Notas iniciais
Alguns esclarecimentos. Átila salva Maria Isabel e ela não morre, eles acabam se aproximando por causa da filha. Era uma fanfic multi-chapter, mas nunca mais consegui escrever, mas como eu gosto muito dessa parte aqui e ela meio que pode ser lida sozinha, vamo que vamo.
Boa leitura

A máquina tipográfica havia dado um pane e apenas agora Átila conseguia colocar para secar as últimas folhas de seu jornal. Ele pendura as folhas com reverência. Está cansado, já é tarde da noite, deveria estar em casa com sua nova esposa e sua filha; mas também está feliz de estar fazendo o que sempre quis, de ter um pouco de sossego no espaço que havia sido sua casa durante anos.

É quando ela entra pela porta, sem bater.

— Achei que iria te encontrar aqui.

Átila vira-se em direção a voz de Maria Isabel. Inconscientemente olha para a janela, certificando-se que não tinha passado mais tempo do que ele achara e já era dia. A lua brilha lá fora.

— Maria Isabel! – Ele exclama surpreso. – O que vosmecê faz aqui?

Sua voz não tem acusação, apenas curiosidade. Maria Isabel sorri, seus olhos negros brilhando quando ela inclina a cabeça ligeiramente para o lado.

— Vosmecê não tem vergonha, professor? Um homem casado, fora de casa a essa hora da noite.

Átila sorri e percebe que não é nada urgente. Ele pega outra folha de papel e vai pendurá-la.

— De fato, é madrugada já. Eu estou trabalhando. Vosmecê deveria se preocupar consigo mesma.

Ela se encosta contra a mesa, observando-o trabalhar.

— Por que deveria? Vão pensar mal de mim? Já fui desgraçada o suficiente.

Átila vira-se para ela a tempo de ver a expressão que o culpa por isso. Ele se arrependera de a ter exposto daquela maneira com seus panfletos, mas jamais admitiu isso para Maria Isabel. E jamais admitiria.

— É perigoso. – Ele diz.

Maria Isabel ri.

— A coisa mais perigosa nessa cidade, sou eu.

Átila sorri, pegando outra folha.

— Certo. Então, porque você está arriscando as pessoas de bem da cidade saindo no meio da noite para vir até aqui?

— Eu queria te ver.

O coração de Átila perde uma batida e ele finge para si mesmo que nada aconteceu.

— Eu deduzi. – Ele diz, fingindo humor.

— Eu não conseguia dormir.

Ele a sente se aproximando dele.

— Vosmecê deveria descansar. – Ele aconselha. – Tem uma longa viagem há fazer amanhã.

Maria Isabel irá para a corte com a senhora Beatrice, por tempo indeterminado. Jasmim havia ficado triste com a notícia, mas logo superara. Átila ainda tem dificuldades em aceitar a decisão da mãe de sua filha e não sabe ao certo por quê. Bem, ele sabe, mas não quer admitir. Ele está fazendo aquilo cada vez mais, se tratando de Maria Isabel.

— Sim. – Diz Maria Isabel, mais perto do que estava antes. – Acho que esse é o problema.

Ele escuta seus passos se afastando e vira-se para ela.

— Por quê? Vosmecê não quer ir?

Ela balança uma mão no ar, recostando-se novamente contra a mesa. Ela está de frente para ele, avaliando-o, estudando-o, como costumava fazer quando os dois estavam a sós.

— Eu quero. É só que... – Ela suspira. – Há certas coisas que eu gostaria de dizer. Coisas que estão presas dentro de mim há um tempo. E eu percebi que não posso ir sem dizê-las a vosmecê.

Átila pega um pano e limpa suas mãos sujas de tinta nele. Seus olhos estão cravados nos de Maria Isabel, seu coração bate mais acelerado que o normal, temendo seja lá o que ela tenha a dizer. Ele se aproxima da mesa, mas não próximo o bastante dela.

— Tudo bem. – Ele diz sério. – Eu estou ouvindo.

Ela abre a boca, mas nenhum som sai. Suas bochechas se coram levemente em rosa e ela desvia o olhar. Ela caminha para longe dele.

— Obrigada. – Ela diz por fim, em um fôlego só. – Vosmecê salvou a minha vida e eu nunca disse nada, mas... Obrigada.

Eles passam quase cinco segundos apenas olhando um para o outro. Maria Isabel com expectativa, Átila descrente com o que ouvira. Por fim, ele ri.

— Maria Isabel, vosmecê não precisa dizer nada. Nós estávamos em um casebre incendiado e eu te tirei de lá. Qualquer pessoa na minha posição teria feito o mesmo.

