Entre a Luz e a Escuridão
12 Capítulo 10 - Reunião Familiar.
Notas iniciais
esse cap é a preparação para grandes mudanças que ocorrerão na historia.
eu sei que demorei muito, mas provavelmente o proximo não demorará tanto.
Entre todos os lugares do reinado a ex-capital Daí-lung era o lugar mais sinistro à noite, por causa da guerra de 16 anos atrás as almas dos habitantes massacrados jamais puderam descansar em paz, a ira de Tenebra por ter seus adoradores exterminados também não contribuiu em nada, como resultado todos os corpos dos habitantes mortos se tornaram morto-vivos.
Zumbis e esqueletos perambulam pelas ruas, espectros torturados voam pelo céu e das sombras rastejam vultos aterrorizantes, durante o dia nada acontece, mas ao anoitecer todos os espíritos furiosos saem para tentar recuperar suas vidas perdidas, como é impossível se livrar deles devido à maldição de Tenebra tudo o que a ordem dos adoradores de Azgher pode fazer foi instalar postos avançados próximos a cidade para evitar que os mortos saiam de lá.
Qualquer um que tenha a infelicidade de andar por esse lugar a noite é prontamente morto pelos espíritos enfurecidos e acabam se juntando a fileira de cadáveres ambulantes, criminosos espertos usam a cidade como esconderijo durante o dia, mas fogem rapidamente antes do anoitecer para escaparem da fome insaciável dos mortos.
Mas nada disso fazia mal a Isawa e seus acompanhantes, para ela e exclusivamente para ela os morto-vivos abriam caminho e demonstravam respeito por aquela que eles sabiam ser a herdeira desse reino.
Isawa achava repugnante a presença de tantos zumbis num só lugar e lamentava ainda mais que ela estivesse se acostumando com isso, era como se sua alma estivesse se tornando insensível a dor para não cair em desespero, há pouco tempo atrás ela passou em frente a um prédio em ruínas, mas que ela sabia ser uma escola sabia disso porque vários zumbis pequenos e queimados estavam sentados em cadeiras igualmente queimadas, sentadas e quietas as crianças mortas esperavam a professora que nunca viria, essa cena fez Isawa chorar como se ela própria fosse a mãe de uma dessas crianças, chorou por aproximadamente 10 minutos até desistir de chorar e voltar a andar.
Suas passadas levavam em direção ao castelo semi destruído, mesmo de longe dava pra ver como vários andares estavam destruídos, buracos na parede e muito mais.
- Você está bem senhorita? – perguntou Daneth com uma expressão rara de preocupação.
- Eu pareço tão mal assim? – perguntou ela sorrindo falsamente e enxugando as lágrimas.
- Não tente parecer mais forte do que é senhorita – aconselhou ele – ou quando suas forças realmente acabarem você sentirá muito mais o peso.
Isawa já estava sentindo esse peso, desde que entrara no território da cidade que ela sentia que suas palavras sobre paz e compreensão pareciam coisas de criança, se sua mãe dita tão forte não pode trazer paz a essa gente o que uma criança como ela poderia fazer?
Chegando ao portão principal uns guardas zumbis estavam alertas, mas diante de Isawa eles abriram o portão, o jardim outrora lindo estava tão morto quanto o resto da cidade, nenhuma planta crescia nesse lugar, nenhum animal se aproximava dessas terras.
E no meio do jardim um impressionante esqueleto de dragão estava tombado diante da grande porta que levava para o interior do castelo, ao seu redor tudo estava destruído, os corpos de homens com armaduras que agora não eram mais tão brilhantes estavam destroçados, o próprio dragão tinha uma lança cravada onde seria o coração, uma presença familiar emanava dele para Isawa.
- Esse é seu pai Isawa – avisou Vulthar que até então estava quieto.
- Meu... Pai? – para Isawa era difícil acreditar que uma criatura sobrenatural e lendária pudesse ser pai.
Ela ficou admirando o esqueleto gigantesco, era parecido com as ilustrações que via nos livros, por mais que quisesse ela não conseguia se sentir filha daquele ser.
- Ele morreu lutando contra os invasores minha princesa – explicou Turok – tenho certeza que ele quis que você ficasse a salvo.
- Por que ele não está se mexendo como os outros? – perguntou Karin.
- Talvez a maldição que paira sobre esse lugar não seja forte o bastante para ele – disse Vulthar – ou talvez ele esteja esperando algo.
