?! — trovejou Gabriel. — Não seja tão gentil, Lucas.
O campo de Quabribol se agigantava conforme avançavam, com as arquibancadas se empunhando eu céu, as bandeirolas dançando nos mastros de cobre e a grama se movendo ao compasso tênue do vento. Gabriel repetia o exorcismo gástrico de Borela seguidas vezes em sua cabeça, e os amigos facilmente percebiam isso, pois ele sempre deixava escapar uma risada pelo canto da boca.
—Ah, Lucas — disse Ysadora, balançando a cabeça negativamente, mas sorrindo. -, se chamarem a gente na sala do Dumbledore, a culpa vai ser sua.
—Na verdade nem sei porquê você está aqui. — replicou Lucas, um pouco impaciente. — Você devia ter aula na Floresta Proibida; lá é o lugar pra trolls. O Borela se cagou ao tentar flertar com você, de tão feia que você é, ou vai ver, ficou com medo que essa sua boca o devorasse, como parece ser capaz de fazer com metade da Inglaterra.
Ysadora se calou. Gabriel percebeu que lágrimas brotaram no canto de seus olhos, mas a garota fazia esforço para não soluçar. Ao sentarem na sombra de uma das arquibancadas, Gabriel conseguiu ver, ao longe, uma patética silhueta que conhecia muito bem: Gabi.
O primo de Lucas corria desengonçado, como se estivesse sem tempo para alguma coisa — o que não era possível, uma vez que ninguém iria fazer questão de que Gabi chegasse logo em algum lugar.
Ao cruzar boa parte do terreno, Gabriel notou que Fezes estava sendo seguido por centenas de besouros rola-bosta, e em seu pálido e reluzente rosto, ostentava puro pânico.
—Gabi! — Lucas chamou, se levantando rápido e limpando a grama das vestes. -Segura essa marimba aí monamour! — Ele ergueu o escudo entre Gabi e os besouros, que cabeceavam o ar inflexível tentando passar. — Onde você esteve todo esse tempo?
Gabriel percebeu que Lucas entortara o nariz, e seus olhos ficaram marejados e vermelhos. Ele agradeceu profundamente pelo vento não soprar em sua direção.
—Por aí... — gemeu Gabi, tristonho, coçando o traseiro.
Lucas tirou o frasco do bolso, e Gabriel foi inundado pelo medo de que algo semelhante ao ocorrido á Borela, acontecesse com Gabi — não por se preocupar com ele, mas porque pensava na monstruosidade que seria somar o Gabi àquela explosão de fezes.
—Eu quero te dar uma coisa. — disse Lucas, balançando o frasco. — Mas terá de prometer não contar á ninguém. Eu quero que você beba um pouco disso — ele sublinhou as últimas palavras.
Gabi pegou o frasco, e mirava seu interior, desconcertado.
—Por quê?
—É algo que vai te ajudar, eu prometo. Mas vai ajudar muito mais pessoas também. — Lucas mirou o céu azul, com os olhos transbordando sonhos. — Ah... tantas mais...
Gabi lançava um olhar pidão ao primo, e depois olhou de esguelha para os outros três, parecendo ficar um pouco mais tímido.
—Mas o que vai acontecer comigo? — sua voz se tornou abafada e melosa.
—VAI FAZER VOCÊ CAGAR QUE NEM GENTE! — bradou Pedro, rápido e agudo, com o rosto vermelho. — BEBE LOGO ISSO!
Gabi hesitou. Gabriel compartilhava a mesma dúvida de Fezes sobre aquele frasco, e não confiava mais em seu efeito. Gabi parecia tender a deixá-lo cair a qualquer momento. Ele abriu a boca para falar, mas antes que pudesse dar à luz a novas palavras, Lucas interveio:
—Confia em mim... Sabe que pode.
Naquele exato momento, Gabriel lembrou-se de todos os momentos que passara com o amigo; momentos que o levavam a crer que confiar em qualquer coisa vinda dele, era o ápice da burrice. O mesmo não pareceu ter ocorrido a Gabi, uma vez que o garoto levara o frasco aos lábios, dera dois goles, e o devolvera ao primo.
