- Seria... Coincidência...? – Matsuda ainda estava impactado com tudo aquilo, bem como os outros policiais.

- Não. Creio que não. – L respondeu. – Há 91% de chances da “chacina”, ou “suicídio coletivo”, ter ligação com a fuga de Light.

“Não é possível...”, Soichiro fitava incrédulo o noticiário do Canal 6. “Como se não bastasse ser um assassino condenado, agora Light é um fugitivo? Onde eu errei na educação do meu próprio filho?”

L estava em busca do instante em que aquelas pessoas morreram por tiros contra as próprias cabeças. Depois de alguns instantes, encontrou o ponto desejado da gravação.

- Pessoal, achei o momento em que tudo acontece. – avisou.

L acionou o vídeo, que mostrou as cenas que se desenrolaram enquanto estava conversando com os demais.

Um dos agentes penitenciários chegava à porta da cela onde Light ficava e tirou um molho de chaves da cintura. Destrancou a porta da cela, por onde Light passou, sem nenhuma algema. O jovem seguiu seu caminho, enquanto as pessoas apontavam as armas e atiravam contra suas próprias cabeças, caindo pesadamente em seguida.

O jovem prosseguia sua caminhada, sob o som de tiros disparados, urros e baques no chão. Em seguida, chegava outro jovem, de cabelos negros, óculos e com algumas folhas na mão, onde escrevia algo com uma caneta.

Esse jovem praticamente escoltou o Yagami para fora da penitenciária. Depois disso, saíram de cena do vídeo, onde permaneceram apenas os corpos inertes no chão.

Mesmo tão acostumados a ver cadáveres em cenas de crimes envolvendo assassinatos, os policiais ficaram estarrecidos ante aquela sequência. Não restavam mais dúvidas: Light era mesmo Kira, e estava comandando, de alguma forma, as ações do outro rapaz.

Matsuda olhou para o superintendente Yagami, que parecia bastante transtornado, embora procurasse não transparecer isso. O jovem era um dos que mais estavam próximos da família e sabia a dimensão do drama vivido por Soichiro, pela esposa e pela filha.

O que poderia fazer naquele momento? Sabia que palavras de conforto não adiantariam muito numa hora dessas. E quem era ele, Touta Matsuda, com seus vinte e poucos anos de idade, solteiro, pra aconselhar algo sobre dramas familiares? Era apenas um jovem detetive que ainda tinha muito a aprender sobre a vida profissional. Aliás, ainda tinha muito a aprender sobre todos os aspectos da vida.

Mais uma vez, sentia-se como um verdadeiro estorvo. Como sempre, um inútil.

Aizawa, por seu turno, olhava alternadamente para um e outro. Entendia a situação de Matsuda, assim como fazia ideia do que Soichiro estava passando no momento, visto que, assim como seu chefe, ele também era pai de família.

E, à medida que o tempo passava, o clima ali era cada vez mais tenso, com ares de princípio de um novo pesadelo.

*

Caminhava com passos resolutos e triunfantes para fora da penitenciária, ainda envergando o uniforme de presidiário. Sabia que a pessoa que escolhera seria competente para fazer seu “trabalho”. E, graças a isso, iria continuar a espantar o tédio que o consumia. Bem como o tédio de outro ser.

Quando viu que a porta da cela se abriu e que o carcereiro não lhe colocara as algemas, Light percebeu que seu plano chegava ao seu ponto mais alto. Fora um plano cuidadosamente trabalhado, mesmo estando preso ali por dois meses. Sim, fora o melhor plano que fizera desde que colocara as mãos no Death Note pela primeira vez.

Agora o duelo estava empatado em um a um.

- É, Ryuk, parece que o tédio acabou. – disse o jovem, entrando em um carro preto.

- Hehehe... E você volta a fazer as coisas se tornarem mais... Interessantes, Light.

- E vão ficar cada vez mais, Ryuk. Isso é apenas uma pequena recompensa por você ter me ajudado.

O shinigami soltou novamente seu risinho áspero. Realmente, nunca conhecera um humano como aquele. E nunca vivenciara algo tão – como sempre dizia – interessante. Os dois meses que tivera de tédio estavam sendo devidamente compensados.

- E qual vai ser seu próximo passo, Light?

- Paciência, Ryuk. – o jovem disse, mais à vontade, com a sensação de que estava seguro agora. – Preciso de mais um tempo para planejá-lo. Mas antes preciso planejar meu “acerto de contas”.

- Hmmm... Entendo...

Os olhos de Light se estreitaram, enquanto assumiam aquele característico brilho avermelhado. Sorriu confiante:

- Primeiro terei que eliminar alguns obstáculos que já me prejudicaram demais. Depois disso, prosseguirei com minha meta... Ser o deus de um novo mundo.

- E sei que essa meta será atingida. – disse o jovem de cabelos negros, que dirigia o automóvel. – Você tem todos os requisitos para ser o deus desse novo mundo.

- Sim, Mikami. Essa meta será atingida. Assim que eu remover todos os obstáculos à minha frente.

*

Mikami. Teru Mikami, estudante de Direito pela Universidade Toho, desejava ser promotor desde sua adolescência. Queria defender os fracos e oprimidos e exercer seu ideal de justiça.

Desde seus tempos de escola, sempre buscava fazer o que julgava mais justo para todos. Jamais ficava calado diante de alguma injustiça, e chegava a se ferir para defender seus ideais, dos quais era defensor ferrenho.

