Entre a Cena e o Silêncio
13 Depois da Última Cena
Notas iniciais
O sol da manhã parecia mais suave naquela terça-feira. Como se até o deserto respeitasse o cansaço de quem passou a noite lutando contra a escuridão.
O laboratório criminal de Las Vegas estava mais calmo do que o habitual. No andar superior, Catherine revia relatórios enquanto Greg organizava os depoimentos para o Ministério Público. Leonid Kravitz estava sob custódia, e o caso, embora macabro, seria encerrado com provas sólidas.
Mas o que ninguém no laboratório conseguia mensurar... era o peso invisível que Sara carregava no peito.
Ela estava sentada sozinha no telhado do prédio, onde o vento passava mais frio e o som da cidade parecia distante. Vestia uma jaqueta de Grissom por cima da blusa, como se a proteção dele ainda estivesse ali, mesmo sem palavras.
Logo, ela ouviu os passos dele atrás de si. Não precisou olhar.
— Eu sabia que você viria — disse ela, sem virar o rosto.
— Sempre sei onde procurar você quando o silêncio começa a pesar — respondeu Grissom, sentando-se ao lado.
Ficaram assim por um tempo, só olhando o horizonte. Las Vegas abaixo seguia viva, barulhenta, cheia de luzes falsas e apostas cegas. Mas ali em cima, tudo era real.
— Eu pensei que ia morrer ontem — confessou ela. — Não por medo do que ele podia fazer. Mas por me sentir engolida por aquele mundo dele. Aquela arte doentia, cheia de dor e vaidade.
Grissom segurou sua mão, entrelaçando os dedos com os dela.
— Você nunca faria parte daquilo. Ele podia tentar te recriar, te moldar, te colocar numa vitrine. Mas nunca teria você. Porque você é feita de verdade. E ele só sabia imitar a vida... não vivê-la.
Ela o olhou, emocionada.
— Eu te vi ali, no canto do palco, com aquela arma engatilhada... e mesmo assim, seus olhos estavam só em mim. Como se dissesse que eu podia voltar a respirar.
— E podia — disse ele. — Porque você nunca esteve sozinha. E nunca mais vai estar.
NO LABORATÓRIO – MAIS TARDE
Catherine chamou os dois para a sala principal. Na mesa, dois envelopes com selos oficiais.
— As autoridades de Sacramento estão oferecendo uma vaga para você, Grissom — disse ela, entregando o primeiro envelope. — Consultor permanente para casos ambientais e biológicos em todo o estado. Salário alto. Mais liberdade. Menos perigo.
Ele olhou para o papel. Depois para Sara.
— E ela?
Catherine respirou fundo, entregando o segundo envelope.
— Uma oferta do Departamento de Ciências Forenses de São Francisco. Supervisão de laboratório. Projetos próprios. Nenhum campo de crime, se quiser. Só ciência. Inovação. Paz.
Sara passou os olhos pela proposta. O coração disparado.
— Parece... algo de outro mundo — murmurou.
Catherine sorriu.
— Talvez seja o mundo que vocês finalmente merecem.
NO APARTAMENTO – AO ANOITECER
Grissom preparava chá. Sara observava o envelope sobre a mesa. A cidade lá fora pulsava como sempre — mas, pela primeira vez, havia a opção de partir.
Ele colocou a caneca nas mãos dela e se sentou ao lado.
— Eu quero ir — disse ele, com calma. — Quero viver com você longe do sangue, dos cortes, dos corpos. Quero te ver acordar com tempo. Quero cafés da manhã sem relatório. Quero um jardim, uma casa de madeira. Quero sua risada no meio da tarde, não no fim de uma autópsia.
Sara olhou para ele. Os olhos já úmidos.
— Eu também quero. Mas tenho medo de deixar isso tudo pra trás. E de perder o que nos fez ser quem somos.
— Então não vamos deixar pra trás — disse ele, pegando suas mãos. — Vamos levar com a gente. Nossa história, nossas cicatrizes, tudo. Mas agora... vamos escrever o resto num lugar onde possamos respirar.
Ela o beijou. Um beijo doce, demorado. Depois encostou a testa na dele.
— Então vamos.
Grissom sorriu. Pela primeira vez em muito tempo, havia futuro nos olhos dele.
UMA SEMANA DEPOIS
O laboratório os despediria no fim da semana. A equipe preparava uma pequena confraternização. Mas naquela noite, os dois estavam de volta à colina onde viam a cidade acesa. O mesmo lugar onde tudo recomeçou.
Sara, deitada com a cabeça no peito dele, apontou para as luzes abaixo.
— Parece menor agora.
— Não é Vegas que encolheu — disse ele. — É você que cresceu. E eu cresci com você.
— Você acha que vamos nos acostumar com o silêncio?
— Eu espero que sim. Mas se não... — ele riu baixo — podemos criar nossos próprios casos. Roubo de cobertores. Desaparecimento misterioso de colheres. Atentado à ordem na prateleira de livros.
— E, claro, uma equipe de elite para resolver tudo isso — brincou ela.
— Sidle e Grissom. Investigadores do cotidiano.
Ela riu. E naquele riso... havia paz.
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