Entre anjos e demonios
3 Dois
Notas iniciais
O resto das aulas foi chato. Nada de interessante, bom exceto em química.
Fomos para o laboratório. Eu, Gary e Lizy formamos um trio. O objetivo era criar uma pedra comestível. O professor explicou e saiu, dando nos 15 minutos para cumprir a tarefa.
Nós fizemos mas quando terminamos.... Bom, digamos que uma bola de pelo rosa não era o esperado. Recebi um olhar superior de um par de olhos azuis. Cheguei a ficar frustrada por 5 minutos.
O tempo exato que a arrogância dele durou.
Ele e seu bando conseguiram causar uma pequena explosão de algo preto.
Foi um barulho alto.
Aquela meleca caiu em todos que estavam por perto, inclusive nele.
A turma fez silêncio por um minuto inteiro antes de eu desabar na gargalhada, levando todos comigo.
O professor reclamou horrores, mas só pela cara dele já valeu a pena.
Lizy teve que sair logo, ela pega ônibus.
Gary sempre me acompanha até em casa.
Foi divertido.
Mas minha mente sempre voltava para o garoto de olhos azuis.
Para a sala de química.
Para seu trabalho.
Foi o único que explodiu.
Sempre que pensava eu sorria.
Entro em casa, cansada, esgotada mentalmente. Tanto pela escola quanto pelo estranho garoto. Parece que assim como existe amor a primeira vista, deve existir também o ódio a primeira vista. É a única explicação plausível.
Suspiro, quase sem forças para me manter de pé. Tiro o tênis, jogando-o no chão, em qualquer lugar, mesmo sabendo que minha mãe vai brigar quando voltar.
Sento no sofá e me encosto, fechando minhas pálpebras pesadas. Apenas um segundo de descanso antes de voltar a agir. Tenho muito a fazer.
– Você não acha que depois do que fez vai simplesmente descansar acha? — a voz de Muryiel me faz abrir os olhos, tirando me de meus desvaneios.
Ela está sentada em cima da mesa. Pernas cruzadas, uma mão apoiando o corpo para o lado outra na cintura.
– Ahhh — resmungo.
– Levante — ela ordena, sua voz dura.
– Sério?
– Eu vou te bater de novo, e dessa vez não sairá imune com uma simples febre — sua face demonstra mais raiva do que eu esperava.
– Por que se importa? Eu quem apanhei. E por sinal você — aponto o dedo para ela de maneira acusatória — me bateu.
– Idiota! Sabe a quanto tempo estou sozinha? Você faz alguma ideia? Achei que pudessemos ser amigas, mas pelo visto você prefere uma anja cuja a existência lhe era desconhecida até ontem — ela grita, seus olhos completamente negros, seus caninos pontiagudos brilham em um branco sobrenaturalmente claro — Não vou cometer esse erro de novo. Ele falou e eu não quis ouvir. Vocês humanos são criaturas traiçoeiras — fala entre dentes.
Estou tão acostumada com ela que esqueço o que ela é.
Um monstro.
Um assassino.
Um vampiro.
– Ok — digo — Agora dá para baixar a bola ou vai querer me almoçar? — sei que é errado dizer isso, que estou cruzando um ponto sem volta, mas a raiva que sinto nesse momento é incontrolável e não resisto a jogar na sua cara o que ela é.
Um grunhido escapa de seus lábios mas ela volta a seu disfarce.
– Levanta — sua voz irritada me prova algo que já sabia, é facilmente notável em seus olhos que para ela, agora eu não passo de uma assassina. Sou só a sua missão.
– Certo — digo de já pé, não há motivo para irritá-la ainda mais — Para onde vamos hoje?
– Caçar — ela me olha como se não me conhecesse, como se eu fosse uma estranha. Aquilo dói. Ela é o mais próximo de uma amiga que tenho na outra metade da minha vida.
Subo as escadas e entro no meu quarto, abrindo o grande baú de madeira no chão, perto da cama. Me deparo com todos os diversos tipos de armas nas quais fui treinada. Em um exame rápido opto pelas quais eu sou melhor.
