Cheonggyecheon parecia um cenário de dorama.

O rio artificial cortava a cidade e suas margens estavam decoradas com luzes penduradas em forma de estrelas, bolas, cristais. Havia lanternas de papel coloridas, algumas com desenhos de anjos, renas, árvores, outras com símbolos que Bohyun não sabia identificar. Casais caminhavam de mãos dadas, os mais empolgados parando para selfies em cada curva do curso d’água.

Ele encontrou uma vaga um pouco distante da parte mais lotada e desligou o motor.

— A gente pode descer aqui e andar um pouco se você quiser — sugeriu. — Não vou ligar o taxímetro por hora nem nada. Considere um bônus do pacote.

— Você não precisa… — ela começou.

— Eu sei — ele deu de ombros. — Mas meu médico disse que é bom esticar as pernas e ter contato com a luz natural.

Ela olhou para as luzes artificiais refletidas na água e riu.

— Serve assim também?

— Vamos fingir que sim.

Eles desceram. O ar frio bateu no rosto dos dois, fazendo com que Jihyun puxasse mais o sobretudo para perto do corpo. Bohyun trancou o carro e enfiou as mãos nos bolsos.

Caminharam lado a lado em silêncio por alguns metros, ouvindo o som da água correndo, misturado ao murmurinho das conversas e à música distante de algum palco improvisado.

— Isso é quase romântico — Jihyun comentou, observando um casal que tentava, sem sucesso, tirar uma foto perfeita de suas mãos entrelaçadas com o rio ao fundo.

— Eu prefiro focar no “quase” — ele respondeu. — Se pensar demais no “romântico”, aí a solidão bate mais forte.

— Você sempre foi assim? — ela perguntou de repente. — Cínico com humor?

— Eu prefiro chamar de realista com graça — ele deu um meio sorriso. — Mas, sinceramente? Não. Eu era bem mais… — fez um gesto vago com a mão. — Ingênuo. Otimista. Acreditava que, se eu fizesse tudo certo, as coisas dariam certo comigo.

— Ah, o famoso contrato invisível — ela fez uma caretinha engraçada. — “Eu me comporto, a vida compensa.”

— É — ele riu, sem alegria. — Ainda tô tentando cancelar a assinatura.

Ela o observou pelo canto do olho.

— E o que te deixou assim? — perguntou. — Trabalho? Família? Um coração partido?

Bohyun encarou a água vendo o reflexo das luzes tremendo na superfície.

— Um pouco de cada — suspirou. — Meu pai foi embora quando eu era adolescente, aquele clássico. Prometeu que ia voltar, não voltou, mandou mensagens sofrendo, depois sumiu de vez. Minha mãe segurou tudo sozinha, e eu criei essa fixação em “não decepcionar ninguém nunca”. Spoiler: não deu certo.

— Tem pais que são especialistas em criar traumas vitalícios na gente, incrível — Jihyun murmurou.

— E você? — ele devolveu. — Qual é a sua história de origem, super-heroína triste?

Ela riu, mas o som pareceu preso na garganta.

— Eu era a filha certinha — começou. — Boas notas, faculdade certa, emprego certo, namorado certo. Eu fazia tudo “como deveria ser”. Aí descobri que meu namorado “certo” estava vivendo uma segunda vida com minha melhor amiga “certa”.

Bohyun parou por um segundo, virando-se um pouco para encará-la.

— Ele traiu você com a sua melhor amiga?

— Trair implica em algum nível de culpa — ela encolheu os ombros. — No caso deles, parecia mais um projeto de longo prazo. Mentira estruturada. Eu era só uma distração.

Ele inspirou devagar.

— Sinto muito.

— Eu também — ela respondeu com uma sinceridade cansada. — Mas, curiosamente, não é isso que mais pesa.

— E o que é?

Ela fitou uma das lanternas de papel que flutuava, suave, na beira da água.

