Entre a Luz e a Escuridão
4 Capítulo 4 - Na Terra da Luz
Notas iniciais
Me sentia extremamente feliz, como se eu estivesse matando a saudade que a muito tempo eu sustentava. Mas saudade de quê? Olhei em volta. Estávamos no centro de uma pracinha. Dali eu via uma rua de pedra e umas casinhas bem velhas, de madeira, mal pintadas e descascadas. Me lembrou as casas de uma cidadela há muito abandonada que uma vez eu visitara, muito tempo antes, em uma excursão da escola. Estava de dia, e assim que olhei para o céu procurando o sol, fui obrigada a fechar os olhos, que arderam e lacrimejaram. Inna tinha razão. O Sol brilhava muito mais do que eu estava acostumada. Tinha a impressão de que se eu esticasse a mão, poderia tocá-lo ali mesmo.
– Acredita em mim agora? — Inna perguntou. Imaginei que ela ficou um pouco ofendida por eu não ter acreditado nela a princípio. E ainda não acreditava. Tudo bem que o portal funcionara, mas o resto... era loucura demais! Porém, achei melhor não discutir:
– Sim. Agora eu acredito.
– Ótimo. Agora siga-me. Vou arrumar um lugar para você ficar. — inconscientemente, olhei para o meu braço machucado e Inna percebeu. — E vou arrumar alguém para lhe fazer um curativo também.
Agradeci e a segui para fora da praça. Inna atravessou a rua principal e entrou em outras ruas secundárias, com casas dos dois lados. Ela foi caminhando em seu passo agora nada lento até o final de uma das rua. As casas não eram muito diferentes umas das outras. Algumas tinham várias janelas, outras tinham sacadas, outras tinham quintal ou varanda e assim por diante. Eu e Luke seguimos Inna até uma casa azul clara. Era a maior casa que eu vira na rua toda. Ela ficava em uma esquina e possuía três andares com várias janelas. As janelas do primeiro e segundo andar possuíam sacadas. Deduzi que eram janelas de quartos. Contei. Duas janelas na lateral e três na frente, igual para os dois andares superiores. Paramos em frente à uma porta escura, com flores entalhadas na porta. Inna bateu e logo uma mulher de pele clara e de cabelos ruivos e presos num coque saiu para ver quem era.
– Inna! — ela disse, surpresa. — Já voltou? Entre! — então a mulher se deteve em mim e Luke. — E, hã… seus acompanhantes também.
– Obrigada, Susana! — Inna agradeceu e fez sinal para que a seguíssemos para dentro da casa. A mulher chamada Susana bateu a porta atrás de nós e perguntou:
– Então… Quem são eles dois? — ela se dirigia à Inna. Pelo modo como se relacionavam, deveriam ser velhas amigas.
– São Mary e Luke, seu guardião. — Inna respondeu.
– Guardião? Como assim guardião? — Susana perguntou, parecendo confusa.
– De que guardião eu poderia estar falando? — Inna respondeu, parecendo um pouco irritada.
– Se é o que eu estou pensando... os guardiões são lendas! Apenas lendas que nossos pais contavam pra gente em volta de fogueiras! E eles só voltariam a dar as caras neste mundo caso a princesa... — Susana não concluiu sua frase. Ela olhou boquiaberta para mim e depois para Luke. Parecia em choque.
– Exatamente. Você sabe o que diz a história. Luke deveria rastreá-la pois ele fora incumbido da tarefa de cuidar dela. E não há duvidas. O exército do Mestre da Morte também veio atrás de nós. Não creio que isso seja apenas coincidência.
– Não sei, Inna. Não sei se acredito… nela. — Susana apontou para mim. Não pude deixar de notar que esta mulher era um tanto ríspida, só não sabia se ela era sempre assim ou só agora, quando o assunto me envolvia. Seu nariz fino e bem desenhado se mexia cada vez que ela se referia a mim, como se isso a deixasse irritada. Mas quem estava ficando irritada de verdade era eu devido ao modo como aquela mulher agia. Acredito que eu estava quase da cor da simples blusa de manga que ela usava, combinada com uma calça jeans surrada: vermelha.
