Entre a Cena e o Silêncio
1 Entre Provas e Sentimentos
Notas iniciais
O calor de Las Vegas naquela tarde se misturava ao peso da tensão no ar. O local do crime, agora cercado por fitas amarelas e câmeras, era palco de uma reconstituição meticulosa. Sara Sidle estava concentrada em cada detalhe. Ela se inclinava sobre uma marca de pegada no chão de concreto enquanto explicava os possíveis movimentos da vítima momentos antes da queda. Ao lado dela, o agente Douglas se aproximava.
— Você acha que a vítima foi empurrada ou tropeçou? — perguntou ele, com o tom de voz mais baixo que o necessário.
— Ainda estou decidindo — respondeu Sara, sem olhar diretamente para ele.
Douglas sorriu. Ele admirava a forma como ela mergulhava nas cenas, meticulosa como sempre. Em um impulso, talvez mais teatral do que técnico, ele se posicionou atrás dela e, sem aviso, pousou suavemente as mãos na cintura da investigadora.
— Se eu fosse o suspeito e você estivesse aqui... talvez eu fizesse isso — disse ele, conduzindo-a levemente para simular um empurrão.
Sara, um pouco surpresa, soltou um riso breve, tentando manter o foco na reconstituição.
— Isso é pouco ortodoxo, agente Douglas... — disse ela, desviando-se sutilmente, mas sem frieza.
— Às vezes a dinâmica física fala mais do que mil palavras — respondeu ele, ainda sorrindo.
Foi nesse instante que a voz grave e inconfundível de Gil Grissom cortou o ambiente.
— De fato, mas há limites entre física forense e contato desnecessário.
Sara se virou com rapidez. Grissom estava parado a alguns metros de distância, braços cruzados, expressão neutra — ao menos à primeira vista. Mas Sara o conhecia bem demais para se deixar enganar. Seus olhos, ligeiramente estreitos, denunciavam um incômodo raro: ciúmes.
Douglas afastou-se com rapidez, pigarreando.
— Eu só estava... ajudando com a reconstituição.
— Claro — respondeu Grissom, seco, dando um passo à frente e parando ao lado de Sara. — Mas, da próxima vez, recomendo o uso de um boneco de testes.
Sara cruzou os braços, tentando esconder o sorriso que ameaçava surgir.
— Grissom... você veio cedo — disse ela, desviando o assunto.
— Não tão cedo quanto gostaria. — Ele olhou diretamente para Douglas, que entendeu a deixa e se retirou discretamente.
Silêncio por alguns segundos. Só se ouvia o zumbido de uma câmera funcionando em loop.
— Está tudo bem? — perguntou Sara.
— Deveria ser eu ajudando você com a reconstituição — disse ele enfim, com um suspiro. — Não gosto de ver ninguém tocando em você daquele jeito.
Ela arqueou uma sobrancelha.
— Grissom, foi só um procedimento. Ele não quis dizer nada.
— Eu sei. Mas você é minha exceção no mundo. E mesmo depois de todos esses anos, ainda me sinto territorial.
Sara sorriu, se aproximando.
— Não precisa ser. Você tem meu coração, Grissom. Sempre teve.
Ele a olhou com ternura, a tensão desaparecendo pouco a pouco. Seus dedos se entrelaçaram com os dela, discretamente, enquanto ao fundo os sons da equipe continuavam trabalhando, alheios àquele momento silencioso, mas cheio de significados.
No fim, entre provas e suspeitos, entre teorias e evidências, havia algo que nenhuma análise forense poderia quantificar: o amor resiliente entre dois cientistas que, mesmo diante de cadáveres e crimes, sempre encontravam uma forma de voltar um para o outro.
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