Á princípio, ninguém se moveu; como se qualquer ruído pudesse ser o estopim para a maior cagança já vista pelo mundo da magia. Gabriel apertava a varinha dentro das vestes, absorto em Gabi, que estava tão rígido quanto ele. O garoto notou que uma cor rosada brotara no rosto de Fezes, e um sorriso pareceu se deitar sobre sua boca descascada.
O céu de repente pareceu mais límpido. O sol ganhara mais brilho e nuances douradas e vermelhas desciam em espiral sobre o castelo. Os rola-bosta desistiram de passar pelo escudo, e se dispersaram pela grama. Os três garotos levantaram, hesitantes, e com as varinhas em mãos. Gabriel olhava para Pedro, esperando que este último desse um passo à frente, mas parecia tão defensivo quanto ele.
—Será possível? — perguntou Pedro, com os olhos cintilando por trás dos óculos.
Lucas se afastou do primo a passos lentos, e com uma voz grave muito destoante de sua natural, perguntou:
—Como se sente?
—Eu... — começou Gabi, colocando a mão nos fundilhos. Assim que apalpou-o, soltou um sorriso que Gabriel nunca havia visto em seu rosto. — ... não estou com vontade de me cagar.
Gabriel arregalou os olhos conforme o sentimento de assombro corria-lhe pelo corpo. O Feitiço Escudo de Lucas estourou como uma bolha que entrara em contato com um jardim espinhento, e quando o vento soprou, Gabriel não fora chicoteado nas narinas pelo cheiro lúgubre de sempre.
—Nós acabamos de fazer história, meus amigos! — exclamou Lucas, sorrindo radiante. — GABI PAROU DE SE CAGAR! — Sua voz ecoou por todo o terreno, atraindo olhares dos demais alunos.
Lucas abraçou o primo com demasiada excitação, mas Gabriel e os demais, preferiram deixar passar a oportunidade. Gabi disse voltar ao Salão Comunal, e foi-se embora. Lucas continuava pregado no chão, extasiado e com um sorriso perolado desenhado na face. Gabriel ainda não conseguia acreditar no que acontecera. Será que finalmente teriam se livrado da maior praga do mundo bruxo? Será que o controle de Gabi sobre seu próprio ânus duraria para sempre?
O barulho agudo da sirene ecoou pelas paredes do castelo e repercutiu nos gramados. Toda a animação de Gabriel se esvaíra e se perdera ao longe; sua mente dera lugar à preguiça e seu corpo pareceu ter dobrado de peso. Se bem lembrava, agora teriam História da Magia, e isso não só não lhe apetecia, como devolvera o mau-humor a sua consciência.
—Como eu queria ter feito Borela se cagar antes dessa aula. — lamentou Lucas, enquanto galgavam as escadas em direção à sala de HM.
—Verdade. — Gabriel concordou, embora não soubesse exatamente se preferia perder História da Magia ou Transfiguração.
—Será que o Gabi vai aparecer dessa vez? — Ysadora quis saber, enquanto os quatros tomavam seus lugares na sala de aula.
—Sinceramente, espero que sim. — disse Lucas, apanhando seu exemplar de "A História da Magia".
—Bem... -começou Pedro, distante. — mesmo que ele não se cague mais, ainda falta muito para ele entrar nos "padrões".
—Olha quem fala. — comentou Ysadora, azeda.
—Pra você, falta muito para entrar nos padrões da sua roupa, Ysadora. — replicou Lucas, deitado sobre o livro aberto. — A madame Malkins deve ter ficado onze anos costurando, só pra chegar no seu tamanho.
Gabriel sentiu uma fisgada de riso em seu peito, mas não o deixou sair. Ysadora murchou na cadeira, e enquanto mais alunos entravam na sala, Gabriel sussurrou aos amigos:
— Quem acham que era, lá na sala de troféus?
— Não combinamos de deixar isso quieto? — bloqueou Pedro.
— Eu sei, mas... — Gabriel vestiu uma máscara de prazer ao imaginar um dormitório Corvino cheiroso e decente. -... eu preciso saber quem é.
Lucas sacudiu a cabeça e se ajeitou na cadeira, com os braços cruzados.
— Se a pessoa não quer ser descoberta, quem somos nós para irmos contra a vontade dela?
