O último dia das férias de verão foi coroado com uma temperatura que excedia os quarenta graus. O garoto magrelo de cabelos pomposos e expressão arrogante, perscrutava os portões de ferro que guarneciam a entrada de sua casa enquanto o suor lhe escorria pelo rosto, sentado modorrento em cima de sua Nimbus que flutuava a pouco mais de um metro do chão.

Lucas Stumpf completara seu primeiro ano na escola de Magia e Bruxaria de Hogwarts, e mesmo que o decorrer do ano passado pudesse fazer a maior parte das pessoas relutar em voltar a escola, Lucas já havia convivido tempo o bastante com seu primo, Gabriel Stumpf, para se acostumar — na medida em que é possível se acostumar com um primo que se caga — com a ideia de ter o cheiro ao seu redor em um tempo constante.

Mas não era só Gabi que estorvava a perspectiva de um bom ano em Hogwarts. O garoto peludo e dentuço que namorava Gabi e escrevia "Meu nome é Ishiro (Ishiro)", João Borela, também estudava lá, e parecia fazer questão de endurecer os dias de Lucas e seus amigos Gabriel, Pedro e Ysão, muito mais do que o fleumático professor de poções, Severo Snape, ou a rígida professora de transfigurações, Minerva McGonagall.

Embora as férias de verão não tenham sido exatamente divertidas, o fato de Gabi ter ido passa-las com Borela — e isso significava não vê-lo durante o tempo todo -, tornaram os dias mais aprazíveis. Mas agora as férias estavam no fim, e Lucas teria de se preparar mentalmente para pôr os olhos no casal mais fedido do mundo da magia, logo logo.

Ele fez a Nimbus dar uma pirueta, e serpear no ar abafado entre algumas árvores que ladeavam o caminho entre o portão e a casa. A grama fazendo cócegas em seus pés descalços enquanto o garoto flutuava sobre ela.

Ele pousou assim que completou a volta, guardou a vassoura junto às outras, e subiu as escadas para seu quarto bagunçado. O malão gordo aberto em cima da cama, vários papéis espalhados pela escrivaninha, e uma gaiola com sua coruja, no momento adormecida, encimando a mesa de carvalho decorada com faixas verde e prata, cores da Sonserina, sua casa de Hogwarts.

— Será que o Pedro fez os deveres? — perguntou ela a sua coruja enquanto passava os olhos nos muitos exercícios não respondidos de Estudo dos Trouxas.

Ele juntou tudo em uma pilha desorganizada, e socou-a dentro do malão junto as roupas e os livros que comprara semana passada no Beco Diagonal. Apanhou sua longa varinha de cerejeira, e fez um gesto com ela no ar. Imediatamente, ouviu atrás de si, o tintilar de talhares e pratos, seguido do bater da porta. Os havia mandado para a cozinha.

— Acho que está tudo pronto.

E com o malão em mãos e a gaiola pairando sobre seu ombro direito, deixou a casa silenciosa.

Pegou um taxi bruxo que o conduziu até a estação de King's Cross, onde teve de colocar a gaiola sobre o malão para não chamar a atenção dos trouxas.

A estação estava muito movimentada e barulhenta. O som do vapor dos trens preenchia o ar tal como os passos apressados que ecoavam nas paredes velhas. O garoto segurou a vontade de amaldiçoar os trouxas que estorvavam o caminho enquanto seguia para a plataforma nove e meia.

Pelo menos ali dentro não estava abafado, embora o suor no rosto de quase todos que vira, pudesse indicar o contrário, mesmo sendo oriundo do corre-corre, e não do clima.

A plataforma surgiu entre as cabeças de duas senhoras de rostos calcados pelas rugas, ladeada por duas fileiras de vagões encardidos pelos quais as fumaças das respectivas locomotivas espiralavam e se dispersavam depois dos tetos altos de pedra onde pendiam os números 9 e 10.

Tendo certeza de que nenhum trouxa estaria olhando, o garoto tomou impulso e correu na direção da parede amarelada. No segundo seguinte, viu-se do outro lado, como se a parede fosse apenas uma miragem criada pelo calor que comprimia as ruas de Londres naquele momento.