— Mas foi vosmecê! – Ela para e procura pelas palavras certas. – Eu queria ficar e você não desistiu de mim.

— E eu jamais desistiria. – Ele se aproxima dela com passos cautelosos. – Você é a mãe da minha filha. Apesar de tudo, nós estamos amarrados um ao outro. – Ele sorri para que ela fique calma. – Isso é tudo? Porque está tudo certo. – Ele inclina-se na direção dela de forma brincalhona. – De nada.

Mas Maria Isabel parece mais nervosa que antes e Átila no fundo sabe que não é só aquilo.

— Não. – Diz Maria Isabel. – Tem mais.

— E o que é? Diga-me.

— Eu...

Ela lhe lança um olhar e caminha na direção oposta no mesmo momento, fugindo. Átila dá dois passos em sua direção e para quando ela para, perto da janela. Ela olha para o céu e a lua ilumina seu rosto. Ela está mais linda do que Átila jamais a vira.

— Vosmecê partiu meu coração. – Ela diz em um tom baixo.

Aquilo pega Átila de surpresa e o deixa com a sensação de ter levado um soco no estômago. Ela passa os braços ao redor de si e, sem olhar na sua direção, continua:

— Quando eu descobri que estava esperando um filho, a primeira coisa em que pensei foi em você. E eu estava um pouco assustada, mas não estava preocupada. Porque você disse que me amava e é claro, é claro, que você iria se casar comigo. E tudo ficaria bem. Mas quando eu sugeri, quando eu pedi, você me negou.

Seus olhos ardem e sua garganta está fechada. Ele engole, tentando recuperar qualquer controle que tenha para poder respondê-la.

— Maria Isabel, eu não sabia que vosmecê estava grávida. Vosmecê nunca me disse.

Ela vira-se para ele em um acesso de fúria e parece a velha Maria Isabel de sempre. A louca Maria Isabel. Ele vai para trás quando ela caminha na sua direção.

— Mas não deveria ser importante! Vosmecê não deveria ter se casado comigo só porque eu estava grávida. Mas porque vosmecê disse que me amava. – Um soluço escapa de seus lábios e ela derrama a primeira lágrima daquela noite. Sua voz fica baixa e quebrada. – Eu me entreguei a vosmecê.

Átila abaixa a cabeça, envergonhado e arrependido.

— Vosmecê tem razão. Está certa. Eu fui um imbecil.

Ela ri, mas não tem humor, apenas escárnio.

— Vosmocê foi pior. Por que, como se isso não fosse o suficiente, logo vosmecê estava enrabichado com ela. Para todo mundo ver.

Ela nunca fora muito cortês quando se referia à Filipa, mas nunca havia sido tão venenosa, seu rosto contorcido em uma expressão de nojo.

Átila lembrou-se das primeiras semanas da volta de Maria Isabel, ele a seguia como um tolo, observava cada passo, absorvia todas as palavras que eram ditas sobre sua pessoa. Mas ela estava mais preocupada com Miguel.

— Quando vosmecê voltou da corte, eu tentei falar, tentei...

— Quando vosmecê quis! – Ela o interrompe violentamente. – Nos seus próprios termos, no seu próprio tempo. Eu tinha passado meses longe da minha família, fingindo ser outra pessoa. Eu dei à luz nos braços de uma meretriz, rodeada pelos malditos ciganos! Com estranhos! Eu dei o meu bebê. E tudo porque você achou que eu não servia para casar. Eu estava farta de você!

A ira de Maria Isabel atiça a ira que existe em Átila, que desperta sempre que ele é lembrado sobre o que aconteceu com Jasmim. Ele caminha até ela, tão furioso quanto Maria Isabel.

— Primeiro de tudo, você não precisava fazer isso. Ninguém te obrigou.

Maria Isabel ri outra vez, alto.

— E o que você esperava que eu fizesse? Tivesse um bebê e vivesse uma vida tranquila como mãe solteira? Em que mundo você vive? Ou talvez então vosmecê finalmente resolvesse se casar comigo. Por obrigação! Por pena!

— Vosmecê poderia ter entregado Jasmim a mim!

— Eu não queria nada meu pertencendo a vosmecê!

— Ela era uma criança! E o seu egoísmo quase a matou!

— E vosmecê não tem ideia do quanto eu me arrependi! Não tem ideia.

E tão rápido quanto o fogo havia se acendido dentro dela, ele se apaga. Ela respira fundo, passando uma mão pelos cabelos, pelo rosto, descansando em sua barriga enquanto ela controla a respiração. Ela chora e o choro dela apaga a raiva de Átila. Ele se aproxima com cautela, colocando uma mão nas costas de Maria Isabel.

