Entre a Cena e o Silêncio
5 Rastros Invisíveis
A sala de interrogatórios sempre fora um palco estranho para Sara Sidle. Ali, entre as paredes frias e o vidro espelhado, ela já vira criminosos se desmancharem em lágrimas... e também monstros manterem o olhar impassível mesmo diante de provas incontestáveis. Mas naquela manhã, algo nela estava diferente. Havia tensão em seus ombros, algo que nem mesmo seu habitual controle conseguia disfarçar.
Luis Moreno estava sentado à mesa, algemado, olhos semicerrados, como se já tivesse decidido não colaborar.
— Sr. Moreno — começou Sara, sentando-se diante dele —, temos sua digital no corrimão. Sabemos que você estava no local momentos antes da queda da vítima. E sabemos do seu histórico de agressões.
Ele bufou.
— Aquilo não prova nada. Eu trabalho naquele prédio. É óbvio que minhas digitais estariam lá.
Grissom, do outro lado do vidro espelhado, observava com atenção. Os olhos fixos em Sara, mas os ouvidos atentos a cada palavra do interrogado.
— Você teve um desentendimento com a vítima? — insistiu Sara, mantendo a voz calma.
— Não. Eu nem conhecia o cara.
Sara deslizou um envelope pela mesa. De dentro, tirou uma foto: a vítima com uma marca roxa no pescoço, tirada no necrotério.
— Essa marca foi feita por alguém com luvas de borracha. Temos resíduos de detergente industrial compatível com os produtos usados no seu carrinho de limpeza. Vai continuar dizendo que não estava lá?
Moreno endureceu a mandíbula. O silêncio dele falava mais alto que qualquer resposta.
— Eu estava só tentando assustar — ele soltou, enfim. — O cara me mandou sair da escada, falou que ia reclamar de mim, dizer que eu estava dormindo no turno. Só empurrei pra longe. Não achei que ele fosse cair...
Sara franziu o cenho.
— Então você admitiu.
Ele olhou para ela com raiva.
— E daí? Vai me prender por isso? Um empurrãozinho? Ele que caiu porque era frouxo.
Antes que ela pudesse reagir, ele se inclinou bruscamente sobre a mesa, puxando-a com violência pelas algemas ainda presas ao suporte. A cadeira de Sara tombou para o lado, e tudo aconteceu em segundos.
Do outro lado do vidro, Grissom foi o primeiro a se mover.
O mundo girou por um momento. Sara sentiu o impacto no ombro e o gosto metálico de adrenalina na boca. Quando a porta foi escancarada e Grissom entrou com o segurança atrás, ela já estava no chão, lutando para se levantar. Luis foi imobilizado com brutalidade.
Grissom correu até ela, ajoelhando-se ao lado com os olhos arregalados.
— Você está bem? — a voz dele era urgente, baixa, mas trêmula.
— Estou — respondeu Sara, ofegante. — Foi só o susto.
Ele a ajudou a sentar. As mãos dele tocaram o braço dela com cuidado, examinando o machucado que começava a se formar. E, por um instante, algo quebrou dentro dele. Medo, raiva, culpa — tudo misturado.
— Eu devia ter estado lá com você — murmurou.
Ela tocou o rosto dele com a mão livre.
— Grissom, você não pode me proteger de tudo. Eu escolhi esse trabalho tanto quanto você. Eu sabia dos riscos.
Ele fechou os olhos por um segundo. E foi então que as lembranças voltaram.
FLASHBACK – ANOS ATRÁS
Era tarde da noite. No antigo laboratório, Sara dormia no sofá de couro gasto, a cabeça apoiada num casaco dobrado. Grissom a observava da porta, os óculos pendendo no bolso da camisa, com aquele misto de fascínio e receio.
Ele se aproximou em silêncio, e por um momento apenas olhou para ela, como se o próprio fato de Sara existir o desestabilizasse.
Ela abriu os olhos devagar.
— Grissom?
— Eu... não queria te acordar.
— Já acordou — ela sorriu.
— Eu não sei como lidar com isso — confessou. — Você e eu. Não aqui. Não com tudo o que acontece nesse lugar.
Sara sentou, ainda meio sonolenta.
— Grissom, o mundo não vai parar de ser sombrio só porque a gente se gosta. Mas talvez, justamente por isso, a gente deva se agarrar ao que tem cor.
Ele ficou em silêncio, depois se sentou ao lado dela. Tocou sua mão, tímido, mas firme.
— Fica comigo. Não só esta noite.
Ela sorriu, cansada, mas cheia de algo que ele só entenderia anos depois: coragem.
— Já estou com você, Griss.
DE VOLTA AO PRESENTE
Grissom olhou para ela, agora sentada no banco do ambulatório do laboratório, com gelo no ombro. Mesmo depois de tudo, ela ainda tinha o mesmo olhar — firme, determinado, mas com um fundo de doçura.
— Você me assusta, sabia? — ele disse, com um sorriso fraco.
— Por quê?
— Porque mesmo machucada, você ainda quer correr pra resolver tudo. Ainda quer consertar o mundo.
Ela o olhou, séria.
— O mundo está todo quebrado, Grissom. A gente só tenta não quebrar junto.
Ele se aproximou e a beijou na testa.
— Então deixa eu tentar colar os pedaços com você, mesmo que eu não saiba como.
Ela sorriu, finalmente deixando a cabeça recostar no ombro dele.
Lá fora, a cidade não parava. Mas ali, no silêncio da enfermaria, dois corações — marcados por anos de distância e encontros — finalmente batiam no mesmo compasso de novo.
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