Não sentiu cheiro de bosta, e isso era bom, pois indicava que Gabi não estava por ali. Caminhou vagarosamente entre a multidão de bruxos vestidos de negro, segurando vassouras e caldeirões, rindo e conversando sobre assuntos muito mais interessantes do que a queda da bolsa de valores, como Lucas teve o desprazer de ouvir enquanto descia as escadas para as plataformas trouxas.

Destacados na aglomeração, o mau-caráter viu os três amigos. Gabriel, um menino raquítico e baixinho com pés grandes, que se assemelhava a um Hobbit, e tinha sobre o rosto uma máscara constante de tédio; Pedro, um rapaz robusto e rechonchudo, com o rosto salpicado de sardas e um óculos que fazia seus olhos parecerem muito maiores do que eram, e nunca pegava ninguém; por fim, Ysadora, uma giganta com cabelos curtos até os ombros e bochechas que mais pareciam maçãs.

— Está atrasado. — Pedro não demorou a falar quando Lucas se juntou a ele, fazendo a menção de um cumprimento.

— Sua mãe estava bloqueando o caminho, aquele Snorlax. — disse Lucas, dando um aceno para Gabriel e uma cutucada na perna de Ysa, para que ela pudesse abaixar a cabeça e ver que ele estava ali.

— Nem sinal do Gabi ou do Borela. — comentou Gabriel, dando uma boa olhada dentro dos vagões.

— Graças a Merlin. — disse Lucas, sentindo-se aliviado. — Vamos entrar ou esperar os dois para se juntarem a gente?

— Prefiro ter mais aulas com a Inês. — respondeu Gabriel.

Pedro no mesmo instante pareceu ruborizar, mas Lucas não teve certeza, pois o gordo afastou o rosto e escondeu-o na sombra das vestes.

Eles entraram no trem apertado, procurando uma cabine vazia. Em determinado momento, ouviu-se a voz estridente de Pedro.

— AI, POR QUE NÃO FAZEM ESSAS MERDAS MAIS LARGAS, TIPO A BUCETA DA YSADORA?

O gordo havia entalado. Tentava desesperadamente, com o rosto escarlate e os óculos resvalando pelo nariz empapado de suor, empurrar as banhas para frente, de modo a se desvencilhar das paredes de metal.

— Pois saiba que ainda sou virgem, gordo. — esclareceu Ysadora, deixando o deboche sublinhado a cada palavra.

— AH, VAI À MERDA, GIGANTA! — bradou o leitão, finalmente conseguindo colocar-se no caminho.

Encontraram uma cabine desocupada, que tomaram para si rapidamente. Pedro ainda estava vermelho, e Ysa parecia muito satisfeita com a situação. Lucas, como sempre, tomara o lugar à janela. Queria perguntar a Pedro sobre os deveres, mas considerando o humor atual do gordo, resolveu deixar para depois.

— E então — começou Ysão, enquanto o trem passavam por campos verdejantes circundados por árvores enormes e cobertos pelo céu mais azul que Lucas já vira. — como foram as férias de vocês?

— Por que quer saber? — Pedro se apressou em dizer, com acidez.

— Só para saber. — respondeu ela, dura, virando a cara.

— Queria ter ficado mais tempo com a Lexy. — disse Gabriel, sonhador.

Ysadora soltou um sorriso.

— Ficou um mês com a gente!

— E ainda bem que não foi muito tempo contigo. — colocou Gabriel. — Como será que ela está? — e olhou além do vidro da cabine, para o corredor vazio.

— Calma. — disse Pedro. — Logo vai encontrar ela, na cerimônia de seleção.

— Tomara que ela caia na Corvinal. — falou Gabriel, voltando sua atenção para dentro da cabine novamente.

— Claro que vai. — garantiu Pedro, com a menção de um sorriso. — Se eaté isso — e apontou Ysadora com hesitação, como se a menina fosse um inseto perigoso. — foi.

Ysa apenas mostrou o dedo do meio para o gordo e continuou a desembrulhar uma tortinha de abóbora.

Lucas não parava de pensar em Gabi. Não sentira o cheiro em momento algum desde que chegara na estação. Será que não iria? Pode ser que Sônia tenha resolvido mantê-lo em casa depois dos acontecimentos no ano anterior, mas perguntava-se se prof. Dumbledore permitira algo assim, não apenas por prezar muito a educação dos alunos, mas porque tinha certeza de que ver Gabi e Borela se pegando, era uma das maiores rendas de masturbação do diretor.

