Entre a Luz e a Escuridão
2 Capítulo 2 - passado revelado.
Notas iniciais
(16 Anos Atrás)
O templo Tomakawa estava em silêncio naquela noite, nem mesmo o som de um grilo podia ser ouvido, o vento não soprava como de costume e o inverno estava mais rigoroso, pelo menos naquela noite.
A tristeza permeava aquele lugar, já que a vida de um ente querido estava próxima do fim.
- Não se lamente meu amor – dizia o senhor em sua cama – o importante é que eu fui feliz ao seu lado.
Tomakawa Ujima estava com os dias contados, seu câncer evoluiu a um nível irremediável e os médicos lhe deram mais dois dias no máximo embora ele acreditasse que não passaria dessa noite.
- Não fale assim, ainda existe uma esperança – pedia Kumiko ao lado do seu esposo – você vai se recuperar com certeza, deus não faria essa maldade conosco.
O casal já passava dos 50, se casaram cedo e compartilharam décadas de alegria e amor, nem mesmo com o diagnostico de câncer de um ano atrás puderam acabar com a alegria deles, infelizmente sempre existe algo do qual não se pode fugir pra sempre.
- Mesmo que nunca tivéssemos tido um filho eu não tenho arrependimentos, não me lembro de um dia que não fui feliz com você Kumiko.
- Não! Não se atreva a me abandonar! Eu não deixarei que a morte leve você! – ela segurava a mão de Ujima sentindo que poderia perdê-lo a qualquer momento.
Uma vida de alegrias não é facilmente abandonável, por mais que se diga que a pessoa pode ser feliz na outra vida é esta vida que mais nos interessa.
O quarto esfriou numa velocidade anormal como se todo o calor tivesse fugido do ambiente temendo algo, a luz enfraqueceu como se faltasse energia para mantê-la e de um canto escuro uma presença assustadora emergia.
- Quem disse que a morte precisa ser o fim de tudo? – falou a voz vinda das trevas – a morte pode ser apenas um incômodo passageiro.
Kumiko sentiu seu coração gelar ao ouvir a voz que vinha do canto onde antes não havia nada, ela forçou sua vista tentando encontrar a fonte da voz que lhe causava arrepios.
- Qu-quem está ai? – perguntou Kumiko.
- Sou aquela que trás a salvação para os já mortos – respondeu a mulher que saia do canto escuro.
Kumiko e Ujima olhavam aquele ser com um misto de espanto e admiração, uma bela mulher que usava um vestido finíssimo dava passos lentos em direção aos dois, sua aparência era no mínimo curiosa: seu longo cabelo sedoso e negro como piche quase tocava o chão, tocariam se não parecesse que a gravidade ao redor dela estivesse fraca e os fios de cabelo dançassem ao redor dela, sua pele era pálida como se pouco sangue existisse dentro dela, mas com certeza o mais intrigante eram seus olhos.
Seus olhos eram totalmente negros como o céu noturno e suas pupilas eram brancas, olhando atentamente os dois puderam notar que suas pupilas pareciam a lua com as mesmas crateras que todos podiam ver ao olhar pro céu, e seus pensamentos se perdiam ao olhar tanto aqueles olhos.
- Meu nome é Tenebra – apresentou-se a mulher misteriosa – deusa das trevas, da noite e dos morto-vivos, e o prazer é todo de vocês.
Aquela declaração deixou os dois mudos por um tempo, mas Ujima decidiu exigir explicações.
- Como você entrou aqui? E o que você quer?
Tenebra riu.
- Os mortais desse mundo são tão peculiares, não me lembro bem onde minha irmã estava com a cabeça quando os deixou soltos por ai.
Kumiko já estava ficando irritada com a intromissão da estranha invasora, no momento mais pesaroso de sua vida ela surgia do nada e zombava com se fosse uma piada.
- Eu exijo que saia daqui imediatamente!
Tenebra apenas encarou Kumiko com um olhar de reprovação, e esta sentiu suas forças desaparecerem e todos os seus sentimentos se converterem em uma tristeza esmagadora, ela já não via graça em viver sendo atingida por aquele olhar, era preferível se matar.
- Hoje eu estou de péssimo humor, então não volte a levantar a voz para mim – avisou Tenebra desfazendo seu ódio que atormentava a pobre senhora.
Kumiko parou de chorar quando foi amparada por Ujima que fazia força pra ficar de pé, ele a protegeria mesmo no leito de morte.
- O que quer de nós? – perguntou ele.
- Até que enfim chegamos ao ponto importante de hoje.
Tenebra estalou os dedos e do mesmo canto que ela saiu um esqueleto usando uma manta surrada e um capuz apareceu, o esqueleto trazia algo semelhante a um embrulho que se mexia devagar como se tivesse algo vivo dentro.
- Eu tenho uma proposta que com certeza vocês gostarão – disse Tenebra ao pegar o embrulho das mãos secas do esqueleto – o que acha de ganharem uma filha e viver mais um tempo?
Os dois não acreditavam no que ouviram, ela estava oferecendo uma filha e a vida de Ujima quem ela pensava ser para proferir tal oferta?
