Entre a Véspera e a Virada

1 VIBRAÇÕES DA CHARLIE




Baltimore, 31 de dezembro de 2025


A música do salão de festas no 25º andar do edifício Lambert vibrava pelas paredes como se o prédio inteiro tivesse sido transformado em uma imensa casa de shows. Lá dentro, a contagem regressiva ainda estava longe. Eram nove e quarenta e oito da noite, mas o ambiente já tinha aquele cheiro característico de cidra de maçã, ansiedade e discurso de “eu prometo” decorado.

Era sempre a mesma ladainha.

No 18º andar, Jubileu trancou a porta, guardando a chave no bolso do vestido. Nada de celular, nada de bolsinha, apenas um relógio de pulso delicado e um vestido preto simples, que insistia em agarrar nas pernas. Era o tipo de vestido que alguém escolhe quando não sabe se vai arrumar confusão — afinal, não era branco nem colorido —, arrumar um namorado ou só arrumar dor de cabeça com algum morador inconveniente.

Ela analisou o painel em LED do elevador subindo. Respirou fundo e entrou antes que a porta fechasse.

Ela ainda estava processando a própria existência naquela festa quando a mão de alguém impediu o fechamento. Um rapaz com mochila no ombro, vestindo um moletom preto sob um blazer cinza entrou, aparentava ter uns vinte e poucos anos, não muito mais velho do que ela, barba por fazer e com cara de quem vive cansado só por existir — e, apesar de todo o contexto, ainda assim, ele era muito bonito.

— Valeu — disse ele, apertando o botão do 25º.

— Sem problema — ela respondeu, sem saber se ele realmente esperava uma resposta.

Não disseram mais nada.

O elevador subiu para o 20º andar, a porta se abriu dando passagem a uma mulher na casa dos 30 anos, com colar de miçangas de florzinhas, vestido boho estampado na altura das canelas e botas country, cabelo preso de forma tão cuidadosamente bagunçada que parecia ter levado meia hora para ficar daquele jeito. Ela tinha uma bolsa e segurava um pote de vidro com algo suspeito dentro. Era estranhamente bonita, tinha um aroma forte de patchouli e emanava uma serenidade comedida.

— Vocês não sentem o ar diferente hoje? — ela perguntou como se o elevador fosse um spa, antes mesmo da porta fechar.

O rapaz revirou os olhos com tanta força que Jubileu temeu que ficassem presos para dentro.

— Moça, eu só sinto calor.

— É normal resistir à vibração — ela sorriu, sentindo alguma pena dele.

Jubileu pressionou os lábios para não rir.

A porta quase se fechava quando um garotinho apareceu correndo pelo corredor, segurando um chapéu de festa com a mão toda suada.

— Espera, espera, espera! — Ele gritou, afobado.

Jubileu segurou a porta.

O menino era só bochechas, bochechas essas que estavam super vermelhas. Ele entrou, ofegante, e imediatamente começou a falar como se tivesse treinado aquele discurso:

— Obrigado! Meu nome é Oliver Park. Minha mãe disse que se eu me perder é pra subir até o último andar e olhar pela janela que eu encontro ela porque minha mãe brilha muito e aí eu vou achar ela pelo brilho e—

— Ótimo — murmurou o rapaz, assentindo indignado para ninguém específico. — Vai ser divertido.

A mulher, que parecia ter brilhinhos flutuando ao redor dela, abaixou-se até a altura de Oliver.

— Oi, amiguinho. Eu sou a Charlie. Você tem uma energia linda, sabia?

— Tenho? — ele arregalou os olhos pequenos, maravilhados. — Ela é verde, azul, ou explode?

— Não explode — disse ela, rindo. — Só ilumina.

A porta fechou. O elevador subiu dois andares e soltou um ruído pavoroso, uma mistura de metal se rasgando e uma tosse mecânica grave. As luzes de LED morreram de uma vez, e a cabine foi engolida por uma escuridão espessa, o silêncio sendo quebrado apenas pelo grito agudo de alguém, em algum lugar lá fora, que parecia ter tropeçado.

A cabine estava parada, oscilando suavemente. Uma luz de emergência fraquíssima, de um tom amarelo-sujo acendeu. O número 22 piscava igual um olho doente, no visor digital.

O rapaz revoltado levantou as mãos.

— Pelo amor de Deus! — ele gritou, sacudindo o celular no alto. — Sem sinal! Não é possível que em pleno 2025 o sistema de elevadores seja esse lixo!

O painel piscou novamente. Uma luz vermelha acendeu.

Silêncio.

Jubileu ajeitou o cabelo atrás da orelha, endireitando a postura.

— Deve voltar já. — Nem ela acreditava nisso.

— Com certeza — disse o rapaz, cético — porque elevadores têm reputação ótima na véspera de Ano Novo. Quase não travam. Super confiáveis.