Isawa tocou o focinho esquelético e sentiu uma estranha pulsação como se aquilo estivesse vivo, aproximou-se mais e encostou o rosto na face do dragão morto.
Os ossos foram envolvidos com uma luz negra, o esqueleto todo tremeu e a luz negra se fundiu com Isawa que assustada recuo, quando o brilho sinistro cessou ela estava diferente.
Seu corpo estava vestido numa armadura leve e maleável feita com escamas, braçadeiras e tornozeleiras de osso duro e resistente e uma tiara parecida com uma fileira de dentes protegia a cabeça, em suas mãos jazia uma grande espada semelhante a katana que usava, mas seu cabo junto com o protetor das mãos lembrava a cabeça de um dragão.
- Mas o que é isso?? – perguntou ela assustada.
- Parece que seu pai lhe deixou um presente – disse Daneth avaliando as peças que compunha o conjunto.
- Acho que era isso que ele estava esperando – disse Turok.
Isawa ficou analisando o presente, a armadura toda não pesava mais que um casaco de frio, não atrapalhava seus movimentos e nem lhe incomodava, a espada era tão leve quanto uma espada de bambu a bainha preta era feita de ossos também retirando a lâmina da bainha viu que ela era branca como osso comum e nem era de metal, provavelmente tão orgânica quanto o resto.
- Que bom nee-chan, seu pai gosta de você – comentou Karin toda feliz.
- Sei lá, parece que ele ta querendo que eu vá pra guerra! – Isawa não tinha uma boa opinião sobre isso.
- Você pode ficar ai reclamando sobre um presente legal como esse ou pode entrar no castelo e bater um papo com sua mãe – reclamou Vulthar.
Isawa ficou aflita, no caminho até o palácio Vulthar explicou que Tenebra permitiria que ela conversasse com Kyara, mas só até o sol nascer, ela tinha apenas uma noite para conversar com sua mãe legitima, ela não queria perder nem mais um minuto.
O grupo entrou no castelo arruinado, percorreram vários corredores onde evidencias de batalha se estendiam por todo o percurso, cada vez mais descendo e atravessando portas.
- A partir daqui vá sozinha – avisou Vulthar – e vocês vem comigo, vamos fazer uma excursão pelo castelo.
Isawa acenou positivamente para Karin que não queria sair do seu lado, Turok apenas se curvou e obedecendo sua vontade se retirou, Daneth e Karin seguiram ele.
- Dê orgulho a sua mãe sua peste – disse Vulthar antes de seguir o grupo.
Isawa estava diante da escadaria de granito que levava para a parte mais profunda do castelo, segundo Vulthar lá embaixo ficava um templo de Tenebra e era onde o corpo de sua mãe descansava após a morte.
- Bom, lá vou eu – ela tentava disfarçar seu nervosismo pra si mesma.
Começou a descer cada degrau lentamente, a escuridão que seria perigosa para outras pessoas não lhe incomodava, mas por algum motivo ela tinha medo do que poderia encontrar lá no fundo, quando terminou de descer a tortuosa escadaria se deparou com um portão que estava em pedaço, marcas de fogo cobriam tudo, adentrou o grande salão e em seu interior uma estátua gigantesca adornava o lugar.
- Metida como sempre! – desdenhou Isawa sobre a estátua.
Sua visão convergiu para abaixo da estátua, um esqueleto usando farrapos de trajes nobres caído no chão, aquela mesma sensação de familiaridade que teve para com o esqueleto do dragão na entrada do castelo, tudo apontava para a conclusão que aquele esqueleto era Kyara.
Isawa se agachou em frente aos ossos, tocou-lhe o crânio e mais uma vez a luz negra envolveu todo o esqueleto, dessa vez a luz não se juntou a Isawa e sim ergueu o esqueleto do chão, quando o brilho diminuiu lá estava Kyara com sua forma antiga, seus trajes restaurados e aparentando estar tão viva quanto Isawa.
- Você é minha mãe? – perguntou Isawa chorando de emoção, a pergunta não era necessária, mas ela quis perguntar mesmo assim.
- Oh, você é mais linda do que eu jamais pude sonhar!! – Kyara estava tão comovida de estar diante da filha que não se controlava e chorava também.
Kyara foi a primeira e vencer a pequena distancia que separava as duas e abraçá-la, Isawa retribuiu o gesto afundando o rosto no peito de sua mãe que mesmo sendo a primeira vez sentia que ela era a pessoa mais importante em sua vida.
