Aline estava sentada num dos cantos do quarto. Abraçava os joelhos, sem conseguir dormir. A escuridão a engolfava, e estar de olhos abertos ou fechados não fazia diferença. Podia estar até mesmo sonhando e não saberia. Estava terrivelmente tarde, mas a garota estava sem uma gota de sono sequer. Sua mente divaga, muito longe dali.

Ela queria fazer alguma coisa; queria correr para algum lugar, tentar encontrar as respostas que tanto procurava e não achava ali. Queria gritar, queria dar voz para as coisas sem nome que se prendiam no seu peito. Queria fugir dali e lutar, tentar resolver tudo de uma vez por todas. Queria sentir que estava realmente fazendo alguma coisa.

Mas no fim, tudo o que ela conseguia fazer era chorar. Aline se odiava um pouco por isso. Se odiava por ser tão fútil. Uma pessoa madura não se abateria assim. Uma artista de verdade continuaria seu trabalho sem ligar para a opinião dos outros.

Mas Aline não era madura e nem uma artista de verdade. Queria que vissem, que dissesse alguma coisa, qualquer coisa. Ela não aguentava o silêncio no qual era recebida. Não aguentava o vazio. Não aguentava esperar por uma resposta que nunca vinha.

Ela socou o chão. O golpe fez um som oco no chão de madeira, alto como um trovão no silêncio da noite. A dor subiu pelos dedos até o cotovelo, acompanhada por um formigamento. Aline chorou um pouco mais.

Tinha sido idiota, e agora estava pagando por isso. Três dias atrás, ela havia terminado um desenho. Tirou fotos e mandou para todos que conhecia. Três dias de silêncio.

Ela xingou baixinho.

Idiota, idiota.

O que havia dado de errado? Ela era chata? Seus desenhos eram idiotas? Ela era idiota?

Aline foi socar o chão mais uma vez, mas parou no último instante.

Idiota, idiota.

Ela queria entender. O problema só podia ser ela. O que mais poderia ser? Ou então o desenho. Talvez fosse tão ridículo que ninguém achou que fosse algo sério. Talvez não fosse bom o bastante para ser considerado arte.

Ela queria fazer alguma coisa, mas o quê? Cobrar os amigos? Acusá-los? Ela nem tinha mais tanta certeza se ser ignorada era motivo para culpar alguém. E se ela parece de desenhar, isso nunca mais aconteceria.

Aquele pensamento fez um frio percorrer sua espinha. O quarto de repente pareceu mais gelado, e o escuro, mais ameaçador. Parar de desenhar. Isso resolveria alguma coisa? Seria uma solução? Mas... Isso não era fugir?

Aline abraçou suas pernas com força e chorou. Queria abraçar outra pessoa, mas não conseguiu pensar em ninguém para isso. Talvez fosse até melhor. Não queria que a vissem assim.

Levou algum tempo para ela se acalmar. A frequência de seus pensamentos diminuiu, e ela começou a raciocinar melhor. Talvez deixar de desenhar fosse mesmo a melhor solução...

Ela soluçou baixinho, enfiando as unhas nas canelas.

O silêncio era pior do que qualquer crítica. Era nada, mas podia significar tudo. Como não levar para o lado pessoal? Como não achar que o problema é você quando ninguém responde? Como não achar que há algo de errado se não há resposta?

Ela gostaria de entender.

Aline tinha que repensar muita coisa, e uma madrugada apenas não era o bastante. Talvez nem todas as noites do mundo fossem tempo o bastante para ela entender o vazio que sentia.

Algo chamou sua atenção. Olhou com surpresa para dois pontos brilhantes que vinham do outro lado do quarto. Ela prendeu a respiração, assustada. Seu coração parou por um momento, batendo com mais força assim que ela percebeu que os pontos se aproximavam.

Quando estava prestes a gritar, os pontos pararam. Ao perceber do que se tratava, ela desistiu de gritar, mas não ficou menos tensa.

– ... Shi?

Os pontos moveram-se de novo, ficando numa posição mais alta. O gato havia se sentando. Aline encarou com perplexidade aquele par de olhos que parecia ver além dela. O verde parecia queimar como brasa no escuro, e ela se sentia tragada por eles, num misto de fascinação e encanto.

Uma vez, Aline havia lido em algum lugar que, quando se encara muito tempo o vazio, este o encarava de volta. E naquele momento, ela percebeu que era exatamente isso que acontecia.

Num piscar de olhos, Aline acordou deitada no chão, com Garfield entre seus braços e Anara entre suas pernas. Não se lembrava de mais nada que havia acontecido depois disso. Talvez não houvesse acontecido nada... Talvez fosse mesmo apenas um sonho. Talvez o encontro que teve com Shi nunca aconteceu de verdade.

Mas a dor que ela sentia ainda era bem real.

Ela olhou para o relógio no criado mudo. Estava quase na hora de ir para a escola.

Aline pensou no que poderia fazer. Nas possibilidades que tinha, no que poderia fazer, no que poderia mudar.

Ela não podia contar com os amigos para mostrar o que ela fazia. Tudo bem. Se tudo o que ela possuía agora era vazio, então ela faria do vazio sua nova casa, e seria nele que ela prosperaria.

Apatia era um veneno, e ela havia tomado um frasco inteira.

Se o mundo a ignorava, ela então ignoraria o mundo.