Cinco minutos depois e o elevador não voltou.

Oliver ergueu o braço.

— Com licença. A gente vai morrer? — Questionou inocente.

— Não — Jubileu falou.

— Talvez — disse o rapaz, mau-humorado.

— Claro que não — Charlie disse, convicta.

— Tá, agora tô confuso — o garotinho inclinou a cabeça para o lado.

De repente ouviram um chiado esquisito, e uma voz feminina e irritada tanto quanto irritante saiu pelo interfone:

— Boa noite a todos. Nós estamos cientes do problema no andar 22. Provavelmente é uma queda de energia parcial ou algum cabo solto. Então, precisamos que tenham paciência e aguardem um pouco.

— Quanto tempo é “um pouco”? — sondou Jubileu, estreitando os olhos.

A voz fez um barulho de quem está sendo sincera demais:

— Bem… é difícil dizer. Só peço que fiquem calmos.

O interfone morreu.

Brendan, que finalmente decidiu se apresentar, colocou a mochila ao seu lado no chão, cruzou os braços sobre o peito e se encostou na parede, relaxando a postura.

— Meu nome é Brendan — murmurou de repente, sem um pingo de entusiasmo. — Pra facilitar quando decidirmos quem vamos comer primeiro se isso aqui virar um jogo de sobrevivência.

Oliver arregalou os olhos de novo.

— Ele tá brincando — Jubileu sorriu amarelo para o menino.

— Talvez sim, talvez não — Brendan deu de ombros.

Charlie inspirou fundo e sentou-se no chão, tranquila, como se aquela situação fosse a coisa mais normal e interessante do mundo.

— Sabiam que tudo isso tem um propósito?

— Sim — Brendan moveu o maxilar. — O propósito é me irritar.

— Não, meu jovem. O propósito é conectar pessoas.

— Maravilha — ele resmungou. — Então, universo, conecta a porta com o resto do prédio também, por favor.

Oliver, curioso que só ele, apertou o botão de emergência do elevador como quem testa um brinquedo novo. O botão apitou um barulho de doer no juízo.

— Não aperta de novo! — gritou Brendan.

— Mas eu gosto do barulho! — disse Oliver.

— Eu não! — Brendan rebateu irritado.

Jubileu segurou o riso e verificou o relógio de pulso, que marcava 22h da noite. Havia se passado doze minutos desde que entrou no elevador. E o ar ali dentro parecia diminuir um pouquinho a cada minuto.

Charlie, cantarolando, abriu o pote de vidro que havia trazido e de dentro tirou uma vela. Uma vela. Ela realmente trouxe uma vela pra festa.

— A gente precisa acalmar o ambiente. Luz sempre ajuda a dissipar o medo.

— Não acende isso — Brendan colocou a mão na frente. — Sério. Fogo num elevador parado. Você quer transformar a gente em churrasquinho?

— Confia — ela sorriu serena. — A chama é um símbolo.

— Símbolo de incêndio — murmurou ele.

Mas antes que pudesse impedir, Charlie acendeu — depois de três tentativas falhas. A chama oscilou, parecia dançar de maneira tímida. Oliver olhou, hipnotizado.

— Uaaaaaaaau!

— Tá vendo? — Charlie encarou Brendan. — Já trouxe paz.

— Trouxe mais calor — Brendan já sentia o suor se desprendendo do corpo. — A gente vai virar estatística em cinco minutos.

Oliver olhava como se o fogo fosse magia pura.

— Você é uma bruxa? — O menino indagou.

— Sou só alguém que acredita em preparar o espírito — Ela respondeu, suave.

— Isso significa que sim — Brendan afirmou.

Charlie ignorou.

Jubileu segurou a risada, mas seus ombros tremiam.

A música da festa lá em cima parecia distante, abafada, como se o mundo estivesse prosseguindo sem eles. E de fato estava, alheio às 4 vítimas das circunstâncias. Isolados dentro daquele cubículo sem ter como pedir ajuda, um SOS, nada.

Brendan, realmente sentindo que sua pressão poderia baixar a qualquer minuto, retirou o blazer, passou o moletom pela cabeça e ficou apenas com a regata preta que usava por dentro, evidenciando seus músculos. Ele olhou a vela, logo depois o sorrisinho de Charlie, e Oliver sentado no chão admirando a chama. Olhou para Jubileu, que encarava o nada. Ele suspirou.

— Eu devia ter ficado em casa.

— Por quê? — Oliver desviou os olhos da pequena chama.

— Porque lá não tem elevador quebrado. Lá tem minha cama. E comida.

— Tem suco?

— Tem.

— E videogame?

— Tem.

— Posso ir morar com você?

— Não — Brendan respondeu sem hesitar.

— Por quê?

— Porque eu gosto de silêncio.

— Mas eu faço silêncio quando eu durmo!

— Ótimo — Brendan sorriu sem humor. — Então dorme agora.