– Susana, me ouça. Nem a garota acredita em si mesma. Para falar a verdade, eu também não acreditaria se tudo aquilo não tivesse acontecido, mas não tem como os dois lados terem cometido um erro! — Inna era extremamente paciente com aquela mulher, que eu estava aprendendo a odiá-la mais a cada segundo.
– Ainda não acredito! Por que agora? Se essa garota é mesmo a princesa, por que ela apareceu agora? Por que não veio antes? Por que nos abandonou por tanto tempo? — Susana olhou para mim de forma agressiva, e vi uma mistura de ódio e repulsa em seus olhos verdes semicerrados. Ela continuou me encarando daquele modo, e eu, decidida, sustentei seu olhar e a encarei de volta. Estava esperando que ela se atirasse em cima de mim com uma faca de cozinha apontada para o meu pescoço. Antes que a mulher pudesse fazer isso, Inna atraiu a atenção dela.
– Nós precisamos ter uma conversa. Longe dela. — Inna propôs a Susana.
– Já entendi Inna. Espere um momento. — Susana respondeu enquanto caminhava em direção à uma escada. Ela subiu e retornou poucos minutos depois, com um homem atrás dela. Ele usava uma camiseta cinza e uma calça jeans.
– Jake, porque você não leva Mary para conhecer seus amigos, o mercado ou qualquer outra coisa? — Susanna olhou para Jake de modo ríspido e duro.
– Não! — protestei. Eu sabia que era teimosa, e estava decidida a ficar — vocês vão falar sobre mim, então eu tenho todo o direito de ficar! Eu vou ficar!
Inna me lançou um olhar suplicante. Eu mal conhecia aquela mulher, mas jurei que sabia o que ela me diria. Susana por sua vez, me olhou com mais raiva e impaciência. Ao mesmo tempo, aquele que deveria ser o Jake respondeu:
– Claro. — disse para Susana, e então se virou para mim, com um sorriso torto brincalhão. Notei que ele não era tão velho quanto me parecera. Deveria ter uns dezoito anos, mesma idade minha. — Hum... suponho então que você seja a Mary. E aí, me acompanha?
Eu queria gritar que não. Dizer que queria continuar ali e ouvir o que Inna e Susana iram falar de mim, mas alguma coisa dentro de mim não foi capaz de negar o convite dele, e o olhar de Susana para mim sugeria que se eu negasse esse convite, ela mesma me chutaria porta a fora com muito prazer. Então me permiti apenas a balançar a cabeça pra cima e para baixo e fui até a porta, onde ele já me esperava. Olhei para trás, esperando por Luke, porém percebi que ele não iria conosco, o que me deixou nervosa. Eu tinha desenvolvido uma certa confiança por aquele lobo. Loucura, eu sei. Mas eu estava furiosa, e queria mostrar que eu podia ser mais durona do que parecia, então avencei para a rua.
Assim que paramos do lado de fora da casa, meus olhos arderam novamente. Olhei para Jake. Ele se parecia muito com Susana. Apesar do cabelo, que era preto e liso ao invés de ruivo e cacheado, de resto, partilhavam dos mesmos traços: nariz fino, pele clara, os mesmos olhos verdes e aparentava ter vários anos a menos, ou talvez a metade da idade daquela mulher que agora eu repudiava. No entanto, os traços não mentiam. Resolvi arriscar:
– Susana é sua mãe?
– Sim. Ela é. — ele disse com certa amargura. Pensei: “Coitado”. — E então, aonde você quer ir? — Ele parecia estar desesperado para não começar algum assunto sobre sua mãe, então respondi:
– Para qualquer lugar. Não conheço nada aqui mesmo.
– Ótimo, então vamos ao mercado, preciso pegar uma coisa importante lá.