- Mãe, mãe, mãe... – Isawa não conseguia parar de chorar e pronunciar a palavra que tanto lhe fez falta.
- A última vez que pude tocá-la você era só um bebezinho! – disse ela olhando o rosto da filha – falando nisso... Qual é o seu nome?
- Você não sabe o meu nome??? – perguntou Isawa assustada.
- É que eu ia batizá-la na lua cheia como de costume aqui – explicou Kyara um pouco envergonhada – mas antes disso...
- Meu nome é Tomakawa Isawa – respondeu ela sorrindo, não achou que teria que se apresentar para sua própria mãe.
- Um nome muito bonito, eu e seu pai pretendíamos chama-la de Myasta – Kyara sorriu ao lembrar do dia que escolheu esse nome – seu pai não tinha paciência pra escolher nomes e aceitou o primeiro que sugeri.
Kyara também sentiu uma coisa diferente em Isawa olhou-a bem e notou algo bem interessante, sorriu ao constatar as escamas de Zariesk cobrindo o corpo dela.
- E por falar em seu pai vejo que você está vestindo ele.
Isawa só lembrou da armadura agora, e achou estranho a piada sobre vestir o pai.
- Ele não quis conversar com você não é? Ele não conversava muito comigo também.
- Ele não gostava de você? Não gostava de mim? – perguntou Isawa meio triste.
- Longe disso, eu tenho certeza que ele preferiu ficar ao seu lado sempre protegendo-a do que trocar palavras por uma noite.
- Como ele era? No meu mundo não existem dragões, eu nem acreditei que meu pai era um dragão.
- Ele era ranzinza, mal educado, grosso, vagabundo, brigão e egocêntrico – respondeu Kyara como se fosse a coisa mais trivial do mundo.
- O que você viu nele?! – perguntou Isawa assustada com a descrição.
- Apesar de tudo isso ele nos amava verdadeiramente, ele sempre ficava semanas às vezes meses longe daqui, ia quando queria e voltava quando queria, mas quando ele soube que eu estava grávida quase não saia daqui.
- Você fala como se fosse uma grande melhora – Isawa fez uma careta estranha sobre isso.
- Quando o castelo foi atacado eu pedi a ele que fugisse daqui levando você embora – revelou Kyara – mas ele se recusou, disse que você precisava mais de mim do que dele e foi lutar para expulsar os invasores, ele morreu protegendo não esse reino, mas a mim e a você.
Isawa não pode deixar de chorar por pensar tão mal de Zariesk, ela achava que o dragão era só um monstro que meramente por obra do destino era também o seu pai, ela compreendia agora o significado da armadura e da espada: era o jeito dele para protegê-la e garantir que ninguém lhe fizesse mal.
- Me acompanhe minha querida – pediu Kyara – vamos ao meu quarto para conversar melhor, lá eu lhe contarei tudo que quiser saber, e você me contará sobre tudo o que eu perdi enquanto estava morta.
- Você fala como se morrer fosse uma besteira qualquer – disse Isawa seguindo a mãe e rindo.
- E não é? Eu não estou aqui agora tentando recuperar o tempo perdido? Morrer só é um problema se você ficar morto de vez.
As duas começaram a rir juntas, em tão pouco tempo já estavam intimas e agora se conheceriam mais ainda, a noite não seria longa o bastante para tudo o que queriam.
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Menefer e Dalap percorriam o corredor de paredes brancas iluminadas por pedras de luz, estavam ansiosas para falar logo com o responsável pela fortaleza, sem nem mesmo pedir licença elas entraram no escritório.
- Quando me avisaram que um proto-draco dourado estava vindo pra cá nem acreditei, seja bem vinda princesa – cumprimentou o homem por trás da mesa.
O homem que já devia estar na faixa dos 50 possuía uma barba simples bem cortada, um casaco acinzentado e uma bela espada presa a cintura.
- Você é OlderGrass? – questionou menefer – o responsável por essa fortaleza?
Oldergrass era o administrador de uma das quatro fortalezas que cercavam Daí-lung, a ex-capital ficava só a 20 km de distancia, as fortalezas foram construídas um ano depois da guerra devido ao aparecimento constante de monstros na região.
- Exatamente minha jovem, a que devo a honra da visita de alguém da realeza?
- Preciso de ajuda para penetrar a cidade fantasma de Daí-lung e executar uma fugitiva.
- Impossível moça, ninguém entra em Daí-lung à noite e fica vivo muito tempo – respondeu o senhor.