Gabriel trocou olhares com Pedro, e ambos se afundaram em risadas que sequer se deram ao trabalho de abafar.
— Quem é você e o que fez com o Lucas? — debochou Pedro, desembaçando os óculos.
Lucas deu um sorriso de canto de lábio.
— Só acho que ele fez por nós um grande favor. — argumentou. — Talvez devamos deixa-lo em paz.
— Ou não. — pôs Pedro, perceptivelmente com a opinião alterada.
— Quem acham que pode ser? — Ysadora se deu o direito de perguntar.
— Considerando que era uma poção de difícil preparo... — começou Gabriel vasculhando ideias em sua mente. — Snape?
Lucas riu, colocando os braços atrás da cabeça;
— Ele nunca nos ajudaria. Por mais que Gabi fosse um problema coletivo, não faria nada por nós...
— Por você. — corrigiu Pedro, com rispidez.
— Ta bem... por mim. Além disso — Lucas olhou para Gabriel. -, aquela sombra era baixa, e o Snape é alto.
Os garotos concordaram levemente com a cabeça, e antes que Gabriel pudesse pensar em mais suspeitos, sua atenção foi roubada por gritos de espanto e palmas apressadas. Gabriel girou o pescoço, e viu um corpo prateado e cintilante em frente ao longo quadro negro na parede. Era um velho aparentemente sonolento, cujas rugas espectrais fulgiam na luz cristalizada da sala.
Gabriel já ouvira falar dele: era o professor Binns, um velho que morrera dormindo sobre a mesa da própria sala, e no dia seguinte, fora dar aula normalmente, sem ter percebido que morrera. Os pais de Gabriel também contaram-lhe que era praticamente impossível não dormir em suas aulas, uma vez que ele era, unanimemente, o professor mais lento e morto da escola.
— Abram os livros na página doze. — a voz do professor se assemelhava a um gemido errático e incorpóreo.
Os alunos obedeceram, e Gabriel no fundo ficara satisfeito de esse professor ser um fantasma; pois assim Pedro não poderia-lhe ocasionar nenhum dano físico, e não se importaria com as humilhações psicológicas de Lucas.
Enquanto os alunos faziam um resumo de "A perseguição das bruxas no séc. IV", ouviu-se o som da porta se abrindo. Assim como os demais, Gabriel se esgueirou para ver quem era, e para sua surpresa, era Gabi. Imediatamente o garoto foi tomado por um sentimento de repulso e a vontade de pedir para sair despontou no fundo de sua mente. Apertou os olhos quando o primo de Lucas passou por ele, mas não sentiu o cheiro podre que normalmente o envolvia... Não sentiu cheiro algum.
— Desculpe o atraso. — pediu Gabi, tomando um lugar vazio na última fila. — Estava om o professor Flitwick, na Ala Hospitalar.
— Muito bem, Sr. Stumpf. Abra o livro na página doze... E peça para algum de seus colegas explicar-lhe sobre a atividade, porque estou sem vontade.
Muitos alunos olhavam para Gabi, receosos, mas aos poucos, pareceram ganhar confiança, ao perceberem que não estava fedendo. O restante da aula fora tão entediante quanto os pais de Gabriel haviam lhe alertado. Lucas fora pego dormindo três vezes enquanto Binns explicava sobre a escravidão das Feiticeiras e Portland, mas Pedro, por alguma razão, pareceu bastante interessado.
— Gosto de História da Magia. -admitiu ele, quando questionado por um entediado Gabriel e um sonolento Lucas.
A sineta tocou, e até seu som pareceu mais vagaroso que o normal. Os quatro desciam as escadas, e Lucas ainda bocejava e limpava os olhos com os dedos.
— Não foi tão ruim assim. — disse Pedro.
—Sim, foi. — retrucou Lucas, emburrado. — Finalmente encontrei uma matéria que odeio mais que Poções!
— O que vamos fazer agora? — Gabriel quis saber, cortando o que sabia ser a deixa para Pedro se gabar de ser ótimo em Poções e possivelmente o melhor em História da Magia, também.
— Prometi ao Flitwick que visitaríamos ele. — contou Ysadora.
— Tinha que ser o Salgueiro. — reclamou Lucas.
— Por que, Ysadora? — indagou Gabriel, impaciente.
