Entre dois mundos
1 O brilho dourado
Começo, meio e fim. Este nunca foi o meu forte, por isso tive certa dificuldade em contar-lhes esta história, mas cá estou eu. Não se preocupem com quem sou eu agora, isto vocês só deverão saber mais para frente. Voltemos a história.
Esta história é sobre Anna. Você deve estar pensando que para ter sua história contada, Anna é uma garota especial. Bem, definitivamente ela é uma garota especial, mas não do jeito que você provavelmente está pensando. Anna não tem poderes, não tem regalias, não conhece um grande segredo, não guarda tesouros, Anna é uma garota normal, ou pelo menos achava que era. Lia livros, ouvia música e gostava de sair, principalmente para a biblioteca de sua escola, aliás, foi em um desses passeios que tudo começou.Era apenas mais um dia fresco de outono, o tipo de dia favorito de Anna, quando ela resolveu ir a biblioteca novamente. Ela realmente passava muito tempo lá. Saiu de casa, passou pela portaria da escola, disse Bom Dia a senhora Alves, e então tudo parecia bem. Era assim que ela se sentia quando se aproximava da biblioteca, uma sensação de que tudo estava bem, como uma rotina necessária, como um vício. Um, dois, três, quatro, cinco passos e enfim, lá estava ela. De frente pra um mundo de coisas que ela precisava ver, que ela desejava saber.Esticou a mão, abriu a porta, respirou fundo. "Como é bom estar de volta" pensou. Embora tudo parecesse como sempre, Anna sentiu algo diferente. Uma vibração, uma energia estranha, porém, simpática. Olhou em volta, e, por um segundo, podia jurar ter visto um brilhante feixe de luz dourado, que desapareceu em segundos. Como ninguém conseguiria resistir, Anna foi andando em direção ao que ela pensou ser uma lâmpada ou algo do tipo. Não era nada disso. Era apenas um livro. Ela o observou calmamente, absorvento seus detalhes e a energia magnífica que vinha dele.Uma súbita vontade de toca-lo e te-lo somente para si se apoderou de Anna. Era quase impossível resistir. Então ela o fez, tocou nele. Respirou fundo, se sentia nas nuvens. O que será que tinha aquele livro de tão maravilhoso? Pensou Anna. Tocou cada estranho desenho gravado em dourado na sua capa de couro, e o abriu. Anna não encontrou dentro dele o que esperava encontrar. Não haviam palavras que consolassem, que animassem, que ajudassem, não havia palavra nenhuma. Ela folheou o livro devagar, procurando por alguma coisa, um risquinho se quer naquelas folhas envelhecidas e, depois de folhear quase todo o livro, achou alguma coisa. Era um pequeno desenho estranho, assim como aqueles que haviam na capa. Anna ficou parada, olhando atenta para o pequeno desenho, e, aos poucos, ele lhe parecia tão familiar. Era como se internamente ela o conhecesse. Então ela abriu a boca, ia pronunciar alguma coisa que nem ela mesma saberia o significado.A porta abriu, Anna virou assustada e viu seu coordenador, o Senhor Fugini. Ficou parada olhando para ele._ O que ainda faz aqui Anna? — perguntou ele, calmamente._ Desculpe, senhor. Eu só me distrai e perdi a noção do tempo. Acho que quero levar este livro... — Anna se quer conseguiu terminar a frase. O livro tinha sumido, não estava mais na mesa._ Que livro, Anna? — Disse o senhor Fugini, que já estava ficando impaciente._ Nada não, senhor. Devo ter me confundido. — Respondeu Anna com a cabeça baixa._ Vamos logo, já vamos fechar as portas. — Disse o Senhor Fugini, se retirando da biblioteca.Anna virou para trás mais uma vez, passou a mão pela mesa, olhou no chão, nada do livro. Saiu em silêncio. A rua estava cheia de pessoas. Pessoas de mau humor, voltando do trabalho, cansadas. Anna sentia pena delas. Foi andando de cabeça baixa, ainda triste pelo livro. "Que diabos aconteceu com aquele livro?" Dizia para si mesma quando ouviu alguém gritar seu nome. Se virou para trás e viu quem menos queria ver naquele momento. John Schadeck. John era especificadamente a pessoa que fazia da vida de Anna um inferno. Ela o olhou com raiva e então perguntou:_ O que você quer?_ Estava na biblioteca de novo, Anna? — disse ele em meio a risadas — Foi fazer o que? Chorar um pouquinho? Dar um passeio com o seu amiguinho Potter? Ou será que preferiu entrar em um guarda-roupa?_ Procure outra pessoa pra encher, John — Anna já estava cheia daquilo, de rirem dela, de zombarem ela. Qual era o problema dela, afinal?_ Depois, Anna, depois — John colocou a mão na boca e soltou um assovio ensurdecedor.Anna riu, é claro. O que aquele idiota pensava que estava fazendo soltando um assovio? Foi então que ela sentiu alguma coisa bater na sua cabeça. Virou de costas e teve uma surpresa nada agradável . Os amigos de John. Sim, não podeira ser mais estúpido. Eles abriram as mochilas e de dentro tiraram ovos. Mas que droga, pensou Anna, agora não posso correr.Ela perdeu a conta de quantos ovos recebeu na cabeça, na barriga, nas pernas, no corpo todo. Estava suja, fedendo, toda melecada de ovos. Saiu correndo. Não foi uma coisa muito corajosa mas não havia mais nada a se fazer. As pessoas olhavam, algumas riam, outras gritavam com os garotos. Anna corria e a atras dela vinham os garotos, ainda lhe jogando ovos. Ela correu o mais rápido que pode até chegar em casa, entrou pela cozinha e ficou segurando a porta. Os garotos ainda tacaram os ovos que restaram em sua porta, que ficou completamente imunda.