Dalap desceu do ombro da mestra e começou a brincar com coisas sobre a mesa, Menefer sentou na cadeira vazia de frente pra mesa.
- Sei que é um pouco arriscado senhor Oldergrass, mas como servo de um deus deve compreender bem que uma missão sagrada não deve ser impedida por meros riscos.
- “Meros riscos” você diz – zombou o senhor – Daí-lung está infestada de todo tipo de aberração, morto-vivo, demônios e outras coisas, por mais que exterminemos essas pragas elas sempre voltam na noite seguinte, a maior parte do meu pessoal está lá fora patrulhando para que nenhuma dessas abominações saia dos limites da cidade, não vou sacrificar meu pessoal para ajudar uma única pessoa.
- Mas você serve ao deus da justiça! Tem o dever de auxiliar aqueles que querem levar justiça ao mundo, principalmente um servo de um deus aliado de Khalmyr!
- Conheço muito bem meus deveres mocinha! Eu já levava justiça ao mundo antes mesmo de você sonhar em nascer – o homem estava claramente ofendido – mas Khalmyr jamais ordenou que seus servos entrassem numa cruzada obviamente suicida cujo resultado nem mesmo se conhece e ainda mais para ajudar alguém movido por motivos egoístas!
- Como assim motivos egoístas!? Quem é você para julgar os meus motivos??
- Absolutamente ninguém importante o bastante julgar a vontade de Azgher, apenas faço aquilo que me foi ordenado, se você não respeita isso então é uma egoísta sim.
A irritação de Menefer estava fazendo seu sangue ferver, Dalap pressentindo problemas voou para um canto da sala.
- Posso enviar mensagens para as outras fortalezas pedindo que aumentem a vigilância para impedir seu alvo de fugir – sugeriu o homem – até lá pode esperar aqui o sol nascer ou pode encarar “os meros riscos” sozinha, a escolha é sua.
- Se isso é o máximo de ajuda que vou conseguir de você então aceito sua oferta – disse Menefer contrariada.
- Quem você tanto persegue que merece tanta atenção? – perguntou Older.
- Estou perseguindo a amaldiçoada arauta de Tenebra – respondeu ela – não permitirei que ela escape dessa vez.
- Está se referindo a herdeira desaparecida do trono? Filha de Kyara que segundo a lenda fugiu para outro mundo pra escapar da perseguição de Azgher?
- Essa mesma senhor, farei ela pagar pelos crimes cometidos e aqueles que ainda vai cometer.
Oldergrass começou a sorrir, Menefer se sentiu insultada pelos risos daquele homem que desde a chegada dela só fazia ridicularizar a missão dela.
- Está perdendo seu tempo moça, a justiça está do lado dela.
- Como assim? Como o deus da justiça pode proteger uma criminosa que só trás desgraça a esse mundo? A influencia de Tenebra já cegou tanto assim Khalmyr?
- Cuidado com a língua moça, Khalmyr não proteger criminosos, acontece que ela não cometeu nenhum crime, e por direito ela é dona desse país.
- Está dizendo que o julgamento de Azgher está errado? Quem está errado aqui é o seu deus por se casar com Tenebra!
- Khalmyr se casou com Tenebra para provar sua imparcialidade, afinal se ele não perdoa nem mesmo a esposa o que dirá dos outros! Uma vez eu questionei meu superior sobre o motivo de Khalmyr não ter liberado a maldição que cerca Daí-lung.
- E o que ele respondeu?
- Que foi o próprio Khalmyr que sugeriu para Tenebra colocar a maldição nessas terras.
- E você ainda diz que ele não protege Tenebra?
- Isso ou talvez ele saiba de algo que não sabemos – respondeu o velho senhor abrindo a porta para Menefer se retirar.
Menefer apenas cumprimentou Oldergrass antes de sair da sala, seguida por Dalap elas foram levadas a um aposento onde poderiam descansar, enquanto isso o comandante da fortaleza enviou falcões mensageiros para as outras fortalezas.
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- Eu também queria conhecer a Kyara – Karin parecia chateada de ter ficado de fora.
- A senhorita Isawa só tem essa noite para por a conversa com a mãe em dia, e já passou de meia noite – explicou Daneth.
O grupo que agora seguia Vulthar se dirigia a outras salas do castelo, Vulthar os havia chamado para algo que ainda não explicara.
- O que tem atrás dessa porta? – perguntou Karin.
