Entre a Luz e a Escuridão

5 Capítulo 5 - A Escolha da Arma


Notas iniciais
Personagens do capítulo: Mary - A protagonista. Estudante de veterinária, apaixonada por animais, porém, trabalha como gerente de uma empresa para poder se sustentar enquanto não se forma. É ela quem narra toda a história, porém ela não se descreve tão cedo. Luke - o lobo, guardião de Mary. Jake - Filho de Susana, se torna um grande amigo de Mary. Inna - A senhora que encontra Mary no parque e a leva para a Terra da Luz.

Eu e Jake estávamos novamente a caminho do mercado para buscar aquela coisa “tão importante” e eu pensava sobre o que ele tinha acabado de me dizer. Será que tudo que aconteceu de estranho na minha breve vida teria acontecido por causa da tal Princesa? Enquanto eu pensava, comecei a perceber que as casas foram ficando mais luxuosas, as ruas com menos pedras faltando e mais pessoas se dirigindo a outros lugares, apressadas. Todas olhavam para nós com medo, querendo passar o mais longe possível.

– Jake?

– Oi.

– O que tem de errado conosco?

– Como?

– As pessoas estão nos encarando, e passam por nós apressadas, como se estivessem tentando se afastar.

– É provável. Mas não se importe. Isso não é com você. — ele me respondeu, como se não se importasse também.

– Então, tem a ver com você? — perguntei, cautelosa e preocupada.

– Sim. — Jake me respondeu e pude notar um sorrisinho torto no seu rosto. Resolvi investigar.

– O que você andou aprontando então? — Perguntei, com um sorriso brincalhão.

– Bom, lutei com três guardas da corte e fiz um enorme estrago por aqui.

– Você lutou com soldados do exército encapuzado? E venceu?

Jake riu.

– Não eram homens do Exército do Mestre da Morte, ou do exército encapuzado, como você diz, e sim, eu venci.

– Quer dizer que ainda tem outro exército aqui?

– Sim, Mary. E existem vários. Estes homens que eu derrotei eram do Exército Verde. Eles ficam de guarda pelo mercado e proximidades para evitar movimentos contra a corte, porém, quando cismam com alguém, eles atacam sem piedade, e o pior é que têm completa permissão para isso. É o exército mais baixo que existe. Logo depois, tem o Exército Vermelho, o Azul, o Branco e finalmente o exército de guarda pessoal do Mestre da Morte. Chamados de EG, Exército da Guarda, ou os encapuzados, como você chama. Eles são usados somente em casos muito especiais. Normalmente ficam escondidos dentro e nos arredores do castelo. O que me leva a pensar que o “Rei” tem mesmo medo de você. Pelo que Inna disse, ele enviou quase todo o seu exército atrás de vocês!

– Hum… e pra que serve os outros exércitos? O Vermelho, o Azul e o Branco? — queria ocupá-lo de perguntas para que não começasse um assunto sobre mim ou sobre a Princesa.

– O Vermelho é usado nas áreas rurais. Para evitar que a população obrigada a se tornar escrava fuja, se revolte, pare de produzir ou devem ir até a cidade para capturar mais pessoas e transformá-las em escravos, mantendo essa população sempre em um número equilibrado. O Exército Azul é usado para a proteção do castelo ou construções comandadas pelo “Rei”, como o lugar onde temos que ir pagar nossas contas e deixar nossos tributos. Não confunda os com os encapuzados, que são somente e exclusivamente para a proteção do Mestre da Morte. Já o Branco é usado para as batalhas ou para caçar as pessoas que o rei ordena. Seria um tipo de exército de ninjas assassinos. E tome cuidado com eles. Eles são traiçoeiros e silenciosos. Você nunca sabe que está na mira de um até ser pego. E eles pegam para matar, não capturar ou escravizar. Quando não estão em nenhuma missão, apoiam o exército Azul na proteção dos interesses do império ou protegendo o castelo.

– E como eu os diferencio?

– Por uma faixa da cor de seu exército que eles levam presa ao braço direito, pois seus uniformes são todos iguais. Luvas, calças, camisas, armaduras e elmos pretos. Usam o rosto sempre escondido. Quando não é possível fazer isso com o elmo, usam um pano ou uma máscara preta por baixo. Já o Exército da Guarda, você sabe como são. Eles não usam armaduras e andam com o rosto abaixado. Algumas pessoas dizem ter visto seus rostos e dizem que são desfigurados, sem vida e brancos como o gelo, os olhos são roxos, assim como a boca. Isto é, quando se identifica algum pedaço do rosto. As pessoas acreditam que eles são espíritos aprisionados por magia pelo seu mestre e obedecem somente a ele.

– Magia?

– Sim.

