Entre deuses e homens
2 Na era de deuses e homens
Capítulo 1: Na era de deuses e homens
“Céu”,” Nova terra”,”Lugar final”...
Muitos são os nomes que vocês dão ao próprio destino.
Por mais impossível que possa parecer, tenho que reconhecer que é grandemente gratificante crer na existência de um paraíso físico onde todos os “escolhidos e separados” por deus passarão o resto de sua eternidade.
Realmente faz mais sentido viver por algo tão grandioso como este “céu” do que ter que encarar a curta e obsoleta existência que vocês são obrigados a seguir.
Mas não me levem a mal, não os estou criticando... Pelo contrário, pensar neste céu, me traz lembranças.
Em minhas vagas memórias, de fato já existiu um lugar assim.
Não era um jardim mágico cheio de perfeição iluminado pela glória de um grande governante assim como o de vocês. Mas era um paraíso, ao menos pra mim
Lembro-me do cheiro adocicado que a madeira exalava quando banhada pelas águas daquele rio. Por mais doce e cansativo que fosse, era simplesmente impossível se afastar.
O cântico dos folls, pequenos espíritos alados que habitavam aquele lugar, fazia minha mente alucinar. Era como estar e não estar, ser tudo e nada, possuir o mundo todo na palma da própria mão.
E era assim que eu passava meus dias.
Eu não me lembro de ter tido pais, acho que nenhuma de nós ali lembrava. Nossos tutores e mestres nos ensinavam que a separação era a chave da purificação.
Me lembro até hoje do dia em que acordei naquele lugar.
Em meio a tão perfeita expressão de magia e encantamento, as mais tristes palavras foram ditas a mim:
– Bem vinda Clair, de hoje em diante, este será seu lar... Não se preocupe com nada, nós faremos absolutamente tudo, contanto que faça o que nasceu para fazer...
Quando ouvi tais palavras, não sei exatamente o que senti. Foi uma mistura de dor e felicidade...Não sei ao certo explicar mas, era como se por mais livre que estivesse, mais presa eu me sentia.
Mas eu não dei a mínima atenção, afinal eu estava ali, naquele pequeno pedaço de terra que com o passar do tempo passou a ser meu paraíso.
Mas somente quando alcancei idade o suficiente para entender o que se passava a minha volta, percebi mais que tudo que aquele pequeno espaço de céu, era mais que um simples paraíso... Daquele dia em diante, meu paraíso havia se tornado meu refúgio.
Foi no dia em que descobri meu destino eterno, que comecei a morrer.
Eu, terceira escolhida da casa de Archer, tinha que para o resto de minha vida, servir aos espíritos como sacerdotisa.
Para muitas, era mais do que uma simples obrigação... Era o sonho e a oportunidade perfeita de mudança.
Todas as jovens nascidas da linhagem dos xamãs,rezavam e fervorosamente pediam para serem escolhidas para tal oferenda.
Servir aos espíritos, era a chance mais óbvia de redenção. Era o jeito e caminho mais fácil para obter a imortalidade.
Essa sempre havia sido a principal motivação de todos os nascidos e criados em nosso mundo.
Mas com o passar do tempo, essas palavras perderam sentido.
Depois que a guerra começou, ninguém mais desejava servir a ninguém.O coração do homem se corrompeu, a ponto de não mais aceitar ser dominado.
Dessas ideologias, nasceram os Feiticeiros; A classe mais poderosa já existente desde a criação do universo.
Entre suas principais vertentes, estava o assassinato de todos os espíritos condutores.
Pode parecer complexo mais vou explicar-vos melhor:
Quando o mundo foi criado, o homem era humano, mortal como cada um de vocês. Ele vivia e convivia com a natureza a sua volta e desfrutava de sua energia essencial, levando uma vida relativamente perfeita.
Toda essa ordem era governada por um único grupo de espíritos ancestrais os quais nunca mortal algum havia conhecido. O mundo espiritual era separado do mundo humano de tal forma que nunca se conectasse em momento algum.
Esses espíritos revelavam seu poder e existência sobre a forma de magia.
Dentre toda a história, nobres famílias entregavam suas filhas para serem representantes destes espíritos.
Tudo corria bem, tudo era perfeito. Magia não era um poder milagroso nem nada do tipo, era basicamente a energia que fluía na natureza e dentro de cada um de nós. Quando ambos se juntavam, formavam magia. Em outras palavras, pureza e vontade era magia.
Por muitos séculos, o homem viveu as margens dessa perfeição, até que um dia, tudo mudou.
Ayashi, uma das sacerdotisas separadas e escolhidas para servir no templo, foi recusada pelo seu espírito ancestral.
Carpien, o espírito rei das águas, havia visto maldade em seu coração, e por tal feito, não aceitou Ayashi como sua representante.
Transtornada, Ayashi foi expulsa do templo e dedicou o resto dos seus dias para estudar a energia vital dos espíritos, com objetivo de descobrir suas fraquezas, e vingar ao mundo sua reclusão.
Mais de trinta anos se passaram, e Ayashi nada havia descoberto, até que em uma bela manhã, foi até meu paraíso e frente a sua morte, preparou-se para o arrependimento.
Quando estava pronta para morrer, ouviu uma vaga e distante voz a chamá-la. Acordou assustada, sem saber de onde havia vindo tal voz.
Ao olhar para o rio, selou não apenas seu próprio destino, como também o de todos nós.
Sobre a figura de um peixe nadador, Carpien havia se manifestado.
Para a maioria dos magos e sacerdotes, a manifestação física de um espírito é um ato totalmente impossível e inacreditável.
Mas ali estava ele... Fraco, indefeso, sem ter para onde ir.
Tomada pelo ódio e pela loucura, Ayashi fez o impensável, se atirando nas águas e matando o espírito com suas próprias mãos.
Naquele dia, Ayashi, tomada por um poder que nunca antes havia experimentado, mudou, e junto com sua alma, o mundo mudou com ela.
A descoberta da manifestação física dos espíritos ancestrais, abriu caminhos para sentimentos nunca antes experimentados pelos mortais.
Pela primeira vez, a idéia de supremacia percorreu o coração humano, e a breve idéia de surgimento de uma criatura não mais presa as correntes de seu destino anteriormente delimitados pelos espíritos passou a fluir.
E deste sentimento, nasceram os feiticeiros.
Antigos mortais agora recobertos pelo sangue e poder ancestral, destinados unicamente a batalhar por mais poder e glória, dando origem a um tipo de poder corrompido nunca antes visto ou imaginado:
A magia negra
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