- Tudo o que vocês precisam fazer é cuidar dessa menina pra mim – disse ela abrindo o embrulho e mostrando o lindo bebê dentro dele – se fizerem isso posso curá-lo do câncer e garantir que nunca mais pegarão sequer uma única gripe pelo resto de suas vidas.
- Quem é essa criança? Onde estão os pais dela? – perguntou Kumiko.
- Os pais estão mortos, deram suas vidas pra garantir que ela sobrevivesse, e ela será alguém muito importante para meus súditos no futuro.
Olhando para a criança nos braços da deusa ela realmente parecia um anjo, brincava com o pano preto que lhe envolvia e tentava agarrar os fios do cabelo de Tenebra que passavam perto de suas mãozinhas.
- Vocês poderão criá-la como filha, ou neta se preferirem, mas saibam que um dia daqui a alguns anos voltarei para buscá-la, nesse dia terão que dizer adeus e entregá-la pra mim, aceitam a proposta?
Kumiko e Ujima ponderaram sobre a oferta, era tentadora demais para ser recusada e eles sempre sonharam em ter um filho, era como se fosse dois presentes pelo preço de um, mesmo achando que era bom demais pra ser verdade aceitaram a proposta, Tenebra sorriu e de repente os dois sentiram uma tranqüilidade que não sabiam explicar.
- Boa escolha, aproveitem bem suas vidas – disse Tenebra.
Ela ergueu a mão e com um gesto uma criatura negra do tamanho de um mico e semelhante a um demônio saiu de dentro do peito de Ujima, algo assustador de se ver.
- Este é seu câncer – disse Tenebra alisando a criaturinha – não é uma graçinha?
Os dois não souberam o que responder, estavam assustados demais com a demonstração de poder daquela deusa.
- Como prometido, dentro de poucos meses você estará forte como um garoto – disse Tenebra olhando pra Ujima – e nunca mais adoecerão, cuidem bem da menina, deixarei alguém de olho em vocês pra garantir isso.
Estalando os dedos mais uma vez algo surgiu da escuridão, dessa vez uma serpente negra que parecia olhar o ambiente curiosa foi o que saiu.
- Este é Vulthar, um de meus generais, ele ficará sempre por perto pra vigiar vocês e tomar conta dela, agora adeus e lembre-se que em alguns anos voltarei para buscá-la.
Tenebra desapareceu deixando a criança sobre a cama, Vulthar se aninhou em volta dela e passou a dar instruções, avisos e recomendações.
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(Hoje)
Isawa ouvia toda a história contada por seus avós, ou melhor, aqueles que ela achava serem seus avós, por mais absurda que essa história parecia no fundo ela sentia que não era mentira, e depois do que aconteceu hoje nada parecia incrível demais pra ser verdade.
- Por que nunca me contaram isso antes? E quem são aqueles que vocês disseram serem meus pais?
- Aquele é meu irmão mais novo e a esposa dele – respondeu Ujima – é verdade que eles morreram num acidente de carro, mas eles nunca foram seus pais biológicos.
- Nunca lhe contamos essa história por que era impossível você acreditar em nós, só iria confundi-la – disse Kumiko com tristeza no olhar.
- Confundir-me? Como acha que eu estou agora? – disse ela andando de um lado pra outro – como acha que eu me sinto ao saber que não sou nem desse planeta? O que eu sou afinal?
- O termo certo é extra planar – respondeu Vulthar que terminava de engolir uma grande fatia de bolo – um ser que sai de sua dimensão natural e viaja pra outra, é um pouco diferente de alienígena.
- E ainda tem essa coisa aqui! – disse ela apontando pra Vulthar – você é um general? Desde quando cobras são militares agora?
- Você esperava o Rambo? Dei conta do serviço direitinho quando aquele Auram queria te mandar pro inferno.
- Ta falando daquele cachorro grande? Era você ali lutando com ele?
- Você deve ser retardada pra não ter notado a semelhança – reclamou a serpente – alias obrigado por sair correndo e não me deixar explicar a situação ajudou muito sabia?
- Querida, não queríamos que a situação ficasse assim, quando aceitamos a oferta não fazíamos idéia que a amaríamos como uma neta de verdade.
- Claro que não, não é? Eu era só um seguro de vida pra vocês dois!
- Mas nos amamos você de verdade! – disse Ujima – quando o tempo foi passando e essa cobra parou de vir aqui todos os dias nos achávamos que Tenebra tinha perdido o interesse em você, achávamos que se ela tivesse esquecido ficaríamos com você pra sempre.
- Não importa se você foi um presente, não importa se não tem o nosso sangue, o que importa é tudo que vivemos juntos, você foi como uma filha pra nós, jamais trocaríamos isso por nada.
Isawa sentou num canto e começou a chorar, sua vida não fazia nenhum sentido agora, tudo aquilo que ela acreditava era mentira, as pessoas que ela pensava que podia confiar mentiram pra ela, tudo estava tão confuso que ela queria mesmo desaparecer.
- Eu me lembro que você disse que era hora de voltar pra casa, o que quer dizer? – perguntou Isawa para Vulthar.