Eu assenti e seguimos em silencio por um bom percurso. Comecei a sentir meu braço latejar violentamente. Tentei arrancar desesperadamente o casaco que o cobria até que consegui. Casaco inclusive que Inna me dera antes de pularmos no portal, graças ao frio da noite. Eu encarei meu braço. Me deparei com um corte de uns doze centímetros, o sangue já coagulara em cima. Eu tinha até me esquecido deste incidente, e, provavelmente por isso, Inna também. Eu não tinha sentido dor até agora, provavelmente porque a raiva que eu sentira de Susana e de todo o resto acobertara a dor do corte. Eu inclusive não entendia como aquela flecha cortara minha pele e não o tecido do casaco. Jake notou o que eu observava surpreso.
– Onde você conseguiu isso?
– Foi uma flecha. — respondi. Não queria dar mais explicações sobre como eu conseguira aquele machucado, afinal, eu ainda não acreditava. Estava esperando que eu acordasse de repente, na floresta, sem machucado, sem lobo e sem princesas mortas.
– Mudança de planos! — ele anunciou — Vou te levar até a casa de um amigo, que não fica muito longe do mercado e vamos dar um jeito no seu braço antes que piore.
– Obrigado, mas não precisa mudar o seu caminho por causa disto. Não tem problema para mim. Eu só o senti agora, para falar a verdade, quase não dói. Não deve ser nada de mais. — menti. Eu sabia que era um machucado fundo e estava doendo bastante agora. E ainda, se eu não limpasse logo, provavelmente ele inflamaria, mas de importava? Eu ia acordar logo mesmo!
– Quase não dói? Tem certeza? — ele me olhou com um sorrido desafiador. Provavelmente ele sabia que eu estava mentindo. — Não, Mary. O que eu tenho que buscar pode esperar um pouco. — não insisti. Para falar a verdade, meu braço doía cada vez mais, e resolvi mudar de assunto.
– Hã… me desculpe se eu estiver sendo curiosa demais mas... — abri um sorriso persuasivo — quantos anos você tem?
– Hum... acredito que eu tenha dezoito anos. — ele sorriu para mim de volta — E aposto que você tem a mesma idade.
– Puxa!- me permiti soltar uma risada divertida — Você acertou!
Jake pareceu recuar de repente com a minha risada, me encarou, confuso, e depois disso ficou quieto por um bom tempo enquanto caminhávamos. Quase ninguém perambulava pela rua. Finalmente, ele disse alguma coisa:
– Minha mãe não acredita que você seja a Princesa, mas não posso confiar no que ela diz. Nunca pude. — ele fez uma careta triste. — Então, é verdade? Você é a Princesa? — ele perguntou, um pouco tímido, porém, parecia ávido pela resposta.
– Sinceramente? Foi isso que Inna me disse, mas eu não sei, também não consigo acreditar. Não me sinto uma princesa, não me entenda mal mas eu nem estou disposta a lutar por um reino! Não sei tudo pelo que vocês passaram, e imagino que vocês deveriam ser livres! Mas não contem comigo para uma batalha, pois com certeza eu iria arrumar uma maneira de estragar tudo e deixar as coisas piores do que já estão para vocês! Por isso acredito que Luke se enganou. Eu não posso ser essa pessoa que vocês dizem que eu sou! Isso é muita maluquice para um dia só! Eu devo estar sonhando! Só pode! A propósito, fiz uma pergunta a Inna e ela não me respondeu. Como eu saio daqui? Bom, caso isso não seja um sonho, eu preciso voltar para o meu mundo!
– Eu não sei como se sai daqui, só como se entra. Inna sabe, afinal, ele teve que usar um deles para ir atrás de você no seu mundo, mas eu não sei. Até desconfio que haja um portal de matéria aqui por perto que possa te levar de volta, porém desconheço sua localização. E também, não acredito que Inna te deixará ir embora assim tão fácil. Ela é persistente. Se ela acredita que você é a Princesa, ela não vai mudar de ideia tão fácil. E não acredito que ela ou seu guardião possam ter se enganado. Muito menos o Mestre da Morte, se arriscando desta maneira e mandando seu exército atrás de vocês. Duvido que ele faria isso se tivesse alguma duvida sobre você.