— Perceber que eu não me conhecia fora da versão que eu representava para eles — ela o encarou. — Quando tudo desmoronou, sobrou quem? A Jihyun boa filha, boa funcionária, boa namorada, boa amiga… para quem? Não tinha mais palco.

Bohyun engoliu em seco.

— E agora?

— Agora eu estou tentando descobrir quem é a mulher que pega um motorista aleatório na véspera de Ano Novo para rodar pela cidade em vez de ir chorar no banheiro da mãe — explicou, com um meio sorriso. — Talvez não seja uma pessoa muito saudável.

— Ou talvez seja alguém que não quer repetir o mesmo papel — ele sugeriu, com cuidado. — Que decidiu que, se é pra estar mal, pelo menos vai estar mal vendo coisas bonitas.

Ela desviou o olhar, mas um cantinho do lábio se ergueu.

— Você tem essa mania de achar o lado “edificante” das coisas? — perguntou. — Isso é coisa de crente?

— Um pouco — admitiu. — Mas também é coisa de gente que precisa se convencer de que ainda vale a pena tentar.

Eles continuaram caminhando, o silêncio agora confortável de um jeito estranho. Próximos demais para serem totalmente estranhos, distantes demais para serem qualquer outra coisa.

Quando voltaram para o carro, o relógio marcava 23h12.

— Próximo destino? — Bohyun perguntou, ligando o motor.

— Surpreenda-me, motorista — disse ela, encostando-se no banco. — Me leva para um lugar em que eu possa fingir que minha vida está em ordem.

— Então talvez a gente devesse dar uma volta em Gangnam — ele riu. — Lá todo mundo finge muito bem.



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Gangnam estava ainda mais caótica do que o normal.

Luzes de todos os lados, telas gigantes exibindo propagandas com idols sorridentes, carros importados desfilando devagar como se fossem parte de um desfile, e uma multidão que ocupava calçadas e parte da rua, com copos de plástico nas mãos e risadas altas demais.

— Aqui o dinheiro é a primeira religião — Bohyun comentou, observando o movimento.

— E a segunda é a estética — completou Jihyun. — Seul conseguiu transformar insegurança em modelo de negócios.

— Você trabalha com o quê? — ele perguntou, curioso.

— Marketing — ela respondeu, sem rodeios. — Sou uma das pessoas que ajudam outras pessoas a acreditarem que precisam de coisas que, no fundo, não precisam.

— Ah, então a culpa é sua — ele fingiu indignação. — Por sua causa eu já comprei uma fritadeira elétrica que nunca usei.

Ela gargalhou, genuinamente.

— Bom, pelo menos eu sou boa no que faço — reverenciou a si mesma. — Trabalho em uma agência. Campanhas, slogans, fotos perfeitas de vidas perfeitas que não existem.

— E isso não te cansa?

— Cansa — ela revelou. — Mas paga as contas. E, às vezes, é até divertido. Eu só não posso confundir as campanhas com a realidade. Nem sempre consigo.

Bohyun assentiu. Ele podia não entender de fotos perfeitas, mas entendia de fingir que estava tudo bem para não preocupar ninguém.

— E você? — ela perguntou, virando o rosto para ele. — Dirigir foi plano A ou plano emergencial?

— Plano… intermediário — ele escolheu as palavras. — Eu trabalhava em um escritório, daqueles com cubículos e ar condicionado forte demais. Mas aí a empresa fez cortes, mandaram muita gente embora. Eu fui um dos “muitos”.

— Isso tem cara de eufemismo para “foi um desastre” — ela comentou.

— Mais ou menos — ele deu um sorriso breve. — No começo eu entrei em pânico. Depois pensei que talvez fosse uma chance de fazer algo diferente. Aí comecei a dirigir. O problema é que “fazer algo diferente” não resolveu os boletos.

— Mas resolveu alguma outra coisa? — ela insistiu.

Bohyun pensou nas madrugadas ouvindo histórias de estranhos, nas vezes em que um simples “boa noite” tinha salvado o humor dele.