– Existe magia neste mundo? Não acredito nisso, mas depois de tanta coisa que eu vi, não me assustaria se existisse magia aqui.

– Que bom, porque existe. — eu falara sério quando disse que não me assustaria, mas foi impossível me manter calma e neutra. Jake deve ter percebido, porque riu e explicou. — Existem feiticeiras. A maioria delas são mulheres, ou pelo menos todas aquelas que pudemos ter certeza que manipulavam magia. Já houve suspeitas de homens feiticeiros, mas somente suspeitas, por isso dizemos feiticeiras, sem diferenciar o sexo masculino, e mesmo assim são poucas, muito raras. Em toda nossa história, só há duas conhecidas.

– E quem eram elas?

– Uma se chamava Rose e outra Emily, a rainha, que Inna supõe ser sua mãe.

Fiquei pasma. Minha mãe de 150 anos atrás era uma feiticeira? Já era difícil aceitar que eu era a reencarnação de uma Princesa e agora minha mãe era uma pessoa sobrenatural? As coisas estavam cada vez piores. O que me esperaria na próxima esquina? Jake me fitou e vi que se arrependera de ter dizer aquilo.

– Tudo bem, Jake. É só mais um detalhe para engolir. — disse, com amargura.

– Desculpe. Acho que você já tinha informações demais por hoje. Eu não devia ter dito isso tão cedo.

– Não se importe. Do jeito que eu sou sortuda, ainda vou ter muitas informações a mais do que as que já tenho para processar até o final do dia. Isso que você me disse não vai fazer muita diferença. — Jake assentiu e se calou. Parecia que não chegaríamos nunca ao mercado, até que enfim as casas desapareceram, dando lugar à tímidas barracas com frutas.

– Chegamos ao mercado. — ele anunciou.

Esquadrinhei o local. Era realmente interessante. Muita gente andava por lá. Me parecia que todo o reino se encontrava no mercado. Alguns metros à frente das primeiras barracas, o local começava a ficar apertado. De tímidas elas se tornaram espaçosas. Algumas vendiam frutas, outras vendiam legumes, outras vendiam peixes e carnes, outras ainda vendiam tecidos, linhas, tintas, cestas e assim por diante. Tinha quase certeza de que tudo que eu decidisse procurar eu encontraria em alguma barraca por ali.

Jake continuou andando na rua entre as barracas, sempre em frente, e eu o acompanhava.

– Cuidado, é fácil se perder por aqui.

Não respondi, apenas me limitei a assentir, sem tirar os olhos dele. Eu fazia de tudo para caminhar ao seu lado, porque assim era muito mais fácil acompanhá-lo, mas o tempo todo eu era obrigada a ficar para trás para me espremer pelos pequenos espaços entre a multidão e os vendedores espaçosos para continuar em frente, e cheguei a pensar em ter me perdido de Jake diversas vezes. Eu notava aqui e ali alguns soldados que identifiquei serem do Exército Verde, sempre parados como estátuas escorados em alguma parede ou coluna, seus olhos varriam todo o local o tempo todo e suas mãos sempre prontas, segurando suas espadas, arcos e flechas ou lanças. Logo a multidão foi cessando e pude novamente andar ao lado de Jake. Provavelmente as pessoas encontravam o que procuravam logo no começo e não adentravam tanto assim no mercado. Passamos por uma construção alta. Devia ter uns sete andares. Vários soldados do Exército Azul estavam postados à porta, e por ela eu espiei lá dentro. Haviam mais soldados de faixa azul e alguns poucos de branca lá dentro.

– Nossa! Posso perguntar o que é aí? E puxa! Como esse prédio ainda está de pé? Parece tão velho! Como ele foi construído? — Eu estava empolgada, atônita e curiosa ao mesmo tempo. Jake avaliou minha expressão e riu, divertindo-se.

–Não quero ser rude mas não estou muito disposto a discutir engenharia com você e nem com ninguém. Nunca gostei disso e também nunca fui bom nisso. Acredito que o Freddy adoraria ter um assunto deste com alguém. Quem sabe mais tarde eu lhe apresente a ele. — Jake não parecia zangado ou irritado, ainda sorria, porém decidi não insistir.

– Tudo bem. Desculpe. Não sabia que não gostava desse assunto, eu só fiquei um bocado curiosa.

Jake riu.

– É, isso eu notei. Enfim chegamos! — Ele apontou para uma porta dupla de madeira que se encontrava em uma casinha bem feia, quase caindo aos pedaços. Pensei inclusive em cogitar a ideia de entrar na casa, afinal, não duvidava que ela desabasse a qualquer momento. Porém, decidi que deveria me manter calada. Jake deveria conhecer as coisas muito mais do que eu, principalmente quando se trata do seu mundo, então apenas o segui até a porta.