Pego rapidamente minhas duas adagas e a espada, ela não é exatamente chamativa ou especial, apenas uma espada de obsidiana* cuja a única diferença das demais é o simbolo entalhado no cabo. Uma cruz.
Não posso dizer que Muryiel ficou contente com isso mas, sendo minha a espada ela não pode fazer nada.
Desço novamente e me deparo com uma Muryiel muito irritada me esperando.
Para não preocupar minha mãe quando ela voltar da trabalho deixo um pequeno bilhete escrito:
"Mãe, fui ao cinema com uma amiga.
Bjs, te amo.
P.s.: O almoço está na geladeira, foi mal esqueci de comprar comida"
– Já? — Muryiel, apesar de parecer mais calma, continua com pupilas negras super dilatadas, provavelmente vai continuar com raiva durante algum tempo, vampiros tem uma habilidade de guardar rancor incrível — Não tenho o dia todo.
Apenas aceno de leve com a cabeça enquanto prendo minha espada em um dos lados do cinto e as adagas em outro.
– Disfarçe ou ataque? — não consigo não perguntar.
– Ataque.
Bem, eu particularmente sempre preferi o ataque ao disfarce. Antes chegar e matar de uma vez a ter que olhá-la nos olhos confusos e sem vida.
– Você vem? — ela raramente participa, mas quando o faz, é porque é importante.
– Sim, você vai precisar — é sua resposta. Nenhuma explicação, nada.
– Ok... — digo um tanto receosa.
Se até eu vou precisar de ajuda, então é algo muito sério.
– Ele descobriu informações sobre uma possível reunião de anjos. Mais ou menos 30 integrantes.
– Onde?
– Rua Oxfor 09 — um arrepio me percorre a espinha, uma reunião. Aqui — Vamos.
Sem falar nada, eu a sigo.
*****
– Sim, farei isso — digo para Falstoy, meu mestre, o mais velho arcanjo vivo.
– Ótimo — ele sorri, bondoso.
– Mestre... — exito, sem saber como abordar o assunto — tem uma... — faço uma careta, me perguntando se não foi uma má ideia e continuo com certa dificuldade — garota, na escola onde estudo e ela...
– Vincent... — ele me interrompe, seu sorriso se foi, deixando apenas a raiva que ele sentia — Você sabe que o contato com mortais é resumido aos extremamente necessários não sabe?
– Sim, mas...
– E que se você pode perder suas asas não sabe?
– Sim...
– Então não se aproxime dela. Nunca mais.
– Certo mestre — por algum motivo estranho pensar em nunca mais me aproximar dela me incomodava mais do achei que fosse.
– Ótimo. Discuta mais detalhes da missão com com Hugo. Ele estará esperando em uma rua chamada Oxfor 09.
Assenti silenciosamente e saí dali. Por que ela nã me sai da cabeça? Sua risada hoje de manhã fez coisas estranhas comigo. Meu coração nunca bateu de maneira irregular, e, tenho certeza, não foi vergonha.
Idiota.
Tenho que mantê-la longe. Não posso me aproximar. Se eu fazê-la me odiar bastante ela não vai querer ficar perto.
Esqueça-a.
Meu subconsciente grita. Tenho trabalho a fazer. Não vim aqui para brincar de adolescente.
Sorriu. Vou mantê-la afastada. É fácil, eu acho.
*****
Andando devagar ao redor do galpão, Muryiel e eu espiavamos as redondezas. Cerca de 9 anjos já haviam passado por aqui sem nos ver.
A roupa preta e a escuridão eram nossas aliadas.
Antes de qualquer coisa, Muryiel sinaliza que tenho que descobrir qual o assunto da reunião. Balanço a cabeça, sinalizando que entendi.
Entro pelos fundos e uso uma pequena abertura na porta para descobrir do que eles falam. A escuridão apesar de ajudar a me esconder, também me impede de ver os rostos e para, futuramente, encontrar os que fugirem. Sei que não conseguiremos matar a todos. Não nessa quantidade. Por ora, me contento em escutar.
