Entre Ternos e Glitter
3 O camarim e a água sagrada
Assim que passaram pela porta do camarim que a assistente abriu após uma leve batida, eu, por uma fração de segundo, pensei que finalmente teria cinco minutos de paz. Ingenuamente, achei que poderia descansar os ouvidos naquela sala com isolamento acústico antes de enfrentar o caos da multidão e o trânsito que me aguardava fora do anfiteatro.
Grande engano.
Assim que Lily e Jess viram a diva Isabella Swan se levantar da poltrona em frente à penteadeira para cumprimentá-las, o nível de decibéis subiu a um ponto que me fez temer por danos permanentes nos meus tímpanos.
Enquanto a cena de histeria adolescente explodia no centro da sala, entrei por último, fechando a porta para abafar o som do corredor. Soltei um suspiro longo e pesado. Minhas costas doíam por ter passado as últimas duas horas em pé. Olhei ao redor, vi uma poltrona de couro vazia num canto estratégico e não pensei duas vezes. Caminhei até lá e me joguei, esticando as pernas tensas sob o jeans escuro, com as duas bolsinhas infantis ainda presas aos meus ombros. Cruzei os braços, encostei a cabeça no estofado e fiquei apenas observando.
— MEU DEUS! — Lily cobriu a boca com as duas mãos, as lágrimas voltando instantaneamente. — É ELA! PAI, É ELA!
As duas meninas correram e a abraçaram chorando, falando freneticamente, atropelando as palavras. Do meu ponto de observação, analisei a situação. Foi a minha primeira vez assistindo a um show dela, e o contraste que se apresentou diante dos meus olhos era, no mínimo, intrigante.
A grande estrela não parecia a figura imponente, inalcançável e dominadora que havia incendiado o estádio. Sem a iluminação dramática, os telões e, aparentemente, sem os saltos altos, ela era uma mulher pequena. Três vezes menor do que a energia que emanava no palco.
— Vocês devem estar com sede com tanto choro — Isabella disse, soltando-se do abraço duplo.
A voz dela me pegou de surpresa. Era absurdamente baixa e suave. Um timbre quase aveludado, que não combinava em nada com a potência vocal explosiva que havia feito o chão vibrar minutos antes. Havia uma timidez inerente na forma como ela encolhia levemente os ombros, tentando acompanhar a enxurrada de frases estridentes das meninas com sorrisos gentis, mas contidos.
Ela caminhou até um frigobar de vidro no canto da sala.
— O que vocês querem beber? Tenho água, Gatorade, suco... eu não tenho refrigerante, me desculpem.
— A gente pode pegar a água da Isabella Swan? — Jess sussurrou para Lily.
Isabella ouviu e deu uma risadinha nervosa. Um som normal e quase acanhado.
— É só água, gente. Podem pegar.
Foi nesse momento que ela se virou e, finalmente, notou que havia um adulto na sala. Seu olhar varreu o ambiente até encontrar o canto escuro onde eu observava a cena. Ela travou por um segundo. Vi os ombros dela sob a seda fina do roupão enrijecerem.
Para uma mulher que acabara de comandar cinquenta mil pessoas, ela parecia subitamente acuada. E eu entendia perfeitamente. O camarim era o refúgio dela, e nós éramos invasores barulhentos no fim de uma noite exaustiva.
Ela olhou rapidamente para as meninas, pigarreou e perguntou, a voz soando vacilante e cautelosa:
— Você... está com elas?
— Ele é o meu pai! — Lily respondeu, poupando-me das apresentações. — Dr. Edward Cullen. Foi ele que trouxe a gente.
Os olhos dela — que, de perto, notei serem de um castanho muito expressivo por trás das lentes azuis artificiais — desceram para o meu peito e depois voltaram para o meu rosto. Ela apertou os lábios, parecendo tentar reunir sua compostura de "anfitriã" para lidar com o intruso.
Ela pegou mais uma garrafa do frigobar, fechou a porta com o quadril e deu alguns passos hesitantes na minha direção, estendendo a mão.
— Aceita uma água, Dr. Cullen? — ela ofereceu, mantendo uma distância polida. — Fique à vontade. Parece que você teve uma noite longa.
— Obrigado — respondi, pegando a garrafa.
Isabella recuou rapidamente, como se minha proximidade a deixasse desconfortável, e sentou-se no sofá entre as duas garotas. Imediatamente, elas começaram a falar de novo, exigindo fotos e vídeos.
Eu assistia a tudo do meu "trono" improvisado. Eu esperava excentricidade de uma celebridade. Mas ali estava ela, descalça, de roupão, servindo uvas para a minha filha. E ela era inegavelmente tímida. Ela sorria para a câmera do celular de Jess, mas suas mãos brincavam nervosamente com o cinto do roupão sempre que as lentes não estavam apontadas para o rosto dela. A mulher confiante do palco era, claramente, uma personagem meticulosamente construída.
Em um momento de pausa, Isabella lançou um olhar furtivo na minha direção. Deduzi, com minha mente calejada, que ela estava se sentindo sobrecarregada pelas meninas e procurava no único outro adulto da sala algum tipo de socorro ou limite.
— O... hum... seu pai... — ela começou, apontando o queixo levemente para mim, mas falando com Lily. — Ele quer alguma coisa? O show é longo, ficar em pé cansa.
Descruzei os braços.