- Aqui é o cofre onde a rainha Kyara e lorde Zariesk guardavam seus tesouros – explicou Turok.
A porta estava nitidamente arrombada e aberta, o grupo entrou no salão e ficaram surpresos com o que encontraram.
- Pensei que tinham saqueado todo o tesouro – disse Turok surpreso por encontrar ainda muitas coisas de valor.
- Só puderam levar aquilo que era feito de ouro – explicou Vulthar – o resto foi amaldiçoado por Tenebra e ninguém encostou mais.
Ainda havia muitas obras de arte, jóias e pedras preciosas, coisas valiosas que iam desde utensílios de cozinha feitos de prata até relicários contendo objetos sagrados.
- Bem pessoal, peguem o que acharem mais convenientes – sugeriu Vulthar.
- Acha que vou roubar a herança da minha princesa? – perguntou Turok furioso.
- E mesmo que eu tivesse interesse eu não to a fim de ser amaldiçoado – brincou Daneth.
- Isso não é roubo, só estamos pegando emprestado, tenho certeza que quando ela terminar de bater papo com a mãe vai gostar de levar umas coisinhas.
- Então sendo o caso não deveríamos esperar a nee-chan voltar? – perguntou Karin.
- Eu sugiro que se preparem para problemas futuros – avisou Tenebra surgindo do nada.
No momento que escutaram a voz de Tenebra e se viraram pra comprovar a presença dela os três se ajoelharam.
- Aquelas duas estão tão animadas que me deu pena atrapalhar, então deixo o recado com você mesmo Vulthar.
- E o que seria minha deusa? – perguntou Vulthar respeitosamente.
- Aquela garota de Azgher virá aqui ao amanhecer, e talvez ela traga companhia.
- Eu não permitirei que ela faça mal a minha princesa! – afirmou Turok todo exaltado.
- Eu também não! – Karin estava tão decidida quanto ele.
Tenebra sorriu mostrando os caninos afiados, Karin recuou e se escondeu atrás de Turok.
- O que Isawa significa para vocês? – perguntou Tenebra se sentando sobre um baú.
- Isawa é a esperança desse reino – respondeu Turok – irei protegê-la com minha vida e mesmo depois da morte levantarei pra continuar.
- Ela me salvou e cuidou de mim – continuou Karin – até fez de mim sua irmãzinha, quero retribuir como for possível.
Involuntariamente os olhares de todos convergiram para Daneth que apenas sorriu.
- Conheci a senhorita Isawa em condições curiosas, no inicio eu só tinha o desejo de segui-la sem me envolver – explicou ele – meus motivos não são tão nobres como o de vocês, eu apenas desejo fazer parte disso e ver que futuro ela pode criar.
- É mais do que eu esperava – comentou Vulthar – eu imaginava que você só estava a fim de transar com ela.
- Você leva a serio a expressão “língua venenosa” não é?
E com mais essa até Tenebra gargalhou, e como de costume uma nova praga surgiu sobre o mundo na forma de uma nova espécie de morto-vivo.
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Já tinha pelo menos três horas que Isawa conversava com sua mãe no quarto dela, sendo que uma dessas horas serviu para Kyara contar tudo sobre si e Zariesk, Isawa às vezes ficava revoltada com algo que um dos dois tinha feito e outras vezes ficava emocionada com alguma outra coisa, chegou a conclusão de que não conseguiria odiá-los. As duas juntas deitadas na cama olhando um álbum de foto que a avó de Isawa tinha posto na mochila para que ela jamais se esquecesse do seu lar, no álbum só havia fotos de Isawa em cada momento importante de sua vida, levou uns 10 minutos explicando para Kyara o que eram fotografias e sempre que algo novo aparecia em uma foto ela parava pra explicar mais isso, Kyara achava extremamente prazeroso acompanhar mesmo que indiretamente o crescimento de sua menina, olhava o álbum ao lado da filha como se fossem duas adolescentes e o tempo todo sem se soltar da espada que era feita com os restos do seu falecido marido.
- E essa aqui nos tiramos quando fomos no parque ver a exposição de animais – explicou Isawa toda alegre – eu tinha 14 anos.
- Eles cuidaram muito bem de você – comentou Kyara sobre os avós de Isawa – eu tinha medo que você ficasse abandonada, que sofresse por nem eu e nem seu pai estamos por perto.