Ele quer gritar com ela, quer que ela continue gritando e lutando e dizendo coisas que não fazem sentido para aumentar ainda mais sua ira. Mas ela diz coisas que fazem tanto sentido e que se encaixam e deixam Átila cheio de vergonha.

Ela entra em sua vida como um furacão, tirando tudo do lugar e o deixando louco. Não há ninguém no mundo que ele odeie tanto quanto Maria Isabel, mas então ela chora ou sorri ou apenas existe perto dele, em paz, e Átila se lembra da menina para quem ele costumava dar aulas, lembra-se da mulher nua debaixo de si. Ele lembra os sorrisos que eram apenas para ele, e os gemidos e as palavras sussurradas ao pé do ouvido.

Ele lembra-se da menina que tem em casa e que se parece tanto a Maria Isabel que ele não consegue evitar amá-la um pouquinho mais cada vez que a vê.

— Eu só achei... – Diz Maria Isabel, virando-se de frente, mas sem olhar para ele. – Eu pensei que as coisas estavam mudando entre a gente.

Ele passa uma mão por seus cabelos.

— Eu também.

— Mas vosmecê casou com ela mesmo assim. – Ela olha para ele com olhos marejados, a voz não tem o mesmo aço de antes. – E todos os motivos que vosmecê me deu para não se casar comigo, deveriam valer para ela também. Deveria. As circunstâncias são quase as mesmas. Mas você não liga para isso agora. Por causa dela. – Mais lágrimas caem de seus olhos e ele passa uma mão pela bochecha molhada. – Já faz tanto tempo. Não deveria mais me machucar. Mas machuca.

— Ah, Maria Isabel...

Ele a puxa e a envolve em um abraço apertado. Ela passa os braços ao redor dele, segurando-se a ele. Átila inspira seu perfume e sente seus cabelos contra seu rosto e suas curvas contra suas mãos.

— Por quê? – Maria Isabel tem o rosto contra seu pescoço e sua voz sai abafada. É perto o suficiente de seu ouvido para que ele possa entendê-la. – Por que vosmecê não se casou comigo?

Ele suspira longamente e percebe que está embalando os dois.

— Eu era um idiota. – Ele responde. – Eu deveria. – Maria Isabel levanta a cabeça para olhá-lo nos olhos e Átila quer beijá-la mais do que quer respirar. – Eu te amava. Eu era louco por vosmecê.

Ela não sorri, mas as lágrimas param. Nenhum dos dois sai do abraço e, por um momento, é como se nada tivesse mudado.

— Eu também te amava. – Ela diz baixinho.

Eles estão falando no passado, mas uma parte de Átila grita que aquilo tudo ainda é muito presente, ainda é muito real.

Ela inclina a cabeça em sua direção e ele captura seus lábios no meio do caminho. É um beijo demorado e atiça um desejo em Átila que ele estava lutando para manter dormente. Maria Isabel se afasta.

— Vosmecê partiu meu coração. – Ela diz.

Átila beija um de seus olhos fechados.

— Eu sei. – Ele diz e beija seus lábios. – Eu sinto muito. – Ele beija sua testa. – Sinto muito. – Seu nariz.

Maria Isabel passa os braços por seu pescoço e eles se beijam profundamente.

Naquela noite, ele a beija. Ele faz amor com ela. Ele a ama, mais do que já havia amado. E ele a odeia por isso.

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Ela se veste devagar e ele observa sonolento enquanto ela coloca cada peça de roupa. Ela demora mais do que deveria com os laços de sua blusa.

Ele levanta e desfaz os laços novamente. Ela sorri e, com um olhar, o obriga a refazer o trabalho. Ele faz, com gosto, deixando seus dedos percorrerem sua pele sempre que possível. Ele quer mantê-la ali para sempre, mas o tempo passa e o deles já terminou há muito.

O sol vai surgir em pouco tempo, Maria Isabel tem uma viagem a fazer e Átila tem uma família para voltar.

Ele termina seu serviço e deixa suas mãos descansarem na cintura de Maria Isabel. Ele a beija, lentamente, querendo memorizar o seu gosto, gravá-lo para sempre em sua memória. Ela massageia sua nuca e sorri contra sua boca.

Eles se olham nos olhos. Os de Átila perguntam silenciosamente “Vosmecê vai voltar?”. Os de Maria Isabel brilham com malícia e carinho e não dizem nada que possa ser traduzido com palavras. Átila não sabe o que eles poderiam dizer.

Ela o beija uma última vez e sai pela porta sem dizer palavra, mas em paz. Quando a porta se fecha e esconde Maria Isabel de sua visão, o encanto se quebra.

Você chegou ao fim do livro. Parabéns!