O silêncio preenchido pelo som do trem foi desfeito com batidas leves no vidro da cabine. Os quatro olharam para ela com um susto, e Lucas se sentiu muito aliviado ao notar que não era Gabi nem Borela, como pensara durante uma fração de segundo, mas sim, a tia dos doces.

Pedro não fez cerimônia em comprar várias guloseimas que fizeram seus dedos ficarem grudentos e açucarados. Os demais apenas compraram tortinhas de abóbora e feijõezinhos de todos os sabores.

— Ah, não, vão à merda! — exclamou Gabriel, jogando a caixa dos feijõezinhos pela janela.

— O que foi, meu Deus?! — perguntou Pedro, irritado por ter levado um susto.

Gabriel então esfregou a tabela dos sabores dos feijõezinhos, na cara do leitão.

— FIZERAM O SABOR COCÔ DO GABI! — respondeu o Hobbit, histérico.

No mesmo instante, todos imitaram Gabriel e jogaram as caixas fora. Lucas com o olhar perplexo mirando o ponto em que os doces desapareceram.

— Acho que o incidente ficou bem famoso. — comentou ele, timidamente.

— Tomara que esse doente não volte para a escola. — desabafou Pedro. — E se voltar — e virou-se encolerizado para Lucas, que sentiu um impulso em grudar as costas no estofado -, você não invente de tentar cura-lo.

Lucas então empertigou-se, orgulhoso.

— Você não pode me culpar. — disse ele. — Foi um ato desesperado.

— Homicídio em legítima defesa também. — observou Gabriel.

Lucas soltou um longo suspiro e virou-se para a paisagem de fora.

— Tenho a sensação de que esse ano terá algo de diferente. — disse ele.

— O ano passado teve. — riu Ysadora, abocanhando uma tortinha.

— Eu preferia que não envolvesse cocô nem o Borela. — disse Gabriel.

— Todos preferiríamos. — pôs Pedro.

O trem parou na estação de Hogsmeade assim que o céu estrelado apareceu. Os alunos começaram a descer e se espalhar pelo pátio de pedra enquanto o estúpido e ridículo meio-gigante, Hagrid, se aproximava.

— Alunos novos, venham comigo! — disse ele, com um sorriso fofo.

— Cuidado que ele diz "maneiro"! — berrou Lucas para os calouros, que o miraram sem entender.

Foi possível ver uma lágrima escorrendo pelo rosto bonachudo de Hagrid enquanto ele conduzia os alunos.

Os veteranos tiveram de embarcar em carruagens negras e espaçosas que andavam sozinhas para serem levados até os terrenos do castelo. Seguiam por uma estradinha de terra que serpeava pelo gramado do vilarejo, subindo o morro encimado pelo imponente castelo de sete andares que era a escola de Hogwarts.

Passaram por um alto portão de pedra ladeado por colunas encimadas por javalis alados, que se fechou sozinho assim que a última carruagem passou. Lucas olhou em volta, esperando ver os cabelos oleosos do primo aparecendo por entre as cabeças dos colegas.

Foi quando o quarteto desceu para o chão embarrado, que Lucas ouviu uma aluna do segundo ano, dizendo com emoção:

— Vejam aquilo no céu!

E todos obedeceram. Era uma imensa revoada de hipogrifos que traziam uma colossal esfera de porcelana que fulgia ao luar, coberta por correntes que, Lucas notou, serem feitas por encantamentos, e não de ferro. Cerca de dez bruxos em vassouras voavam atrás, como uma escolta. A revoada desapareceu atrás de uma das torres altas recortadas no escuro céu de setembro.

— O que era aquilo? — perguntou um dos alunos ao zelador Filch, que esperava os alunos em um canto sombreado.

— Ao que parece — começou o zelador, a boca feia se movendo como um grande rato que devora um inseto. — aquela esfera transportava o aluno Gabriel Stumpf para a escola.

E ao mencionar do nome de Gabi, todos os alunos estremeceram, e soltaram muxoxos de desaprovação.

— Como deixaram esse embuste voltar a Hogwarts?!

— Mas eu vou comunicar meu pai agora mesmo!

— Meu cu está dando à luz a abelhas!

Lucas tentou esconder o rosto com o manto da Sonserina o mais rápido que pode, enquanto os amigos riam dele.