- Eu sinto muita falta deles – disse Isawa perdendo um pouco do ânimo – quando eu descobri que era adotada eu xinguei muito eles, depois percebi que eles me amavam de verdade e acabei sentindo raiva de vocês achando que tinham me descartado.
- Isso nunca! Eu sempre te amei e mesmo que ele jamais admitisse Zariesk também te amava.
- Mas é que essa guerra começou por minha causa, achei que eu era um fardo.
- Minha querida, comparado a tudo o que eu fiz você é totalmente imaculada, essa guerra não começou por sua causa, você só foi uma desculpa que eles arranjaram, e mesmo que você fosse um fardo eu teria prazer em carregá-la.
Kyara beijou a testa da filha quando esta deixou cair uma lagrima de emoção e depois começou a rir de algo.
- Seu pai ficou gelado de repente – disse ela pegando a mão da filha e colocando sobre a espada – ele deve estar mal humorado por estarmos tendo um momento em família.
- Ele está vivo? Pode nos ouvir?
- Não está vivo, mas seu espírito está ligado à espada e a armadura, e ele pode sentir as coisas ao seu redor.
Isawa começou a acariciar a espada até que a temperatura dela voltasse ao normal, as duas riram juntas de como aquele espírito era manhoso.
- Você é um egoísta sabia? – falou Kyara olhando diretamente para a espada – vai ficar coladinho nela o tempo todo enquanto Tenebra só me deu uma noite!
- Mãe, por que escolheu Tenebra? Vulthar me falou sobre outros deuses, por que logo ela?
- Quando eu era só uma criança morava com meus pais em um país muito castigado pela seca – Kyara contava tudo como se fosse ontem – sempre que o verão chegava a seca piorava e mal tínhamos comida para nos mantermos, então meus pais adoeceram de insolação por tanto trabalharem no campo.
- Então eles...
- Morreram no verão em que eu completava 13 anos – continuou Kyara – eu sobrevivi por que eles me davam a maior parte da comida restante, mas eu própria não ia durar muito sozinha.
- Eu sinto muito por fazê-la lembrar disso – desculpou-se.
Kyara apenas balançou a cabeça negativamente, ainda faltava parte da historia.
- Eu decidi que iria sobreviver de qualquer jeito, decidi que iria sair daquela terra castigada pelo sol e procuraria um lugar melhor pra viver, para evitar insolação em só viajava a noite e me abrigava durante o dia.
- Deve ter sido muito difícil.
- Era mais fácil sobreviver ao frio e o escuro com uma simples fogueira e um cobertor do que resistir ao calor sufocante do dia que também ardia os olhos – explicou – com o tempo eu fui tomando gosto pela noite, achava muito bonito viajar sob as estrelas e Tenebra era muito mais gentil que Azgher.
- Foi assim que começou a gostar de Tenebra?
- Eu aprendi sobre Tenebra quando conheci um jovem clérigo dessa deusa durante minha andança, ele me contou tudo sobre a ordem de clérigos da deusa e como era fácil receber a benção dela, bastava demonstrar amor e respeito por ela na forma de um pouco de adoração e a promessa de sempre proteger suas criações.
- Tão fácil assim?
- Não é tão fácil quanto parece, seguir os desígnios de Tenebra significa aceitar todos os costumes de suas criações, e você já deve ter percebido que nem tudo o que ela faz e certo ou mesmo aceitável.
Tenebra era uma deusa caprichosa e imprevisível, a maioria de suas criações traz algum tipo de mal em si, mesmo as mais bem intencionadas geralmente são distorcidas para os padrões do resto do mundo.
- Quando eu fui designada para ajudar num templo de Tenebra eu fiquei maravilhada com o poder que o clérigo responsável tinha: o poder de erguer os mortos.
- Mas por que uma coisa dessas lhe interessou? – perguntou Isawa confusa.
- Por que minha primeira ambição ao conseguir um pouco de poder foi trazer meus pais de volta.
Agora Isawa compreendia por que sua mãe chegou ao ponto de usar métodos cruéis para cumprir seus objetivos, se estivesse no lugar dela faria o mesmo, alias agora que finalmente a conheceu sentiu que se tivesse uma oportunidade a traria de volta.
- Quando uma pessoa morre seus sonhos morrem junto com ela – explicou Kyara – seu passado é esquecido e você não terá futuro, mas os clérigos de Tenebra não aceitam a morte como o final de suas existências.
- No meu mundo nos aprendemos que é errado brincar com a vida – disse Isawa.
