Entre a Luz e a Escuridão
1 Capítulo 1.- Um dia comum
Notas iniciais
Mary - A protagonista. Estudante de veterinária, apaixonada por animais, porém, trabalha como gerente de uma empresa para poder se sustentar enquanto não se forma. É ela quem narra toda a história, porém ela não se descreve tão cedo.
Nala, Kiara e Lady - suas três cachorras adotadas da rua.
Milly e Alex - seus dois gatos também adotados da rua.
Maggie e Kim - suas duas amigas da faculdade que vão passar um final de semana com Mary.
"A vida as vezes lhe dá várias estradas para que você escolha qual deseja seguir, porém, todas elas lhe levam ao mesmo lugar"
Ás vezes eu penso que a vida é assim mesmo. Ela lhe dá trezentos caminhos para seguir, mas, independentemente do que você faça, o destino se encarrega do seu futuro da forma que ele bem entende, e não importa para ele qual caminho você escolheu trilhar. Talvez isso seja uma forma de se conformar com os seus erros ou com tudo que não deu certo, "Isso seria assim, independentemente do que eu fizesse", ou, "Se tiver que ser, será. Não adianta tentar mudar nada". Pode ser que eu tenha desenvolvido essa forma de encarar a vida para tirar o peso dos meus erros de cima de meus ombros, caso contrário, eu teria enlouquecido. Você sabe, é uma necessidade natural do ser humano encontrar alguém para despachar sua culpa, porque então podemos mentir para nós mesmos e dizer que a culpa é do outro, e não nossa, e ponto final, não nos importamos e nem nos preocupamos com mais nada. No meu caso, escolhi o destino para por minha a culpa.
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Eu estava esparramada no sofá, com meu cobertor favorito, azul escuro estampado com luas e estrelas amarelas, me cobrindo. Um pacote de salgadinho vazio em cima da mesinha de centro e um copo sujo de coca-cola me faziam me sentir culpada. De novo eu não resistira e quebrara minha dieta. Mas quer saber? Me deixe ser feliz por mais um dia. Amanhã eu faria trinta abdominais extras para compensar e ponto final. A televisão estava ligada em um canal idiota, ao qual eu nem prestava atenção. O relógio no raque dizia que eram três e trinta e sete da manhã. Eu estava sem um pingo de sono. Resolvi levantar do sofá. Toquei o tapete felpudo com muito cuidado com a pontinha dos pés, para, primeiro, me certificar de que não ia pisar em ninguém, pois, minhas três cachorras, Nala, Kiara e Lady descansavam em baixo de mim.
Lady, uma vira-lata grandalhona, que eu adotara das ruas, assim como as outras, se levantou e me seguiu para a cozinha. Ela deveria ser descendente de algum labrador, porque ela era muito parecida com um, tanto no tamanho avantajado quanto na sua pelagem cor de chocolate curta. Ela não tinha mais do que dois anos. Apesar de ser adotada das ruas, é possível estimar a idade de um cão pela dentição. E como qualquer cão de dois anos, Lady era muito brincalhona e desengonçada.
Abri a geladeira e peguei uma garrafa d'água. Depois fui até o armário e peguei um copo. Lady se deitou na porta da cozinha, bloqueando minha saída, e observava com atenção cada movimento meu. Encarei aqueles olhos cor de mel amendoados.
– Ai droga! Acho que tomar leite é melhor para quem está sem sono. Agora vou ter que trocar.
Lady fungou, como se quisesse dizer: "Que saco!". Fui até a geladeira e troquei a água pelo leite. Depois fui até o armário e troquei o copo pela minha caneca preferida. Isso é uma mania minha. Eu podia muito bem tomar o leite no copo, mas gosto mais da minha caneca. Despejei o leite nela e peguei o achocolatado. Coloquei no microondas e esperei. Olhei para o lado oposto da cozinha. As panelas de comida da Milly e do Alex estavam vazias. Fui até elas e enchi com leite. Eles dois são meu gatos, e estavam dormindo no corredor, seu lugar preferido. Bem no fim dele havia uma mesinha, eu coloquei uma mega almofada e eles amaram o lugar, e, se acordassem no meio do que ainda restava da noite com fome, agora teriam comida. O microondas apitou e eu o abri. Peguei minha caneca e rumei para a sala, e claro, Lady me seguiu. Nala e Kiara acordaram quando eu passei, porém não se mexeram. Nala parecia uma cocker, preta com manchas brancas. As orelhas eram uma de cada cor, e as patas eram todas pretas, e na ponta eram brancas, como se ela tivesse pisado na farinha. Seu porte era médio. Talvez um pouco maior que uma cocker. Ela era a mais velha, tinha por volta de uns três anos. Já Kiara era a caçula: seis meses. Ela parecia um Bernese. Se você não conhece a raça, imagine um São Bernardo, porém um pouco mais baixa e tricolor: preta, branca e marrom e tudo indicava que Kiara ainda ultrapassasse o porte de Lady.
Me sentei no sofá e tomei meu achocolatado enquanto zapeava a televisão. Constatei que não tinha nada de interessante passando e liguei o DVD. Escolhi um dos meus filmes do Scooby-Doo e coloquei no aparelho. Eles sempre me faziam dormir. Terminei meu achocolatado, coloquei a caneca na mesinha e me deitei no sofá. Lady me encarava, deitada no chão, perto da TV. Mandei um beijo para ela, que se levantou e veio em minha direção. Então pulou no sofá e deitou sobre minhas pernas.