— Só achei que a gente devia comparecer... Afinal, foi por nossa culpa que ele foi parar na Ala Hospitalar, de novo.
— Não, não é bem assim. — defendeu Lucas. — Foi o Borela quem o acertou dessa vez.
— Por causa da poção que você deu!
— Ah, me poupe, Ysa. Você só vai lá pra mostrar o quão prestativa e amorosa que é.
— Coisa que vocês deviam ser, pelo menos de vez em quando! — E a gigante apressou o passo e desapareceu no próximo corredor.
Gabriel estranhou consideravelmente o comportamento de Ysa, pois normalmente ela aceitava as provocações sem reclamar. Lucas soltou um longo suspiro que ecoou pelo corredor em que a amiga desaparecera, e Pedro se absteve de qualquer comentário.
— Acham que devemos ir? — Gabriel quis uma opinião.
— Não! — vociferou Lucas. — Prefiro usar meu tempo livre para fazer outras coisas, tipo nada!
Eles pararam de caminhar assim que chegaram à porta do Grande Salão.
— Mas no fundo, a Ysadora ta certa. — disse Pedro.
Os alunos passavam por eles, e Lucas os acompanhava com o olhar, como se tentasse fugir do assunto. Gabriel não sabia se deviam visitar Flitwick, principalmente porque Lucas estava certo quanto às intenções de Ysadora. Por outro lado, se fossem, talvez ajudasse a despistar as suspeitas que já tinham deles... Supeitas criadas pelos alunos da Grifinória que viram Lucas depositando algo no suco de Borela.
— Vamos ir, Lucas. — aconselhou ele. — E se caso descubram algo nos testes do Borela? Se descobrirem que o organismo dele fora alterado? Você seria o primeiro suspeito; talvez uma visita a Flitwick, alivie seu castigo. Vamos combinar: amanhã você já vei ter que cumprir detenção, não precisa de mais uma pena.
Lucas sacudiu a cabeça, pensativo. Depois de alguns segundos, cedeu aos argumentos de Gabriel.
Os três subiram à Ala Hospitalar, e a encontraram praticamente deserta, com exceção de dois alunos da Lufa-Lufa acamados, Ysadora, e uma manchinha preta sobre a cama, que ao se aproximarem, perceberam se tratar do professor de Feitiços.
O lugar era amplo e organizado, com cerca de sete camas coladas nas paredes, um teto alto e copular coberto de sombras, onde as vigas de sustentação se perdiam conforme subiam. Ali era um pouco mais gelado que o resto do castelo, e o ar tinha um gosto oleoso, piorado pelo cheiro que normalmente permeava o hospital St. Mungus para Doenças e Acidentes Magicos.
Ao pousar os olhos miúdos nos garotos, Flitwick começou a se debater na cama, gemendo e sacudindo os braços gordinhos.
— AH, NÃO.. NÃO! — gritava ele.
Madame Pomfrey irrompeu no salão, apavorada e pálida.
— Pelo amor de Deus, o que houve?
— E... ELES!! — O professor apontou para o trio de garotos, o que fez Gabriel engolir em seco.
— Calma, bixa, pare! — A enfermeira agarrou um desesperado Flitwick, tentando conter sua histeria.
— Se quiser, nós... Nós vamos embora. — disse Gabriel, franzindo a cara ao perceber que Pomfrey estava batendo na bunda de Flitwick.
— Não — falou Pomfrey, tirando um chicote de couro do vestido, e fustigando o rosto do pequeno professor. — Está tudo sob controle. SE ACALME, FLITWICK!
— ENTÃO PARE DE ME AÇOITAR, QUASÍMODA! — O professor berrou a plenos pulmões.
Pomfrey, que estava com um cano enferrujado em mãos — Gabriel não queria nem saber o que ela pretendia fazer com ele -, recuou da cama, e atirou o cano para longe, fazendo o som do aço flutuar e rodopiar no ar até desaparecer em nuances. Ela tirou os cabelos castanhos da frente dos olhos, e tomou ar.
— Muito bem, vocês têm dez minutos. — informou ela — Depois disso, ele precisará tomar seu remédio e repousar.
Os garotos assentiram, e a enfermeira deixou o salão.
— Está se sentindo melhor, professor? — perguntou Pedro.