Ao entrar na universidade, sentiu que seu desejo em se tornar um promotor de justiça se tornava cada vez mais forte. E, ali, conheceu um jovem que tinha um senso de justiça tão forte quanto o seu.

Esse jovem se chamava Light Yagami.

Todas as vezes que se encontrava com ele, era inevitável discutir sobre o Caso Kira e se era válido ou não matar os criminosos, a fim de tornar o mundo melhor. Teru percebia que Kira era um “deus” que julgava os maus, com o objetivo de proteger os bons.

Concordava plenamente com as ações de Kira. Era preciso extirpar a podridão do meio das pessoas de bem, não importavam os meios.

Quando a imprensa noticiou a prisão do suposto Kira e revelou sua identidade, Mikami ficou surpreso no primeiro momento. Mas depois juntou os fatos e percebeu que não existiria pessoa melhor do que Light para ser o juiz que puniria os criminosos – mesmo ele dizendo abertamente que discordava das ações de Kira. E, evidentemente, ficou indignado com o fato de Light ter sido preso.

O “futuro deus” Kira não merecia ser preso. Ele estava praticando a justiça, punindo os criminosos e limpando o mundo dos maus. Por que queriam impedi-lo? Por que não permitiam que a justiça fosse feita?

Isso era inadmissível para Mikami.

No entanto, a oportunidade de ajudar Kira em sua missão acabou caindo em seu colo. Havia sido convocado para integrar o júri daquele que seria o “julgamento do século” no Japão. Era uma chance de ouro.

Light olhou para Mikami durante o julgamento e, quando tocou num pedaço de papel de amostra, viu um shinigami. Para ele, aquele fora o sinal que indicava que ele poderia ser o escolhido para auxiliar Kira enquanto este não podia agir. O Yagami deu um sorriso que parecia dizer “espere por instruções”.

Teru entendeu e, após ouvir a sentença proferida pelo juiz, procurou manter a calma e o sangue-frio. Apesar disso, sentia-se indignado com o resultado desse processo, que fazia com que Light voltasse a ficar atrás das grades.

Mas, dias depois, a caminho de casa, encontrou um envelope caído no chão. Era um envelope pardo, pouco maior do que uma folha sulfite, estava lacrado e tinha escrito o seu nome, apesar de não ter escrito o nome do remetente. Enquanto se agachava para pegá-lo, ouviu um som de asas batendo, como se algo estivesse levantando voo dali.

Ao chegar, foi logo inspecionando o conteúdo do misterioso envelope. Encontrara ali cinco folhas de caderno em branco, e outra folha sulfite escrita à mão. À medida que lia o manuscrito, examinava as outras folhas de papel minuciosamente.

Foi quando pegou a caneta e decidiu fazer um teste. Ligou a TV no noticiário, onde estava sendo transmitida a cobertura de uma negociação entre a polícia e um sequestrador. Ouviu o nome do meliante ser mencionado e sua foto ser divulgada. Meio hesitante, escreveu o nome “Hiro Okuda” na folha e cronometrou 40 segundos em seu relógio de pulso.

Logo que transcorreram esses 40 segundos, viu o resultado pela TV. Hiro Okuda estava morto devido a um súbito enfarte fulminante.

Incrédulo, Mikami olhava para a TV e, em seguida, olhava para o papel onde estava o nome do morto. Não podia acreditar no que estava ocorrendo. Seria mesmo verdade tudo aquilo?

A resposta não demorou a surgir. Ela veio acompanhada de uma gargalhada seca.

Teru olhou para a janela e deu de cara com um estranho ser. Logo reconheceu que era o mesmo ser que vira no fórum.

Era o shinigami.

- E aí? Não vai falar nada? – a voz áspera do shinigami o interrogou. – Tá com tanto medo que não consegue fazer nada?

- Não. Não estou com medo. – o jovem respondeu com tranquilidade. – Eu já tinha te visto antes, no julgamento de Kira.

- Oh, é verdade. Eu me lembro do seu rosto.

- Você tem alguma ligação com esses papéis, shinigami?

- Hehehe... Pode me chamar de Ryuk. Sim, tenho a ver com esses papéis. São folhas soltas do Death Note que está em poder da polícia. Light conseguiu tirá-las antes que esse caderno fosse às mãos deles. Ele achou que você era a pessoa certa para o plano que está traçando.

- Entendo... Então sou o escolhido por Kira para julgar os criminosos, não é mesmo?

- De certo modo.

- Certo. Então pode me tirar algumas dúvidas. E estarei pronto para servir ao deus do novo mundo!

Mikami continuava a dirigir o carro, procurando por rotas menos usadas na região, a fim de não se deixar ser percebido. Sentia-se honrado em fazer parte de uma possível revolução, sob a batuta de alguém que possuía os mesmos ideais que os seus. Sentia-se honrado em estar colaborando com Kira na tarefa de construir um mundo melhor, sem a existência de criminosos, e onde os maus seriam completamente erradicados.

Com Light Yagami, o Kira, ele cria que tal mundo utópico era possível e seria real. Sem criminosos, sem pessoas más, e sem pessoas que prejudicavam a sociedade de alguma forma.

Teru Mikami estava disposto a fazer qualquer coisa para ser útil ao “deus” Kira. Qualquer coisa mesmo, pois seus olhos brilharam com aquele característico brilho escarlate, semelhante a Light.

Havia algo mais naqueles olhos do que se supunha, enquanto estavam atentos ao caminho do esconderijo.

Notas finais
Continua...