– Como você sabe tudo isso? Como sabe do exército encapuzado?
– Exército encapuzado? — ele riu. — Nunca tinha ouvido alguém empregar esse termo a eles. Gostei. — ele se manteve calado e balançando a cabeça, como se estivesse se divertindo com essa história, e então finalmente me respondeu. — O fato é que eu escutei a conversa de vocês. Desculpe, mas não pude resistir. — ele disse isso como se fosse óbvio demais. — Há! Chegamos!
Jake apontou para um sobrado laranja, bem à nossa frente. Estava feliz por termos chegado. Assim eu tinha uma desculpa para cortar aquele assunto.
Ele se aproximou da porta e bateu. Era uma porta simples e clara, mas cheia de desenhos talhados no batente. Deveria ter muita gente lá dentro, pois do lado de fora se ouvia um grande barulho de vozes misturadas.
Uma garota muito bonita, de cabelos loiros, quase brancos, e olhos escuros apareceu pela porta agora entreaberta. Ela tinha feições delicadas, assim como as que você espera que uma princesa tenha. Ela sorriu quando reconheceu Jake e terminou de abri-la.
– Entrem! — ela me notou, um pouco mais atrás de Jake, mas, diferente de Susana, ela sorriu para mim também, me encorajando a entrar.
– Obrigada. — Agradeci enquanto passava por ela na porta.
A casa do lado de dentro era bem espaçosa. Diferente do que aparentava por fora. Eu estava na cozinha. Havia uma mesa bem grande de madeira e umas cadeiras almofadadas em volta. As vozes altas que eu ouvira do lado de uma porta aberta à esquerda, que imaginei ser a sala. Jake estava parado próximo da mesa e conversava com um garoto que parecia ser da sua idade, assim como a garota que nos atendera na porta. Inclusive, eles eram muito parecidos. Mais parecidos que Susana e Jake.
Jake finalmente interrompeu sua animada conversa e veio até mim:
– Pessoal, esta é Mary. — ele olhou para mim e sorriu. Agradeci por ele não ter anunciado que eu deveria ser a Princesa, como apostaria que Inna faria. — E Mary, estes são Peter e Katherin. Eles são irmãos gêmeos.
Agora a semelhança que eu vira neles estava explicada. Os dois irmãos sorriram para mim e eu sorri de volta. Esperava que não estivesse com o rosto de alguém assustada. Peter finalmente disse alguma coisa:
– Olá! Então… de onde você vem? Quer dizer, é claro que não é daqui. Nunca te vi antes.
– E-eu venho de… — gaguejei. Não sabia o que dizer, muito menos como explicar de onde eu vinha. O que posso dizer? "Me desculpe, mas venho de um outro mundo". E então seria obrigada a lhes contar toda a minha história até ali.
– Ela é uma sobrinha de Inna. Vivia no campo só com a mãe. Quando ela foi raptada pela corte, Inna trouxe Mary para cá. Ela está hospedada na minha casa até que Inna arrume um lugar melhor para ela.
– É! É isso. — respondi. Estava muito grata pelo que Jake tinha feito. Até parece que me entendia.
– A verdade é que ela está um pouco assustada. — ele continuou. — Ela caiu no caminho e cortou o braço. — mostrei meu braço ferido. Jake era bom pra improvisar histórias, e agora eramos cúmplices nesta. Me diverti com a situação.
– Nossa! Vamos ter que cuidar disso, caso contrário, pode piorar, e muito! — Katherin olhou para o irmão com certa urgência. — Peter, vá até o banheiro e traga algumas coisas para fazer um curativo.