- Só os deuses controlam a vida – continuou Kyara – o que nos fazemos é prolongar nossa existência, você não está feliz de me encontrar mesmo agora que eu estou morta?
- Eu... Até tinha esquecido que você estava morta – disse Isawa envergonhada.
- Enquanto meu espírito existir nesse mundo não estou completamente morta – disse Kyara acariciando o rosto de sua filha – estando ao seu lado, te tocando, te aconselhando... Não é importante se estou viva ou morta.
- Mas por que Tenebra e Azgher são inimigos? Por que eles não podem entrar em acordo ou se respeitarem?
- Por que isso é contra a natureza deles, a luz e a escuridão não podem coexistir no mesmo espaço, por isso o mundo é dividido em dia e noite, uma pessoa não pode ser boa e má ao mesmo tempo e por isso o bem luta contra o mal o tempo todo.
- Então por isso Azgher odeia Tenebra? Por que ela é má e ele bom?
- Toda luz gera uma sombra, quanto maior a escuridão mais resplandecente a luz brilha, para os clérigos de Azgher toda criatura de Tenebra é maligna, mas quando uma criatura de Tenebra é caçada pelos clérigos de Azgher de repente os papeis se invertem.
- Eu sei como é isso, eu tinha uma amiga que era muito legal comigo, as pessoas diziam que parecíamos irmãs de tão unidas, mas quando Azgher ordenou que ela me matasse tudo mudou.
- Então lute por isso Isawa – pediu Kyara séria – se não deseja lutar pelo seu titulo ou suas terras ao menos lute pelo que acredita, lute por essa amizade que você acredita.
- Você aceitaria? Aceitaria que eu fosse amiga de uma inimiga sua?
- Meu coração só carrega mágoa por Azgher e seus servos, eu jamais poderia perdoá-los pelo que fizeram, mas você nasceu e cresceu livre disso, se puder mudar alguma coisa eu aceitarei o que for.
Isawa não se conteve e abraçou Kyara que correspondeu ao abraço com a mesma intensidade e acariciava o cabelo da filha que sabia ser a última vez que veria, a tristeza da separação já lhe corroia.
- Nosso tempo está acabando – disse Kyara depois de se separar dela, mas eu tenho um presente pra você.
Kyara correu até um grande guarda roupas que ficava no canto do quarto, o móvel estava semi destruído pelo tempo e suas portas caiam aos pedaços.
- O que está procurando?
- Espero que esteja intacto – Kyara falava meio que sozinha – há! Achei!
Kyara tirou do fundo do guarda roupa uma caixa semelhante a uma maleta de executivo, com um gesto a caixa se abriu revelando um vestido vermelho-sangue estilo chinês composto de uma calça folgada e algo semelhante a um colete que cobria uma outra peça fina, tinha belos adornos verdes.
- Isso é um pouco... Estranho – comentou Isawa achando aquela combinação de cores meio esquisita.
- O motivo de você só ter voltado agora é que já está na idade de ser oficialmente minha herdeira – explicou toda alegre – eu lhe daria esse vestido em seu aniversario desse ano.
- Quando eu faço aniversario? Meus avós me deram a data que Tenebra me entregou a eles.
- Você ia completar um mês de vida quando fomos atacados, então você tem 16 anos agora e um mês a mais.
Isawa sorriu por saber mais um detalhe de sua vida, se despiu rapidamente para trocar de roupa e quando estava só de peças intimas sua mãe lhe tocou o rosto.
- Posso lhe pedir só mais uma coisa? – disse Kyara com olhinhos brilhantes.
- Claro, qualquer coisa.
- Posso lhe ver como você é verdadeiramente? Sua verdadeira aparência quero dizer.
- Eu... Até poderia, mas eu não sei como.
Uma luz negra saiu da mão de Kyara que tocava o rosto da filha, em pouco tempo Isawa sentiu um formigamento pelo corpo todo, sua pele começou a mudar e seus olhos ficaram verticais como os de uma cobra, sua pele ficou tão negra como as escamas que compunha a armadura que vestia antes e somente tocando dava pra sentir que eram realmente escamas bem pequenas e alinhadas.
- Como eu disse antes você é mais linda do que eu podia sonhar – Kyara estava extremamente comovida e encantada com a filha.
- Essa é a primeira vez que me vejo assim por completo – disse Isawa se olhando no grande espelho do quarto.
- Não se sinta menos humana por causa disso Isawa – pediu ela – ser humana ou dragão só depende do seu interior, mas por ser metade de cada você é única, é especial.