- Hoje é à noite em que Tenebra disse que viria, mas ela ta meio ocupada no momento e me mandou fazer isso, serei sua babá por uns tempos.
- E quem disse que pretendo ir a algum lugar? Eu vou ficar aqui mesmo.
- Só se você quiser está morta assim que o sol nascer – avisou Vulthar – Azegher não vai pegar leve contigo.
- Quem é esse ai? – perguntou Isawa confusa.
- Lembra que Tenebra é a deusa da noite? Pois é, Azegher é o deus do sol, rival de Tenebra e um tremendo filho da puta! Foi ele que mandou aquele Auram te ferrar.
- Eu? Mas o que foi que eu fiz pra ele?
- Não é o que você fez, mas o que ainda vai fazer – disse Ujima – Tenebra mencionou que você está destinada a fazer algo importante no futuro, isso parece ser um problema pra Azegher.
- Ele que se fôda! – gritou Isawa furiosa – como ele pode tentar me matar por algo que não fiz?
- Azegher não é conhecido por ser compreensível, na cabeça dele você é um problema e precisa se exterminada, ele não hesitou nem um instante para massacrar uma vila inteira e matar seus pais pra te pegar, e lembre-se de agradecer sua mãe por ainda está viva! Foi ela que implorou a Tenebra para salvá-la.
Um sentimento de culpa se apossou de Isawa, um sentimento que ela não sabia explicar.
Seus avós a abraçaram: queriam confortá-la de toda a dor e sofrimento, eles nunca imaginaram que aquela criança que viram crescer seria tão especial para eles.
- Ficando aqui você corre perigo – avisou Kumiko – Azegher não vai parar até te matar.
- Quer dizer que eu vou ter que correr pra outro mundo pra me salvar? E como fica minha vida aqui?
- Não ta perdendo grande coisa, eu garanto – zombou Vulthar – eu já vivi milhares de anos e nos 16 anos que fiquei aqui aprendi mais idiotices que em minha vida toda.
- Por isso você é bem educado não é? – perguntou Isawa sarcasticamente notando o linguajar da cobra.
- Ei Vulthar-san, se a Isawa partir pra terra natal dela ela poderá voltar?
- Sei lá, a profecia não fala nada sobre isso, mas pode ser que sim se Tenebra ficar satisfeita com seu trabalho.
A perspectiva de que ela teria que fugir pra se salvar atormentava Isawa, ela estava com raiva de seus avós, mas não permitiria que algo de ruim acontecesse com eles por sua causa, sem idéia do que fazer foi para seu quarto, ela dizia que precisava pensar sobre tudo isso.
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No seu quarto Isawa assistia o noticiário, 50 pessoas morreram e pelo menos mais 50 ficaram feridas quando o Auram a perseguiu pela cidade, em algumas cenas registradas por celulares e câmeras de segurança dava pra ver o Auram a perseguindo pela cidade e explodindo o ônibus.
- Foi minha culpa – pensava ela triste – aquelas pessoas morreram por minha causa.
- Errado, morreram por causa do egoísmo de Azegher – disse Vulthar sério – se ele parasse de achar que tudo que vem de Tenebra é ruim ele poderia notar o bem que ela faz aos outros.
- Afinal qual é o problema desses dois?
- O que você esperaria do deus do sol e da deusa da noite? Eles são rivais desde que o universo se expandiu, cada um tenta fazer do mundo aquilo que ele acha certo, alias só eles dois não, os outros também, cada deus acha que sua visão do universo é a única correta.
- E por causa disso os inocentes se ferram? Quem eles pensam que são afinal?
- Eles não só pensam como são deuses, não se vai contra a vontade deles, o melhor que se pode fazer é continuar vivendo e aceitar.
- Eu não aceito isso! – disse Isawa se levantando – eu não vou deixar nenhum deus controlar minha vida!
- Então lute e faça a diferença, é pra isso que você serve.
Isawa se sentiu revoltada com essa história, sua vida poderia ser bem diferente se nenhum deus se metesse nisso, ela ficou andando pelo quarto como se estivesse procurando uma solução quando seu outro celular tocou.
- Oi, quem... – começou ela atendendo o celular – não, eu estou bem, eu consegui escapar e to em casa, onde você ta?
Vulthar apenas a observou falar depois que ela desligou o aparelho decidiu perguntar.
- Quem era a essa hora da noite?
- Era a Akiko, ela assistiu o noticiário e queria saber se eu tava bem.
- E você disse a ela que estava aqui?
- Disse sim, por quê?
- Faça suas malas, temos que partir agora!
- Mas já? Que diabos está acontecendo?
- Sua “amiga” tá vindo aqui pra te matar – respondeu simplesmente.
Agora é que Isawa já não entendia mais nada.
Do lado de fora da casa ainda no último degrau da escada uma pessoa se preparava, usava uma máscara branca de pano que lhe cobria toda a cabeça deixando apenas os olhos de fora, roupas leves lhe cobriam o corpo e ela usava um corselete de couro como proteção extra, nas costa trazia uma espada de lâmina larga e curva.
- Tomakawa Isawa, você morrerá hoje mesmo! – disse a visitante sacando sua espada e indo em direção a casa.
Continua.
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