— Resolveu minha vontade de conhecer gente — admitiu. — Parece idiota, mas… tem algo bonito em ver um pedaço da vida das pessoas por meia hora e depois nunca mais.

— Mesmo quando elas vomitam no seu carro?

— Olha, aí já é experiência demais — ele fez expressão de nojo e riu.

O relógio avançava. Do lado de fora, uma contagem regressiva começou em alguma esquina, mas ainda faltavam alguns minutos para o ano virar de fato. Jihyun olhou pela janela, observando foguetes preparados em algumas sacolas.

— Você tem alguém? — ela perguntou, de repente. — Tipo… alguém esperando mensagem de “feliz ano novo”?

Ele pensou na mãe, que provavelmente mandaria um áudio longo, cheio de bênçãos. Pensou em dois amigos da igreja que com certeza lotariam o grupo de mensagens com gifs e frases de impacto, que ele silenciaria depois de um tempo.

— Tenho minha mãe — respondeu. — E alguns amigos. Mas ninguém… — fez uma pausa, procurando a palavra. — Ninguém que vá se ofender se eu virar o ano dirigindo.

— Eu tenho minha mãe também — ela coçou o olho esquerdo. — Mas é diferente. Se eu aparecesse lá hoje, ela ia me receber com comida, cobertor, sermão, e aquele olhar de “sabia que você ia voltar”. Não estou pronta para esse olhar.

— Ela sabe do… namorado? Da amiga?

— Sabe de uma parte — Jihyun tragou a saliva. — Minha mãe é do tipo que acha que a solução para a dor é: “ora, trabalha, casa de novo”. Eu ainda estou na fase do “eu não quero fingir que está tudo bem só porque eu poderia estar pior”.

Bohyun entendeu mais do que gostaria.

— É, tem gente que acha que fé é anestesia, e de certa forma, ela é — ele arrumou o boné. — Mas, tipo… “se você acredita em Deus, não devia estar triste”. Eu acho isso meio desumano. Sabe, Deus não invalida nossos sentimentos e dores, pelo contrário.

Ela o encarou, interessada.

— Você fala de Deus de um jeito… menos irritante do que a maioria — observou.

— Obrigado, eu acho — ele respondeu, rindo. — Eu só não consigo acreditar em um Deus que fica distribuindo castigo porque você não está “feliz o suficiente”. Jesus chorou por um amigo morto, e Ele sabia que ia ressuscitar o cara em cinco minutos. Então, acho que Ele aguenta a nossa tristeza também.

A frase parecia simples, mas pousou em um lugar inesperado dentro dela.

Jihyun voltou a olhar para a rua, como se precisasse de alguma coisa concreta para não encarar o impacto do que sentiu.

— Talvez — disse, por fim. — Mas eu ainda não estou pronta para fazer as pazes com Ele.

— Tudo bem — ele respondeu, sem pressa. — Ele tem tempo e acredite, Ele é muito paciente.

O silêncio que se seguiu não foi desconfortável. Do lado de fora, a contagem regressiva começou a ecoar em vários pontos da cidade, em coreano e em inglês.

Dez… nove… oito…

Ahn Bohyun olhou rapidamente para o relógio do carro. Aquela era, oficialmente, a virada do ano.

Sete… seis…

Jihyun ficou olhando pela janela, vendo um grupo de jovens subindo em um banco público para ter uma visão melhor dos fogos.

Cinco… quatro…

Bohyun encostou o carro em uma rua menos movimentada, reduzindo a marcha.

Três… dois… um…

Um coro estourou do lado de fora.

— Feliz Ano Novo! — milhares de vozes gritaram.

Fogos começaram a estourar no céu da cidade, refletindo nas janelas e nos prédios. O barulho metálico, a luz colorida, tudo parecia maior e mais alto do que realmente era.

Dentro do carro, por um segundo, houve só silêncio.