— Melhor do que quando o senhor me acertou um feitiço estuporante, sr. Alves. — admitiu Flitwick, com humor. Ele se virou para Ysadora e continuou.
— Obrigado por virem me visitar. Nenhum outro aluno veio.
— Não foi nada. — disse a menina.
— O senhor viu o Borela? — perguntou Lucas. — Ele não devia ter vindo para cá?
— Ah, sim, ele veio. — contou Flitwick. — Mas foi transferido para o St. Mungus. — Deu um suspiro. — Pelo menos me pediu desculpas, antes de ir.
— Então... — começou Lucas, com cara de inocente, e Gabriel soube exatamente o que viria depois. — Já descobriram o que houve com ele?
— Ainda não, Sr. Stumpf. Receio que temos um problema muito grave com fezes aqui em Hogwarts, não é mesmo? Seu primo... Agora o Sr. Borela...
— Acho que não mais. — disse Gabriel, sorridente. — Na aula de História da Magia, o Gabriel Stumpf não parecia cagado.
Flitwick levantou as sobrancelhas, interessado.
— É?
— Sim. — confirmou Pedro, com lágrimas de felicidade brotando atrás dos óculos.
— Engraçado o Sr. Borela ter tido aquela explosão, e logo depois o Sr. Stumpf ter milagrosamente aparecido limpo, não acham? — o professor sequer parecia estar fazendo uma pergunta.
Os três meninos trocaram olhares, e Ysadora também pareceu preocupada. Gabriel abaixou a cabeça, e Lucas contornou:
— Isso já aconteceu antes. Na sua aula, professor. O Gabi também estava limpo.
— Isso porque tive uma dura conversa com ele. Disse que se o pegasse cagado em minhas aulas, iria enviar uma coruja a seus pais. Dessa vez ele devia saber que eu estaria de cama, e História da Magia sequer é minha aula. Então não vejo conexão alguma entre minha ameaça e esse episódio milagroso de ter aparecido limpo. Mas o que houve com o Sr. Borela... Isso eu consigo ver uma ponte...
— Bem, nós não. — cortou Lucas. — Foi muito bom vê-lo, professor, mas agora precisamos ir. Temos tarefas pra fazer. Venha Ysa.
— Ah, eu vou ficar...
— Já, trasgo!
Ysadora engoliu em seco, e os acompanhou até o lado de fora. Os meninos desceram apressados as escadas, e Pedro quase resvalou em um degrau.
— Ele sabe. — disse Pedro, nervoso.
— Não temos como saber disso. — confortou Lucas.
— Suspeita, pelo menos. — colocou Gabriel.
— E qual o problema de ele suspeitar? — Ysadora demonstrou sua ignorância.
— O porte da poção é ilegal para menores de dezessete anos, lembra? — esclareceu Lucas. — Se descobrirem que andamos com o frasco por aí, podemos ser expulsos.
— Mas não era nossa, a principio. Era daquela pessoa...
— E quem vai acreditar na gente? — Bradou Gabriel. — Na verdade... — ele olhou para Lucas e Pedro, e notou que eles pareciam ter chegado a mesma conclusão que ele. — Talvez... Talvez essa pessoa tenha armado pra gente. De algum jeito ela sabia que iríamos testar a poção em alguém...
— E esse alguém iria causar uma grande sujeira. — completou Pedro.
— E logo depois o Gabi iria aparecer limpo. — concluiu Lucas. — Levantando as suspeitas de algum professor...
— E iniciando uma investigação sobre a gente. — retomou Gabriel. — Provavelmente culminando em nossa expulsão.
— Mas quem iria querer isso? — Ysadora quis saber, assim que pararam no meio do hall do quarto andar.
Gabriel pensava enquanto silêncio pairava sobre eles, mas sua atenção fora quebrada com as palavras de Lucas.
— A expulsão de vocês não... A minha. A carta era destinada a mim, não a vocês. E o interessante é que a lista de gente que me odeia, é longa. — riu ele.
— Não tem graça, Lucas. — repreendeu Pedro, corado. — O que vamos fazer?
Lucas virou o rosto, e Gabriel sabia no que ele estava pensando.
— Vamos incriminar alguém. — decidiu Lucas, frio.
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