Ofegando, Anna passou pelo corredor, subiu as escadas e foi para o banheiro. Abriu o chuveiro e entrou em baixo, de roupa e tudo. Deixou que a água batesse um sua pele e lhe acalmasse os nervos. Tentou o máximo que pode tirar toda aquela sujeira e o cheiro forte.Saiu do banho limpa, de roupa trocada, enfim sossegada de corpo, mas não de mente. Um ódio imenso pairava em cima de sua cabeça. O livro havia sumido, tinha sido bombardeada por aqueles idiotas. Naquele momento seria capaz de ir até eles e soca-los até que perdessem a consciência. Estava indo em direção ao quarto quando sua mãe a viu._ Foi a biblioteca de novo ? — Perguntou a mãe, apoiando o braço na parede.Anna virou e olhou para a mãe._ Sim mãe, fui._ E aquela porta, pode me explicar o que aconteceu?_ John e seus amigos me atacaram, de novo. Vim correndo pra casa e eles bombardearam a porta com ovos também. — Respondeu Anna, de cabeça baixa._ Vá limpar. Agora — disse a mãe, em tom sério.Anna estava indignada. Foi bombardeada de ovos por um bando de garotos sem nenhum motivo e ainda tinha que limpar?_ Mas mãe, eu não fiz aquilo, foram eles. Me tacaram ovos, fiquei até machucada olhe -disse Anna mostrando pra mãe uma marca roxa no braço — Não fiz nada para eles, não tive culpa!_ Você teve sua parte na sujeira, agora vá limpar, não quero nem saber. Vamos, agora! — Disse a mãe.Anna desceu as escadas de má vontade, com mais ódio do que nunca. Seria possível que o dia ficasse pior? Pegou um balde, encheu de água, colocou sabão, pegou um pano e foi limpar a porta.É incrível como a sujeira feita por ovos é tão difícil de limpar. Anna esfregou, colocou força, pôs mais sabão e ainda assim demorou horas para limpar a porta, que ficou brilhando. Subiu as escadas e entrou no quarto, fechou a porta e se jogou na cama. "Espero que mais nada aconteça hoje, já basta" Disse para si mesma, ainda com muito ódio.Anna mal sabia o que a esperava. Quando virou-se na cama e observou sua estante, percebeu que havia um novo livro lá. Se levantou imediatamente e foi em direção a ele. Quando o tocou e o puxou para fora da estante percebeu que era ele, o livro da biblioteca, o incrível livro. "Mas, como?" Pensou Anna. "Estava lá, agora está aqui. Isso é muito estranho".Ela não sabia o que pensar. Abriu o livro, folheou as páginas e encontrou o desenho novamente. Era magnético, Anna não conseguia tirar os olhos dele. Foi andando em direção a cama, sentou-se e ficou observando. Não se tem ideia de quando tempo passou até que Anna fez um movimento. Ela abriu a boca, e, como na biblioteca, era como se ela compreendesse o que o desenho queria dizer. Ficou lá, de boca aberta, querendo dizer alguma coisa. Foi então que ela disse. Bem, foi mais pra um grunhido, misturado com Latim, com alguma língua desconhecida. Nem Anna entendeu o que ela mesma tinha acabado de pronunciar. Depois daquilo ela ficou assutada. Claro, quem não ficaria? Assustada e decepcionada. Nada aconteceu, não era isso que ela esperava de um livro como aquele.Como que saindo de uma hipnose, Anna piscou pro nada e jogou o livro em cima da cama, ouviu um barulho leve e ao mesmo tempo pesado. Virou devagar em direção ao livro e percebeu que havia alguma coisa ao lado dele. Uma pequena pedra. Lilás, triangular, com gravações. Anna pegou a pedra e passou um bom tempo a observa-la. Já estava ficando com mais raiva do que deveria. Mal sabia ela. Olhou para a pedra, tocou-a, sentiu as gravações, e nada. Nada mesmo._ Pedra idiota — disse colocando a pedra de lado na cama e se deitando, ainda a observando sem parar. O sol se pôs pela janela, o cheiro de comida entrava como se dançasse pelo ar e lá estava Anna, paralisada, observando a pedra, se corroendo de raiva. Sentou-se na cama, pegou a pedra na mão, olhou-a com raiva e percorreu com os olhos as gravações. Parou em uma. Compreendeu-a._ Grande coisa -disse com raiva- O que vai acontecer? Vai me trazer mais uma pedra? Mais uma coisa inútil? -Não desgrudava os olhos da gravação. Se concentrou, abriu a boca, pronunciou. Novamente uma coisa que não se pode dizer o que era. Mas dessa vez, não veio outra pedra. A escuridão engoliu o mundo, apenas Anna seria capaz de dizer exatamente o que aconteceu.
Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.
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