A noite caiu como um pano de seda estrelado. Lucas, Gabriel, Pedro e Ysa estavam aguardando no Salão comunal da Corvinal, cercados pela escuridão embalada pelos roncos abafados dos alunos que vinham de cima das escadas em caracol.

— Quanto tempo ainda vai demorar? — perguntou Pedro, esfregando as mãos, tendo tato de falar em tom baixo.

— Não sei. — respondeu Lucas sinceramente, cuja perna direita estava tremendo de ansiedade. — Talvez cinco minutos, ou talvez uma hora.

— Podíamos usar a Ysadora como isca para o Filch. — sugeriu Gabriel com um sorriso fraco.

Ysa deu uma risada debochada e sacudiu a cabeça em negação.

— Isso o faria suspeitar que estamos envolvidos e tramando algo, não acha? — disse Lucas, mirando friamente a janela do dormitório, por onde o luar penetrava sorrateiramente. — Deve ser logo...

De repente, o feixe prateado do luar foi cortado por um lampejo de luz vermelho que se extinguiu em pouco menos de um segundo.

— É agora! — disse Lucas, se levantando o mais rápido possível do sofá e correndo para a entrada do dormitório, seguido pelos três amigos.

O quarteto saiu rápida e silenciosamente do dormitório, e desceu as escadas á passos ligeiros. Seus corpos desaparecendo e reaparecendo à cada feixe de luz das longas janelas dos corredores.

Ao chegarem ao patamar do primeiro andar, se aproximaram da grande porta de entrada, a qual Lucas abriu com delicadeza, a fim de não provocar o menor ruído. Saíram tão rápido, que se tivesse alguém observando, veria apenas quatro vultos irrompendo nos jardins da escola.

Quando se afastaram o suficiente do castelo, conseguiram observar duas sombras correndo próximas ao lago que cintilava.

— Tadinha da Shelsy, Lucas. — disse Pedro, sem o menor pesar na voz porcina e ofegante.

— Ela aceitou distrair o Filch para que saíssemos porque quis, não é? — falou Lucas.

— Porque você prometeu sair com ela. — corrigiu Pedro.

— Estamos em um internato. Se alguém lhe usar a palavra "sair" você já pode ter uma suspeita. — observou Lucas, apanhando a varinha das vestes. — Agora vamos. Precisamos chegar logo a casa onde estão Gabi e Borela, ou vamos nos atrasar e o plano todo irá por água a baixo.

Os quatro correram pelos campos enluarados até chegarem à orla da Floresta Proibida, os silvos dos animais irrompendo do interior negro.

— Tem certeza disso?- indagou Ysadora, se agachando para conseguir ver a floresta.

Ninguém respondeu. Lucas apenas deu o primeiro passo floresta a dentro, e se pegou engolindo em seco. Ele não evitou dar uma olhada para os amigos e Ysadora, e, fosse pelo efeito da lua, ou fosse porque de fato estavam com medo, mas estavam demasiado pálidos.

— Acho que é isso... — disse ele, e atravessou o muro de sombras que se erguiam no limiar.

Foi figado por uma sensação estranha que fez seu estômago revirar. Os cabelos de seu braço se arrepiaram na mescla de frio e nervosismo que pareciam estorvar suas pernas como se estivessem dentro d'água e ele tentasse correr.

Ele virou de costas, e disse não muito alto:

— Vocês não vão vir, não?

— Temos medo do que tem aí. — respondeu Gabriel em um tom cômico de obviedade.

Lucas revirou os olhos.

— Provavelmente não deve ter criaturas por aqui... Por mais que Gabi e Borela sejam estorvos ao mundo da magia, Dumbledore não ia arriscar a vida deles. Esta zona deve ser segura.

— Mas é justamente do Gabi e do Borela que tenho medo. — explicou Gabriel.

— Chegamos até aqui. — argumentou Lucas. — Se quiserem, eu vou sozinho...

— Não. — disse Pedro. — Espera. Se voltarmos agora, poderemos ser pegos pelo Filch. — disse Pedro.

E o gordo não perdeu tempo em adentrar na floresta, bamboleando enquanto esguelhava seu arredor com os olhos emoldurados pelos óculos. Seguido por Gabriel e Ysa, que tiravam pequenos farelos de plantas secas de suas vestes.

— Que escuridão, hein. — disse Gabriel, tirando a varinha do bolso, que reluziu em um feixe de luz. — Lumus.

E a ponta de sua varinha se acendeu em uma luz branca que rasgou escuridão circundante.