– ... Na escola — uma voz feminina e, aparentemente irritada diz.
– Ok, mas depois não reclame — agora é uma voz grossa que parece apenas exasperada como alguém que fala com uma criança — Temos que fazer direito. Com calma.
– Calma?! — uma terceira voz rompe da multidão — Estamos sendo caçados e assassinados e você quer calma?
– Sim.
– Para começo de conversa — a mulher volta a falar — Nem saberíamos de nada se não fosse a pequena Maria.
Droga, penso. O coração acelerado.
Eu a tinha deixado viver e ela me entregou. Deve ter me descrevido a eles e, se tiver, eu estou ferrada.
– Sim eu sei. Porém não foi de muita ajuda.
– Como assim!? Ela nos contou não?
– E contou quem era? Como era? Qual o sexo? A cor do cabelo? A cor dos olhos? Altura? Qualquer coisa? — as perguntas deixaram a mulher pensativa.
Fechei os olhos e rezei para estar errada, para que a garota não tenha me descrito.
– Não — a frustração era evidente.
Consegui respirar de novo.
– Pois bem, então está decidido. Faremos do meu jeito.
– Eu... — uma comoção na multidão começou de modo bem audível. Corpos caindo no chão e gritos.
– Por Deus — o homem gritou.
E então eu soube. A hora chegou.
Empurrei a porta com o pé enquanto segurava a espada em uma mão e uma adaga na outra.
Cortei a cabeça da anja que falava, ainda surpresa. Lutei ainda com outros dois ou três, deles, um morreu empalado, um com um corte no lado direito do corpo e o ultimo com uma adaga no pescoço.
Quando ia para o próximo alguém veio para cima de mim com uma espada em mãos. Não pude vê-lo direito na escuridão, mas o brilho de sua lamina me guiou para que acertasse seu peito com o cabo da minha adaga, fazendo-o perde o equilibrio.
******
Cai no chão de maneira dolorosa. Levanto e vou atrás do meu oponente. A falta de luz me atrapalha de ver seu rosto.
Ele já estava mais afastado, cercado de corpos. Dou um golpe na diagonal, deixando-o apenas com duas opções: recuar ou bloquear.
Ele bloqueia e o acerto com o punho no estomago. Tomando-lhe o ar. Com a respiração ofegante ele tenta me acertar com a espada. Bloqueio facilmente e novamente lhe acerto, dessa vez com a espada. Pude ver sangue escorrendo por seu braço. Ele revida com uma adaga que não tinha visto e me corta no braço que seguro minha arma.
Esperto, admito.
Tirar a força do braço com o qual seguro espada.
Porém não foi o suficiente e recomeçamos nosso duelo de laminas o suor escorre por meu rosto, o cansaço já nos afeta e, por um segundo, ele abre uma brecha ao me atacar por cima, descobrindo o lado esquerdo de seu corpo. Acerto-o ali. Ele treme e põe a mão sobre o corte, tentando parar o sangramento. Levanto a espada, pronto para o golpe final. Então acontece.
Algo nele começou a brilhar em uma forte tonalidade de azul
*****
Sinto aquela tão conhecida força me envolver, e com ela, a raiva. Quem ele pensa que é para lutar comigo? Para tentar me matar? Sinto minha ferida se fechar, a pele colar e meu cansaço sumir.
Com minha nova onda de energia, levanto e volto a lhe bater. O cansaço dele está vencendo e sorriu cruelmente.
Vou matá-lo. Quero matá-lo.
Derrubo-o no chão novamente e chuto sua arma para longe. Levanto a espada. Algo me atravessa.
Não uma arma, mas uma sensação. Quase se fosse errado. Hesito.
Não foram mais que alguns
segundos, mas foi o tempo que ele me dá uma rasteira e voar para longe.
Muryiel me chama, diz que devemos ir. Viro de costas e sigo.
Porém não sem antes olhar para trás.
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