Entre a luz e os cadáveres
1 Capítulo 1: Quarto empoeirado
"Já não aguento mais ficar sentada" repetia a frase enquanto sua mãe tagarelava sobre a avó que estava prestes a conhecer, os adultos fingiam não ouvi-la, mas Tsura a akita inu ouvia, lambeu o seu rosto para impedindo-a de falar, depois deitou em seu colo com a língua pra fora. A menina olhava pra cadela, tão cansada quanto ela, já faziam horas que estavam sentadas no banco da traseira do carro 4x4, que finalmente poderia ser usado em seu real propósito, andar numa estrada tortuosa, lamacenta e esburacada com destino ao imprevisível. Seu pai estava animado para essa viagem, como ele detalhava a semana toda sobre "liberar a real potência da máquina", agora ele estava calado, ela olhava no retrovisor outrora deparando-se com as olheiras que cresciam cada vez mais. A essa altura, todos do carro já tinham perdido a vontade de falar, ou latir, exceto por sua mãe, viera conversando por todo o caminho, em maior parte falava sozinha, tanto que quando o sinal de rádio enfraqueceu e a conexão fora cortada, a garota nem se quer percebeu, a voz de sua mão ressoava sobre todos os barulhos, era incrivelmente irritante.
Ela pousou a cabeça nas caixas de papelão ao seu lado, ocupavam metade do acento, na outra metade estavam ela e Tsura. Começou a murmurar um slogan grudento que vira na televisão outro dia, pensando que após a chegada, ainda teria que levar as caixas para o quarto e desempacotar tudo, sua semana tinham sido uma entediante visita ao mundo da mudança, de modo que tentara cometer suicídio caindo se afogando no plástico bolha ou tentando cortar os pulsos com a tesoura sem ponta.–tentativas obviamente falhas.
Em um momento desses, percebeu que só havia a sua voz, os ruídos de sua mãe haviam terminado, ela levantou em súbito tentando entender o porquê, a cadela levantou junto após ser empurrada. A velha casa vitoriana, recinto de toda uma família, o propósito de toda essa viagem, bem na sua frente. Seu pai parou carro lentamente, sua mãe virou o rosto dizendo para ela "Acabou a espera. Chegamos, Vanessa."
O pai desceu o mais rápido que pode, correndo para o porta-malas, a mãe pegou malas de mão e colocou os óculos escuros do porta-luvas, saiu do carro gritando cumprimentos. Vanessa abriu a porta do carro brutalmente, deixando a cadela sair, pegou todas as caixas que estavam empilhadas ao seu lado e pôs o máximo que pode em seus braços, carregando até a varanda, não prestou atenção ao ambiente ou na faixada da casa, apenas seguiu, ouviu a frase "na porta da sala, querida" vindas de sua vó, que também não deu muita atenção e foi direto ao ponto, escondia uma cara franzida infantilizada atrás de todo aquele papelão. Voltou ao carro mais algumas vezes pra fazer o mesmo, sempre que passava na varanda ouvia fragmentos de uma conversa em movimento, boa parte disso era a indignação de sua mãe sitando sobre a falta de presença e o isolamento que sua avó tinha escolhido, a mesma só concordava sem nenhuma justificativa.
Estava acabado, só mais uma caixa, agora sem nada obstruindo sua visão, pode perceber, uma lagoa ao lado da casa que refletia o sol fraco do outono, montanhas e entradas de cavernas em um horizonte não tão longe do final da casa, e é claro toda uma floresta de árvores não nativas que envolviam o espaço que havia restado de suas descrições até onde a visão alcança. Viu também sua vó ao pé da varanda, nada além de uma velhinha, mas muito mais em forma do que Vanessa imaginava, ela não fizera nenhuma celebração pela chegada da neta. O interior da casa não era nada especial, a cozinha tinha um tom laranja, o único comodo com azulejos, entre os pisos uma camada preta de sujeira, não parecia bem cuidado, a sala era composta de um tapete felpudo, com sofás e poltronas com a espuma vazando, uma caixa enorme e pesada na estante, era uma tv de tubo. O quarto não era nada além de um chão que rangia conforme ela andava, com um pequeno vão nas tábuas bem no centro, um guarda-roupas mofado e uma cama de metal com um colchão nada macio, Tsura estava debaixo da cama. Vanessa colocou a caixa em cima das outras e partiu em direção a varanda.
Sua vó estava fumando um cachimbo enquanto balançava as chaves do velho gol ao lado do carro do pai da garota. Tirou da boca o cachimbo articulando a voz rouca:
—Como eu queria ter mais tempo pra te explicar.–Ela fuma.–Eu livrei a sua mãe de um peso extra, mas não tinha noção que teria que passar as responsabilidades pra uma garota nova como você, vai ser a mais nova de todas, sete anos, tão novinha.
—Eu tenho quinze anos!–Levantou a voz, em seguida recebendo um olhar semi-cerrado da avó.–Vou ser a mais nova de que?
—Espero que você entenda, já que você nasceu pra isso, sei que sua mãe não entenderia. Soube desde que peguei ela nos braços, o choro dela, definitivamente o momento mais feliz da minha vida, não podia deixar aquela linda menininha sacrificar a sua vida para isso, então eu sacrifiquei a minha.–Ela se vira em direção a Vanessa, mas seus olhos divagam em outra direção.–E agora olha só pra você, no que foi que a nossa família se meteu?
—Não tenho ideia do que você tá falando.–Ela esclarece sem rodeios.
—Então parece que vai ter que aprender sozinha.–Desce a escada e entra no carro, ela dá a volta e abre a janela.–Os apanhadores de sonho estão na primeira gaveta do bidê. Boa sorte.–Ela foi embora na mesma estrada tortuosa, lamacenta e esburacada.
Vanessa suspirou e entrou em sua nova casa em seguida. Começou a desempacotar as coisas quando sua mãe entrou no quarto com a pergunta "Já falou com a sua vó?", ela não esperava as palavras "logo antes de ela ir embora" depois do sim, correu para frente indo confirmar. A garota continuou, seu perfeccionismo falava mais alto, começou a decorar o quarto em seguida. Após um tempo tudo estava um pouco mais limpo, mas a poeira persistentemente milenar permanecia nos móveis, naquele tempo só faltavam organizar as coisas dentro do velho e destruído guarda-roupas, não a prova d'água e muito menos fungos. Ao abrir a primeira porta, um antigo livro com capa de couro caiu, ela juntou-o encarando intrigada, mas não o bastante pra interromper a arrumação.
No final de tarde perfeito, quando tudo já estava organizado, a luz do sol poente invadia seu quarto pela grande janela. Vanessa sentou na cama, exausta, deixou que a cachorra repousa-se em seu colo, pegou o livro na mão, observou com detalhe, parecia um diário, um muito grande, velho e pesado, feito a mão. Apenas abriu a capa, quando seus pais entraram no quarto de repente, sua mãe chorando no ombro de seu pai, a frase que há fez arregalar os olhos e deixar o livro que mal fora aberto cair no chão, "o carro da sua avó bateu na rodovia, ela morreu."
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