— Quando aprendeu a usar esse feitiço? — Lucas quis saber, espantado.

— Noite retrasada. — respondeu Gabriel, pavoneando-se. — Sempre gostei desse feitiço, embora simples.

— Faz sentido. — disse Lucas, passando a mão pelo cabelo. — Vamos.

E os quatro caminharam a passos suaves pelo chão ressequido e estalante da floresta negra. O piar das corujas roubavam suas atenções de vez em quando, e Ysa uma vez ou outra se agarrava no braço de Pedro, que a afastava com um movimento rápido acompanhado de um "CRUZES!", estridente e desesperado que antecedia movimentos fugazes de quem limpa sujeira na própria roupa.

Em determinado momento, Pedro perguntou:

— E quanto ao Filch, afinal?

— A Shelsy deve estar distraindo ele. — considerou Ysa.

— Só se com "distrair", você se refere a outra coisa... — pôs Gabriel, sugestivamente.

— Eu mandei ela não fugir demais. — contou Lucas.

"Disse para que assim que chegasse 22:15, ela se deixasse ser capturada. Se ela corresse demais, o Filch poderia muito bem acionar algum outro professor, e arruinar o plano todo".

— Você nem precisava mandar. — disse Gabriel. — Ela não é talentosa o bastante para fugir do Filch por tanto tempo.

— Mas é só Filch. — argumentou Ysa.

— Exato! A Shelsy é provavelmente a pior aluna que eu conheço, fora o Gabi. Só caiu na Sonserina, pelo amor que tem pela cobra...

Mas antes que Ysa pudesse entender o que Gabriel quisera dizer, os três pararam de chofre, fazendo a amiga distraída tropeçar.

— Mas o que...

Mas ela logo assumiu para si a expressão dos amigos: Os olhos arregalados e os corpos tremendo enquanto o pânico se proliferava no interior.

— Esse... Esse cheiro... — gaguejou Gabriel.

— Sim. — concordou Lucas, sentindo uma mescla de horror com satisfação. — É o Gabi. Estamos perto.

— De repente, uma detenção não me parece tão ruim. — disse Pedro. — Talvez dê pra gente voltar...

Lucas então meteu o dedo na cara de Pedro e disse com uma voz aguda e nervosa:

— Prefere mesmo aguentar o Filch do que passar alguns minutos com o Gabi?

Pedro deu um tapa ligeiro na mão de Lucas, para tirá-la de seu rosto.

— Primeiro de tudo: não coloque esse dedo que você usou para propósitos luxuriantes com o João, na minha cara! Segundo: não são só uns minutos com o Gabi... É UNS MINUTOS COM O GABI E O BORELA... JUNTOS!

Lucas abriu a boca para argumentar, mas Pedro segurou os ombros ossudos do garoto com o pavor faiscando nos olhinhos muito mais do que a luz da varinha de Gabriel.

— JUNTOS! — repetiu ele pelo menos dez vezes.

— Pedro! — Gabriel tentava desvencilhar as mãos batatudas de Pedro de Lucas. — Sabemos que isso é pior que a Maldição Cruciatus, mas temos que fazer isso.

Quando Pedro finalmente largou Lucas, ele questionou:

— E por quê? Estamos nessa só porque esse vândalo — e apontou para Lucas. — resolveu dar um fim na cagança do Gabi, oferecendo uma poção, diga-se de passagem, muito suspeita oferecida por um cara encapuzado. Como isso poderia dar boa coisa?

— Você estava lá, também! — reconheceu Lucas. — Por que não disse nada naquela hora?

— Porque só o pensamento de me ver livre do cocô daquele entojado tomou conta de mim.

— Todos sentimos isso! — pôs Lucas. — E eu entendo seu terror de encontrarmos com os dois ao mesmo tempo, mas tudo vai se acabar em breve.

— É, poderia ser bem pior. — Ysa ousou falar..

Pedro riu pelo nariz, mais se assemelhando a um ronco de porco.

— É? Como?

Gabriel então respondeu displicente:

— Você poderia ir encontrar os dois ao mesmo tempo, e ainda por cima ser a Ysadora.

A giganta então bufou, e puxou a torre de Sauron que era sua varinha, de suas vestes, apontando-a para o amigo nanico.

— Eu estou cansada de ser rebaixada por você, Gabriel!

Gabriel franziu a testa, e afastou o varão de Ysadora com a sua própria, criando uma linha azulada no ar.