Peter assentiu e sumiu pela porta onde eu imaginara ser a sala. Poucos minutos depois, ele estava de volta com um rolo de faixa branca, um líquido em um vidrinho escuro, esparadrapos, um pano úmido e uma pasta verde num vidro transparente. Katherin fez sinal para que eu me sentasse. Obedeci. Peter ficou de pé, no outro extremo da mesa, apoiando o joelho na cadeira. Katherin puxou uma cadeira e se sentou à minha frente. Jake fez o mesmo e se sentou ao meu lado.
Katherin começou a arrumar tudo que Peter trouxera à sua frente, em cima da mesa. Ela pegou a toalha umedecida e começou a limpar o local do ferimento no meu braço. Senti uma dor aguda, como se tivessem rasgando meu braço ainda mais. Cerrei os punhos. Jake percebeu e pôs a mão no meu ombro. Eu naturalmente me desviaria do toque dele, mas a dor fora tão grande que eu simplesmente não podia me mexer. Assim que Katherin terminou com o pano úmido, ela pegou o vidrinho escuro e pingou algumas gotas daquele líquido no ferimento, que começou a arder como se tivesse pegando fogo, inconscientemente eu encolhi o braço.
– Isso dói, eu sei, mas é para esterilizar o local, para depois não inflamar. — Katherin me informou. Assenti e tentei relaxar o braço, deixando que ela continuasse.
Ela pegou uma extremidade do pano limpo e enxugou o excesso do líquido anti-inflamatório que escorria. Logo em seguida, pegou com a ponta dos dois maiores dedos uma boa quantidade daquela pasta verde e espalhou uma quantidade generosa pelo meu corte. Se certificando que cobrira todo o machucado, ela enfaixou meu braço, dando um fim ao mau juízo que eu tinha feito do procedimento.
– Obrigada Katherin, me sinto … — mexi o braço para me certificar do que eu realmente sentia. — bem melhor.
– Não foi nada. — ela sorriu para mim. Senti Jake tirar a mão do meu ombro, e então Katherin se voltou para ele. — Então… se Elizabeth é a sobrinha da velha, e Inna a trouxe até aqui, isto quer dizer que ela está de volta, o que só pode significar que a Princesa foi encontrada! — Ketherin sorria radiante. Peter me parecia mais detalhista e observador que a irmã, e percebeu uma certa dúvida no rosto de Jake, e provavelmente, no meu também.
– Ei, espere. Vocês dois sabem de alguma coisa.
Eu e Jake nos entreolhamos, desesperados. E agora? Bom, já que Jake me acobertara no começo de nossa conversa, agora era minha vez.
– É, não sei se eu deveria contar. — Olhei para Jake e dei uma piscadela discreta, para que ele me acompanhasse.
– Conte! Prometo que não espalharemos para ninguém! — Katherin praticamente pulava na minha frente, de tanta empolgação, tentando me convencer.
– Tudo bem. Na viagem até aqui, ouvi Inna resmungar o caminho todo coisas que não faziam sentido para mim. Eram nomes de lugares, de ruas, de praças… Eu não tinha percebido nada, até que, certa noite, Inna resmungou dormindo. Eu só pude entender três palavras: Princesa, perigo e escondida. Então… já sabem tudo que eu sei.
– Mas quais eram os nomes dos lugares que você ouvia? — Peter perguntou. Ele percebera que eu escondia alguma coisa.
– Não sei. Não me lembro muito bem. Um deles era toca do verde, outro era a praça de ouro. Na verdade, não me parecem nomes, e sim apelidos. Como um código que uma pessoa usa caso não queira ser entendida. Perguntei à várias pessoas se conheciam lugares com estes nomes ou apelidos, mas minhas pesquisas tiveram um resultado negativo.
– Ah bom. — Katherin suspirou, um pouco desapontada. — Então só sabemos que a Princesa foi encontrada, corre perigo e portanto, fora escondida. Seu paradeiro, portanto, é desconhecido. Ótimas noticias. — ela terminou a frase com um pouco de sarcasmo.
