Sol ás 6 horas, iluminando todo o painel do cockpit, apenas com as sombras da armação que suportava o vidro dianteiro. Lembro-me das minhas mãos suadas, escorregando dentro das luvas de couro, segurava o manete firmemente, coração a mil. Medo? com certeza, mas não era isso que preenchia a maior parte dos meus pensamentos e sensações. Olhava para o lado e observava 3 companheiros e um vasto azul claro penetrante. Erguia-me um pouco do banco e olhava para baixo. A costa da Itália parecia uma imagem, era tudo plano e ao longe se materializavam pequenos relevos montanhosos meio abaloados pela curvatura terrestre. Nunca voei tão longe e tão alto assim, aquela cena de pastos verdejantes e minúsculos vilarejos a minha direita em contraste com o reflexo do mar a minha esquerda. Aquela cena me hipnotizava. Todo o esplendor daquela vista, aquele céu, àquela altura, o reflexo dos P's-51 voando ao meu lado me relaxava. Percebi que adorava aquilo que estava vivendo, e pouco a pouco aquele meu momento foi me conduzindo a uma sensação de plena felicidade, o pouco medo que me rondava se esvaiu, e por 2 horas, me sentia intocável, indestrutível, me senti feliz como nunca fui, pela primeira vez na minha vida, me senti livre.

320 milhas ou 520 quilômetros por hora, uma velocidade que jamais alcancei, naquele momento, já acostumado a aquela vista estonteante a 16 mil pês ou próximo dos 5 quilômetros de altura, olhava para o meu velocímetro indignado imaginando-me a essa velocidade com o meu sedan em uma auto estrada no sul da Califórnia. Simplesmente surreal.

Na verdade nada do que meus instrumentos indicavam pareciam fatos verídicos. 5,1 quilômetros acima do nível do mar, nunca me imaginei a uma altura tão absurda assim, o máximo que já havia chegado era a 1600 metros de altura no Grand Canyon, e o lado externo da minha cabine, era indicado como 23°F ou -5°C isso em pleno sol das 3:30.

Estávamos em 4, obtendo uma vista de cima, estava o cabo Clark, se encontrava na extrema direita. Ele era o mais novo de todos nós, logo que se alistou, foi enviado para treinamento e, assim como eu, está voando a sua primeira viagem em nome da aeronáutica americana, ele era o N°2 (nós nos enumerávamos para facilitar a comunicação), o segundo integrante, era o capitão, não sabíamos nada sobre ele, ele era apenas o nosso comandante, era tudo o que precisávamos saber. Ele assumiu o nosso pelotão logo após o seu antigo pelotão ser totalmente dizimado restando apenas ele, existe um boato que logo após seu pelotão ser abatido, voltou para base, reabasteceu e recarregou seu P-51 inconfundivelmente laranja com 3 listras brancas na área central das asas, decolou e voou até Paris, aonde se encontra o ninho dos temíveis BF-109, e por vingança abateu sequencialmente 32 BF-109, voltando a base na Espanha apenas por ter acabado sua munição. Não acreditava muito nesta história já que os BF-109 possuíam motor, estabilidade, resistência e armamentos superiores ao nossos humildes P-51, ou seja, combate direto contra um desses era suicídio, e ainda dezenas desses aviões contra apenas um P-51? Difícil de acreditar ne? Só esperava que nunca encontrasse um desses na minha vida. O capitão obviamente era o N°1. Na terceira posição, estava eu o N°3, e na quarta posição, encontrava-se o soldado Lee, que logo após a primeira guerra mundial imigrou do Japão para os EUA alistando-se logo em seguida no exército, não colocava muita fé nele não, imaginava que a qualquer momento por seus instintos asiáticos iria atirar seu P-51 sobre nós ou a um navio qualquer da nossa frota. Ele era o N°4.

Nossa missão era um simples reconhecimento da área, a cada dia um pelotão era designado para executar um reconhecimento e observar o avanço inimigo. Mas daquela altura não se via absolutamente nada, cidades lá de cima eram formas não muito mais complexas do que pontos, imagina um exército de poucas centenas de pessoas. Até aquele momento ninguém tinha dito nem uma palavra no canal de rádio do pelotão, então inaugurei a comunicação e disse: 1, por que estamos voando tão alto assim? Não conseguimos observar nem uma movimentação em terra a essa altura. Com um tom suave ele disse: apenas siga-me. Neste momento já estava preocupado, pois sabia que àquela altura era o local de combate direto entre aviões, neste momento, toda a alegria foi tomada por medo e insegurança, na minha cabeça, estávamos tomando uma rota para a morte.

Meia hora a frente, ainda voávamos a 5.000 metros de altura, mantendo a velocidade de 520 quilômetros por hora. Eu estava apavorado. O mar da costa da Itália já sumira a uns 12 minutos, em baixo de nós havia apenas terra, olhando para o mapa eu imaginava que logo entraríamos em território da Suíça ou da França, aonde seríamos avistados e bombardeados por antiaéreas e Focke Wulf 190, (os FW-190) ou pior, pelos Messerschmitt Bf-109 iriam vir nos caçar.

Então sem dizer uma palavra, o 1 rotacionou seu P-51 a 90° e desceu bruscamente perpendicular à nossa rota atual. Continuamos em linha reta, então poucos segundos depois ele nos perguntou: vão me acompanhar ou não? então incertos dsito, eu, o 2 e o 4 tomamos distância um do outro, rotacionamos a 90° e descemos em direção ao 1, então acompanhei a rota do 1 e vi 5 pontos pretos movimentando-se para o leste. Então tive a certeza que não voávamos por reconhecimento. Mas pela vantagem da altura que tínhamos meu sangue começou a ferver, e por uma razão desconhecida uma parte de mim ficou empolgado mesmo ainda sentindo um medo tremendo, E estava ansioso para o que estava por vir.

Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.