Antes que pudéssemos ao menos bater, um velho a abriu de supetão, me fazendo pular de susto. Jake permaneceu neutro. Imaginei que estivesse acostumado com esse tipo de recepção.

– Entrem. — Disse o homem idoso, seco. Ele era baixo, de pele morena. Seu cabelo, assim como a barba, estava desgrenhado, comprido e branco. Deduzi através da cor de sua pele que há anos atrás eles deveriam ser pretos como carvão. Ele andava muito devagar, com o auxílio de uma bengala. O homem nos conduziu até o balcão, disse para esperarmos e sumiu entre algumas estantes empoeiradas. Fiquei tentando imaginar o que poderia estar procurando.

Momentos depois, o velho retornou com uma caixa de madeira comprida e fina. Ele a colocou delicadamente no balcão à nossa frente. Olhou para Jake e o ordenou que abrisse a caixa. Jake obedeceu e assim que o fez, seu rosto se iluminou em um sorrido de orelha a orelha. Espiei por cima de seu ombro. Uma bela espada de prata reluziu à minha frente.

Jake a tirou da caixa, passou o dedo pela lâmina afiada e sorriu ainda mais. A espada brilhava como a lua refletida na água. Ele tirou algo de dentro da caixa, reluzente como a lâmina. Era uma bainha. Ele embainhou a espada e a prendeu no cinto.

– Obrigado. Ótimo trabalho. Ela está como nova! E muito bem afiada! — Jake sorriu para o velho, mas ele ainda nos olhava como se esperasse alguma coisa. Ele percebeu, então continuou — Creio que seus serviços já foram pagos, não?

– Sim, sim. Mas e a moça? Não vai querer nada?

– Não. — respondi. Dei-lhe um sorrisinho tímido.

– Aí é que a senhorita se engana. Tenho certeza de que você voltará mais cedo do que imagina, e terei o prazer de lhe atender.

Dessa vez, foi Jake quem respondeu, parecendo um pouco rude.

– Ótimo. Então até mais tarde.

Ele passou por mim e abriu a porta. Eu o segui. Estávamos de volta ao mercado. Provavelmente voltando para casa. Eu não disse nada ele também não. Seguíamos em silencio total.

Estávamos quase alcançando os portões quando alguém agarrou meu braço. Levei um susto e me virei pronta para dar um soco em quem quer que seja, mas parei quando me deparei com Inna.

– Ainda bem que te encontrei Mary. Vamos.

– Ei! Espere! — de repente, uma súbita onda de raiva passou por mim. Quem aquela mulher pensava que era para me dizer “Vamos”? Minha dona? Eu estava furiosa. — Aonde você pensa que vai me levar?

– A um lugar muito importante. Chegamos a uma conclusão e você deve treinar para lutar, portanto, precisa de uma arma.

– Como assim uma arma? Você pretende me dar uma arma? Eu nem sei se sou mesmo a Princesa, não faz nem um dia que estou aqui e você pretende me treinar? Olhe aqui, a única coisa que eu realmente pretendo é voltar para casa, não vou lutar, não quero lutar, e você vai me dizer como eu saio daqui, porque algo me diz que você sabe, e não adianta mentir para mim! Você pensa que é quem? A Senhora Do Meu Destino? Então fique sabendo que não é! Pensa que pode me mandar fazer o que você quiser? Pensa que eu vou obedecer como um cãozinho obedece seu dono? Esqueça! Está vendo como eu sou? Não sou uma princesa! Não tenho modos de alguém tão fina! Simplesmente não posso fazer parte da realeza! E não preciso de ninguém para me dizer isso, ou o contrário! E preste atenção no que vou lhe… — Jake me sacudiu pelos ombros.

– Mary! Pare! Aqui não! — Notei um certo tom de urgência em sua voz. Essa sacudida fez com que eu voltasse à realidade. Todo mundo nos olhava. Eu deveria estar gritando muito alto mesmo. Vários soldados vinham em nossa direção. Ah não! Droga, eu não podia ter feito isso. Agora eu tinha colocado nós três em perigo!

– Desculpe! Venham! Temos que sair daqui! — decidi. Então olhei para Inna. — E depois teremos uma conversinha.

Fui abrindo espaço pela população, avançando para dentro do mercado. Imaginei que se saíssemos, seríamos fáceis de se identificar. Rezei para que Jake e Inna me seguissem, mas não esperei para me certificar. Quando finalmente achei já ter andando o suficiente, parei e me virei. Jake vinha na minha direção, com Inna logo atrás, mas estavam uns cinco metros atrasados. Eu os esperei. Não sei o que deu em mim para fazer aquilo. Não sou boa em liderar, e, normalmente, eu ficaria no meu lugar esperando que alguém me dissesse o que fazer. Quando finalmente me alcançaram, Jake sorriu para mim.