— Não tô com sono.

— Claro que não tá. — Ele bufou.

Charlie riu baixinho, achando aquela interação um máximo.

— Vocês dois parecem irmãos brigando.

— Não insulte meu futuro — disse Brendan.

Jubileu se levantou e apertou o botão do interfone de novo. Silêncio. Nada. Ninguém respondeu.

— Deve ter falhado — ela encolheu os ombros.

— Incrível — Brendan secou o suor da testa. — Estamos presos num caixote de ferro com uma mulher zen, um Pokémon hiperativo e… — Ele olhou para Jubileu. Pausa. — E você.

Ela ergueu uma sobrancelha.

— E eu o quê? — ela cruzou os braços, tentando não se sentir ofendida pelo fato de não ter recebido adjetivo nenhum.

— Você parece normal demais pra estar aqui. — Ele fez um movimento com a mão.

— Obrigada… eu acho?

— Isso não é elogio — informou ele.

Charlie fechou os olhos por alguns segundos, pensando no que fazer enquanto estivesse ali dentro. Estarem presos era claramente o sinal de algo, ela só não sabia dizer, ainda, o quê exatamente. E como um clique em sua cabecinha iluminada, ela disse:

— Eu posso puxar uma oração?

— Pode não — Brendan falou rápido.

— Ahh! Eu quero uma oração! — Oliver se animou. — Minha mãe ora comigo toda vez que a gente entra no carro!

— Você sabe dirigir? — Brendan arqueou a sobrancelha, intrigado.

— Eu tenho sete anos, cara. — O menino respondeu como se isso fosse óbvio.

— Então por que vocês oram pra entrar no carro?

— Porque minha mãe dirige.

— Faz sentido — Brendan admitiu, e riu.

Charlie limpou a garganta tentando não rir também.

— Eu não sou cristã, mas acredito em Deus. E, em situações como essa, não há ninguém em que possamos confiar senão nEle. Então, queridos, vamos respirar juntos…

— Não — Brendan negou.

— …visualizar uma luz…

— Não, gente. Não visualizem nada! Visualizar luz num elevador quebrado é perigoso. A gente já tem fogo, Charlie. Fogo! A gente não precisa imaginar mais luz nenhuma.

Jubileu, sem aguentar segurar mais, finalmente riu alto. Sua risada era contagiante, ela riu de um jeito tão intenso que seus ombros chacoalharam. Brendan a encarou, não se sentia ofendido, só muito exausto.

— Engraçado, é?

— Muito — Jubileu respondeu, o riso morrendo aos pouquinhos.

Charlie ignorou os protestos dele e começou a orar baixinho. Oliver segurou a mão dela, fechando os olhinhos. Jubileu, meio sem jeito, tocou o ombro do garotinho. Brendan cruzou os braços e olhou para o teto buscando negociar paciência com Deus.

A chama da vela tremulou e um calor suave se espalhou. E, por um segundo, o silêncio pareceu menos opressor.

Então Brendan, sempre Brendan, quebrou a leveza do momento.

— Já que ninguém perguntou, eu também posso contribuir para o clima: tenho uma história sobre elevadores quebrados.

— Você tem? — perguntou Oliver, animadíssimo.

— Claro que não. Eu inventei agora. Mas posso contar mesmo assim se isso mantiver vocês ocupados e impedir a Charlie de acender uma fogueira aqui dentro.

Jubileu cruzou os braços e sorriu de lado.

— Conta, vai. Pior do que já tá, não fica.

Brendan respirou fundo, como se estivesse prestes a saltar de um penhasco.

— Era uma vez, um cara que só queria chegar na festa de fim de ano e comer de graça, mas a vida olhou pra ele e disse “hoje não, campeão”. Então ele ficou preso no elevador fuleiro com um menino que fala sem parar, uma sacerdotisa das chamas e uma moça com cara de quem sabe todos os segredos do universo, mas não conta nenhum.

Jubileu piscou devagar, apontando para si mesma.

— Eu?

— Sim. — Brendan umedeceu os lábios. — Você tem essa vibe de quem é cheia de reviravoltas.

— Ou talvez eu só esteja tentando sobreviver a vocês três — ela deu de ombros.

Oliver bateu palmas.

— Continua!

— Não tem continuação — Brendan secou o suor que escorreu pela ponte do nariz. — Minha história é curta. Tipo minha paciência.

Charlie acenou com a vela, muito satisfeita.

— Cada um aqui está revelando exatamente quem é. Isso é lindo.

— Lindo é a porta abrindo — respondeu Brendan. — E não está acontecendo.

Eles se entreolharam.

O relógio agora marcava 10:27 PM. O ar ficou relativamente mais quente.

E a situação do momento era: um elevador parado, quatro desconhecidos, uma vela acessa e a sensação absurda de que aquilo ali era só o começo.