Entre as Estrelas
1 Viajem de sonhos
Estava eu conversando com minha nova amiga Rô ao anoitecer de uma terça feira. Estava frio e conversávamos sobre diversos assuntos, desde poesias até historias fictícias. Meu jeito poético de ser deixou Rô interessada na conversa até ela perguntar de que planeta eu havia vindo. Apenas por brincadeira falei que vim da região de Aurora, 18ª Galáxia, 2º Sol, também conhecido como Nebulosa 587% & 45º. Ela riu, e levou na brincadeira dizendo que queria ir até Lá. A verdade é que sou humano, nasci na terra, mas sei de coisas que pouquíssimas pessoas sabem nesse pequeno planeta azul.
Há três anos, fui levado a bordo de uma nave, onde vi coisas incríveis e meu conhecimento sobre o universo e tudo o que o rodeia ampliou. Antes de voltar para casa, minha mente deveria ser apagada para que não revelasse este segredo a ninguém. Por um milagre, fui um dos poucos humanos que não pode ter a mente apagada, e por este motivo, pude ir constantemente visitar o espaço e o interespaço. Minha vida mudou depois disso. Pude ver e entender as ciências, e o modo de pensar dos seres humanos em outra perspectiva. Descobri que “a imaginação é mais importante que o conhecimento”. Sou conhecido como Stú. Apenas um garoto do ensino médio que adora estudar, mas minha vida teve outro sentido depois de conhecer o universo através de viagens dentro do cosmo.
No final da conversa com a Rô, expliquei a ela que desta vez ela poderia ir comigo ao interespaço e viajar entre as estrelas. Ela sorriu. Disse que queria muito ir. Também dei um sorriso. Despedi-me e falei que iria vê-la à noite, depois que entrasse no mundo dos sonhos, que se tornariam realidade.
Em meio à madrugada, como esperado, acordei em uma sala branca, toda iluminada. Já havia acordado ali várias vezes. Pude os ver locomovendo-se pela sala. Levantei, saudei-me e ao olhar para o lado, vi um corpo feminino deitado em sob a mesa. Aproximei-me devagar, era a Rô. Estava muito feliz que eles aceitaram levá-la comigo. É a primeira vez que outra pessoa me acompanha em uma viajem interespacial.
Toquei a testa de Rô. Ela abriu os olhos lentamente.
— Onde estou? Estou sonhando?
Dei um leve sorriso.
— Não Rô, está comigo indo para as estrelas. Não lembra que disse que viria?
Ela levantou-se e andou com certa dificuldade pela sala iluminada. Eu a acompanhei.
— Não pode. Não pode ser real. Eu achei que estava apenas brincando, como das outras vezes.
— Não estava brincando daquela vez. Veja. — A levei até uma janela — Estamos no interespaço, onde o brilho das galáxias ilumina a escuridão do vazio.
Ela ainda olhou estranhando o local, e os seres que ali estavam conosco.
— Quem são eles — Ela disse me segurando pela mão.
— Não se preocupe, eles não vão lhe fazer mal, estão apenas observando.
— O ...Observando?
— Eles visitam e estudam nossa espécie a milhares de anos. Eles evoluíram de uma maneira diferente da nossa. Seus corpos são constituídos de energia e massa, assim como essa nave. Nossos corpos agora também são assim, pois os verdadeiros estão dormindo na terra.
— Stú, eu não entendo...
Tentei explicar olhando nos olhos dela.
Eles podem separar a energia neural de nossos pensamentos e colocar em corpos betas, exatamente iguais aos nossos, para que podemos sobreviver neste ambiente. Quando voltarmos, nossa mente será levada aos corpos que permaneceram em coma em nossas camas.
Rô voltou-se para a grande janela olhando atentamente a beleza inigualável do interespaço. Toquei seu ombro e também continuei olhando. É uma vista que nenhum olho humano conseguiria parar de admirar.
— Mas porque eles estudam os seres humanos Stú? Quem são eles afinal?
— São moradores de outro planeta. Eles têm milhões de anos de evolução e viajam pelo universo em busca de respostas. Quando encontraram os seres humanos, ficaram fascinados. É a primeira e única espécie de organismo, formada quase que totalmente de matéria viva, que é dotado de inteligência. Mas o que mais os intrigou foi nossa capacidade de ter sentimentos. Eles não têm sentimentos.
Rô olhou para mim e para os seres.
— Como podem não ter sentimentos? O que são afinal?
— Eles tiveram uma evolução diferente Rô. Apenas são dotados de energia para se comunicar, ver e pensar e de um corpo frágil para construir. Mais nada, porém são dotados de uma inteligência e sabedoria incrível.
— É incrível como até aqui você fica sendo um nerd, Stú.
Sorrimos um para o outro até que a nave parou.
— É aqui. Vamos descer Rô. Tem algo que quero lhe mostrar.
Descemos da nave no planeta único do sol Nebulosa 587% & 45º. O chão é rochoso e a atmosfera é densa. Podíamos sentir levemente o vendo em nossos rostos e sacudindo o cabelo. Peguei Rô pela mão e a levei para o alto de um planalto. A vista era fabulosa. Nenhum ser humano além de nós havia visto tal beleza. Sentei-me junto a Rô na beira do penhasco. À frente, um rio de águas cristalinas corria. Ao redor, apenas rochas em um tom amarelado devido à iluminação refletida das grandes luas. No céu, duas luas gigantes mostravam seu tamanho e beleza. A primeira era feita de gás, a segunda era rochosa e com um brilho mais extenso.
Estava frio, então chegamos mais perto e admiramos o espaço juntos. Rô ainda não parecia acreditar. Insistia que só poderia ser um sonho. Apenas escutava-se o barulho das águas, do vento e das nossas vozes. O clarear de supernovas pareciam iluminar todo o universo. As estrelas pulsavam com grande intensidade como um coração que batia fumegante. Rô e eu conversamos melhor naquele momento de paz. Um momento inesquecível que seria esquecido.
Logo voltamos à nave. Lá, Rô teria que ter sua mente apagada. Essa foi a condição imposta para que ela viesse comigo. Insisti para que não fizessem isso, implorei muito, mas foi tudo em vão. Eles não entenderiam. Rô chegou perto de mim e disse que não queria esquecer aquele momento, que queria lembrar para sempre. Eu tentei de tudo, mas foi em vão. Teria que obedecê-los, mesmo contra a vontade.
Levei Rô até a sala iluminada de branco. Ali ela foi presa por cabos e ficou imóvel. Uma lágrima escorreu por sua face, e não conseguiu conter o choro. Comecei a chorar também. Não queria que o momento que passamos fosse esquecido. Abracei Rô com força e disse que ia ficar tudo bem.
A máquina foi ligada, uma espécie de broca vinha em direção a sua nuca. O processo para apagar a mente começou.
— Stú, eu estou com medo. Me ajude.
Rô já estava soluçando e suas lágrimas escorrendo, Apenas limpei-as com a mão e a abracei mais uma vez, sabendo que este seria o último momento que passamos juntos essa noite. Fechei os olhos e disse em seu ouvido enquanto minhas lágrimas lavavam meu rosto.
— Rô, agora tudo isso não passará de um sonho. Quando tudo acabar, você vai acordar em sua cama quente e a primeira coisa que vai pensar será, que eu não vim te buscar para ir às estrelas.
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