– Não Lady! Isso não foi um convite! Desça! — ela me ignorou, é claro. Me rendi. Resolvi dar permissão a ela, só por esta noite.
– Ótimo. Só hoje Lady. E você aproveita não é? Sabe que no meu quarto, na minha cama, não pode!
Me ajeitei de modo à ficar de frente para a TV e devo ter dormido, pois não me lembro de mais nada.
Acordei na manhã seguinte com um telefonema de uma amiga minha: Maggie.
– Oi, diga. — eu disse, antes mesmo de um alô.
– Puxa, que mau humor! — ela respondeu.
– Você me acordou, e isso não se faz! — resmunguei.
– Ora, não tenho culpa. Você me chamou para ir para sua casa passar o final de semana. Disse para eu ir hoje de manhã, depois das dez horas e te avisar quando estivesse saindo de casa.
– Droga! Já são mais que dez horas?
– Sim. Dez e quinze.
– Ok, desculpe. Pode vir.
– Estou indo, até mais.
Coloquei o telefone no gancho, recolhi minha bagunça da mesinha de centro e despejei tudo na cozinha. Todos ainda dormiam. A casa estava um tranquilidade só. No caminho para a cozinha, acordei Lady, Nala e Kiara. Depois, fui para o banheiro, e para isso, eu precisava ir até o corredor. Era a última porta à direita, e no caminho, sem querer também, acordei Milly e Alex, meus dois gatos vira-latas e também adotados. Alex era todo marrom com manchas pretas, olhos escuros e pelo curto. Já Milly era toda branca, com pelos compridos e volumosos e olhos azuis como duas pedrinhas de lápis-lazúli. Fui ao banheiro e escovei meus dentes. Fiquei parada em frente a pia e o espelho, me olhando. Eu passara a dormir pouco e quase não tomava sol de uns tempos para cá. Meus olhos contrastavam com olheiras gigantescas e uma pele branca que eu mais parecia um fantasma. Nossa! A situação estava ficando cada vez mais crítica. Me aproximei mais do espelho. Eu nunca distinguira qual era a cor dos meus olhos, pois ela vivia mudando. Ás vezes era castanho, ás vezes era mel, outras ainda era castanho-esverdeado e no sol ficava verde, mas isso não importava a partir do momento que mais se via minha olheiras de que meus olhos. Abaixei no gabinete e procurei por uma base facial que eu tinha guardado ali. Quando a encontrei, voltei ao espelho e a espalhei pelo rosto. Me olhei novamente. Estava bem melhor. Depois, peguei minha escova e penteei meus cabelos. Eu precisava ir até uma perfumaria e comprar alguma coisa para fazer uma hidratação. As pontas dele estavam literalmente parecendo palha, inclusive a cor do meu cabelo colaborava com isso. Ele era loiro natural, um pouco acinzentado, mas se queimava muito fácil com o sol, assim como minha pele, então as pontas estavam bem loiras.
Sai do banheiro, fui até meu quarto e me troquei, pois ainda estava de pijama. Coloquei uma calça de malha preta e uma blusinha de alça azul e escura. Depois, fui para a cozinha preparar meu café. Milly e Alex estavam lá, tomando o leite que eu colocara durante a madrugada. Me sentei na mesa para comer e Nala, Kiara e Lady se deitaram aos meus pés. Era incrível como esses cães e gatos de davam bem! E Milly e Alex eram gatos caseiros, para meu alívio. Raramente saiam de casa para saçaricar na rua. Quando isso acontecia, alguma coisa havia de errado. Talvez isso seja medo por já terem vivido nas ruas.
Terminei meu café, fui para a pia e lavei minha louça suja. Depois fui para a sala e conectei meu pen drive no meu aparelho de som. Rock You Like A Hurricane, dos Scorpions, começou a tocar. Peguei meus livros, meu estojo e meu fichário em cima do raque, coloquei tudo em cima da mesinha de centro e sentei no chão. Eu precisava estudar. Medicina veterinária não era uma das faculdades mais fáceis, ainda mais quando se trabalha de manhã e estuda de noite. E você ainda tem que abrir mão de lazer e vida social e usar esse tempo para estudar para as provas e fazer seus trabalhos. Ainda bem que me faltavam só um ano e meio para me formar.
A campainha tocou. É claro que eu já sabia quem era. E pelo jeito, Nala, Kiara e Lady também. Elas correram para o quintal e começaram a fazer seu estardalhaço de sempre. O carro de Maggie estava parado em frente ao meu portão, e uma garota de cabelos vermelhos e óculos de sol me esperava, apoiada nele.
– Mary! Bom dia! — ela gritou para mim, sorrindo. Sorri de volta e fui até o portão. Ela abriu o porta malas e eu sai para ajudá-la a carregar sua bagagem.
– Por que você traz tanta coisa? É só um final de semana! — perguntei, irritada. Ela sempre fazia isso e nunca usava nem um terço das coisas que trazia.
Ela ignorou minha pergunta e entrou. Largou suas malas no gramado e se abaixou para cumprimentar minhas cachorras. Depois, pegou-as de novo e continuou seguindo o caminho de pedras até a porta de casa. Eu, claro, fiquei para trás. Fechei o portão e a alcancei. A porta estava aberta, e assim eu a deixei, para que meu bichinhos de estimação pudessem sair para o quintal caso quisessem. Entrei em casa e já me deparei com Maggie esparramada em um dos meus sofás. Ela era tão folgada! E eu me divertia com isso.
– É — disse ela — muita coisa vai acontecer nesse final de semana!
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