— Feliz Ano Novo, motorista — Jihyun disse, por fim, com um sorriso cansado, mas real.

— Feliz Ano Novo, passageira do tour — ele respondeu.

Ela virou o rosto, avaliando-o por um instante, como se quisesse guardar aquela imagem para mais tarde.

— Obrigada.

— Pelo quê? — ele perguntou.

— Por dirigir devagar enquanto eu tentava não desmoronar — disse, simples. — Poderia ser só mais uma corrida. Não foi.

Ele engoliu em seco, surpreso com a honestidade.

— Obrigado por… — procurou as palavras. — Me lembrar que, mesmo quando a gente acha que está só trabalhando, tem alguma coisa acontecendo com a gente também.

Ela riu baixinho.

— Isso foi quase um sermão.

— É o efeito colateral de crescer na igreja.

Ele seguiu dirigindo por mais alguns minutos, agora sem pressa, como se alongar o trajeto pudesse esticar também aquele intervalo de vida suspensa entre o que tinha sido e o que ainda vinha.

Por fim, o aplicativo indicou o destino final: um prédio residencial numa rua mais tranquila, longe do barulho principal.

— Chegamos — ele murmurou, encostando.

Jihyun olhou para o prédio, depois de volta para ele. Parecia relutante em soltar o cinto.

— Se eu disser que foi o melhor réveillon dos últimos anos, você vai achar triste demais? — perguntou.

— Vou achar sincero — respondeu. — E um pouco triste, sim. Mas… eu entendo.

Ela assentiu, como se isso bastasse.

— Vou encerrar a corrida aqui, tudo bem? — ele avisou, mexendo no aplicativo.

— Espera um segundo — ela pediu. — Deixa eu só… — pegou o celular na bolsa e digitou alguma coisa.

Enquanto isso, Ahn Bohyun finalizou a corrida com o valor mínimo indicado pelo sistema. Em seguida, apareceu a tela para avaliação do passageiro. Ele nem chegou a olhar.

— Pronto — disse Jihyun, guardando o telefone. — Agora você pode encerrar.

Ela tirou o cinto, mas não abriu a porta imediatamente.

— Ahn Bohyun?

— Hm?

— Se Deus estiver mesmo aí em cima, olhando — ela falou devagar —, diz para Ele que… eu ainda estou chateada, mas… sou grata por Ele te colocar no meu caminho essa noite.

Ele sorriu, surpreso pela frase.

— Posso dizer — respondeu. — Mas acho que Ele ouviu direto de você.

Jihyun abriu a porta, o ar frio invadindo o carro.

— Boa noite, motorista — disse, com um aceno pequeno.

— Boa noite, Jihyun.

Ela desceu, ajeitou o gorro e começou a caminhar em direção à entrada do prédio. Por um instante, Bohyun acompanhou o passo dela pelos espelhos.

O aplicativo apitou.

Corrida encerrada.

Ele suspirou, sentindo uma pontinha de vazio estranho. A noite tinha sido longa, mas não lenta. Tinha algo de diferente naquele passeio que ele não sabia dizer com exatidão o quê.

Ia guardar o telefone no suporte quando uma nova notificação surgiu na tela.


Mensagem de passageiro: Jihyun.


Ele franziu a testa e abriu o chat.


Passageira: Amanhã, mesmo horário, tour de Ano Novo?


Bohyun encarou a mensagem por alguns segundos, o reflexo dos fogos ainda piscando no para-brisa, embora já tivessem diminuído lá fora.

Um sorriso escapou antes mesmo que ele pudesse controlar.

Talvez o ano novo não fosse tão promissor quanto as propagandas diziam. Mas, por um breve momento, parecia que alguma coisa tinha se mexido um pouco para fora do lugar de sempre.

Os dedos dele correram pelo teclado.


Motorista: Conte comigo.


Ele ligou o carro e deu partida, planejando mentalmente as rotas para encontrá-la novamente.