— Estou bem, obrigado — minha voz soou grave, e vi quando ela piscou mais rápido, surpresa pelo som. — Só recuperando o fôlego. Minhas costas não são mais as mesmas de dez anos atrás.
Isabella deu um meio sorriso educado e desviou o olhar para as próprias mãos.
— Tem cadeiras mais confortáveis se quiser. Ou... café. A Angela consegue café.
— Estou ótimo aqui — garanti, tentando usar um tom brando para não intimidá-la mais. — Você é muito gentil com elas. Obrigado por isso. A Lily fala de você o dia todo, é um alívio constatar que o ídolo dela é paciente.
O elogio prático pareceu desestabilizá-la. Uma coloração rosada subiu rapidamente pelo pescoço dela.
— Ah, imagina. Elas são uns amores. — Ela virou de costas rápido, fingindo arrumar algo na mesa. Achei fascinante. Ela recebia aplausos de estádios inteiros, mas se encolhia diante de um agradecimento trivial de um pai cansado.
Minhas reflexões analíticas foram interrompidas por Lily.
— Pai! Vem tirar uma com a gente! A gente precisa de uma foto de família... tipo, eu, você e a Bella!
Soltei um suspiro contido, balançando a cabeça negativamente.
— Ah, não, querida. Eu sou só o motorista hoje. Não quero estragar o registro de vocês.
— Pai, deixa de ser chato! — Lily insistiu, atravessando a sala e me puxando pelo braço. — Vem logo!
Olhei para Isabella, oferecendo um olhar de desculpas por estar estendendo aquela tortura social para ela.
— Você se importa? — perguntei. — Elas não vão desistir até eu ceder.
Vi a garganta dela trabalhar quando engoliu em seco, claramente relutante.
— N-não. Claro que não. Imagina. — Ela forçou um sorriso de relações públicas. — Cabe todo mundo.
Caminhei até elas. Parei ao lado de Isabella. Estávamos perto o suficiente para eu notar a respiração irregular dela, o que só confirmou minha teoria de que ela odiava multidões em seu camarim.
— Com licença — murmurei em um tom de voz baixo, apenas por educação.
Para caber no enquadramento da *selfie*, precisei me inclinar. Sem saber onde colocar a mão, pousei-a espalmada nas costas dela, logo acima da cintura.
Senti a musculatura dela enrijecer instantaneamente, como uma corda tensionada sob a seda fina. Um sinal claro de desconforto com o toque de um estranho. Tentei deixar minha mão o mais leve possível, sentindo-me um completo inconveniente.
Assim que o flash disparou, retirei minha mão e dei um passo rápido para trás.
— Obrigado — eu disse, afastando-me para dar espaço a ela.
Enquanto as meninas voltavam a gravar áudios, percebi que meu estômago roncava absurdamente. Caminhei até a mesa de *catering* no canto oposto.
— Esses sanduíches são livres mesmo? — perguntei, quebrando o silêncio constrangedor que se formara entre nós os adultos.
Ela pareceu despertar de um transe.
— S-são! São de... acho que peito de peru e queijo brie. Ninguém nunca come, pode pegar.
Peguei um dos triângulos e comi com calma. Continuei notando, pelo canto do olho, que a atenção dela vacilava das meninas para mim. Ela me espiava de forma ansiosa. Na minha lógica, era evidente: eu era o estranho devorando os lanches da equipe dela, enquanto minhas filhas tomavam conta do sofá dela. Ela estava apenas esperando o momento em que eu finalmente as levaria embora.
— O sanduíche está bom? — ela perguntou de repente.
Limpei o canto da boca com um guardanapo, oferecendo um sorriso apaziguador para tentar diminuir a ansiedade dela.
— Surpreendentemente bom. Definitivamente melhor do que a comida da lanchonete do tribunal. Obrigado pelo jantar.
Duas batidas secas na porta interromperam o momento. O segurança colocou a cabeça para dentro — o sinal de que finalmente estávamos sendo expulsos. Graças a Deus.
— Vamos, meninas. A carruagem vai virar abóbora e o trânsito nos aguarda — avisei, colocando a mão no ombro de Lily. — Já tomamos muito do tempo da Srta. Swan. Deixem a moça descansar.
— Esperem! — Isabella disse repentinamente, correndo até uma pilha de sacolas pretas. — Vocês não podem sair de mãos vazias.
Ela entregou uma sacola para Jess, e depois outra para Lily. Num movimento sutil, vi quando ela deslizou um pequeno envelope para o fundo da sacola de Lily.
— Para você — Isabella disse à minha filha. E então, num lapso surpreendente de memória, seus olhos castanhos encontraram os meus enquanto eu abria a porta. — ...confere tudo com carinho quando chegar no carro, tá? Tem coisa frágil aí. Tchau... Edward.
Parei. Como ela lembrava do meu nome no meio daquele caos era um mistério.
Acenei com a cabeça, mantendo a formalidade que a situação exigia.
— Tchau, Isabella. Obrigado pela paciência inesgotável com as crianças. E, novamente, pelo sanduíche.
Fechei a porta atrás de nós. O corredor silencioso foi um alívio bem-vindo, mas a imagem daquela mulher minúscula, de voz mansa e olhar arredio, escondida sob quilos de lantejoulas e fama, ainda ecoava estranhamente na minha mente metodicamente organizada.
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