– Bom trabalho. Você foi rápida!

Sorri de volta e olhei para Inna. Sua carranca estava concentrada em mim. Eu sabia que não ganharia nenhum elogio dela.

– O que você queria gritando daquele jeito? Nos matar? — ela sussurrou para mim, mas se estivéssemos em um local privado, aposto que ela teria gritado muito mais do que eu. Eu me limitei a pedir desculpas. Quando ela terminou sua onda de broncas e insultos, eu tentei explicar o que sentia. Jake me apoiou, dizendo que eu estava sendo sobrecarregada demais, mas nada fez Inna mudar de posição. Finalmente ela pareceu ceder um pouco. Me prometeu que se eu a seguisse, quando voltássemos para a casa de Susana, ela aceitaria conversar comigo. Aceitei sua proposta. Imaginei que aquilo seria o máximo que eu conseguiria tirar dela naquele momento.

Eu estivera tão irritada e absorta em minhas discussões que nem percebi um penetrante par de olhos cor de mel aos meus pés. Luke estava conosco. Essa simples presença de repente me trouxe uma sensação de segurança que eu sabia não existir.

Obedecendo nosso acordo, segui Inna, assim como Luke e Jake. Inna só parou quando estava dentro do estabelecimento em péssimas condições que eu estivera com Jake, pouco tempo antes. O velho abriu a porta da mesma maneira, porém, dessa vez não me assustei. Ele nos olhou e sorriu satisfeito. Assim que fechou a porta atrás de nós, ele soltou um grito de pura alegria.

– Eu tinha razão! A Princesa retornou!

– É, seu velho adivinhão. Você sabe o que tem que fazer agora. — Inna ordenou, secamente.

O velho sumiu o mais rápido que pôde entre suas estante empoeiradas. Ouvi barulhos de coisas sendo derrubadas e coisas se quebrando. Imaginei se alguém não deveria procurá-lo entre suas estantes e ajudá-lo. Pouco tempo depois, ele voltou e depositou no balcão cinco armas, uma por uma. Primeiro ele colocou uma lança preta delicadamente, depois outra, prata, depois dois arcos, aos quais não prestei muita atenção, e finalmente uma espada. Assim que ele a pousou, seu barulho metálico preencheu meus ouvidos. Me apaixonei por ela. Era ela que eu queria! Eu precisava dela. Era uma espada linda, nunca tinha visto outra igual. Era toda dourada, me parecia feita de ouro, e quando me aproximei, notei pequenos desenhos no cabo e na lâmina, que brilhava incessantemente. Eram animais. Várias espécies. Tinham lobos, assim como Luke, leões, gaviões, esquilos, borboletas, onças, ursos, peixes, tubarões e etc. O velho pousou ao lado da espada sua bainha, igualmente desenhada.

Inna pegou um dos arcos e mostrou para mim.

– O que acha?

Para ser sincera, nem olhei. Apenas respondi que não gostara. Quando fiz isso, o ar mudou bruscamente. Todos me olharam com espanto. Levantei a cabeça. Agora eu estava confusa.

– O que foi que eu disse?

– Se não gostou do arco, de que gostou? — Inna me perguntou, um pouco decepcionada e secamente. Ah, novidade!

Passei a mão no cabo da espada, acariciando-o e ergui a arma. Ela era incrivelmente leve para mim, como se eu estivesse segurando uma pena. Eu apontei a belíssima arma para cima, observei o reflexo da luz na lâmina, deliciada. Quando finalmente olhei para Inna, ela estava confusa, mas também nervosa.

– Eu gostei da espada. Se eu tiver que escolher uma arma para lutar, quero ela.

– Ótimo. — Inna disse, ainda com uma expressão de quem não entendia o que estava acontecendo. — Já que escolheu, pegue a bainha a vamos sair daqui.

Ela era tão rude que tive vontade de não obedecê-la. Cheguei a me imaginar ameaçando-a com a espada. Porém, achei que Inna podia ter razão. Assim fiz. Quando íamos saindo, o velho piscou para mim e disse, bem baixinho, sabendo que só eu o ouvia:

– Você não é quem pensa que é. Você é muito mais que isso. A profecia está se cumprindo!

O velho se virou e se escondeu em suas estantes com um sorriso débil no rosto. Imaginei que ele estivesse ficando maluco. Talvez tivesse recebido muitas pancadas na cabeça.

Eu ficara para trás, portanto, apertei o passo para alcançar o grupo que já me esperava, parados na rua, foi aí que percebi que ninguém me esperava. Todos estavam parados, congelados e tensos, mas não por minha causa. Varri o local, e então percebi o porquê. Estávamos cercados por soldados do Exército Verde. Suas faixas verdes amarradas ao braço me faziam ter arrepios.

Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.