— Você não conseguiria ser rebaixada nem por Merlin, Dumbledore, Você-sabe-quem e profa. Minerva juntos, Ysão! — bradou ele, em tom desafiador. — Além do mais, se você tivesse matado o Gabi naquela enfermaria, não precisaríamos estar aqui.

Ysa abriu a boca, atônita. Assim que voltou a fechá-la, seus lábios se crisparam em um beiço de ofensa, e tornou a apontar o varão para o Hobbit.

— Se eu o matasse, eu iria para Azkaban, Gabriel!

— SERIA O MELHOR DOIS EM UM DE TODOS OS TEMPOS! — a voz de Gabriel chegou a quebrar de tão aguda.

— Pessoal. — disse a voz cheia de Pedro.

— Agora não, Cachalote. — censurou Gabriel, sem nem olhar para o gordo. — Está mais do que na hora de dizer umas coisas para a Ysadora.

Mas Gabriel não teve essa chance, pois um exasperado e tão rosado que sua pele luziu na fraca luz que esfaqueava a névoa que pairava no alto, Pedro, levantou-o no colo e colocou-o de frente para a cena.

Havia, bem diante do quarteto, recortado contra o caminho de terra que serpeava floresta a dentro, três imensos ursos com presas do tamanho de um dedo indicador de Ysadora, e olhos tão vermelhos que mais pareciam uma piscina lotada com o sangue de todos cadáveres que já fizeram ao longo de suas vidas.

— Acho que virei um Gabi... — gemeu Ysadora, enquanto o fedor se espalhava pelo ar.

— Ah, vai à merda, Ysadora! — reclamou Pedro, apertando o nariz e abanando o ar.

— Ao contrario. — disse um paralisado e pálido Lucas, que não ousava nem tremer de medo. — A merda é que veio à ela.

Os ursos rosnavam à medida que se aproximavam, o som dos galhos estalando sob suas pesadas patas passava a sensação de serem ossos triturados.

— O que é essa merda aí, meu? — sibilou Gabriel, recuando alguns passos com o calcanhar.

— São... bem...

Lucas chegou a ouvir o som do cérebro de Pedro trabalhando, mas o gordo não respondeu nada, a frase foi pontuada por um ligeiro aceno negativo da cabeça.

— Sabemos algum feitiço? — perguntou Lucas engolindo em seco, e parecia que mesmo sua garganta estava congelada, o som de seu coração acelerado ecoava por seus ossos.

— Só daquela demonstração da profa. Inês. — respondeu Gabriel, o desânimo piscando na voz.

Foi aí que uma ideia acendeu no cérebro de Lucas.

— Pedro — disse ele, deixando a voz contida de lado. -, acerta eles com um feitiço de estuporar.

Não só Pedro, como Gabriel e Ysa o fulminaram com olhares pasmos.

— Não sei se te contaram — começou Pedro, tentando manter a pose elegante -, mas eu fiz o Flitwick parar na ala hospitalar tentando levitar uma pena.......

Lucas se aproximou do amigo, e olhou fundo em seus olhos, os rostos a um óculos de se tocarem.

— Faça!

Pedro soltou uma careta como a de quem não consegue chegar no banheiro a tempo, e virou-se para os três monstros que avançavam lenta e cautelosamente.

Ele tirou a varinha do casaco e apontou para eles.

— Estupefaça!

Mas um arroto teria tido mais efeito.

O gordo olhou pidão para o amigo arrogante, que continuava impassível em relação a situação.

— Estupefaça!

E novamente, nada aconteceu.

— ESTUPEFAÇA!!!

Pela terceira vez, nada. Mas Pedro agora estava púrpura, os nós dos dedos amarelados, indicando que apertava a varinha com força.

— AI, EU NÃO CONSIGO!!!! — Berrou ele, se assemelhando a um ganso que pare um rinoceronte.

E no mesmo instante, cerca de sete jatos de luz vermelhos dispararam de sua varinha, ricocheteando pelas árvores, alijando a floresta da escuridão, e nocauteando as três feras, que caíram duras no chão.

Lucas soltou um longo suspiro de alívio, e deu palmadinhas no ombro maciço do amigo.

— Nem acredito que deu certo. — disse ele, espantado.

— Mas foi sujeira. — comentou Pedro, as bochechas púrpuras e os óculos beirando o embaçado.

— Sujeira foi o que esse tronquilho banhando em Biotônico Fontoura, fez nas calças. — disse Gabriel, desabando nos próprios sapatos enquanto apontava a varinha luminosa para Ysa.