– Bom, já é meio caminho andado. Já temos a Princesa! — Jake tentava animá-la. — E, bom, me desculpem, mas tenho que ir embora. Preciso buscar algo importante no mercado. Confesso que só passei aqui por causa do braço dela. — e apontou para mim.
– Tudo bem! — Peter caminhou até a porta e a abriu para que passássemos. Enquanto seguia Jake para fora, olhei para trás e vi Katherin apoiada no encosto de uma cadeira, com uma expressão pensativa. De repente, deu um pulo e correu em direção à porta onde eu julgava ser a sala. Voltei a olhar para frente e dei de cara com Peter. Eu lhe agradeci e pedi que também agradecesse à irmã pelo meu curativo. Ele sorriu, encantador. Disse-me que não era nada, porém, eu lhe devia algumas explicações. De fato eu tinha razão. Ele não engolira minha história. Mas não deixava de ser encantador.
Assim que Jake e eu estávamos novamente na rua, me virei para me certificar de que a porta de Peter estava fechada e me virei para encarar Jake.
– Obrigado por me acobertar. Como sabia que eu preferia que não soubessem disso?
– De nada. E eu não sabia, só imaginei que se eu estivesse no seu lugar, era isso que eu faria. E a propósito, bela história que você inventou agora no final. Inna resmungando enquanto dormia! Devo dizer que foi inteligente. — ele riu, como se tivesse imaginando a cena.
Ri durante um bom tempo com ele. Eu acabara de descobrir que possuía um bom talento para mentiras, o que fez com que eu pensasse algo diferente sobre isso. Ainda não gostava de mentir, mas não podia negar que adorei quando Katherin acreditou em mim! Quem sabe esse novo talento me servisse para alguma coisa quando eu voltasse para casa, afinal, se eu contasse para Maggie e Kim o que realmente aconteceu elas não acreditariam e me chamariam de louca.
Eu estava tão acostumada à ver movimento nas ruas onde morava que aquela visão me incomodou um pouco. Andamos por um longo percurso e eu não vira ninguém na rua. Então perguntei a Jake o que acontecia.
– É porque as pessoas tem medo. A maioria delas foram capturadas e levadas para perto do palácio, onde são forçadas a trabalhar, seja em lojas, campos, plantações, criações de gado ou simplesmente como criados do “Rei”. As que escaparam, evitam ao máximo andar nas ruas. Numa paisagem como a que nós estamos agora, seríamos um alvo fácil.
– E porque você anda livremente? Quero dizer, como se não se preocupasse com isso?
– Eu estou sempre preocupado, assim como o resto das pessoas. É que eu cansei de me esconder feito um rato num bueiro! E até agora deu certo. Não sei ao certo por qual motivo. Mas porque sem importou com isso?
– É que todo esse silêncio me irrita. Eu odeio o silêncio. Me lembra solidão, saudade, perda, ou simplesmente a falta de alguma coisa que eu não sei o que é. É confuso demais para mim.
– Talvez seja tão confuso porque não é um sentimento seu, sobre a vida que você vive agora. Talvez seja um sentimento de 150 anos atrás, que resistiu todo esse tempo. Por isso não o entende. — ele sugeriu. Não parecia acreditar muito no que me dizia, mas fez sentido para mim.
Talvez Jake tivesse razão. E aposto que se eu aceitasse o fato de ser a Princesa, talvez várias outras coisas também fizessem sentido para mim. Mas eu estava completamente convicta de quem eu era. Como eu simplesmente podia esquecer vinte anos de vida e passar a acreditar em outra de 150, que eu nem ao menos me lembro? Não digo que eu estava decididamente resolvida sobre esse assunto e sobre quem eu era. Claro que eu tinha dúvidas, porém, não acreditava. Não, não é bem isso. Eu acreditava, em partes. O fato era que eu não queria acreditar. Não queria aceitar.
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