Kyara tocou novamente o rosto da filha com a mesma luz negra de antes e ela regrediu para sua aparecia comum, Isawa terminou de se vestir com a roupa dada por sua mãe.
- Ficou bem em você – elogiou Kyara ajudando a filha a vestir a armadura por cima – seu pai também concordaria.
Kyara disse isso entregando a espada, Isawa abraçou o artefato e sentiu que ele estava morno, depois Isawa retirou umas escamas que ficavam na proteção da cintura e pregou todas em um colar que estava no chão, entregou a nova jóia para sua mãe.
- Acho que uma parte dele deve ficar com você.
- Eu quase posso o ouvir resmungando por todo esse “sentimentalismo banal de humanos”
As duas riram da piada, Isawa já estava entendendo como duas pessoas tão diferentes se davam bem juntas, ela achava que talvez pudesse se dar bem com Zariesk.
- Agora você deve ir – pediu Kyara triste – logo o sol vai nascer.
- Eu queria ficar com você até o final – pediu Isawa chorando.
- Você não deve, tem muitas coisas pra fazer do que ficar aqui perdendo seu tempo.
Isawa compreendia, compreendia que sua mãe não queria que lhe visse voltar a ser só um esqueleto inanimado, era melhor guardar na lembrança o sorriso dela, as palavras dela do que uma imagem cadavérica.
- Então... Adeus – disse Isawa triste.
- Seria melhor dizer até logo, um dia quem sabe possamos conversar de novo, ai podemos falar de muito mais coisas!
- Então até logo! – Isawa saiu correndo ou jamais conseguiria sair.
Depois que Isawa saiu Kyara sentou-se na cama, parecia cansada e abatida, sem força alguma.
- Os momentos mais dolorosos são os poucos minutos que separam a vida da morte – comentou Tenebra saído da escuridão – mas você não fraquejou nem um instante.
Tenebra se referia ao efeito que a proximidade da não-existência causava nos mortos vivos, sabendo que estão chegando ao fim eles enlouquecem e no desespero tentam se agarrar a vida como alguém se agarra a uma bóia quando está se afogando, é uma coisa deprimente e às vezes eles pedem qualquer noção e atacam até aqueles que amam.
- Eu não queria que ela me visse nesse estado tão deplorável – comentou Kyara.
- Por que não pediu a ela que restaurasse seu reino? Ela teria atendido qualquer pedido seu.
- Não quero manipular minha própria filha, quero que ela própria decida seu caminho.
- Teria sido tão mais fácil... – disse Tenebra como se estivesse decepcionada.
- Se ela souber a verdadeira razão dessa guerra ficará furiosa como eu fiquei, não conte a ela, por favor.
- Acho que já fiz muito por você.
Kyara sabia que Tenebra contaria em breve, seus lábios começaram a tremer assim como suas mãos.
- Se você tivesse pegado um pedaço da alma dela continuaria a existir por mais tempo – Tenebra parecia provocá-la diante de seu fim inevitável.
- Eu nunca machucaria minha filha – Kyara estava agindo como um drogado em crise de abstinência – prefiro ficar só na lembrança dela.
- Quem sabe um dos amigos dela, posso trazer um deles pra você se alimentar.
- CHEGA!! ME DEIXE EM PAZ!!!!! – Kyara se deitou na cama em posição fetal, chegou ao limite da sanidade.
A tentação de continuar existindo sugando a vida de outros estava enlouquecendo Kyara, por isso ela não queria Isawa por perto, sabia que no ultimo minuto atacaria ela, ou talvez a própria menina oferecesse sua vida de bom grado.
Tenebra se divertia com isso ao mesmo tempo que se recriminava por não conseguir apagar esse traço de sua personalidade, a dor dela gerava energia negativa que alimentava todos os seres das trevas, para Tenebra ver o desespero de Kyara era como tomar um suco refrescante.
- Eu... Quero... Continuar... Existindo – balbuciou Kyara antes de calar-se permanentemente e seu corpo se tornar um esqueleto inanimado.
- Quando o mundo for meu você e todos os outros poderão existir eternamente, a morte não irá mais ser um problema, até como você disse sua existência continuará nas lembranças de Isawa.
Tenebra desapareceu pouco antes dos primeiros raios de sol surgirem no horizonte, o dia chegava e ela agora só tinha que esperar o próximo anoitecer para ver os frutos do seu plano.
Continua.
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